Spring NY
9 It's strong and it's sudden and it's cruel sometimes
It's strong and it's sudden and it's cruel sometimes
[...] o rosto dele estava pressionado contra a grossa folha de plástico que Will Hanlon tinha colocado por cima de cada página do álbum. Bervely gritou de novo, e desta vez Eddie se juntou a ela, embora o grito dele fosse baixo e quase sem fôlego. O plástico foi empurrado para fora; mais tarde, todos concordariam terem visto isso. Bill viu o bulbo do nariz vermelho do palhaço se achatar, da forma como seu nariz se achata quando você o pressiona em uma janela.
— Matar todos vocês! – O palhaço estava rindo e gritando — Tentem me impedir e vou matar todos vocês! Vou enlouquece vocês e depois matar todos! Vocês não podem me deter! Sou o Homem Biscoito de Gengibre! Sou o Lobisomem Adolescente! Não podem me deter, sou o leproso!
Agora o rosto do leproso, assombrado e descascando, podre de tantas feridas, olhava para eles com olhos de morto-vivo.
— Não podem me deter, sou os garotos mortos! [...]
As palavras eram sussurradas lentamente, num tom quase libidinoso, quando Danny expeliu todo o ar dos pulmões em um grito pavoroso.
“CHEGA!”
Todos os presentes arregalaram os olhos, encarando o garoto que havia se levantado com lágrimas nos olhos, transpassando o sentimento de puro pânico. Limpou os miúdos pingos salgado que escorriam seus olhos de uma forma frenética, esfregando o punho da jaqueta de tecido grosseiro. Tentava conter os soluços que lhe forçavam a garganta.
“Danny, sua menininha!” Jason riu, sendo acompanhado de Todd “É só um palhaço... Saltando de uma foto velha. Não seja medroso”.
“Então você deixará de ser estúpido?” Anna exprimiu em direção rapaz zombeteiro, levantando do solo úmido e batendo a terra presa ao jeans. Seu cabelo ruivo refletia perante a fogueira que ardia, se aproveitando do combustível que eram os galhos velhos e secos, reluzindo na escuridão “Vamos pra casa, Danny”.
O garoto concordou.
“Vai dar uma de Bervely, garota ruiva?”, Jason sorriu de forma sarcástica “Salvando o dia de um pobre indefeso”.
Anna segurou firme a mão de Danny, unindo os dedos menores aos seus. O puxou por entre as falhas da cerca, evitando o arame farpado enferrujado. O jardim da casa abandonada do fim da rua. Todd gritou algo sobre cigarros e quanto mais Anna e Danny se afastavam, a voz se distanciava, sumindo junto à misteriosa floresta e seus visitantes noturnos.
“Tudo bem?” A garota ruiva questionou, aparentando preocupação. Seu rosto infantil carregava mais sardas que o comum naquela idade.
“Claro” Danny sussurrou, fitando a calçada, evitando qualquer linha ou rachadura. Tirou uma nota verde com o rosto de Washington do bolso, quando ambos avistaram uma máquina azul de refrigerantes, na entrada de um pequeno motel verde-abacate. Desceu duas latas de Pepsi.
Quando finalmente na rua de Danny, ambas as crianças se sentaram no meio-fio, em silêncio. Era tão tarde quanto um relógio poderia marcar, e há horas o sol havia sumido no poente. A verdade era que, apesar de não demonstrar, Anna também estava assustada. Sua vontade de voltar ao seu solitário quarto no fim do corredor era mínima, senão nula. Não tinha pra quem pedir auxílio, pois seus pais gritariam consigo por estar lendo Stephen King com a garotada mais velha do bairro.
Daniel Shaw era seu melhor amigo.
Apesar de possuírem a mesma idade, a garota era mais alta e tinha um semblante mais maduro que Danny — que parecia estagnado nos um metro e trinta e dois centímetros. Seu cabelo loiro cortado de forma rente não o ajudava tanto. Tinha olhos azuis escuros, quase que perdidos em meio à neblina; às vezes, em momentos de raiva – como quando perdia no Monopoly – beiravam o preto.
“Maine está longe daqui, de qualquer forma” Anna sacudiu os ombros, como se tirasse o mau-agouro destes. Engoliu um bom gole do líquido gelado “Não é como estivéssemos em Nova York e ele quisesse caminhar até o estado mais próximo”.
“Nunca vou pisar em Nova York”.
