Spectrum
4 Capítulo 3 – Sorrisos e um mirante.
Notas iniciais
Boa leitura!
Enquanto isso, eu percebi que, que assim que o loiro virou-se, os olhos de Reita voaram para ele, o analisando de cima a baixo. Acabando por levantar as duas sobrancelhas em surpresa. Isso não era um bom sinal. Ele havia se impressionado com a beleza do homem à sua frente.
Pelo visto ele não deixaria nem meu corpo esfriar. Eu tinha que fazer alguma coisa... Qualquer coisa.
~
O dia transcorreu tenso para todos nós. Reita estava tenso com seu novo companheiro de trabalho, ele errava algumas coisas e acabava por tirar Akira do sério. Uruha por sua vez ficava desesperado com esses momentos, e seus olhos castanhos ficavam praticamente implorativos.
Era jogo sujo. Reita podia ser uma pessoa muito mais fria desde que eu “saí” de sua vida, mas ele sempre foi alguém que nunca conseguia ver tristeza nos olhos das pessoas sem se sentir tocado.
E eu ficava cada vez mais possesso com tudo o que acontecia, aquele loiro por mais tímido que parecesse à primeira vista, acabava por ganhar a simpatia de todos daquele departamento com seus sorrisos e suas gentilezas. Incrível pra um primeiro dia de trabalho. Eu ficaria impressionado se pudesse, se meu humor me permitisse.
Já eram sete horas da noite e o prédio ficava cada vez mais vazio. Quanto a mim... Fiquei vagando pelo andar, vendo que esperar aqueles dois na sala de Reita era uma perda de tempo. Era até legal caminhar pelos corredores vazios que outrora me metiam medo quando vinha buscar Akira. Em todos os sentidos da frase, eu era uma alma penada vagando no edifício.
Olhava o senhor da limpeza terminando de passar o pano naquele chão que, a meus olhos, já estavam mais que limpos. Queria saber fazer algum truque como aparecer no espelho e lhe pregar um susto... Seria legal.
Tá bom, Takanori. Vamos parar de bobagens, seu namorado está na sala com um loiro lindo e você aqui pensando idiotices.
Rumei para aquela sala que ainda continha os dois loiros finalizando planilhas.
– Vamos Rei-chan... Já está tarde. Vamos voltar pra casa. – Pedia manhoso ao seu lado.
– Já está ficando tarde, Suzuki-san. – Kouyou falou logo após e eu me senti vitorioso. Apesar de ter sido um pouco estranho.
– Realmente. – Reita suspirou esticando o tronco e desligando seu computador, não antes de salvar o trabalho feito. – Vamos embora. Amanhã terminamos o que ficou faltando.
Ambos se puseram de pé e começaram a arrumar suas coisas. Kouyou acabou por passar os olhos pela sala de Akira enquanto esperava este terminar de guardar suas coisas. Ele ficou observando os diplomas da faculdade, congressos, entre outros que estavam pendurados nas paredes. Vasculhou tudo, se aproximando da prateleira que continha vários livros sobre economia, contabilidade e administração. Entre eles, havia um livro que tinha deixado por lá em uma das vezes que o esperei. Era O Mercador de Veneza*, um dos meus favoritos. Achei que o havia perdido e acabei por rir triste, já que minha atual situação me impedia de lê-lo novamente.
– É um ótimo livro. – Kouyou o tirou da prateleira. – Tem um senso de humor bem inteligente.
– Pelo menos você tem bom gosto. – Bufei.
Reita parou o que fazia pra poder olhar sobre o que Uruha falava. Sua vista parou no livro que estava naquelas mãos. Percebi seus olhos passarem por sentimentos como: Confusão, espanto, entendimento, raiva e, por fim, tristeza. Era um pedaço meu que estava ali e ele nem havia se tocado.
– É mesmo? – Respondeu ácido. – Nunca o li, deixe-o onde está.
– Ahn?... Ah- Ah, Sim. – Envergonhou-se e colocou meu livro de volta em seu devido lugar. – Se nunca leu, por que ele está aqui? Está bem usado para algo que nunca foi lido. – Ele era observador.
– Alguém o leu e o deixou aí. – Reita o cortou e voltou sua atenção para porta, passando por Kouyou sem se importar com sua presença.
– Alguém!?!? – É, aquilo tinha me irritado. – Alguém EU, sua cacatua depenada!**
Nem havia percebido que Uruha nos seguia, ou melhor, seguia Reita. Dependia do ponto de vista. Entramos no elevador, um silêncio incômodo se instalando. Assim que a porta se abriu, no térreo para que o mais alto descesse, levamos um susto, pois ninguém estava esperando uma chuva torrencial do lado de fora. Foi questão de segundos, já que não havíamos ouvido nenhum barulho de chuva de dentro da sala.
Kouyou gemeu tristonho, provavelmente não havia trazido nenhum tipo de proteção e eu não pude controlar um risinho que acabou por sair dos meus lábios imaginando aquele loiro com o cabelo todo perfeito, ensopado pela chuva. Levando em consideração seu físico, molhado, ele iria parecer um gato que foi alvo de um balde com água.
