Spring NY
10 Oh, no, I never meant to do you harm
Oh, no, I never meant to do you harm
O elevador deu outro solavanco.
Não tão constante, o pique de energia era acobertado pelo gerador sem vistoria do prédio. A grandiosa caixa de metal continuou subindo lentamente. Os números eletrônicos estavam ausentes do visor negro, impossibilitando a identificação do andar presente. Um ruído constante do cabo de aço raspando. Sem música ambiente. O espelho manchado de digitais.
Dia agitado.
Os horários de funcionamento de prédios comerciais e lojas eram questionáveis: não funcionavam em fins de semana, quando de fato as pessoas tinham tempo de resolver suas pendências; alguns abriam às 11h para fechar pouco antes das 16h. Deve-se pensar claro, que todos merecem uma folga e que, se tais funcionassem em fins de semana, os mesmos funcionários continuariam trabalhando de forma exaustiva. As empresas tinham que considerar custos de novos cargos. Sabia disso. Não deixava de ser uma crítica ao sistema de qualquer forma.
O meio-dia de sexta-feira, porém, parecia infernal. Uma serpentina de fila rodeava a entrada da agência bancária. Alguns usavam a grossa pasta de documentos para assinar cheques. Rotina cotidiana de secretárias, secretários e estagiários.
Mas não de Elsa.
Enquanto na fila, sentia uma ruga se manifestar em sua testa. Franzia o cenho com o sol forte que lhe batia o rosto pálido, com olheiras. Contando no relógio, viu quase um par de horas passarem até alcançar um caixa eletrônico e o ar-condicionado da ampla sala de paredes cor creme. Não pôde deixar de reparar, contudo, na rotina de todos ali. Pareciam exaustos, respondendo o bip ou atendendo o celular e encerrando ligações com ‘sim senhor, levarei’ ou ‘é claro senhora’. Elsa sentiu-se um pouco mal e perdeu momentos do dia pensando se tratava Esmeralda como capacho. Deveria se policiar sobre tal assunto.
Talvez realizar o deposito por si só, uma vez na vida, não tivesse sido uma má escolha.
O som do metal se arrastando contra a borracha a fez despertar e visualizar a porta de mogno seu apartamento.
Do outro lado dessa parede está minha cama... Que saudades.
Ela se manteve na mesma posição, porém. Buscava de forma inconsciente um pouco de razão no seu próprio furacão num copo d’água. A porta automatizada do elevador ameaçou se fechar novamente, o que fez seu corpo se movimentar sozinho, a travando com a palma da mão. Arrumou a pasta de couro debaixo do braço e segurou mais firme a garrafa de Blue Label.
Dezesseis dias.
Sentia sua enxaqueca ameaçar seu bem estar aos pouquinhos. A forte pressão nas têmporas e a pulsação atrás de seus olhos a fizeram se jogar no sofá quase que de imediato. Desabotoou a camisa e arremessou o salto alto longe. As luzes mantinham-se apagadas e Elsa agradeceu aos céus por morar sozinha. Mesmo o latido de um cachorro lhe parecia fatal em um momento desses.
Abriu a custosa garrafa com o selo Johnnie Walker e tomou um curto gole, direto do gargalo. O tom defumado e aveludado revelava o tanto de tempo que ele havia ficado no barril de madeira. Elsa conseguiu identificar o gosto das laranjas, do gengibre e das pimentas e frutas secas. Não buscou olhar o rótulo para comprovar. A bebida desceu e atingiu direto o estomago de quem ainda não havia almoçado ou jantado.
Era uma mensagem errada, porém.
Elsa sabia o quão forte deveria ser. Estava se acabando e afundando cada vez mais porque havia magoado uma amiga, uma possível namorada, uma universitária que ainda não sabia a quão amarga a vida poderia ser. Era infantil e fraco da sua parte se afundar no trabalho e beber Whisky como se não houvesse um amanhã.
Às vezes desejava que não houvesse, de fato.
Enquanto com Anna, se sentia tão forte e independente. O que acontecia? Só a mudança parecia permanente. O nó em seus rígidos ombros pareceu se agravar quando visualizou a garota ruiva lhe dar as costas. Dezesseis dias e contando. Anna não havia entrado em contato e nem lhe visitado. A loira sabia que não era obrigação da garota correr atrás de um erro de outrem e isso lhe pareceu doer mais ainda: em que momento seu pecado capital havia passado a ser a soberba?
Mais um gole. Precisava de gelo. O apartamento estava quente.
Gemeu de dor.