“Nem eu” Anna sorriu “Vamos morar no Oregon”.
“Parece uma boa rota de fuga” Danny concordou.
O ano novo estava próximo. A última década do século XX estava para começar. Nos rádios, o assunto quente do momento era a situação apocalíptica que estava prevista na virada do milênio. Para os garotos, porém, o ano 2000 lhes parecia excessivamente distante.
Algo também virava dentro de Anna.
Na verdade, era uma situação nova, e Anna odiava situações novas. Crescer lhe parecia um verdadeiro desafio, que foi ficando gradativamente pior. Gostava de estar ao lado de Danny tanto quanto de comer Punch Crunch. Afinal, eram amigos, qual o problema?
O problema era ela se identificar com filmes de romance melosos – mas sem a parte do beijo, que eram, sem via de dúvidas, nojentos.
Anna então buscou o diagnóstico com a Ph.d em Relações Amorosas, doutora Miller. Ela explicou o quão lindo e inocente aquele sentimento era e, portanto, sem motivos para pânico.
Portanto.
CEM.
MOTIVOS.
PARA.
PÂNICO.
Às vezes a menina ruiva sentia suas mãos frias e constantemente se perguntava se aquela situação era uma espécie de castigo divino.
Seu macacão jardineiro estava sujo de terra. Certamente teria que ser escondido numa caixa dentro do armário.
“Acho melhor entrar” a ruiva suspirou “Vão me obrigar a jantar”.
“Já notaram que você joga nas plantas?” Danny pareceu espantado.
“Aham. Semana passada a cozinha amanheceu com larvas no chão. Parecia que um saco de arroz tinha rasgado e sofrido uma espécie de transformação química”.
“Acho que vou tentar” o garoto loiro sorriu “Vou indo também. Até amanhã, Anna!” acenou, se distanciando.
A menina ruiva acenou de volta.
Correu para sua casa, que ficava na rua de trás.
Entrou de forma sorrateira pela porta dos fundos. Tinha que tirar o macacão e o tênis amarelado antes de sua mãe a ver. Subiu as escadas, sentindo um arrepio correr a espinha. Na parede, um calendário histórico com fotos antigas de Miami.
Nenhum Pennywise aqui. Ele vai pra Nova York, aterrorizar alguém do Bronx e eu nunca, nunquinha vou pisar lá.
Quando entrou no seu quarto, reparou a cama perfeitamente arrumada e os brinquedos dentro do baú. Um post-it amarelo grudado no espelho ‘arrumar a cama não faz a mão cair :) mamãe’.
Anna vestiu um cropped verde escuro e um shortinho preto de dormir.
Na sala, sua mãe estava deitada com um pote de sorvete de chocolate em mãos, assistindo ...E o vento levou.
Novamente.
A noite pareceu mais que eterna, e quando Anna se levantou, sentiu que tinha envelhecido dez anos ou mais. Certamente seus vinte e dois seriam mais divertidos que isso.
Com seu colete laranja, Anna desceu as escadas. Comeu as panquecas com mel e cereal que sua mãe havia preparado antes de sair para o trabalho e se despediu de seu pai com um beijo no rosto. A barba mal feita de seu pai lhe arranhou, como de costume.
A aula de matemática parecia uma pegadinha.
Fórmula de Bhaskara, x = – b ± √Δ 2ª
Como eu continuo sobrevivendo à matemática?
Danny parecia estar se divertindo. Substituía letras e fazia soma nos dedos. Quando quebrava a ponta do lápis, tinha vergonha de pedir apontador para qualquer outro aluno e assim, continua seus cálculos com lápis de cor.
Geralmente laranja ou vermelho.
O horário do almoço chegou rápido, lembrando Anna que ela havia esquecido o saco de papel pardo com seu sanduiche em cima do balcão. As moedas que tinha em mãos dariam uma caixa de leite natural e dois cookie ou um único pedaço de pizza de pepperoni e abacaxi. Em suma, o resto do dia poderia ser uma tortura associada a litros e litros de água para matar a fome.
“Bervely Miller” Anna escutou e suspirou. Danny abaixou os olhos.
“Hey Todd”.
