Spectrum

18 Capítulo 17 – Deixe-me te contar algo...


Notas iniciais
PRESENTE DE FERIADO ~~
Yaay, dessa vez minha beta linda e cheirosa Yukari-chan me entregou o capítulo no dia certo! o/
Boa leitura!



(Reita’s POV)


Eu não sei quando comecei a sentir aquele aperto quente nos meus pulsos, nem quando o perfume dele tinha chegado ali... Estava tão perdido no meio da minha tristeza, que simplesmente não percebi. Engraçado era como essa confusão se aplicava não só àquele momento, mas também a toda a loucura que eu tinha passado nas últimas semanas ou meses, nem os dias eu contava mais.


Uruha simplesmente tinha aparecido e virado tudo de cabeça pra baixo – perdão pelo clichê da frase, mas essa é a melhor forma de explicar –, ou pelo menos era isso que eu queria acreditar, sinceramente? Ele tinha era organizado tudo o que estava acontecendo. Eu é que estava negando.


– R-Reita. – Sua voz invadiu meus ouvidos. – O qu-


Não tinha condições de responder qualquer pergunta. Apenas me soltei do seu aperto, com um pouco de dificuldade, e circulei sua cintura com os braços, escondendo meu rosto na curva de seu pescoço.


Eu queria tanto aquele contato, tanto...


O loiro em meus braços ainda demorou um pouco para corresponder, mas logo pude sentir seus dedos emaranhando-se em meu cabelo e seu corpo se colando ainda mais ao meu. O calor que ele emanava era reconfortante, nem parecia que eu estava desesperado há alguns minutos, jogando todos aqueles objetos no lixo. Por mais que não quisesse admitir, estava fazendo aquilo por ele, eu queria tentar fazer as coisas da forma que eu achei certo, mais uma vez errando vergonhosamente.


Tantos erros, com Ruki, com ele, com todos ao meu redor.


As lágrimas começaram a rolar e pela primeira vez eu não tinha mais forças pra impedir que elas aparecessem, os soluços fazendo com que meu corpo chacoalhasse. Só ignorei meu orgulho ridículo que implorava que eu não fizesse isso na frente de Uruha, mas eu não ia sair daquele abraço.


Virei o rosto procurando por seus lábios em desespero. O beijei sôfrego, minha saliva se misturando com a sua, minha língua buscando afoita a outra, deixando de lado qualquer pensamento racional, meus dedos se firmando em sua cintura, fiquei relembrando seu gosto, explorando sua boca, até que o ar começasse a fazer falta.


Uruha começou a se afastar, mesmo contra minha vontade, em busca de ar. Tentei retomar o ósculo interrompido, mas ele segurou meus ombros me mantendo no lugar.


– Calma Reita. – Disse com pouco fôlego. – Você precisa me explicar de uma vez, o que significa tudo isso. Eu mereço.


Suspirei e fitei os orbes que me encaravam confusos. Com certeza não deve ter sido muito agradável me ver naquele estado de ainda pouco. Enxuguei as poucas lágrimas que ainda caiam e olhei para a foto que continuava segurando, por pouco não fiz uma besteira.


– Tem razão. – Minha voz estava rouca e cansada. – Vem, vamos entrar. Está começando a esfriar.


Uruha apenas maneou a cabeça em afirmação.


Olhei a caixa de papelão vazia, não adiantava levá-la pra dentro, a única coisa que havia sobrado era o que estava em minhas mãos. Não ia lamentar o que já estava feito, pelo menos algo tinha sido “salvo”.


Segurei a mão do loiro ainda em minha frente, entramos no prédio, subimos em silêncio e fomos direto ao apartamento onde um chihuahua desesperado esperava que eu voltasse.


– Tudo bem, Koron. – Ri sem graça, deixando que Uruha entrasse. – Não foi dessa vez que você se livrou de mim.


Kouyou franziu o cenho em preocupação.


– Eu vou te explicar, calma. – Pedi.


Retirei seu casaco e o meu, pendurando-os nos ganchos da parede ao lado da porta e o guiei até o sofá da sala, sentando-me ao seu lado.


– Quer alguma coisa? Um como d’água? Parece cansado... – Não havia me esquecido do quão cansado ele parecia.


