Spring NY
12 Bring your alibis
Bring your alibis
Um furacão com ventos ininterruptos de 178km/h, categoria três. De forma científica, esses eram os dados indicativos que caracterizavam uma destruição eminente. Para Elsa Arendell, era uma clara forma de definir e desenhar suas próprias emoções na pequena caderneta. Oh sim, um ciclone havia atravessado sua vida, para logo em seguida uma tempestade de gelo contínua, atormentar sua ingênua alma, congelando e destroçando cada pedaço de si, de forma dolorosa e tardia.
O pior de tudo era saber o quão reconfortante era aquilo.
Os céus sabiam o quanto Elsa batalhara duro para manter a postura que lhe era exigida. Eles sabiam o quanto ela tentou esconder tudo que se passava dentro da grandiosa muralha de cristal, erguida sob constante vigilância, por anos. Um gatilho era o bastante para as portas baterem e as frágeis dobradiças estourarem, e quando tal foi achado, Elsa não soube reconhecê-lo. Tudo desmoronou.
Deixe a tempestade se alastrar.
A mulher soprou contra o espelho do banheiro.
Seus olhos percorreram seu próprio corpo, de cima a baixo, mesmo conforme a má formação que o vidro embaçado reproduzia. Suas íris azuis repassavam o vapor gélido e demonstravam derrota. Olheiras a tinha deixado pelo menos cinco anos mais velha. Os finos fios loiros, embaraçados em um rabo-de-cavalo frouxo. As clavículas mais profundas. Deixou sua atenção recair sobre a fina cicatriz que se estendia no quadril.
Na segunda metade da década de oitenta, Elsa soube o quão solitária sua vida tendia a ser. Conforme o caixão de madeira branca com o corpo de sua mãe descia, sete palmos abaixo do solo, Agnarr Arendell deixou o próprio corpo; seus olhos nublaram por um par de segundos e, quando finalmente piscou, era outro homem. Não mais o de olhar caloroso ou sorriso fácil. O impostor que hoje habitava a casca de Agnarr não iria dirigir à palavra a Elsa, além do necessário, por todos os anos que viriam. Miss Anderson, a babá, usava da sua doce voz e persuasão para dizer a pequena garota não se preocupar [papai está ferido por dentro]. Agmund, amigo íntimo dos Arendell, alegava: não fique brava [ele vê Iduna em você] e seja forte.
Ninguém viu.
Elsa estava tanto quanto ou pior. O momento-chave deu-se numa ensolarada tarde de outono. A poeira estava alta e a luz natural batia com intensidade contra a cortina marrom, esquentando o ambiente. O rosto infantil manchado de lágrimas e seus olhos já não lembravam o céu azul em um bom dia. Em cima do vinil de plástico barato, a carteira de cigarros WEST [mamãe prefere KENT] e a navalha de bolso de Agnarr. O cabo era diferente de todas as outras que Elsa tinha visto até então: um material transparente e duro, que lembrava uma pequena pedra de gelo, áspero ao tato. A lâmina era brilhante.
Chamava atenção.
Apenas quatorze anos [papai está ferido por dentro].
Não no pulso, seria visível. Não no pescoço, podia ser fatal. Não no braço ou perna, exposto demais. Elsa não tirou o vestido cintilante vermelho para sentir o sangue fluir. O golpe foi lento e provocou uma incisão tão reta e profunda que não parecia autoria de uma mão tão jovem. O algodão do vestido sequer fez som. A menina apertou as sobrancelhas ao perder o fôlego, abaixando a cabeça e se apoiando com a mão livre na estante. Um soluço escapou seus lábios e a perna bambeou [mamãe fumava por conta do estresse]. Seus olhos marejaram de dor. Sentiu o olhar de reprovação de Agnarr sob si, mas sabia que seu pai estava longe o suficiente [Iduna se casou porque estava grávida]. Quem lhe dizia não tinha maldade na voz, só nostalgia; de um tempo em que sua filha era jovem [e viva], de um tempo em que sua esposa sorria pra si, de um tempo que ela animava a roda do bar entre os amigos.
[Elsa está ferida por dentro].
