Spectrum
5 Capítulo 4 – Tranquilidade X Estresse.
Notas iniciais
Boa leitura!
(Reita’s POV)
E lá estava eu, rumando para o apartamento que morava há tanto tempo, nosso apartamento. Vagando por aquelas mesmas ruas que passava todos os dias no caminho de volta. As coisas completamente apáticas para mim. Estava quase tudo na mesma situação desde que a pessoa que alegrava meus dias havia partido, um demoniozinho de um pouco mais de 1,60 de altura. Eu sentia muita falta dele, de sua voz, seu corpo, sua presença. Tudo estava igual desde o dia que ele se foi.
Ou pelo menos, quase tudo.
Aquele dia em especial eu me sentia um pouco diferente. Uma sensação estranha dentro de mim, algo como uma leveza, que eu simplesmente não conseguia identificar ou classificar ao certo. Retomando tudo que havia acontecido naquele dia, a única coisa diferente que aconteceu... Bem, na realidade afetou todo o resto. Uma única coisa, uma única pessoa.
Takashima Kouyou, Uruha.
Seus olhos castanhos tão... Passionais, calmos e dispostos a aprender qualquer coisa, o jeito que ele se atrapalhava com alguns problemas da empresa. Ele não era um daqueles novos empregados que simplesmente queriam dar uma de “super-inteligentes” e que não ouviam uma palavra dos superiores. Prepotentes, na verdade. Não, Kouyou era diferente, ele se mostrou muito disposto a ser ajudado. Uma gentileza de se invejar. Chegava a ser... gracioso.
Gracioso? Hã?
Estacionei o carro na vaga reservada e rumei para o apartamento. Ao me olhar no espelho do elevador, percebi algo que me deixou abismado.
Eu estava sorrindo.
Como não percebi isso? Quer dizer... Desde quando eu saio rindo por aí como um bobo? Ou melhor... Há quanto tempo não saia rindo por aí como um bobo? Desde... Aquele dia.
As portas do elevador se abriram e eu fui para o apartamento, destrancando-o e largando minhas coisas pelo caminho. Não me importava com a bagunça. Sentei no sofá e ouvi o som de várias patinhas contra os azulejos, me permiti sorrir um pouco mais recebendo aquela bolinha de pêlos pretos, que sempre me recepcionava, não importando meu humor.
– Koron-chan. – O peguei no colo e acariciei a parte de trás de suas orelhas. – Hoje o dia foi meio confuso, sabe? Um cara chegou para trabalhar na empresa e ele... Bem, chamou minha atenção.
Koron olhou para mim virando a cabeça para o lado, ele havia estranhado meu tom de voz. Estava calmo.
– Pois é. Acredite se quiser. – Continuei o afago.
Nunca fui muito carinhoso com Koron, isso era dever do Ruki. Ele quem o mimava, falava como se fosse um bebê, e muitas vezes o tratava como um. Só que devido o destino, eu acabei me tornando uma pessoa que se agarrou àquela forma pura de carinho, vinda de um cachorro. E eu precisava mais dos carinhos dele, do que ele precisava dos meus. Meu melhor amigo havia passado a ser um cachorro.
– Mas sabe... – Me levantei, colocando Koron no chão e caminhando para a cozinha, com o intuito de descongelar qualquer coisa no micro-ondas. – Ele me deixou de um jeito que eu não sei explicar.
Koron choramingou.
– Tá, tá. A sua comida primeiro. – E me dirigi à área onde ficavam as tigelas do chihuahua. – Foi algo como... Sei lá... – Falava enquanto colocava a comida na tigela.
– Era... Natural. – Continuei o monólogo. – Me senti bem perto dele.Como se não precisasse forçar um sorriso ou uma atitude agradável. Ela simplesmente apareceu.
Eu não estava fazendo sentido nenhum, estava?
– Talvez se torne um bom amigo. Um cara com quem eu possa conversar abertamente... Quem sabe? – Tirei a lasanha congelada do freezer. – Melhor do que os conselhos malucos do Aoi, que consistem em, basicamente, sair me enfiando – literalmente – em qualquer buraco que encontrar.
O cachorro parou de comer e bufou.
– É, Ruki não ia gostar nada disso.