– Não, eu estou bem, só fiz uma pequena corrida do ponto de ônibus até onde você estava.– Sorriu.


O silêncio que se instalou não foi muito agradável.


– Então, a que devo sua visita? – Indaguei. – Com certeza não foi pra testemunhar aquilo.


– Na verdade não, eu vim porque... – Uruha mordeu o lábio inferior. – Bem, eu não engoli a sua resposta de ontem, pra ser sincero.


– Não imaginei que iria.


– E então? – Arqueou as sobrancelhas.


Inspirei fundo e tentei organizar meu pensamento pra poder lhe contar tudo, não seria fácil, mas ele realmente merecia saber o que estava acontecendo.


O entreguei a foto que ainda segurava com força, ironicamente com medo que algo acontecesse com ela. Kouyou a observou atentamente e seu semblante passou de confusão para compreensão em poucos segundos, ele havia entendido.


– Esse é o Ruki, não é? – Deduziu, apontando para o baixinho que estava sorrindo em meus braços na foto, seus cabelos ainda loiros nessa época.


– Sim. – Confirmei. – Foi Aoi quem te contou mais sobre ele?


Só precisava confirmar, não era preciso pensar muito pra chegar nessa conclusão.


Uruha assentiu levemente. Sabia.


– O que ele disse?


– Só que... Ele era alguém muito importante.


– No final das contas Aoi pelo menos foi sensível o suficiente pra me deixar a decisão de quando te contar sobre o Ruki. – Sorri, negando com a cabeça. – Ele sabe ser sensível quando quer.


O loiro sentado ao meu lado não falou nada, apenas esperou que eu continuasse.


– Ruki e eu namoramos por... – Fiquei pensativo. – Uns quatro anos.


A boca de Uruha se abriu em um “o” perfeito, mas continuou em silêncio.


– Conheci Matsumoto Takanori, ou o famigerado “Ruki”, quando a Yamato foi destaque de uma revista sobre negócios, que era editada no mesmo edifício em que Ruki trabalhava. – Ri fracamente, lembrando-me daquele dia. – Não foi um bom primeiro encontro, literalmente esbarrei com ele quando estava acompanhando Yamato-san para uma entrevista e ganhei uma chuva de xingamentos de um baixinho enfezado que nunca tinha visto antes. Mesmo sendo esquentado e muito temperamental, aquele jeito dele realmente me encantou e, depois de conhecê-lo melhor, não demorou muito pra que eu estivesse praticamente lambendo o chão que ele pisava.


– Difícil te imaginar nessa situação. – Uruha sorria de lado.


– Acredite, falar isso é até um eufemismo. Aoi sempre dizia que eu tinha sorte de Ruki não ser um aproveitador que ia pegar todo o meu dinheiro e se mudar pra Europa! – Dramatizei arrancando risos do loiro ao imitar a voz de Yuu. – Nós vivíamos em pé de guerra, eu sempre era o passional que acalmava as discussões e ele era o que sempre as provocava. Mas Ruki era realmente a pessoa que eu achei que ia passar o resto da minha vida, por mais idiota que isso possa soar. Ele era único, você ia gostar dele, era fácil se apegar ao baixinho, alguém que você pode confiar a vida, extremamente protetor com quem se importava.


– E então, o que aconteceu? – Kouyou indagou receoso. – Ele realmente te deixou?


Suspirei e encarei Koron que nos olhava atentamente.


– Digamos que sim... Mas não por querer. – Não via o rosto de Uruha diretamente, mas podia dizer que seus olhos estavam um pouco arregalados. – Há... – Olhei para o relógio da sala, checando a data do dia que estava ali. – Quase quatro meses ele morreu.


Já havia passado tanto tempo assim?


– Depois de muito esforço na Yamato, finalmente fui reconhecido e ganhei a promoção para “diretor do setor de economia”. – Imitei a voz de Yamato-san, quando me deu o aviso. – Eu não podia estar mais feliz, finalmente tinha chegado ao meu ideal, uma casa, um cachorro, um bom emprego e alguém pra me aguentar. – Sorri sem gosto. – Sim, sou um cara antiquado por mais que não pareça. – Respondi indiretamente a pergunta não feita. – Saímos pra comemorar, Aoi ficou bêbado como todos nós e eu e Ruki voltamos a pé pra casa, cantando e gozando da vida como qualquer pessoa. Até que... – Forcei para que minha voz não desaparecesse. – Um carro cheio de adolescentes apareceu e... Enfim. – Não conseguiria continuar, já estava com aquele maldito nó na garganta novamente. – Acho que você já pode imaginar o resto. Os médicos “fizeram tudo o que podiam” – Ironizei. — Naquela noite eu ia pedi-lo em casamento, mas... Ele nunca vai saber disso.