O ferimento foi único, mas não por falta de coragem. A dor brusca liberou tantos demônios que ele pequeno corpo frágil escondia, que a garota se sentiu mais leve. Sua mão trêmula a fez puxar a lâmina de dentro da ferida pulsante de uma só vez. Um gritou agudo rompeu e a fez cair no chão de joelhos, golpeando com o punho esquerdo. A raiva e mágoa pareciam esvaziar conforme o sangue escuro escorria e misturava-se ao vermelho alegre de seu vestido. A navalha foi limpa e guardada ao lado da carteira WEST.
Elsa nunca repetiu a dose.
Mas nunca se arrependeu também. Agnarr não era culpado pela dor que sentia; ele não era culpado do destino ter deixado em suas mãos uma criança para criar sem auxílio. Não era obrigado a amar alguém que só lhe trazia dor e sofrimento; alguém que lhe lembrava, até demais, de um ente querido perdido.
Sorriu de olhos fechado, sentido na ponta dos dedos, a cicatriz.
Tinha plena consciência da sua mente fragilizada.
A água gelada e o sabonete aromático de maracujá recuperou a consciência perdida no passado. A duplicidade de sentimentos, totalmente opostos, norteava a urgência da situação. Estava aliviada de estar longe do seu escritório, mas o peso em seus ombros aumentava dia-a-dia. Havia telefonado para Esmeralda, pedindo desculpas e informando que não voltaria tão cedo. A mulher concordou e perguntou se estava bem. Elsa confirmou que não.
Esmeralda deve estar sofrendo na mão do Leonard. Sou uma estúpida... Logo ela que se preocupou e me ofereceu tanto apoio! Logo ela que... Fiz isso com todos que me estenderam a mão. Do que adianta.
Seu apartamento lhe parecia desconhecido. O céu tinha um peculiar tom roxo sob as nuvens e pouco do sol vermelho conseguia se desvencilhar dos prédios. Os carros, pequenos pontos amarelos estavam parados em fileira até onde a vista se perdia. Alguns pássaros voavam contentes. Elsa encostou a testa contra o vidro, ainda nua. Não se importou com nada, além do próprio sentimento de ser tão liberta quando aqueles pássaros.
Vestiu um pequeno short de poliéster e uma camisa social branca e perfeitamente passada. O pote de sorvete de baunilha se aconchegou ao lado da loira, que ligou o seu HP Omnibook 6100. Diversos documentos abertos, bem como as Condutas Federais de Comportamento Civil dos Estados Unidos da América. Alguns sites abertos em páginas de Escritórios de Advocacia e associados. Apesar de estar ciente que deveria descansar do trabalho e buscar alguma forma de lazer, Elsa não se contentava: seus anos estavam passando. O que mais iria fazer além de ser produtiva?
O sorvete não lhe chamou atenção.
E como quem guarda uma cápsula, Elsa tinha uma carteira de KENT – a intitulada, em 1952, como ‘câncer pela caixa’ — na gaveta do armário. Aquilo a matou quando mais jovem e, quando mesmo consciente, acendeu o cigarro com um fósforo e a fumaça amarga preencheu sua sala, o sentimento de ser consumida aos poucos lhe tomou. Estava para completar trinta anos e não iria falhar em vida. Encurtá-la seria o ideal, talvez. Não deveria se aposentar.
A mulher loira tossiu um pouco.
As horas pareciam tímidas e caminharam vagarosas. Elsa chegou a mais da metade do extenso documento da Constituição. A palmeira-leque da sala parecia abatida pela nicotina queimada – ou pelo ar condicionado ou pela falta d´água. Os telejornais falam de uma partida de hóquei de gelo. Elsa aspirou forte, observando o papel branco ser tomado pela chama. Deixou os lábios entre abertos para a nuvem negra se dissipar. A imagem de sua mãe surgiu no próprio gás toxico: sorria, tragando mais um. Arrumou os cabelos castanhos em um coque trançado; ‘cante comigo Elsa’ Iduna disse em um inglês arrastado, carregado de sotaque norueguês ‘cante comigo, pois os Estados Unidos dominaram o mundo’:
So I called up the captain, please, bring me my wine.
Então eu chamei o capitão: por favor, me traga meu vinho.
