Spring NY
5 I don't know where you're going
I don't know where you're going
O vagão estava ligeiramente lotado para o horário em questão.
Anna arriscava sua mão em uma barra de ferro, disputada por diversas pessoas sedentas por apoio dentro do transporte público. O metrô riscava as luzes do túnel subterrâneo, reproduzindo um zumbindo cortante.
Buscou seu aparelho Nokia no bolso do jeans. Pressionou o botão vermelho até a tela monocromática piscar e apagar. Evitaria a todo custo receber ligações com convites para festas naquele sábado. Estava em dívida consigo mesma, conforme sua nota destacada em vermelho na prova lhe dissera no dia passado. Inspirou lentamente e expirou da mesma forma, sentindo seu pulmão murchar.
Porque professores precisam ser tão sádicos? Ele sabe o quanto me esforcei naquela porcaria de prova! Escrevi quase três páginas do que entendi da palestra sem graça que aquele homem deu.
“Annaaaa, está me ignorando mais uma vez”.
A garota piscou algumas vezes, focando sua visão na propaganda de cuecas exposta na parede. Buscou entre os presentes Kristoff, seu amigo impaciente, que estava apertando as sobrancelhas.
“Não estou não” a ruiva rebateu.
“Está sim”.
“Não”.
“Está” suspirou “E mais distante que o normal”.
“Só estou cansada Kris. Preciso recuperar minhas notas, pagar contas, procurar o boleto da mensalidade da faculdade...”.
Kristoff em um suposto ato de compaixão apertou o ombro da garota. Era um bom amigo e quase sempre se solidarizava com a dor da outra. Era um jovem homem alto e forte, criado com uma família amorosa do Queens. Seu nariz tinha um formato engraçado.
“É sábado, sabe? Você deveria dar descanso para si própria. Vamos comprar ingressos para uma sessão qualquer de The Mummys Returns e comer alguma massa frita. Garanto que vai te por pra cima!”.
Anna cogitou a possibilidade, mas sabia que não prestaria atenção no filme enquanto se martirizava internamente.
Capaz de eu ver sair o professor de dentro do caixão, ao invés da múmia... Seria aterrorizante.
“Vou passar Kris” sorriu amarelo “Só quero dormir até 2008”.
O rapaz revirou os olhos, em negação.
Mas de fato Anna não apreciava a vida adulta.
O buraco que era sua vida estava um pouco mais fundo que em 1998, quando saíra de casa ao então completar vinte anos de idade. Ingenuamente imaginou um mundo magnífico, aonde poderia chegar a qualquer hora ou simplesmente não voltar para casa depois de uma noite de festa. Poderia assistir a seus filmes e músicas o mais alto que as paredes seu pequeno apartamento permitiam. O zelador era um pouco rabugento. Pensava. O que a realidade lhe apresentou era um tanto quanto amargo: lavar roupas, lençóis e trocar cortinas empoeiradas; preocupar-se com produtos de limpeza, comida, panelas, carpete. Quando criança, Anna imaginava que coisas básicas como cobertor, copos de vidro e um aquecedor que funcionasse de verdade eram dados feito presentes pelo Estado, como um kit sobrevivência. Quando adulto você passa a se preocupar com tudo e nada aparece feito mágica na geladeira. Se você esquece-se de lavar a louça, da toalha molhada em cima da cama e o leite no fogão, a casa pode pegar fogo.
É como uma combinação de videogame.
Quase três anos longe de casa.
Anna havia crescido como uma criança nada aplicada e que tirava notas boas na escola por puro talento. Até mesmo participara do time de natação do colegial. Contudo, em 1993, aos quinze anos, Anna viu um universo se expandir. Junto a seus amigos experimentou sua primeira destilada, uma vodka muito barata envolta à um saco de papel. Às vezes arriscava uma canção qualquer num palco qualquer. Sua paixão por Oasis não demorou muito a nascer quando Anna deixou a onda grunge para trás.
A ruiva desembarcou em uma estação diferente do habitual, acendo à Kristoff.
Oh, a vida noturna de Nova York.
Turistas, turistas, turistas.
Anna sentia no peito que deveria ter se mudado para o Colorado.