Jason e Todd eram dois dos garotos mais velhos da escola. Dois anos repetentes, a fama dos dois não condizia com a realidade: apesar de implicantes, eram divertidos e, na medida do possível, suportáveis. Jason Masc era alto e tinha músculos bem distribuídos para seus quase quinze anos; tendia bastante para o punk rock e por isso era normal vê-lo nas esquinas fumando cigarro como se fosse um maior de idade, com seu cabelo espetado e calça rasgada. Todd Won não era muito diferente, mas não tinha crescido tanto quanto Jason; era do tipo gordo-musculoso que exibia os poucos pelos faciais que cresciam no rosto.
Danny não gostava muito deles.
“Que tal?” Jason sentou na mesa, colocando o coturno sujo no banco.
COVER MISFITS E JOY DIVISION
COM BANDA XXX2
23H NO BASCO KGH
+18
“Estranhamente tentador” Anna se atentou “Mas é para maiores. Vocês já tem identidade falsa. Nem que eu corte o cabelo e desenhe rugas na cara vou conseguir entrar”.
“Não custa tentar. Você é miúda Anna, podemos te jogar pela janela do banheiro” Todd sorriu de uma forma não simpática. Quando perto de Danny, todos os três pareciam hostis e armados.
“Vou pensar” Anna observou suas moedas que totalizavam sessenta centavos “Por enquanto tenho outras coisas pra me preocupar”.
Jason pareceu irritado. Mordeu com mais força o palito de dente e se levantou. Caminhou até a fila da lanchonete, furando e empurrando vários alunos que se encolhiam e depois saíam reclamando. Voltou com um hambúrguer sem salada e uma caixa de suco de laranja gelado. A bandeja tombou na mesa e Todd riu.
“Já disse várias vezes pra se lembrar de pegar o almoço”. Anna suspirou. Sua mãe, e seu pai, e o diretor, e Danny também falavam isso. Ela fez como quem ia agradecer, mas Jason e Todd já haviam saído do refeitório, chutando a lixeira. O faxineiro o xingou de longe. Danny estava com a cabeça abaixada como alguém muito concentrado.
“Por que não me falou que não tinha almoço?” questionou, mordendo um pedaço do sanduiche de pasta de amendoim “Eu dividiria”.
“Não vou tirar sua comida só porque sou lerda” Anna sentiu a felicidade tomar conta do seu coraçãozinho “Mas obrigada”.
“Você sabe que ele toma o dinheiro dos garotos mais novos, né?”.
Anna se calou. Sim, ela sabia. E por diversas vezes sua ética falou mais alto e ela se sentiu culpada por encobrir tal situação. Era uma via de mão dupla e portanto, não queria prejudicar ou mandar Jason e Todd à detenção.
Bastou isso para o silêncio tomar conta do resto da tarde.
Na saída às 16h, Danny finalmente dirigiu a palavra à garota. Anna estava conversando com Betty, sua colega do clube de artes.
“Já assistiu De volta para o futuro?” o garoto loiro perguntou, descontraído “O filme 2 vai ser lançado no fim do ano, então vão reprisar o original essa tarde”.
Anna ponderou. Sim, já havia assistido diversas vezes. Uma das músicas tema do filme constantemente passava na rádio FM depois do sucesso do filme. Mas Daniel a estava chamando para ir ao cinema.
“Vamos sim”.
Já em casa, a menina ruiva não sabia o que vestir ou como deixar o cabelo. Danny não devia estar pensando naquilo como um encontro, mas certamente Anna não se importava muito. Soltou as mexas do cabelo ruivo, penteando-o com os dedos. Conferiu se não havia terra da noite passada. Vestiu uma saia marrom que tinha guardada e o mesmo cropped verde que usara para dormir. Poderia colocar brincos de argola também, mas os furos das suas orelhas já haviam fechado.
A entrada do cinema estava vazia e Danny sorriu quando a viu. Ele estava com um moletom branco e jeans azul, além de usando um boné dos Dodgers. Seu rosto estava mais iluminado que mais cedo e Anna até se permitia chutar que ele tinha recebido uma notícia muito boa em casa.
O filme começou com um pequeno atraso.
Anna repassou todos os momentos que teve ao lado de Danny e então imaginou seu futuro ao lado do garoto. Eles se mudariam pro Oregon e teriam uma casa perto do mar, com visão para as altas montanhas de neve e pinheiros. Teriam vários cachorros e todos os jogos de tabuleiro que poderiam estocar. Era o futuro perfeito e estava marcado a ferro no papiro do destino.
“Salve o relógio da torre!” Gritou a senhora idosa, estourando o agudo da caixa de som do lado direito da sala.