E o silêncio fúnebre permaneceu, até que senti sua mão segurando a minha e sua testa encostada em meu ombro.


– Eu sinto muito, Reita. – Eu sabia que algumas lágrimas de Uruha estavam escorrendo.


Com a outra mão acariciei os fios loiros que escondiam seu rosto e beijei o topo de sua cabeça. Não iria me arrepender disso, não queria negar esse apoio, não agora.


– ‘Tá tudo bem.


– Não me pareceu muito bem lá em baixo no meio das lixeiras. – Tentou brincar.


– Eu queria me livrar de algumas coisas que tinha guardado, mais uma vez tomei uma decisão idiota.


– Que bom que eu pude salvar isso. – Me devolveu a fotografia que ainda segurava. – Me parece muito importante.


– E é, obrigado Uru. – Encarei seus olhos tristes de esguelha e depositei um selo demorado em seus lábios. Não estava agradecendo apenas por aquilo, mas todo o resto.


Uruha endireitou o corpo, me encarando com aqueles orbes de um castanho profundo, parecia bobo, mas era como se ele estivesse lendo tudo o que havia escondido dele por tanto tempo. Interpretando tudo o que havia feito nos últimos meses de forma diferente, entendendo o que estava acontecendo de verdade.


– Ainda dói, não é? – Perguntou por fim.


Não tinha como dizer que não, estava chorando até poucos instantes por conta daquele bendito baixinho e as lembranças que tentei jogar fora, literalmente. Queria poder dizer que estava bem pra poder aceitar tudo isso que sentia, que ficaria com ele e seguiria em frente sem arrependimentos, mas Uruha já me conhecia o suficiente pra saber que estaria mentindo.


Imagino o que ele irá fazer...


– Como o inferno. – Confessei.


– Eu não estou te facilitando muito as coisas não é? – Estreitou os olhos.


– Se me perguntasse isso um mês atrás eu provavelmente diria que sim. – Sorri para o loiro ao meu lado. – Mas de um tempo pra cá eu percebi que eu sou o único que não estou facilitando as coisas pra mim.


– Eu... Eu sinto muito. Não queria você se forçasse a alguma coisa, Reita.


Aquilo me pegou desprevenido. Franzi o cenho e mesmo não tendo lhe perguntado nada, Uruha respondeu.


– Eu entendo o que você tem feito esse tempo todo, agora eu posso finalmente compreender. – Começou a explicar. – Desde que você achou que eu fosse o Ruki por te chamar daquele jeito quando estava bêbado há semanas, eu já suspeitava de algumas coisas, digamos que eu já esperava quase tudo o que você me disse agora. Mesmo entendendo que não foi fácil você me contar o que aconteceu, eu queria que você tivesse me dito antes. – Uruha desviou os olhos para um ponto qualquer, enquanto corava. – Não teria feito metade das coisas que fiz.


– Não quero que se arrependa das coisas que fez. – Estreitei os olhos.


Ele se levantou e eu o acompanhei, queria saber onde ele queria chegar, só que ele mais parecia que queria sair daqui o mais rápido possível.


– Nem imagino o que você deve ter passado. – Segurou minha mão com um pouco mais de força. – Eu não vou mentir... – Seu rosto estava pegando fogo. – Eu estou apaixonado por você, Reita.


Ouvir aquilo fez com que sentisse um calor gostoso em meu peito, que não sentia há tempos. Era só a confirmação de algo que estava implícito, mas mesmo assim... Era bom o suficiente para que eu me agarrasse a essa sensação com tudo o que podia pra que ela não se fosse.


– Uruha... – Comecei a falar, mas fui interrompido.