High Street era uma boa estação. Podia-se observar do alto o rio leste, portos e navios. O outro lado da baía resplendia como dona do mundo. Estranhamente o céu estava limpo e a massa de ar frio que a meteorologista avisara mais cedo no jornal matinal era real.
Anna tratou de vestir seu moletom cinza, enquanto esfregava ambas as mãos. Detestava sentir a ponta de seus dedos geladas. Desfez a trança dos fios ruivos, a fim de se defender do gélido vento que balançava seus brincos e bagunçava sua franja.
Pensar em casa sempre me deixa um pouco triste, afinal. Sentir saudades dos abraços calorosos da minha mãe, dos fins de semana na praia... A cena dos meus amigos se despedindo de mim no aeroporto me cortou o coração. Tudo bem que hoje quase nenhum deles me manda cartões ou responde a um email... A Flórida ficou com toda minha glória das noites que virei ouvindo Rhythm Of The Night em alguma casa noturna...
Hoje, Anna preferia bares.
Dobrou uma ruela escura e entrou em um beco de tijolos escuros, com algum tipo de musgo grudado. A porta em si não tinha nenhuma identificação além do neon verde escrito BARDN. Alguns lances de escada até o subsolo da antiga construção e lá estava um conhecido que Anna apreciava a companhia silenciosa. Um charmoso rapaz de pele negra e olhos escuros.
“Boa noite, Jazz” a garota cumprimentou “Poderia me servir um vinho quente, antes que eu congele aqui mesmo e suje seu chão?”.
“Já te chamo, Anna” ele respondeu, alcançando um copo embaixo do balcão.
O BARDN era peculiar de uma forma isolada e única. Anna não sabia se Jazz era realmente o nome do rapaz e se ele somente cuidava do bar ou era o criador daquele mundo fantástico que só abria nas noites de domingo. Um porão escuro e aconchegante, íntimo dos clientes. Ao olhar pelo lugar, avistava-se seis mesas com booth de couro verde; no balcão de madeira polida, cinco banquetas. Alguns pôsteres, relógios quebrados e até cortinas sem nexo enfeitavam as paredes até o teto baixo. Um palco nunca utilizado e uma pequena cabine fotográfica. Além disso, o que transformava o BARDN em algo sobrenatural era sua total falta de iluminação: não havia luz clara e tampouco janelas. A única fonte de iluminação vinha de alguns velhos refletores verdes, azuis e laranjas do palco, que costumavam falhar e emitir um risco de luz. Não era possível ler jornais ou livros, responder mensagens ou olhar claramente no rosto de uma pessoa para traduzir seus mais profundos pensamentos.
Anna nunca sobre dizer quais eram as cores das paredes.
Jazz depositou a bebida escura na mesa e logo se retirou.
E isto é uma das melhores coisas da minha vida.
Até então.
A porta rangeu e uma corrente de ar entrou, fazendo as orelhas de Anna doer de frio. Devia ser Tommy, um rapaz de vinte e tantos anos, outra alma atormentada que frequentava o lugar.
“Boa noite” Jazz disse formalmente.
“Boa” respondeu uma voz feminina “conhaque sem gelo, por favor”.
A ruiva sentiu o músculo das costas travar e ligeiramente se recusou a olhar para trás. Deixou o copo de vinho descansar na mesa sob o protetor.
Mas não é possível.
Na verdade era. Anna já tinha tido algumas amantes conforme os anos e no momento não se encontrava interessada em nenhuma; ou será que estava? Reconheceria um pedido, um tom de voz cansado e uma maleta de couro largada contra o chão, em um baque surdo?
Isso é ridículo!
Anna virou a cabeça da forma mais lenta e dolorida que pôde encontrar.
O que ela está fazendo aqui?!
Elsa estava sentada de costas para Anna. Os longos fios loiros trançados e jogados sob seu ombro direito. Uma luz verde pairava sobre a mulher, que massageava a tensão do ombro esquerdo. Aquela situação pôs Anna em cheque. A verdade era que Elsa Arendell sacudia o espírito juvenil de Anna; mas também era realidade o que aconteceu da última vez que se encontraram.