Daniel com toda certeza cresceria e se tornaria um homem alto e charmoso, que pentearia o cabelo para trás e faria a barba toda manhã.
“Mais sério do que eu pensei! Parece que a sua mãe está apaixonada por você e não pelo seu pai!”Doc Brown resmungou, fazendo o cinema rir em uma espécie de alívio cômico.
E eles não teriam essa divisão injusta de tarefas de marido e mulher. Seriam apenas um casal que jogaria Monopoly sempre que pudesse, assim como sempre iriam ao cinema ou em restaurantes chiques. Um ligaria para o outro no escritório do serviço para dizer o quanto se amavam.
A tela escura de créditos finais começou a subir, tocando o tão famoso tema musical do filme. Algumas poucas pessoas se levantaram para sair, mas muitas ficaram e começaram a cantar baixinho.
— You don't need money, don't take fame, don't need no credit card to ride this train;
Você não precisa de cartão de crédito para subir nesse trem
— It's strong and it's sudden and it's cruel sometimes, but it might just save your life;
É forte e repentino e às vezes é cruel, mas pode salvar sua vida
— That's the power of love.
Esse é o poder do amor
Danny segurou a mão da garota ruiva, que sentiu o ar faltar.
Aspirou fundo e virou o rosto, o sentindo arder. Não conseguiu fechar os olhos quando sentiu o rosto do menino loiro se aproximar.
Decididamente, foi um beijo.
E nem era tão nojento assim.
Os dois começaram a rir quando a iluminação do cinema acendeu e os créditos já tinham terminado.
“Você não sabe o quanto eu sonhei com isso, Daniel” A ruiva confessou, apertando a mão do loiro novamente “Nós seremos um casal pra sempre”.
“Casal?” Danny apertou as sobrancelhas, demonstrando confusão “Anna, não! Eu não quero nada. Só te beijei porque pensei que...”.
Algo despencou.
Anna se lembrou da aula de ciências e em como a professora falou do meteoro que atingiu a terra e a cobriu por uma densa nuvem de poeira escura, que não deixava passar a luz do sol. A felicidade se esvaiu, e junto de si, a vida terrestre também.
“Dizem por aí que você... Hã...” Ele se enrolou nas palavras “Pensei que tivesse vários namorados... Vários garotos atrás de você e...”.
“Eu o que?” As lágrimas já ameaçavam transbordar e manchar o rosto sardento.
“Você anda com os garotos mais velhos! Você ainda é...?”
“Meu Deus” A garota se levantou, sentindo que poderia vomitar. Subiu as escadas do cinema até o banheiro, onde bateu a porta e buscou ar por um bom tempo. O soluço forçava sua garganta e ela não podia deixar de se sentir estúpida. Como nunca tinha ouvido nenhum boato? Será que Jason e Todd sabiam? Danny só andava consigo porque acha que ela não era mais virgem e que o ajudaria a perder a sua? Há quanto tempo eram melhores amigos?
Era dezembro e eles se conheciam desde agosto.
As horas passaram devagar e Anna se recusou a sair do banheiro.
Perto da meia-noite, um funcionário pediu para ela sair, pois teria que limpar o lugar para então fechar o estabelecimento.
A garota pensou que ia desabar ou derreter quando saísse da cabine. Não teria mais coragem de encarar ninguém da sua escola. Se prestasse atenção, talvez as pessoas na rua a encarassem com o nariz torto. O choro ameaçou romper mais uma vez, mas a garota se conteve. Tinha que pensar num plano de fuga.
Depois de pensar muito do lado de fora do cinema, a garota concluiu que essa situação justificava algumas atitudes de Jason e Todd conforme o ano letivo. Diversas vezes ambos foram mandados à direção por bater ou ameaçar alguém que brincava de uma forma não tão legal com Anna. Ela chegou a acreditar que eram ciúmes, mas eles eram somente super protetores.
Eles eram os únicos que prestavam naquela porcaria de cidade.
O cover já tinha começado.
Sou uma estúpida!
Conforme os anos, Anna adquiriu certa repulsa por pessoas que lhe lembravam de Danny e seu primeiro beijo. Loiros, de olhos azuis e simpáticos. Era tudo uma armadilha sádica. O papiro do destino era extremamente frágil a vinagre. Quem diria então a ferro quente?
A vida não permitia ensaios.
1989, Flórida
pág. 708, IT, Stephen King, 1986
23 de setembro de 2017
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