Spring NY
1 For a destination
Parte I
For a destination
Mais uma quarta-feira cheia. Horário de almoço e quase todas as mesas do estabelecimento estavam ocupadas ou reservadas até às três horas. A diversidade de público que o néon do Eighth Legend atraía era de se espantar, em plena 11th Avenida de New York City, pouco mais de 0,8 milhas da reluzente Time Square e toda sua rede de junk food. Era de se encher os olhos como um restaurante caseiro da década de setenta sobrevivia a cada segundo, mesmo com o preço da hipoteca.
O restaurante tinha seu charme e atendia com maestria cada cliente com suas devidas exigências. Um cardápio variado com pratos de quase todos os continentes, mas não de todos os países. Havia ainda o bar de madeira, com vinho e uísque importado. O piso era envernizado em madeira escura e as paredes pintadas de verde bosque. Grandes persianas brancas cobriam as janelas e vidraças, reproduzindo um aspecto agradável aos olhos em dias de sol forte.
Diferente do dia de hoje.
O céu parecia depressivo. Mal humorado ou estressado como 90% dos habitantes da populosa e movimentara Nova York. A chuva era violenta contra as vidraças e pessoas andavam apressadas ou corriam nas calçadas. Maleta de couro na cabeça ou pasta de papel pardo dentro do paletó.
“Bem vindo ao Eighth Legend” a garota ruiva sorriu de forma simpática “posso anotar seu pedido?”
“Fried Chicken” respondeu o homem apertando delicadamente o punho do casaco que vestia “uma lata de Pepsi também”.
Certamente um nova-iorquino.
Anna anotou com sua letra garranchada e deslizou para a mesa mais próxima. Seu pensamento caminhava longe do restaurante: sua pequena cama quente, sua blusa do Ghostbusters manchada de tinta e uma caneca de chocolate quente para aquecê-la do ar gélido e perigoso da cidade. Ficara acordada até pouco mais das duas da manhã noite passada, terminando uma apresentação da universidade. Apresentação esta que quase foi arruinada pela chuva, quando drasticamente Anna deixou sua pasta cair, perseguindo seu ônibus.
Como eu queria ter um carrinho... Um daqueles de duas portas, amarelo e com capô manchado seria mais que o suficiente.
“Anna!” ouviu-se uma voz grossa e irritada. Era James, chefe de cozinha e pseudo gerente “Amber morreu mais uma vez nos fundos, vá até lá e mande-a voltar. Esses pratos não sairão do balcão por conta própria!”.
Anna respondeu com um aceno de cabeça, pedindo licença ao cliente que lhe encarava com o olhar nublado. Caminhou até a portinha dos fundos do estabelecimento, depois dos banheiros. Amber era um das três garçonetes que abriam o restaurante junto à Anna. Estava sentada em um pequeno banco de madeira, tranquilamente tragando um cigarro mentolado. Ouvia algum tipo de música eletrônica em um grande fone de ouvido prateado. Um, dois, três estalos de dedos em frente ao rosto da colega de serviço e somente no quarto Amber abriu os olhos, dando um salto pra frente.
“James está de escândalo lá fora, ameaçando jogar a comida pra cima e ver se ela voa sozinha e chega à mesa dos clientes” a ruiva riu, ajeitando seus fios de cabelo rebeldes “acho melhor voltar”.
“Pleno século XXI e eu não posso ficar no corredor aproveitando meu trago” resmungou baixo “merda”.
“Acredito que as coisas vão mudar logo, sabe?” Anna levantou as sobrancelhas, em sinal de desdém “que daqui pra frente as pessoas vão passar a ler e descobrir como o cigarro faz mal à saúde. E quem saiba em 2010 nem exista mais a industria de tabaco” provocou, soltando uma risadinha maligna.
“Mas é claro que não, Anna! Somente agora em 2001 que eu vi uma propaganda coerente de cigarro desde 1989! E olha que eu presto atenção, hein”.
A pequena porta de metal estalou, rangendo vagarosa. Ciara era a garçonete mais experiente e com mais tempo de casa. Com o dedo apontou para fora, balançando a cabeça em negação. Anna e Amber abriram a boca pra argumentar algo, mas logo sorriram de forma amarela e saíram com olhar de culpa.
O dia parecia se arrastar mais que o comum. Os céus não cansavam de desabar sob os arranha-céus e os táxis amarelos. Na concepção da ruiva foi um dia triste e trágico, sem pôr do sol, momento favorito de Anna desde criança. O relógio batia quase 20h quando o véu negro começou a tomar conta de tudo. À noite no centro era quase que ignorado pelos painéis de propagandas de milhares de dólares. Samsung; McDonald’s; KODAK, Apple; a noite valia milhões e então Nova York estava mais viva que nunca.
Críticas à parte, as luzes do Eight Legend brilhavam em vermelho e azul, abraçando a situação. As persianas eram levemente abertas e o som de talheres batendo era substituído por taças brindando e música ambiente. What's Up do 4 Non Blondes era reproduzida ao fundo quando Anna sentou-se um pouco. Suas pernas doíam e ela tinha adquirido uma leve enxaqueca.
— Twenty-five years and my life is still.
25 anos e minha vida está parada.
— Trying to get up that great big hill of hope.
Estou tentando subir essa grande montanha da esperança.
— For a destination.
Por um destino.
Esses malditos músicos e sua dádiva de adivinhar minhas dores. Eles bem que podiam explodir ao invés de jogar universitários no fundo do poço.
Anna sentia um ódio infantil pelas músicas que tocavam depois das 19h. Sempre se identificava e então batia a enorme vontade de se afogar na privada. Ciara já havia saído e James terminava de limpar a cozinha depois do horário do jantar. O rapaz novo que administrava o bar tinha tirado folga e Anna havia concordado em ganhar hora extra para se manter ali até as 00h e fechar o estabelecimento.
