Spring NY
20 A world in white gets underway
Notas iniciais
A world in white gets underway
O jogo jurídico que orquestrava não era curto ou simples: era do tipo ambicioso e acurado. Importante salientar que no vocabular ostensivo de plena juventude de Anna, era igualmente caracterizado como algo De Foder – a simplória gíria fez Elsa franzir a testa em uma careta descrente e conservadora, enquanto Esmeralda riu contra a própria mão.
Não era para menos.
Já faziam dois anos desde o suposto fim da grande Crise das Pontocom. A Komplett, contudo, não tinha se recuperado como o planejado naquele ano de 2001. O sistema financeiro continuava caminhando para frente e, loucuras à parte, não poderia ser diferente. Elsa conhecia o corporativismo também, havia crescido naquele meio. Sabia sobre quais máscaras jurídicas problemas podiam surgir – para bem ou para o mal. Naquele dia específico, ela sorriu ao tempo que Esmeralda se fez perspicaz demais. O advogado consultado apenas para desencargo de consciência acenou sobre uma escolha de poucos sócios sobre a emissão de novas ações.
A Komplett como uma empresa de capital aberto podia fazer isso conforme o decidido pelos sócios majoritários. Ali morava o pulo do gato. Hans não teria meios ou recursos para adquirir novas ações e em meio ao sufoco, se veria obrigado a vender o próprio direito de subscrição – o de comprar ações por um valor abaixo do mercado. Dentro de uma semana sua participação e relevância como sócio dentro da Komplett seria quase que insignificante, seriam diluídas na sociedade e aquilo trouxe um prazer inigualável para o ego de Elsa Arendell que sorriu quando assinou a autorização.
Depois dias depois da assinatura, encontrou com Hans nas instalações da empresa. Seu mesmo terno engomado era branco e feria os olhos de qualquer um que ousasse coloca-lo contra o sol ou uma luz artificial florescente. Ele era mesmo britânico, foi tudo que Elsa conseguiu pensar ao observar o homem de trinta e três anos de longe. Tinha algo de diferente nele, provavelmente a postura ou um único fio de cabelo fora do lugar, mas ela optou não por permanecer para descobrir. Roteirizou um caminho qualquer entre as mesas de trabalho que evitasse Hans Thomas.
Não bastou. Ele parecia ter alguma espécie de radar embutido em toda aquela vigarice. Quando se aproximou, Elsa se conteve para não revirar os olhos ou soltar um bufo – era uma clara atitude infantil segundo Agnaar.
Tinha mesmo algo de diferente, a mulher sabia, apesar de nada na aparência do homem dar a entender que sim: a base de tom claro continuava ocultando as sardas, assim como o mesmo perfume caro e nauseante estragando o dia e o apetite de Elsa. O mesmo relógio dourado. Os mesmos sapatos polidos. Talvez fosse um brilho diferente nos olhos ou as maçãs do rosto estranhamente avermelhadas; talvez fosse um tique. Hans parecia nervoso e Elsa então entendeu o que tinha de tão diferente: lhe faltava o sorriso arrogante.
“Podemos conversar?” ele usou um baixo tom de voz, quase como um rosnado nascido e criado no fundo da garganta.
“Claro, seja rápido, estou com pressa” respondeu simplória antes de cruzar os braços. Elsa sabia jogar, só não sabia estar preparada para qualquer espécie de escândalo ou golpe sujo que sabia que Hans poderia usar. Não se sentia necessariamente pronta para estar ali novamente, para encarar situações estressantes como aquela novamente.
Mas lá estava e ela pretendia sair vitoriosa.
“Na sua sala?” questionou dando um passo para trás, oferecendo espaço para a mulher passar em sua frente. Elsa rapidamente se questionou se seria uma boa ideia. Se ficar a sós com Hans pelo menos evitaria uma briga pública e murmurinhos tardios. Tinha a memória boa, porém, e sabia que Hans não só jogava com as palavras. Sabia que ele podia usar de outros artifícios e então resolveu ficar.
“Não tenho tempo para isso, Thomas”.
Ele inspirou lentamente antes de aspirar o ar de forma ruidosa. Olhou por sobre o próprio ombro e também o de Elsa, certamente se certificando se teria alguém escutando.
“Você enlouqueceu, Elsa? Você sabia que eu não conseguiria comprar as novas ações, o que porra tinha em mente para assinar aquele documento?”.