Eu não vou ir falar com ela! Existem mais de mil restaurantes nessa cidade abandonada por Deus e ela teve que levar aquele babaca arrogante justamente no que eu trabalho! Estaria tudo bem se ela tivesse falado comigo, claro, mas não, ela preferiu fingir que eu não existia. Eu quero mais é que ela se foda mesmo! Talvez eles se mereçam até.
Cogitou ir embora, mas ponderou. Não iria deixar seu prazer ser estragado por uma estranha com quem partilhara a cama há um par de meses atrás. A loira sequer a tinha visto. Iria manter sangue frio.
Buscou terminar seu vinho que já estava morno.
Espiando.
Elsa não parecia ter dó de cada profundo gole amargo. Com ambos os cotovelos no balcão, apoiou a cabeça entre as mãos.
Mas e se ela realmente estiver mal? Parece aquele tipo de gente que quer pular de um prédio, mas pensa seriamente se vale a pena antes. Aaa, mas ora Anna, o que você tem a ver com os problemas dela? Se realmente quisesse sua companhia ou ser sua amiga, teria te cumprimentado feito gente naquele dia. Ou mandado aquele ruivo burguês enfiar o cachê diferencia no c-
“Anna?”
Um salto em direção à lua.
“Eu lamento”.
Devemos voltar ao planeta Terra, Houston.
“Elsa?” Anna levantou o rosto para encarar a mulher parada ao seu lado “Você lamenta...?”.
“Se importa se eu...?”
“Claro que não” respondeu.
Elsa se acomodou, jogando um grosso casaco sobre o couro e deixando a maleta no chão. Colocou o copo sob a mesa e levantou os olhos injetados até os da garota ruiva.
“Eu lamento, Anna” voltou a dizer, abaixando os olhos, como se estivesse envergonhada de algo feito “foi uma infeliz situação que eu não queria me encontrar. Jamais. O fato de não ter lhe dirigido à palavra me cortou o coração, por mais difícil que possa parecer” sorriu de forma amarga “entenderei se não quiser mais falar comigo ou... Que eu volte ao Eight Legend”.
Anna olhou para suas próprias mãos, como se todas as respostas do universo estivesse lá. Sabia que ninguém lhe devia nada. Não era dona de nada e de ninguém. Elsa não era sua namorada, sua amante, não era sua irmã, prima ou cunhada. A pergunta incômoda presa à garganta era uma suposta invasão de privacidade.
“Quem era?” questionou a ruiva.
“Hans” a loira cuspiu em um tom de desprezo “Sócio da minha empresa. Lembra que eu disse ter herdado a empresa, certo? Parece que meu pai também quer me herdar um marido também”.
Ok, mas por que não escolheram outro maldito restaurante?
“Seu pai não sabe que...”.
“Que durmo com mulheres?” Elsa sussurrou baixo, de forma maliciosa aos ouvidos de Anna. Devida a baixa claridade não pôde tentar decifrar sua expressão. Contentou-se em observar as pupilas escuras da mulher “Ele fez tudo por mim e sabe... Meu pai está perto do fim. Seria uma decepção pra ele”.
“Não precisa ter vergonha, Elsa”.
A loira não parecia concordar, pois virou seu copo em um só gole.
Foram pedidos dois copos de licor, não importava o sabor.
Um era cereja e o outro laranja.
Foram perdidas três horas de poucas palavras, mas diversas trocas de olhares. Não era possível observar a cor dos olhos azuis de Elsa e tampouco os verdes de Anna. Um perigoso labirinto.
“Qual é o nome da sua empresa, mesmo?”.
“Komplett” respondeu como a contragosto “Anna, eu vim parar nesse bar super ao acaso. Estava em uma reunião com colegas de trabalho quando disse que ia ao banheiro, peguei meu carro e fugi. Aqui... Pareceu ser um lugar que eu não encontraria ninguém conhecido”.
“Parece que estava errada, Elsa”.
“Oh sim, eu estava” a mulher mais velha riu, tampando a boca com a mão, evitando fazer barulho “mas foi uma terna coincidência”, afirmou alcançando a mão da ruiva que deu um pulo com a mão absurdamente gelada da outra em contato com seus dedos quentes.