Rapidamente olhou o sino bater contra o vidro, anunciando a entrada de alguém. A luz do ambiente estava baixa, reproduzindo sombras no rosto da mulher que havia chegado. Uma mulher bonita, alta e loira, mas completamente encharcada. Parecia bastante infeliz com a situação. Apertou a longa trança platinada que despencou água no chão. O barulho do salto alto contra o piso de madeira determinou o ritmo do momento. Sentou-se no bar, três bancos depois de Anna. Apertou as têmporas deixando a ponta de seus dedos brancos; soltou um longo e doloroso suspiro.
A curiosidade da garota ruiva atiçou feito raposa mal criada. Queria sentar ao lado da desconhecida e perguntar gentilmente como esta estava. Anna levantou, rodeou o balcão de madeira e parou em frente a mulher, perguntando o que ela gostaria.
“Conhaque” respondeu, sem levantar o rosto “sem gelo”.
Anna concordou e pegou um copo de vidro grosso e fundo, despejando uma generosa porção do líquido cor de fogo. Com uma leve batida entregou o copo à mulher que então levantou o rosto e encarou a garota por poucos segundos. Seus olhos tinham um peculiar tom de azul, que Anna não soube distinguir. Sentiu suas sardas arderem e desviou o olhar da loira.
“Como se chama?” a mulher perguntou com a voz arrastada.
“Eu?” Anna apontou para si própria, como se não fosse a única presente no lugar. Bateu uma nota mental e respondeu lentamente “Anna Miller, prazer”.
Quando criança, os pais de Anna lhe ensinaram como conversar de forma casual com um estranho: você diz seu nome e a outra pessoa também se apresenta. Há um aperto de mãos e então você está socialmente aceito. Contundo, a mulher loira apenas sorriu vagamente, fechou os olhos e tomou mais um gole do conhaque quente.
“Anna é um nome muito gostoso de pronunciar... Pode me servir um pouco de uísque Anna?”
Mais uma vez naquele mesmo dia Anna abriu os lábios para questionar algo, mas encontrou-se sem palavras. Os pelos do braço ouriçados. Era comuns pessoas excêntricas aparecerem no bar altas horas da noite e segundo seu chefe, jamais deveria questionar seus clientes. A garota esfregou o próprio punho e limpou a garganta, alcançando a garrafa de uísque na parte mais alta do armário. O cheiro do álcool lhe deixou um tanto quanto tonta.
“Não sente frio?” Anna deixou escapar repentinamente, se repreendendo imediatamente.
Está fazendo quase 8° graus lá fora e ela está totalmente molhada, Anna! É claro que ela está com frio! Porque você não bate a testa no balcão até morrer, Anna?! O que eu farei se ela responder que sim?
Novamente a mulher a olhou de forma pausada. Seus olhos tinham um brilho característico, que não era de confusão e tampouco receio. Era curiosidade. Ela sorriu de forma maliciosa.
“Estou sim”.
Merdamerdamerdaeagoraeusoumuitoburra.
“Er... Quer uma toalha? Posso te emprestar minha jaqueta jeans também. Provavelmente ficará um pouco curta, mas-”.
Meudeusdocéu.
“Temo que terei que aceitar, Anna” respondeu molhando os lábios. Ainda em gesto, passou a mão na própria testa, tirando a os fios molhados e grudados do seu campo de visão. Terminou o gole da bebida.
Anna rodeou o balcão quando a mulher ficou em pé, levantando os olhos para encarar a loira nos olhos. Eram consideráveis 10cm de diferença.
A ruiva fez um sinal para que a outra a seguisse até o fundo do estabelecimento. Os armários eram enfileirados e com o nome de cada funcionário; o nome de Anna era rabiscado e com a porta arranhada, das vezes que a mesma esquecera a própria senha. Usou seu código, errando nas duas primeiras vezes. Uma fina camada de suor frio lhe cobriu a nuca quando sentiu a desconhecida atrás de si, com a respiração quente. O cadeado fez um estalo e então Anna abriu o armário. Em meio à bagunça, uma toalha de rosto verde.
A mulher sorriu em gratidão, passando a toalha no rosto, nuca e cabelos. Tirou o sobretudo que caiu pesado no chão e desabotoou o paletó cinzento. Vestia uma camisa social branca que já transparente, permitia ver seu sutiã preto. Esfregou a toalha na camisa e ao longo dos braços. Num gesto rápido colocou a toalha ao redor do pescoço da ruiva, que mais uma vez corou desajeitada.
Talvez eu esteja encarando ela demais. Logo ela chamará a polícia, afirmando que sou uma pervertida que ofereceu toalha só pra ver seu sutiã sexy. Se bem que eu não estou muito arrependida...
“Aqui” Anna entregou a jaqueta jeans azul desbotada. A loira vestiu e felizmente, houve um bom caimento nos punhos. Anna costumava usar roupas um tanto quanto mais folgadas e sua jaqueta não era exceção. Suspirou ao reparar na saia executiva com listras e no salto de camurça em contraste com sua jaqueta de punk de colegial. Sentia seu chão sumir aos pouquinhos.
De volta ao bar, eram quase 01h. O turno de Anna havia acabado e ela deveria estar em casa trabalhando em uma resenha. Entretanto, a situação estava, nas próprias palavras da desconhecida, ‘gostosa’. Por mais que Anna tivesse a impressão de estar se enganando, tinha um fio de esperança que dizia que a mulher não estava somente brincando consigo.
Anna queria pagar pra ver.
15 de janeiro de 2017
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