Dessa vez eu ri alto, imaginando a cena. Mas parei assim que ouvi o som de um baque abafado.
Reita havia segurado as portas do elevador.
– Venha, Takashima. – Ele estava hesitando... Por que estava hesitando? – Eu... Eu te dou uma carona.
– Como!?!? – Quase gritei.
– Ah, não precisa se preocupar, Suzuki-san. Essa chuva vai logo passar. – E assim que Kouyou fechou os lábios um trovão irrompeu. – É... Esquece. – Desistiu, entrando no elevador.
E assim seguimos para o estacionamento.
~~
– Obrigada pela carona, Akira-san. – O loiro saiu do carro. – E desculpe pelo incômodo.
– Não foi nada, Uruha. – Ele sorriu gentil.
Travei exatamente naquele momento, enquanto o outro fechava a porta e corria para dentro de seu humilde prédio em uma rua estreita localizada a quase uma hora do edifício da Yamato & Co.
– Há quanto tempo eu não via esse sorriso, Rei? – Sussurrei tão baixo que mesmo se estivesse vivo, apenas eu teria ouvido.
Ele continuou todo com os lábios levemente torcidos para cima, talvez nem estivesse percebendo. Aquilo havia me desmontado completamente. Qualquer ciúme ou raiva que eu tinha daquele garoto... Simplesmente sendo ignorados.
Ele havia colocado o mínimo de um sorriso no rosto do meu Akira.
Nem percebi quando chegamos ao prédio em que morávamos, ainda estava um pouco confuso.
Reita desceu do carro e eu me permiti ficar ali dentro, o silêncio quase me engolindo e a escuridão daquele estacionamento me deixando pior. Eu não conseguia entender o que estava sentindo, se era raiva, se era gratidão... Era muito confuso. Eu não queria seguir meu namorado, ficar vendo seu rosto mais leve me deixaria com um nó na cabeça. Não que eu já não estivesse com um, mas este acabaria por apertar. Não era amor, foi tudo muito superficial. Não era paixão. Será que era atração?... Podia ser.
Isso seria normal em qualquer outra situação. A questão era que Reita tinha perdido alguém que considerava vital, havia me perdido. Não era falsa modéstia ou qualquer coisa, eu sabia da importância que eu tinha para ele, e a maior confirmação veio nos dias depois da minha morte.
Além disso, desde quando uma atração deixa uma pessoa tão... Leve? Eu não sei como colocar em outras palavras, mas era o melhor jeito de descrever aquela expressão. Algo como estar muito tempo debaixo d’água e depois voltar à superfície agarrando todo o ar possível e depois sentir aquele alívio gostoso de ter o oxigênio recuperado... Era exatamente isso.
Como se Reita estivesse com o alívio de ter recuperado algo.
Pensar nisso fez com que minha garganta secasse, e eu sentia um leve formigamento na parte de baixo do olho. Sim, eu ainda podia chorar.
E depois daquilo, por incrível que parecesse, eu precisava de um lugar maior. Poder ver o vento atingindo as coisas, um lugar aberto. Com certeza seria melhor do que a sensação de ter sua cabeça esmagada por aqueles pensamentos e por aquelas paredes de metal que pareciam ainda menores. Elas estavam encolhendo? Legal, ia ficar claustrofóbico depois de morto.
Saí logo do veículo e andei sem rumo por aquelas ruas de Tóquio. Algumas movimentadas, devido o comércio, outras vazias. Acabei parando em um mirante, um pouco mais distante da cidade. Outra vantagem de estar morto é que você não se cansa, seus músculos não fadigam e seus pulmões não clamam por ar. Poderia andar o Japão inteiro se quisesse.
A vista do mirante era de tirar o fôlego, se eu ainda o possuísse. Tóquio era uma cidade realmente bela, por mais caótica que fosse. Suas luzes durante a noite eram hipnotizantes, as pessoas vivendo suas vidas agitadas, os arranha-céus, os belos prédios envidraçados, as áreas arborizadas...
Era realmente... –
– Lindo, não é? – Uma voz soou no escuro.
Quase morri de susto.
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Vocês entenderam.
Sobressaltei-me de primeira, mas depois me acalmei. Afinal, o que quer que fosse não poderia estar falando comigo. Olhei para os lados procurando alguém, não a pessoa que fosse dona da voz, aquilo não me importava muito, mas sim a pessoa para quem ela estaria falando.
Me assustei ainda mais, arregalando os olhos, ao perceber que ninguém estava ali pra responder aquela voz. Essas coisas sobrenaturais já estavam me tirando do sério.
A voz riu... Uma voz rindo?
– Pelo visto é a primeira vez que alguém fala com você. Eu não te culpo, a primeira vez que falaram comigo foi bastante bizarro. – E eu finalmente pude enxergar uma silhueta que ficava cada vez mais visível à medida que se aproximava do parapeito do mirante onde havia alguns postes de luz que iluminavam fracamente o lugar. – Eu estava vagando pela rua quando uma garotinha me perguntou as horas. Eu me senti num filme de terror! Ela ainda tinha os cabelos longos e lisos. Assustador!