Mais algumas doses de mimosa.
“Então eu pulei a cerca e corri de um cachorro enorme!” gritou Anna “roubei todas as abóboras da rua antes da noite de Halloween! Quando as crianças chegaram, não souberam identificar quais casas estavam oferecendo doces ou não e então começaram uma festa de ovo podre e papel higiênico”.
“Ninguém descobriu?” Elsa parecia surpresa e impressionada.
“Ninguém! Sequer acharam as abóboras no quintal do velho rabugento da rua depois disso. E essa é minha mais bela história sobre as travessuras no lugar dos doces”.
Elsa voltou a rir. A tensão em seus ombros havia lhe dado folga.
Anna esfregou as mãos novamente e questionou como Elsa parecia tão serena em relação ao frio que rodeava a madrugada de drama.
“Sente frio, Anna?” a loira levantou as sobrancelhas “pegue meu casaco. Estou bem”.
“Claro que não! Você deve estar congelando também, não é possível que esteja bem”.
“Você me salvou do frio duas vezes. Deixe-me salvá-la agora”.
Anna sentiu a garganta seca quando Elsa ficou de pé e pendeu o tronco para frente, apoiando a própria cintura na borda da mesa, se esticando para colocar o sobretudo nos ombros de Anna, que sentiu a respiração quente da loira em seu pescoço.
“Quase meia-noite” Anna alertou-se, ao olhar o relógio de pulso de Elsa “Tenho que ir. Trabalho amanhã.”.
“Ah claro...”.
Oh sim, Elsa, pessoas pobres trabalham no domingo!
“Pode me passar seu telefone, Elsa?”.
A loira lhe encarou por longos segundos, tirou uma caneta do próprio bolso, riscando um guardanapo e empurrando para Anna.
“Espero que me ligue mesmo”.
Anna corou.
“Mas antes de irmos...” Anna disse “Vamos bater uma foto. O dinheiro da cabine também ajuda a manter o bar aberto”.
Ambas se levantaram ao mesmo tempo e caminharam lentamente. Elsa logo atrás viu Anna depositar duas moedas na máquina e logo em seguida correr a cortina grossa para o lado. Um véu negro recaiu sobre elas quando entraram no pequeno cubículo.
Como lembrado, aqui é super pequeno. Mal me cabe sozinha, quem dirá nós duas juntas.
Elsa encolheu os ombros para Anna se encaixar. A ruiva se viu obrigada a segurar a cintura de Elsa, devido o pequeno espaço disponível. Anna apertou o botão e avisou do flash forte que as cegariam por alguns minutos.
Mantenha-se firme.
O clique estourou em uma batida e a luz as fizeram fechar os olhos rapidamente, sorrindo e os esfregando com as costas da mão. Elsa se debateu um pouco contras as finas paredes, fazendo Anna lhe segurar de forma mais firme pelo cinto de couro. Inconscientemente Elsa parou com as costas contra a parede oposta a entrada, enquanto Anna tentava manter ambas paradas. Lentamente a ruiva deixou seu corpo descansar no de Elsa; sua cabeça no ombro da mulher, sentindo a clavícula apertada de Elsa, que parecia morder o interior da bochecha.
Ambas as respirações lentas.
Ambos os corações rápidos.
“Ainda não enxergo muita coisa, Anna...”.
A ruiva ficou na ponta dos pés, alcançando a orelha de Elsa. Sentiu os fios loiros lhe fazerem cócegas no nariz.
“I don't know where you're going, and I don't know why, but listen to your heart before you tell him goodbye” sussurrou lentamente.
Não sei para onde você está indo e não sei porque,
mas ouça seu coração antes que você diga adeus.
As mãos de Anna a seguraram gradativamente de forma mais rígida, cravando lentamente as unhas na pele macia. Elsa se apossou dos lábios da garota ruiva, em um beijo lento e voraz. Anna não sentia pressa em explorar cada pedaço da essência de Elsa e tampouco a loira se importava de morder aos poucos a boca pintada de sardas adoráveis.
Roxette nunca foi de falhar em serviço, concluiu Anna, vitoriosa.
A cabine fotográfica nunca lhe pareceu tão grande.
05 de julho de 2017
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