Seus ombros doíam de estresse. Sua cabeça latejava. Seus calcanhares e sola do pé não estavam acostumados a tanto tempo em pé. Seu coração se apertava um pouquinho mais a cada minuto. Quanto tempo levaria para recorrer da situação? Ficaria ali se martirizando, em um eterno círculo vicioso até quando?
Quando se anda em círculos, nunca se é bastante rápido.
Caminhou vagamente até a cozinha, como um espírito errante. Na porta do micro-ondas constatou a face da derrota. Seu rosto estava vermelho de sol, assim como seus olhos de sono.
Não conseguia dormir.
Aspirou todo o ar que seus pulmões conseguiram e soltou lentamente.
Acho que estou exagerando. É só mandar uma mensagem pedindo desculpas. Não deve ser tão difícil ser sincera com ela... Sempre foi tão paciente e... Simpática. Um ciclone atravessou as nossas vidas Anna. Como concertar os buracos que ele deixou nas paredes?
A loira balançou o gelo dentro do copo, vendo-o deslizar no líquido vermelho. A iluminação do lado de fora era baixa o suficiente para Elsa não se enxergar no vidro da janela. Isso a deixou contente. Observou o quão distante estava do chão.
Ou de tudo.
O toque do celular tomou conta do ambiente silencioso. A loira se demorou bastante em caminhar até a entrada para pegar o aparelho. Era seu pai, ligando provavelmente para lhe perguntar o motivo de ter faltado o trabalho e se Elsa realmente não via que precisava de uma ajuda para administrar a própria vida.
Péssimo momento.
Ignorou a ligação. Haviam três mensagens não lidas.
— O número da conta do empresário da WS está na sua sala? Preciso passar para o setor financeiro.
recebida,13h15.
— Vou considerar que você foi pra casa mais cedo. Espero que melhore. Qualquer coisa me ligue.
recebida,14h52.
— Menos para pedir cafeína. Você precisa dormir.
recebida,14h54.
Sorriu ao lembrar-se de Esmeralda. Não queria cair no abismo de pensar do por que ser tratada assim pela mulher. Eram amigas ou uma relação estritamente profissional, onde a contratada estava preocupada com seu cargo, uma vez que sua chefe podia colocar todos os funcionários no olho da rua? Difícil. Melhor cuidar da sua saúde mental mesmo.
Duas batidas na porta a fizeram saltar, quase derrubando seu copo. Sua garganta de repente ficou seca e seu peito bateu mais forte.
Será? Oh meu Deus, estou parecendo uma noiva que foi deixada no altar. Preciso limpar minha maquiagem e-
Novamente bateram. Elsa abotoou novamente a camisa e desfez a trança loira. Caminhou até a porta de forma leve, endireitando sua postura. Seu sorriso logo se transformou em uma cara amarga que ela teve dificuldade em esconder. Seu pulso acelerou, seu punho se fechou. Se não pela iluminação, outros a alertariam do quão dilatadas suas pupilas estavam.
“Elsa!” Hans sorriu, abrindo os braços para recebê-la. Seu pai entrou no apartamento, acompanhado por dois homens de terno.
Elsa resetou.
Seu corpo recoou e estava pronto para o combate. As unhas contra a palma da mão lhe davam a sensação da realidade paralela em que se encontrava. Uma pegadinha de mau gosto do destino.
De novo e de novo e de novo.
Mantenha calma.
Sentiu Hans lhe abraçando. Suas grossas e grandes mãos segurando seu quadril e as costeletas arranhando seu rosto. O hálito de tabaco. Algo lhe dizia que aquilo nunca ia acabar. Que aos noventa e oito anos Hans seria seu vizinho insuportável, dizendo ‘devia ter ficado comigo quando éramos jovens e bonitos’.
“Passei em seu escritório e aquela latina bonita me disse que havia saído antes do almoço” Agnarr sorriu. Um dos homens que o acompanhava concordou “Como tem passado, minha filha? Parece péssima”.
“Falta de companhia nesse apartamento” Hans comentou, levantando as sobrancelhas enquanto segurava a garrafa de Whisky em cima da mesa.
“Não vamos nos alongar” Agnarr afirmou de forma descontraída “Estes são Marco e Pablo. Representantes da empresa no México e naqueles outros países... Colômbia, certo? Hã...” Ambos riram, como se fosse uma ótima piada a falta de conhecimento geográfico “Temos que discutir sobre o novo aparelho que iremos lançar no fim do mês, assim como a queda no lucro das fábricas latinas. Tem algo de errado. Ou o Estado está tirando muito de nós, ou o país cresceu e está empregando aqueles pobres coitados”.