Minha noite continuou a mesma, com aquela sensação confortável dentro de mim. Eu ainda não a entendia direito, mas era bom. Muito bom pra alguém como eu, que estava praticamente se arrastando por qualquer tipo de carinho. Sempre fui uma pessoa que, ao se deparar com um problema, íntimo e de difícil compreensão, simplesmente o contornava e, naquele momento, essa decisão tão comum pra mim, era a melhor a se tomar. Logo, apenas aproveitei um pouco mais daquilo tudo.
Despenquei sobre a cama, olhando para o lado onde Ruki sempre se deitava, vazio. Fitei o vão da porta do banheiro, onde ele se escorava para me observar com carinho ou estreitar os olhos, irritado, quando brigávamos. Fiz uma vistoria pelo quarto, revivendo várias coisas, vários momentos, meus olhos por fim pousaram no porta-retratos que jazia no criado-mudo, ao meu lado da cama.
O sorriso aberto nos lábios daquele nanico... Estávamos abraçados, tão felizes... Havia apenas um pouco mais de um mês que ele tinha sido tirado de mim, só que mais parecia um ano. Aquela cena mostrada na foto era muito distante da minha atual realidade.
– Boa noite, Ruki. – Sempre fazia o contorno de seu rosto com o indicador antes de dormir e assim que acordava. Quase como um ritual. – Eu te amo.
E naqueles lençóis frios sem o calor do seu corpo, eu adormeci. Porém naquela noite, mesmo relembrando tantas coisas, eu não chorei. E pela primeira vez em muito tempo, a pessoa que pensei logo antes de cair em um sono profundo – algo raro para mim – não foi Ruki, mas alguém bem mais alto, loiro e com olhos que me passavam carinho e segurança.
Estava dopado de sono e já não raciocinava direito, meu subconsciente tomando as rédeas da situação, e por fim não pensei em mais nada.
~~
Acordei bem disposto, uma novidade. Dei bom dia para meu “Ruki”, nenhuma novidade.
Levantei e fiz minha higiene matinal, saí do banho em direção à cozinha com um trocinho preto no meu encalço. Koron me olhava com expectativa. Era engraçado como cachorros conseguem perceber as coisas antes delas acontecerem de fato. Ele me dizia com aqueles olhos que hoje teria uma surpresa.
Tomara.
Comi meu café da manhã com calma, e depois de pegar todas as minhas coisas, rumei tranquilamente para o estacionamento. Olhei para o relógio do carro e percebi que estava atrasado e simplesmente não me importava... Desde quando? Bom, tanto faz.
Arranquei – não tinha como, mesmo não me importando com o atraso eu adorava andar rápido – e em pouco tempo estava na empresa que trabalhava há algum tempo. Não foi surpresa avistar Aoi encostado em uma coluna esperando que eu descesse do carro, com um sorriso brincando nos lábios. Eu sabia que ele iria perguntar sobre Uruha, o moreno era uma pessoa extremamente previsível quando se tratava desses assuntos.
Saí do carro respirando fundo, me preparando para um bombardear de perguntas.
– Bom dia, Aoi. – Falei ao me aproximar dele.
– Bom dia, Reita. – Yuu desencostou-se do carro e abriu seu sorriso. – E então? Como foram as coisas com o novo queridinho da empresa?
– Oh, ele já virou queridinho?
– Claro, né? – Bufou como se aquilo fosse uma coisa óbvia. – Quer dizer, pelo menos entre as mulheres e homens como nós. – Piscou. – Mas também, eu não culpo o garoto. Lindo, gostoso, novinho e prodígio. Quem não quer?
Aquilo era típico do meu querido amigo. Não podia ver um rabo de saia e saia correndo atrás.
Quer dizer, não exatamente de uma saia...
– Ele tem potencial, mas é um pouco atrapalhado com as coisas. – Falei me permitido rir um pouco.
– Ooooh... O que temos aqui? Um Reita rindo! – Ele estava feliz por isso. Por mais idiota que fosse, sempre se preocupou muito comigo. – Será que teremos algo rolando entre você e o... Qual o nome dele mesmo?
– Uruha.
–Uruha? Isso não me parece um nome. – Aoi franziu o cenho.