Elsa riu. Não conhecia a melodia. A recordação de 1977 ardia tal como sal em ferida aberta. As palavras saíam da sua boca instintivamente.
He said: we haven't had that spirit here since nineteen sixty-nine.
Ele disse: nós não temos essa bebida aqui desde de mil novecentos e sessenta e nove.
And still those voices are calling from far away, wake you up in the middle of the night, just to hear them say
E ainda assim aquelas vozes estão chamando à distância, te acordam no meio da noite, só para ouvi-las dizerem:
[Welcome to the Hotel Califórnia]
Certamente poderia remeter a música à outra pessoa.
Chamei o capitão enquanto nosso barco afundava. Ele já estava fora do alcance, salvo em seu bote salva-vidas. Lamento Anna.
Abriu os olhos. Uma pressão na altura da nuca. Tinha dormido no sofá, com um copo pela metade de sal de frutas, pingando no carpete. Ainda não tinha amanhecido; manteve-se no sofá – não tão confortável. O silêncio do cômodo permitiu que Elsa se concentrasse nos próprios batimentos cardíacos. Duas batidas ocas foram desferidas na porta principal. A mulher voltou o olhar alertado, buscando enxergar as horas no relógio pendurado do outro lado da sala. A baixa iluminação não ajudou e Elsa continuou sem saber quantas horas eram quando a batida dobrou de quantidade.
Não respondeu, molhando os lábios e se levantando na ponta dos pés. Tinha noção do quanto suas pupilas estavam pequenas e a fria camada de suor frio que se formava em sua testa. Elsa cogitou ligar para recepção, mas desconsiderou a ideia, uma vez que teria que fazer o mínimo que fosse o barulho.
“Elsa” a voz foi abafada “abra, por favor,”.
A mente da loira girou, trabalhando em alta voltagem.
“Esmeralda?! O que faz aqui? Sabe que horas são?!”.
“Não. Que horas são Elsa?”.
A loira suspirou.
“Que faz aqui?”.
A resposta demorou chegar, como se a cigana procurasse alguma justificativa plausível o suficiente.
“É tarde. Sei que está sozinha”.
E quando não estou?
A mulher deixou-se encostar as costas contra a porta e escorregar até o chão. A ideia de ver um rosto amigo e ganhar um abraço parecia totalmente certa. Estava desastrosa, porém. Esmeralda manteve-se quieta por um longo período, o que fez Elsa acreditar que a mesma tivesse desistido. Não seria algo questionável, considerando que sua atitude era ridícula a um nível sem igual. Tamanho era o respeito que sentia por Esmeralda, que Elsa não sabia de onde tiraria forças o suficiente para encarar aqueles irritados olhos verde.
“Como...” A mulher dentro do apartamento buscou manter contato “Estão as coisas na empresa?”
Imediatamente se repreendeu. Que custava perguntar sobre como estava Esmeralda? Se seu carro tinha quebrado nas proximidades, se ela já havia jantado ou tomado algo quente.
“Ruim na medida do possível. Ficaria horrorizada em saber quanta coisa rum eles conseguem aprovar em menos de uma semana” A cigana riu, de forma amargurada. Elsa quase pôde ver o movimento de ombros da mulher “Elsa, entendo que precise sair daquele ninho de cobras, mas precisa falar comigo”.
O cenho de Elsa se endureceu. Esmeralda sabia sobre a existência de um problema grande o suficiente para tirar Elsa da sua zona de conforto. O fato dela se preocupar o suficiente para buscar a razão de tal, era algo simplesmente lógico e, considerando que lá estava ela, altas horas da madrugada, do lado de fora da porta da sua ex-chefe, perguntando se estava tudo bem, lhe dava bastante créditos. Elsa puxou ar o suficiente para inchar seus pulmões, ao mesmo tempo em que segurou de forma possessiva o colar dourado.
“Sobre?”.
Esmeralda bateu a cabeça contra a porta.
“Sobre o porquê de estarmos conversando através de uma porta seria um bom começo”.
A loira deixou seus olhos caírem de vergonha. Sentia sua bochecha queimar. Era um bom questionamento.