Todos os quatro riram.
“O marketing está indo muito bem” Marco parecia orgulhoso.
Aguente firme.
Os ombros da mulher loira estavam jogados para frente, tensos. Sua clavícula exposta demais. Segurou firme a corrente dourada em seu pescoço e a escondeu dentro da camisa. Apertou firme sua mandíbula, pensando o que dizer. Cuidou para não deixar outros ouviram seu ranger de dentes.
“Lamento senhores, mas hoje terão que discutir isso sem mim. Estou com minha enxaqueca atacada. Estava me preparando para dormir”.
“Ah, estava...” Hans sorriu com o canto da boca.
“Lamento, mas...” Elsa abaixou a cabeça. Constatou que poderia desmaiar a qualquer momento. Sua nuca doía como nunca antes “Precisam ir embora”.
Agnarr Arendell a encarou por momentos a fio, como se não estivesse acreditando em tamanha ousadia por parte da mulher mais jovem.
“Minha vida é muito mais além que aquela empresa maldita” Elsa sussurrou alto o suficiente para todos na sala escutarem de forma clara “Agora, se me permitem, preciso descansar”.
“O que sua mãe pensaria de você, Elsa? Ela trabalhou tanto para você estar onde está hoje” Agnarr usou o melhor tom de desprezo que encontrou preso no fundo da garganta. Um tom de voz repressivo, negatório. O mesmo que usava quando Elsa tirava menos de 9,0 na média escolar.
Elsa apontou a porta para os quatro homens. A dor parecia aumentar conforme os segundos. Uma ânsia de vômito tomou conta da mulher. Escutou alguém resmungar algo e logo em seguida caminhar até a porta. Quando todos haviam se retirado, a loira girou ambas as trancas de aço. Encostou-se junto a porta e deslizou até o chão.
Tudo é um exagero, pare com isso Elsa! Pare com isso, se contenha! Aguente firme! Há pessoas em situações cem vezes piores!
Banalize isso.
A mulher levantou, se sentindo fraca, emocionalmente e fisicamente.
É exagero.
Exagero.
Exagero.
Ninguém fica assim porque terminou um namoro que nem havia começado. Isso é totalmente ridículo!
No fundo sabia que o motivo não era Anna. Sabia que estava infeliz há alguns anos já. Que não se cuidava, não tinha amigos, não tinha prazeres. No fundo sabia que Anna havia sido só um gatilho.
Mas só no fundo.
Finalmente alcançou o banheiro e conseguiu se sentar junto ao vaso sanitário, vomitando o gosmento líquido do seu estomago vazio por 24h. A bebida com pouco mais de 45% de teor alcoólico tinha sido uma péssima ideia de jantar. Estava em dúvida na verdade, se o que lhe havia causado tal mal estar era o whisky ou a colônia de Hans.
Não parecia ter alcançado o fundo do poço ainda.
Recomponha-se, Elsa! Você é mais forte que isso.
A mulher começou a se despir. Tirou a fina corrente banhada a ouro com um simples pingente em formato de cruz. O que sua mãe pensaria de si? Era uma boa pergunta. Apertou forte o colar entre os dedos antes de coloca-lo dentro do armário.
Ligou o chuveiro no quente. A água talvez lavasse seu corpo de toda a culpa que não sabia de onde havia vindo. Sentia o nó dos seus músculos se desfazendo de forma gradativa. O cheiro de hortelã e a névoa branca tomando conta do pequeno cômodo. Escovou de forma compulsiva seus dentes.
Você só está vivendo a crise dos vinte e... Tantos.
Enrolou-se no roupão vermelho-vinho antes de sair do banheiro aquecido. Com os cabelos ainda molhados e pingando, Elsa deitou na extensa cama, que lhe pareceu o paraíso. Fechou os olhos devagar.
Quando seus olhos azuis encararam a escuridão do quarto novamente, sua cabeça doía um pouco menos, mas quase sete horas haviam corrido e avançado o ponteiro. Levantou um pouco zonza. O roupão grosso amarrotado. O piso frio sob seus pés lhe dava a sensação de que não mais estava vivendo uma espécie de cópia de si própria. Caminhou até a sala e pegou seu telefone. Nenhuma outra chamada ou ligação de seu pai ou Hans.
Seu olhar recaiu na garrafa, quase cheia.
Sentou novamente no sofá, o celular rodando na palma da mão. O controle da TV estava em cima da mesinha de centro. Ligou.
