Spectrum

15 Capítulo 14 – Erros de conduta.


Notas iniciais
Desculpa pela demora, problemas, problemas...
Betado pela Yukari-chan que quer me matar *runs*
Boa leitura!


(Reita’s POV)


As coisas que estavam acontecendo... Eu sinceramente não conseguia acreditar, ou melhor, não queria acreditar.


Já estava sendo difícil voltar àqueles dias que eu havia me tornado uma pessoa fria e bruta, ter que passar por cima de toda essa situação que ainda era remoída toda noite na minha cabeça, saber que Uruha estava sofrendo com aquilo tudo e simplesmente ignorar. Estava começando a me perguntar o que era pior: A sensação de estar traindo Ruki ou ficar vendo o sofrimento de Uruha por minha causa.


De verdade? Tinha medo da resposta, mas eu já a obtivera.


O que eu havia decidido não estava só me fazendo sofrer, mas a todos os outros também, não apenas Uruha. Eu via isso, mas não ia fazer nada, queria tão somente poder tirar esse peso das minhas costas, egoísta não?


Depois de um tempo, percebi que estava ficando cada vez mais fácil “não se importar” com a raiva daqueles que trabalhavam comigo, as repreensões de Aoi... Até mesmo a tristeza e a preocupação nos olhos daquele loiro. Talvez eu estivesse me acomodando com isso, por um lado eu estava aliviado, por outro nem tanto. Eu estava seguindo em frente, do meu modo distorcido, mas estava.


Até determinado dia.


Era horário de almoço e eu sabia que o andar estava tranquilo e poderia relaxar um pouco mais em minha sala, não estava com fome e tudo o que desejava era apenas um café pra me manter acordado. Ainda havia noites que não conseguia dormir direito com tantas coisas que assaltavam minha mente durante a madrugada.


Saí da sala e fui em direção ao corredor estreito no final do andar que possuía uma velha máquina de café, mas acabei parando no meio do caminho.


Uruha estava lá e com ele, Aoi.


Primeiro eu afastei qualquer ideia impura que tive de cara. Eles podiam estar apenas conversando, o moreno sempre gostava de ficar provocando o mais novo quando podia, ele era o único que ainda agia “normalmente” ali. Continuei a me aproximar, só que dessa vez mais lentamente, não sabia ao certo o que estava esperando, mas com certeza não o que aconteceu.


Uruha estava escorado contra a parede e Aoi estava na sua frente, algo perfeitamente normal. Mas Yuu começou a se aproximar perigosamente do garoto, que pareceu assustado de primeira, mas depois simplesmente riu.


Só queria ignorar aquela cena e continuar o que ia fazer, mas simplesmente não conseguia, fiquei congelado no lugar, como se aquilo fosse um filme na minha frente. Não parecia real. Era confuso demais, foda-se não sei mais o que pensar.


Antes que eu tentasse em movimentar, Uruha virou em minha direção. Seu semblante ficou assustado e eu achei que ele começaria a balbuciar alguma coisa, alguma desculpa, uma explicação... Qualquer merda! Mas ele simplesmente ignorou com a presença, só desviou e foi para sua mesa como se eu não estivesse ali.


De onde aquele Uruha frio tinha saído?


O modo como ele me ignorou foi o suficiente pra me deixar pior pelo resto dos dias que passaram, eu não conseguia entender. Achei que já estava me acostumando com o modo que os outros me tratavam, mas ser ignorado por ele foi o pior, eu não queria me importar, mas quanto mais eu tentava, mais aquela cena se repetia.


Resumindo: Uma merda. Um caos.


E as coisas só pioraram quando, na semana seguinte, o loiro continuava me ignorando. Antes ele ainda me fitava temeroso, ainda se desculpando com os olhos pelo beijo, eu sabia que ele estava se culpando. Eu devo ser sádico, só pode, porque eu gostava de perceber que pra ele não havia sido algo simples. Mesmo não o correspondendo, Uruha continuava mostrando que se importava. Era... Quase reconfortante, um afago indireto.