– Ah, foi mal, acabei falando o apelido. – Curioso como me acostumei rápido com isso. – O nome é Takashima Kouyou.
– Huum. – Ele riu abertamente. – Já estamos usando apelidos? Se bem que se encaixa.
– Ele que pediu, sabe como eu gosto de tratar o pessoal como amigos e não só como colegas de trabalho. – Contornei a situação, antes que isso atiçasse a imaginação daquele louco, enquanto entrava no elevador.
– Costumava gostar. – Aoi sussurrou enquanto encarava o painel que indicava os números dos andares.
Sim, eu havia me tornado extremamente frio com as pessoas, mas eu tinha um motivo pra tudo aquilo. Estava no meu direito e ponto final.
O elevador abriu e saímos da caixa de metal. Todos estavam correndo como loucos. Não estava entendendo nada, se algo grave tivesse acontecido era pra eu ter sido avisado de primeira. Assim que perceberam minha presença e a de Aoi, pararam de correr e começaram a me olhar, totalmente desesperados.
– AKIRA! – Vi uma cabeleira negra se aproximando e dois olhos extremamente azuis me encarando. Era Takeshi, que sempre foi minha ponte de contato com os chefões da Yamato, veio correndo em minha direção. Uruha estava ao seu lado, completamente afobado e com uma pilha de papéis nas mãos. – Por que demorou tanto pra chegar? Por acaso ficou doido? Justamente hoje?
Eles não me viam muito como um diretor, isso às vezes me irritava.
– O que aconteceu? Qual o motivo dessa pressa toda?
– Não se lembra? Hoje é o dia que aquela empresa alemã vem pra uma possível parceria! – Disse sem ar. – Era pra você ter chegado mais cedo, escolhido com quem iria para a reunião e logo depois ter subido pro último andar! Yamato-sama está louco atrás de você. Por sorte ele não é um carrasco contigo.
Fechei meus olhos. PORRA, como fui me esquecer disso? Não tinha mais o que pensar, não tinha tempo. Olhei para o loiro ao lado de Takeshi, é, seria ele.
– Você vem comigo, Uruha. – Falei pegando seus papéis e dando para um Aoi totalmente atordoado com a situação, pelo visto ele também havia se esquecido.
– Como? – Kouyou estava atordoado, não o culpava.
– Ei, mas ele acabou de chegar, ainda não sabe de nada! – Takeshi pareceu contrariado, mas eu não tinha tempo para o discurso que ele provavelmente iria fazer.
– Sabe o suficiente. – Cortei. – Vamos logo.
– Ahn? Ah... T-tá. – Uruha acabou por se deixar levar pelas minhas mãos que o empurravam para o elevador.
Peguei a gravata que estava no pescoço de Aoi, por pura falta de uma memória melhor, acabei esquecendo a reunião, e tinha que parecer apresentável na frente dos donos da empresa.
– Hey! — Yuu contestou.
– Depois eu te devolvo. – Falei enquanto as portas de metal se fechavam.
Virei para o espelho para ajeitar a gravata preta de Yuu no meu pescoço. Também acabei por retirar a faixa que contornava meu rosto, por mais que Yamato-san estivesse acostumado com ela, os donos da empresa alemã não estavam, e naquela hora, imagem era metade do caminho andado.
– Só aja normalmente, Uruha. – Percebi que o loiro estava tenso enrolando os dedos das mãos. – Eles não vão te morder.
– Por que me escolheu? – Ele olhou pra mim e seu olhar se perdeu por alguns segundos e a boca entreabriu.
– Eu sei que fico estranho sem ela. – Falei colocando a famigerada faixa no bolso da calça. – Mas tente não se assustar.
– Não era iss- – frase se perdeu no meio da boca quando uma voz grossa de um homem gordo de cabelos grisalhos alcançou nossos ouvidos.
– Suzuki-san! – Era Yamato-san. – Juro que te matava se não fosse um colega tão estimado. – Ele estava irritado.
– Então vou agradecer à sua amizade assim que a reunião acabar. – Saí do elevador com Uruha em meu encalço, ele estava nervoso, mas se sairia bem.