Claro, na MTV. Oh, Anna.
A sala de teto alto, uma vez totalmente escura, foi tomada pela imagem clara da televisão. O branco pulava a tela, com um pequeno pássaro gordo, de penas negras e barriga vermelha voando a tela. O som das pequenas teclas de um piano tomando conta do coração angustiado. Estava compreendo aos poucos o porquê das pessoas serem amantes da música.
— So I turn to run, and thought of all the stupid things I'd done.
Então eu comecei a correr e a lembrança de todas as coisas estúpidas que fiz.
— And I never meant to cause you trouble, i never meant to do you wrong.
Não pretendia lhe causar problemas, não pretendia magoá-la.
— And, ah, well, if I ever caused you trouble, oh, no I never meant to do you harm.
E se eu alguma vez lhe causei problemas, oh, não, eu nunca pretendi te fazer mal.
Novamente se via pedindo desculpas à Anna por algo. Era só pra isso que prestava? Para magoar qualquer um que se aproximasse? Escorreu o celular e apertou o botão central. Buscou o número da garota ruiva na caixa de entrada. Selecionou. Tomou fôlego e começou a digitar.
Você não vai se sentir culpada, Anna. Você não deve. Não precisa de alguém como eu em sua vida. Não precisa de mais problemas do que você já tem. Do drama de alguém como eu. Você é forte demais para eu acabar de trazendo pra esse poço sem fundo. Vai dar tudo certo.
Digitou devagar, escorregando o dedo por cada tecla. Não pensava exatamente no que estava escrevendo. Estava concentrada no tom de voz doce do vocalista.
— Demorei entrar em contato, Anna. Lamento.
enviada, 03h54.
— Mas estive pensando e não vou mentir: não vou roubar teu tempo. Já roubei demais. Você é brilhante demais para ficar ao lado de alguém feito eu.
enviada, 03h55.
Brilhante demais... Vou apagar esse teu brilho mesmo que não queira. O nome da família Arendell deve carregar algo em sua essência. Meus pais devem ter sido felizes por um período tão curto de tempo quanto o nosso, Anna. Dois jovens bobos que acreditam que o mundo tem mais a oferecer do que de fato tem. Acho que... Não precisa ser necessariamente assim. Você vai se formar, vai expor suas peças e quadros por Nova York e Paris, se quiser. Ou simplesmente vai deixá-los na sala de graduação da sua faculdade. Tanta coisa pra viver ainda.
Elsa riu amarga. Sentia-se com setenta e dois anos.
O aparelho eletrônico vibrou e ela sentiu seus olhos arderem. Mastigou o interior da própria bochecha antes de correr os olhos nas letras eletrônicas. Sua boca seca.
— espera aí! nem vem com essa história, eu nem quero ouvir.
recebida, 03h55.
— não dá pra te esquecer agora... como assim?
recebida, 03h55.
Sempre dá pra esquecer, minha querida.
A loira repassou o que ia escrever, mas logo perdeu o pensamento de vista. As pontas dos dedos estavam brancas de tanto que apertavam o pequeno aparelho. A temperatura do cômodo pareceu cair um pouco.
E X A G E R O. Quem dera tal sentimento fosse considerado por uma mente insana. Ela estava ficando louca de banalizar tanto seus sentimentos? Isso lhe parecia errado. Tossiu contra o próprio braço antes de continuar.
— Nunca disse que iria ser a pessoa certa pra você, Anna. É melhor procurar outra coisa, procurar alguém que não te magoe. Outro lance.
enviada, 03h57.
— Espero que daqui alguns anos nós nos encontremos novamente, Anna. Tudo está ótimo e nós vamos rir bastante de tanto drama.
enviada, 03h57.
Elsa sentiu seu chão sumir aos pouquinhos. A ardência em seus olhos adquiriu o formato de lágrimas salgadas que começaram a rolar seu rosto e pingarem em suas coxas descobertas. A pressão em sua garganta e fez soluçar uma única vez.
— Até lá... Me perdoe, mas acho que te amo.
enviada, 03h58.
Cortou mais que o imaginado. Sua muralha de gelo perdeu as estruturas. As bases principais. Um muro tombado, como em Pink Floyd.
Se fosse só sentir saudade... Mas tem sempre algo mais. Seja como for... É uma dor que dói no peito.
— calma aí!! que diabo você tá dizendo agora? que onda é essa de outro lance pra viver?
recebida, 03h59.
— você nem pode tá falando sério...
recebida, 4h00.
20 de outubro de 2017
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