Elsa quis sorrir, mas manteve-se neutra, enquanto ele continuou.
“Sabe muito bem o que eu posso fazer com teu maldito nome, não é? Que o CEO de qualquer empresa é uma figura pública, que é o rosto da empresa, que nenhum acionista ou funcionário aceitaria o que quer que você tenha com aquela vadia. Sabe que seu pai concordaria comigo e que ele não se recusaria a me oferecer dinheiro para comprar de volta as ações que perdi nessa tua brincadeirinha de criança, não é? Principalmente se ele te julgar inapta para o cargo, o que consideremos, todo mundo já percebeu”.
E ela quis responder, Deus sabe o quanto. Elsa, porém, tinha aprendido, depois de muito apanhar, que para lidar com gente tipo Hans, devia-se jogar em outro nível. De outro patamar, e exatamente por isso ela manteve-se passiva. Quieta. Sabia sim que Agnaar ainda tinha influência e dinheiro suficiente para ajudar Hans e família. Sabia. Só torcia que não precisasse conhecer essa feição do próprio pai, e que todos os documentos para a última fase do processo estivessem encaminhados já.
“Não vai dizer nada?” ele piscou, parecendo ainda mais nervoso. Mais uma vez a mulher sorriu internamente, descobrindo um novo prazer em ver Hans angustiado. Era como ignorar uma criança que praticava bullying na escola perder a pose de presunção.
“Se era isso que tinha a me dizer, peço licenças, tenho outros problemas para tratar” Elsa respondeu, contornando a figura imóvel do homem e o deixando para trás.
Aquilo era uma vitória – em diferentes instâncias.
Quando alcançou a própria sala, acenou para Esmeralda, que absorta nos próprios papéis não a viu. Elsa sorriu, pensando no quão a melhor amiga vinha sendo importante em todo aquele maldito processo que tinha se tornado sua vida. Pensou em contar sobre Hans, mas decidiu que deixaria para outro momento. Entrou na própria sala e sentou. Tinha a boca seca, mas não bebeu água. Resolveu ligar para Anna, acatando um vulgar desejo de escutar a voz da namorada. O telefone tocou três vezes até a garota atender num sonoro e preocupado ‘está tudo bem, Els?’. Ah sim, Elsa não era do tipo que ligava.
Ela riu, parecendo leve, antes de olhar para o relógio. Eram quase 16h p.m.
“Está sim, liguei pra saber como está sua boca” era isso e nada mais. Nada elaborado. Ela só queria ouvir a voz de Anna. Apoiou o celular entre a orelha e ombro, esperando a resposta que demorou vir. Suas mãos tremiam de forma breve e ela sabia advir da ansiedade e da fúria que tinha reprimido dentro de si minutos antes.
“Ah, está melhor, não se preocupe!” Anna respondeu do outro lado da linha com o que pareceu um suspirou de alívio depois de muito segurar a respiração “quer dizer, todo mundo nos avisa sobre doenças sexualmente transmissíveis quando resolvemos dormir com alguém, mas nunca sobre as chances da pessoa se mexer feito criança enquanto dorme e... possíveis ferimentos. Devia vir no manual de instruções também”.
“Devia, devia mesmo” Elsa riu, sentindo uma pontada de culpa manchar seu peito. Amava dormir abraçada à namorada; amava mais ainda acordar assim, mas não podia negar que controlar seus pesadelos eram de longe uma atividade fácil “vamos ligar no SAC e reclamar quando eu chegar em casa. O que acha?”.
“Me sentiria grata” a garota riu, mas pausou alguns instantes “espera, isso seria sua mãe? Porque assim, há várias pessoas nessa vida com quem eu gostaria de reclamar sobre várias coisas, mas sua mãe certamente não seria uma delas. E sabe, ainda tem o fator de que ela... bom, na verdade, pareceu ruim. Desculpa Els, eu não quis parecer ofensiva ou invasiva ou qualquer coisa do tipo e eu... não quero mais entrar em contato com o SAC”.
Elsa piscou um par de vezes, puxando o celular do improviso orelha-ombro.
“Tudo bem, Anna?”.