– Não quero que se sinta obrigado a me corresponder. – Queria poder dizer que ele estava sendo exagerado e que estava sim o correspondendo, mas como eu mesmo havia dito, ainda doía como o inferno. – Então eu só quero que saiba que quero que faça as coisas no seu tempo, que não se sinta pressionado ou qualquer coisa parecida.


E mais uma vez, cá estou eu levando uma bela lição de moral indiretamente. Eu não merecia toda a gentileza que ele estava tendo comigo, eu tinha razão ao dizer que ele era uma pessoa extremamente passional. Uruha sabia se impor, mas ele também sabia quando devia aceitar as coisas e ser paciente. Bom demais para alguém que o havia feito de gato e sapato nas ideias malucas de como encarar tudo isso.


Ele bem poderia dizer abertamente tudo o que sentia, impor tudo o que estava dentro dele e exigir uma resposta minha, exigir que eu seguisse em frente como todos os outros que eu conhecia fizeram, mas ele estava mostrando que seria paciente até que eu aceitasse por mim mesmo que gostava dele e não por ter sido encurralado com uma declaração.


Eu era realmente era um perfeito idiota, não merecia nem metade disso.


– Você passou por muitas coisas com o Ruki e com certeza não deve ser fácil superar isso, mesmo com amigos que ajudem. Ao todo, seguir em frente não é fácil. – Refletiu. – Eu sempre gostei de fazer minhas coisas ao meu tempo, e esse é o melhor conselho que eu posso te dar agora, não sou muito bom pra esse tipo de coisa, mas é o melhor que eu posso fazer. – Deu de ombros.


– Queria poder jogar tudo para o alto e ignorar essa maldita dor. – Não precisava mais esconder o que acontecia dentro de mim pra ele.


– Mas não é tão simples assim, né?


– Queria que fosse.


– Eu acredito. – Me olhou compreensivo. – Saber isso já me acalma por um tempo.


– Por um tempo? – Arqueei uma sobrancelha.


– Não sou de ferro, e a situação tá me fazendo usar todo o meu lado compreensivo. – Levantou as mãos em sinal de rendição. – Não vou te prometer que vou encarar tudo numa boa, sou um homem possessivo e um pouco estourado, por mais que não pareça. A diferença é que é preciso um pouco mais pra me tirar do sério.


– Eu já tive o privilégio de presenciar isso algumas vezes. – Ri, sendo acompanhado por Kouyou.


– Pena que não terá dessa vez.


– Ah, por quê? – Soltei um muxoxo em falsa decepção.


– Vou esperar pra estar sozinho até começar a quebrar tudo o que vejo pela frente.


Rimos mais um pouco, mas apenas para não chorar. Aquela famosa expressão se encaixava perfeitamente aqui, mais antes encarar como brincadeira o que aconteceria depois que o loiro fosse embora do que levar tudo a sério. Só deixaria tudo mais difícil do que já era.


Uruha me abraçou com carinho e depositou um último beijo em meus lábios antes de se dirigir até a porta, não sem antes se voltar para dentro com um sorriso perfeito que ia de orelha a orelha, mas que ainda assim me pareceu triste.


– Eu vou te esperar, Reita. Só desejo que você tenha certeza da decisão que tomou quando vier falar comigo, não vou te aceitar pela metade. – Falou antes de sair.


Podia jurar que vi uma lágrima escorrer, mas a porta se fechando me privou de qualquer visão.


Foi preciso poucos segundos até que meu rosto já estivesse molhado pela segunda vez, permiti-me escorar na parede e escorregar até que atingisse o chão. Escondi meu rosto entre meus joelhos e deixei que tudo o que guardei por tanto tempo finalmente saísse, não era em todo ruim. Era apenas o começo do que eu teria que fazer, tudo estava se acertando, só precisava de paciência, ou pelo menos metade da que Uruha havia se disposto a ter comigo.


Eu o teria por fim, ao meu tempo, por completo, sem me pressionar como ele mesmo havia dito.


Depois do que ele fez por mim hoje e das coisas que ele tinha me falado, não tinha mais saída, nem queria que tivesse.


Eu já não apenas gostava de Uruha.


Eu o amava.



~



Notas finais
Reta final *cry* Não quero terminar essa fic e e :~
Enfim, espero que tenham gostado ~ obrigada à todos os reviews!
Até o próximo~
Reviews, por favor? ♥