“Perdi a chave” declarou com um tom de desespero aliado ao riso.
“Meu Deus, Elsa, suas desculpas já foram melhores”, a cigana riu do outro lado “Começaram a decair na suposta gripe de verão”.
Se paredes fossem transparentes ou falassem, Esmeralda saberia o que aquelas palavras causaram na loira. Seu sorriso sumiu de forma automática, dando lugar a uma careta triste, mais uma vez. Engoliu a saliva para na boca e começou a mastigar devagar a parte interna da bochecha, pensando seriamente no que falar. Um frio repentino tomou conta das suas mãos.
“Você poderia...” a voz de Elsa surgiu, mas morria aos poucos “Passar na 11th Avenida amanhã? O restaurante se chama Eight Legend e ela é garçonete lá”.
“Qual seu nome?”
“Anna”.
Não pronunciava seu nome há tempos. Eles tinham um tom engraçado e era gostoso o encostar da língua no céu da boca. Fazia cócegas. Como a própria dona do nome.
“Quer que eu diga algo a ela?” Esmeralda sussurrou, como quem já sabia a resposta.
“Não!” Elsa subiu o tom de voz de repente, buscando firmeza “Sequer toque no meu nome, Esmeralda! Só a cumprimente, diga boa tarde ou boa noite. Seja gentil. Ela é uma das melhores pessoas que conheci nessa vida e...”.
Bloqueado.
E eu a amo, merda.
“Como vou reconhecê-la?”
Esmeralda fazia as perguntas certas. Certas demais.
“Ela é...” Elsa fechou os olhos. O cabelo cor de cobre quente, as sardas protestantes, o sorriso adolescente e as camisas temáticas. O olhar quente “... Adorável, Esmeralda. Ela é a pessoa mais bonita que você vai encontrar”.
“Srta Arendell, seja prática comigo”.
“Não me chame assim!” Advertiu “Ela é ruiva. A única de lá”.
“Aaaa, então você gosta é de ruivas? Por isso nunca tive uma chance?” Esmeralda buscou um tom de voz mais grave e delicado.
Elsa abafou a própria risada na manga da camisa. Buscou forças e se levantou, sentindo o joelho formigar em discordância. Arrumou os finos fios do cabelo atrás da orelha e acertou a última casa da camisa social agora amarrotada. O telefone fixo da sala tocou e Elsa encarou o além da janela, uma vez mais. Um Boeing 757 de bandeira rosa e vinho sobrevoava ao longe, cortando e desaparecendo dentro das densas nuvens.
Contou até três.
Girou a chave e o tom metálico carregou consigo o momento. Estava abrindo sua casa, no meio da madrugada, para sua secretária. Puxou a pesada porta que deslizou robusta sob as dobradiças bem lubrificadas. Admirou os olhos verdes e o sorriso de alívio de Esmeralda.
Um passo a frente para cumprimentar a cigana.
Longe disso.
Um vulto menor que si tomou conta do seu pescoço. A pressão feita deixou Elsa ligeiramente abatida e tonta, piscando repetidas vezes. A fragrância era conhecida; tomou conta dos seus pulmões. O estrondo abafado de uma bolsa sendo largada no chão, como se não significasse absolutamente nada para ninguém.
"Chame do jeito que você quiser... Medo, coragem ou amor" confessou a voz de hálito quente contra o ombro rígido da mulher, sustentando Elsa em si. Elsa sentiu uma mão espalmada no centro das suas costas. A loira não teve energia para mover sequer um músculo quando o luar iluminou os fios ruivos “Faça disso o que quiser... É o presente que te dou”.
Elsa encontrou os olhos de Esmeralda, sentindo-se quebrada por dentro e por fora. Os olhos verdes emitiam uma apreensão que Elsa nunca tinha presenciado antes. Sua cabeça girou 360° ao se dar conta de que aquilo tudo não era um delírio seu. Seus músculos voltaram a responder. O tato doeu. Entrelaçou Anna, correspondendo ao abraço. Um soluço lhe pulou a garganta.
"Estou aqui, Elsa".
28 de dezembro de 2017
“They're livin' it up at the Hotel Califórnia
What a nice surprise
Bring your álibis”.
Fale com o autor