“Está sim” ela riu de forma que Elsa não soube identificar “olha, meu antigo vício adolescente chamado U2 voltou à tona hoje e eu tenho muito uma música que queria te mostrar. E eu super podia te esperar chegar em casa e me chamar pro seu apartamento, mas já que você me ligou, vou te mostrar. Segura aí” Anna aspirou antes de provavelmente jogar o celular em cima da cama ou do sofá e voltar quase dois minutos mais tarde “me avise se estiver muito alto Els. Quer dizer, se você viveu no mesmo mundo que eu na década de oitenta, provavelmente conhece, mas... enfim, acho que diz muito sobre essa nova etapa da sua vida e sobre nós”.
Elsa não reconheceu a princípio, mas o sentimento não perdurou tanto. Conhecia a melodia, e talvez um pouco da letra contida no pós-punk.
Aquilo era raro de verdade, mas ela apreciou a música.
— All is quiet on New Year’s Day, a world in white gets underway.
Tudo está tranquilo no dia de ano novo, um mundo em branco inicia.
— I want to be with you, be with you night and day.
Eu quero estar com você, estar com você noite e dia.
— Nothing changes on New Year’s Day.
Nada muda no dia de ano novo.
Lá pela metade da música, Anna pareceu cansar e então abaixou o volume. Elsa tinha dentro de si algum sentimento que há muito não encontrava. Estava feliz, e era genuíno, pequeno, simples. A garota ruiva tinha aquela capacidade de fazer Elsa encontrar com sentimentos há muito guardados de maneiras para lá de peculiares – afinal, quem escutava música por meio de uma chamada telefônica?
“Ei Els, tenho que ir agora, terminar umas coisas” Anna disse com sua voz eletrônica, e Elsa fechou os olhos, apenas desejando que não houvesse tal interferência. Concordou e anotou mentalmente sobre precisar melhor isso nos próprios aparelhos.
“Certo, vou te liberar, Anna” Elsa riu “até mais tarde”.
As próximas duas horas passaram rápidas, mas Elsa só descobriu que excedido o expediente padrão quando Esmeralda bateu à porta e pediu licença para entrar e lhe entregar papeladas que ela já tinha revisado e lido. Parecia cansada. Resmungou qualquer coisa sobre a máquina de café estar com falta de sachês de chá, quando se sentou.
O silêncio durou pouco – mas ambas sabiam que duraria pouco.
“Sabe que não acabamos ainda, não é?” Elsa fechou os olhos repreendendo um bocejo que ameaçava romper. Descansou as costas contra a cadeira de couro “você está pronta para assumir a presidência, Esmeralda?”.
A mulher de olhos verdes sorriu, mas não esboçou felicidade. Sabia que aquela proposta chegaria cedo ou tarde. Elsa nunca tinha sido do tipo boa em disfarçar futuras intenções, e não havia sido diferente daquela vez. Sabia das intenções da mulher, que não era só sua chefe, mas também melhor amiga. Sabia que ela buscava um tempo, que ela precisava descansar, e que férias não lhe bastariam. Apreciava a confiança que Elsa estava depositando em si, mas não sabia se estava mesmo disposta a doar-se assim, em tamanhas proporções. Na verdade, Esmeralda, não sabia o que sentir e isso a deixava ligeiramente confusa. Eram novos campos em sua própria vida pessoal e profissional.
“Você tem certeza que precisa ser assim?” ela questionou, suave.
“Penso nisso desde antes” respondeu “quer dizer, você é formada, tem experiência, minha confiança e tudo que a empresa precisa. Você já atuou diversas vezes em cargos muito além do salário de secretária executiva que ganha. Inclusive num cargo estranhíssimo de bater à minha porta às duas da manhã com minha atual namorada do lado. Difícil não confiar em você. Eu pretendo doar ações suficientes para você se tornar a nova CEO da Komplett. Eu continuo aqui, mas afastada, num cargo menor. Você sabe que merece e que é capaz, Esmeralda” Elsa sorria com os olhos, parecendo totalmente satisfeita com a própria ideia de abdicar do cargo dos sonhos de qualquer pessoa do ramo.
“Eu... não sei se deveria aceitar, na verdade. Também não sei se almejo tamanho responsabilidade na minha vida, nesse momento”.
“Não precisa responder agora” a mulher loira interrompeu e se levantou, ajustando a gola da social listrada que usava, “mas ‘Agnes Esmeralda Calon’ é um belo nome para compor essa placa dourada da porta”.
E era mesmo.
11 de dezembro de 2020
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