– C-Como? – Talvez eu estivesse virando esquizofrênico também.
– Estamos no mesmo barco, baixinho. – Tudo bem, ele era mais alto do que eu, mas aquilo não lhe dava o direito de me chamar assim! – Me espanta ninguém ter falado com você ainda. Você morreu recentemente?
– Um mês e alguns dias... – Respondi. É, agora além de ouvir coisas, estava respondendo elas. – Você é real, ou é só coisa da minha cabeça?
– Tão real quanto você. E somos tão reais o quanto a chamada “realidade” nos permite. – Ele se debruçou no batente, jogando uma pedrinha que estava ali para longe com um peteleco. Eu teria me impressionado por um feito tão bobo e lhe enchido de perguntas se este não tivesse indagado antes de mim. – Então, qual o motivo dessas feições tão tristes e confusas? Namorada... ? Parentes... ? Amigos... ?
– Namorado. – Acabei voltando a todos aqueles sentimentos que haviam ficado de lado com a surpresa vinda da minha nova companhia.
– Ah... Nossa. – Ele gargalhou de forma gostosa, riria também se não estivesse aturdido novamente. – Sinta-se honrado, é o primeiro fantasma gay que conheço.
Não pude evitar uma risada também, minha própria definição era cômica.
– Me sentiria, mas preferia não ser um fantasma, por consequência, não ter te conhecido. – A acidez escorrida na minha voz.
– Pelo visto estão certos ao dizerem que pessoas de baixinhas são esquentadas. – Levantou os braços em sinal de defesa. – Eu só queria ajudar.
– Você não pode fazer nada. – Ralhei. – EU não posso fazer nada... A felicidade dele já não depende mais de mim. – Deixei uma lágrima teimosa escorrer.
– Ele? Ah... Entendi. – Fez uma pausa. – Mas isso é o normal, certo? – Retrucou.
– Normal? Por que seria normal a pessoa que você ama, e que te ama de volta, ficar “feliz” desse jeito por outro? – Eu falava como se ele soubesse tudo o que estava acontecendo. – Ele não devia ter sorrido daquela forma... – Completei baixinho. Estava neurótico.
– Hm... – Ele pareceu refletir um pouco. – Você parece estar passando por uma situação difícil.
– Não me diga... – Ri debochado.
– Mas pense bem na sua situação... – Recomeçou o falatório. – Você não está em estado de fazer qualquer coisa por ele sabe? Você até pode acompanhá-lo, mas ele não vai perceber sua presença. Você pode falar com ele, e continuar o amando... Mas para ele isso não existe. Para ele, tudo isso morreu junto com você. De que adianta querer que ele só seja feliz com as coisas do passado se ele vive no presente? – Apesar da dureza das palavras, elas vieram doces.
Eu não havia pensado naquilo.
– Mas... Ele disse que nunca iria me esquecer. – Eu estava desesperado, ele podia ter falado com calma, mas aquelas palavras estavam queimando na minha cabeça. Não apenas elas, mas todo o raciocínio. – ELE PROMETEU!
Eu já estava gritando, aquilo era decadente.
– E quem disse que seguir em frente significa esquecer? – Ele olhou para o céu, estava perdido em pensamentos e percebi que aquele conselho vinha com uma dose de experiência. Ele havia se identificado de alguma forma. – Já está amanhecendo.
Era verdade, o céu já estava perdendo aquela coloração negra e ficando cada vez mais claro. Já era possível ver um fino ponto luminoso nascendo ao longe. Já havia passado tanto tempo assim? Quanto tempo eu fiquei no carro e aqui? Eu precisava voltar, Reita logo iria acordar.
– Foi bom conversar com você baixinho. – O estranho me sorriu gentilmente, duas covinhas aparecendo no processo. – Quem sabe a gente não se “esbarra” por aí? – Falou fazendo o sinal de aspas com os dedos.
O homem que estava comigo virou-se, me deixando apenas com a visão de suas costas e seus cabelos castanhos. Suas palavras ainda estavam surtindo efeito em mim, ainda estava digerindo elas. Mas não podia ficar tanto tempo longe daquele apartamento, daquela presença de Reita. Precisava voltar, já não sabia quanto tempo havia levado pra chegar onde estava.
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* O Mercador de Veneza de William Shakespeare, sou apaixonada pelo livro e pelo filme. Recomendo ♥
** Às vezes eu chamo o Reita assim... Juro que é inconsciente q
Notas finais
Repararam que agora estou colocando nomes nos caps? Adoro fazer isso, mas alguns vão ficar toscos...
Será que vocês vão conseguir adivinhar quem é o estranho do mirante? Hm, hm? /claroquevão.
Pois é... Ainda vamos ter alguns surtos do Ruki por aí, preparem-se.
Relevem qualquer errinho que possam achar, ok?
Acho que é isso...
Quem quer um POV do Reita aí? Hein? Hein? 8D
Bom... Até a proxima o/
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