Entrei na sala de reuniões do andar tentando fazer eu mesmo relaxar, aquilo era muito importante. Torça por mim, Ruki.
~~
O dia passou, e no final da manhã já estava de volta à minha sala organizando as anotações que havia feito.
No final das contas a reunião foi um sucesso, se não fosse por um detalhe, os donos da tal empresa alemã queriam um relatório econômico completo da empresa para o próximo mês. Aquilo não seria um problema no todo, mas precisaria de muitas pessoas para me ajudar. Uma delas eu já havia escolhido.
–Uruha, quero que me ajude com o relatório. – Falei distraído em meio a tantos papéis.
– Tem certeza, Suzuki-san? – Indagou.
Ele havia se saído bem, surpreendeu inclusive ao Yamato-san que viu uma galinha de ovos de ouro no lugar daquele garoto loiro. Ele conseguiu me ajudar com todas as perguntas que eu precisei de apoio ao responder.
– Claro que tenho. Você se saiu bem para a primeira reunião. – Olhei para Uruha que sorriu abertamente.
– Obrigado, Suzuki-san. – Ele se levantou se curvando levemente em sinal de agradecimento. – Se não precisa mais de mim, eu vou terminar a papelada que ficou de ontem.
– Tudo bem, Uruha. Pode ir.
Ele se virou, agradecendo mais uma vez, e finalmente saindo da sala.
Não tive nem sequer um segundo de silêncio, pois um moreno afobado abriu a porta como se um vendaval estivesse passando.
Fechei os olhos tentando me acalmar, hoje não teria sossego.
Aoi se colocou na frente da minha mesa, debruçando-se e espalmando as mãos sobre os papéis que estavam na minha frente, exigindo minha atenção de maneira bem infantil.
– E então, como foi lá? – Ele estava preocupado, afinal, ele fazia parte desse departamento também.
Puxei uma grande quantidade de ar e soltei de uma só vez. Ia falar tudo, não esperando comentários. Fiz um grande resumo de tudo que havia acontecido, seu rosto ficou aliviado, mas também estava preocupado com o grande relatório que eu teria de fazer.
– Você vai precisar de ajuda não, é? – Falou assim que terminei de lhe explicar tudo.
– Sim, e queria que você me ajudasse também. – Sabia que podia contar com meu amigo.
– Pode deixar! – Ele caiu em uma das cadeiras que estavam ali. – Mas já escolheu outra pessoa pra te ajudar?
– Sim, Uruha.
Ele riu alto.
– Sabia! – Conseguiu falar entre os espasmos do riso. – Takeshi ficou bastante irritado quando escolheu o Uruha ao invés dele. Talvez ciúmes... – Levantou uma sobrancelha.
– Não seja idiota. – Voltei a ler os papéis na minha frente. – Ou melhor, mais idiota. – O olhei de esguelha.
– O que me lembra da ideia que tive. – Voltou a se levantar, mas caminhou em direção à porta. – Vamos ao bar nesse final de semana, e dessa vez você não escapa. – Sorriu maliciosamente enquanto abria a porta e se colocava pra fora da sala.
Finalmente eu teria paz.
– AH! – Aquela voz irritante soou de novo, Aoi havia colocado a cabeça para dentro. – Quase ia me esquecendo!
– O que foi? – Estava cansado, só queria um pouco de calmaria pra poder me concentrar no trabalho.
– Vou chamar o querido Kou também! – E antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, o maldito fechou a porta me deixando com uma expressão confusa.
O que aquele maluco tinha na cabeça? Só de pensar, senti calafrios.
Era melhor eu voltar ao trabalho.
~
Notas finais
Tem algumas pessoas que sumiram, vou dar um cascudo em vocês .n /hm
Os POVs do Reita vão ser necessários em alguns momentos pra poder explicar o outro lado, mas o próximo será do Ruki novamente :)
O que será que vai acontecer? Vindo do Aoi...
E como será que o Ruki vai reagir a tudo isso? /hm
Façam suas apostas!
Enfim, espero que tenham gostado!
Ah! Antes que eu me esqueça, não vou misturar bandas então... Mesmo se eu vier a colocar um nome que vocês associem com algum músico, é mera coincidência. São apenas OC's :)
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