Aqueles olhos frios e as respostas curtas me deixavam ainda pior. Mas de verdade, o que eu esperava? Que ele continuasse me tratando bem enquanto eu – aparentemente – mal o via?


Era exatamente isso que eu queria. Ridículo.


E cá estou eu remoendo tudo isso enquanto dirijo pelas ruas de uma Tóquio agitada como todas as noites. O sinal já estava verde e eu ouvia as buzinas irritadas atrás do meu carro para que eu andasse, mas eu estava tomando uma decisão, os outros que esperassem. Podem me xingar à vontade.


Decisão tomada. Ao invés se continuar na avenida por mais alguns metros até a rua do meu apartamento, virei à esquerda tomando outro rumo, indo em direção a outro apartamento, o de um moreno que me devia no mínimo explicações. Tinha sido muito orgulhoso para não perguntar nada nos dias que passaram, mas já estava pouco me importando com isso. A dor de cabeça já tinha expulsado todo o orgulho restante que tinha.


~~


Toquei a campainha estridente e esperei que Aoi abrisse a porta. Eu tinha muitas lembranças boas daqui, seria meio nostálgico se não fosse todo o contexto da situação, o curioso é que eu sempre vinha aqui nos finais de semana com um baixinho ou então em alguns dias em que brigávamos e Yuu ouvia todas as minhas reclamações. Agora, eu estava aqui por causa de outra pessoa.


Não demorou muito e ouvi o barulho de chaves, a porta sendo aberta e revelando um Aoi um pouco assustado com quem estava ali.


– Reita? O que está fazendo aqui? Pensei que ia pra casa. – Seu cenho estava franzido, mas mesmo assim deu passagem para que eu entrasse.


– Eu pretendia ir. – Nem me preocupei em caminhar até o sofá. – Mas tem algo que você precisa me contar não é mesmo?


Aoi suspirou pesadamente e me fitou com pesar, pelo visto ele tinha entendido de cara, mas aquela expressão de culpa só me deixou com mais raiva. Eu não queria brigar com o único amigo que me restava, mas pelo visto ele estava me forçando a isso.


– Não quer se sentar? – Perguntou ao chegarmos à sala, ele estava calmo e sem nenhum ar de brincadeira, o que era raro.


– Estou bem do jeito que estou. – Cuspi as palavras e cruzei os braços. Minha paciência já era pouca e não ia durar por muito tempo.


– Olha, Reita, eu sei como você deve estar se sentindo... – Aoi começou a falar ao se sentar no sofá.


– Sabe? – Arqueei uma sobrancelha.


– Tá, eu não vou ser hipócrita dizendo que eu não fiz nada de mais.


– Que bom, porque já basta estar sendo um amigo excepcional nos últimos dias não é mesmo? – Eu não conseguia controlar a acidez das minhas palavras.


– Reita... Não saí com ele por mal-


– Quê?! – Aquilo eu não sabia ainda. – Ah, então quer dizer que os pombinhos já estão saindo? Será que eu atrapalhei alguma coisa agora?


– Não seja estúpido Reita, não aconteceu nada. – Defendeu-se, mas parecia se repreender por ter falado algo que não devia. Ótimo. – Nós saímos e conversamos, só isso.


– Você não perde tempo mesmo. – Neguei a cabeça enquanto ria em ironia. – Legal você se prontificar a consolar o pobre, Uruha. Até imagino os meios que você usou...


– Bom, alguém tinha que fazer já que o culpado dele estar assim não faz nada a respeito. – Retrucou. – E não eu não fiz nada com ele, você sabe que eu posso fazer minhas brincadeiras, mas eu nunca faria algo assim.


– Eu sei?


– Não fale merda, Reita...


– Ah, porque até onde eu sei, o meu querido amigo ia me ajudar sabe? E não me deixar pior nessa situação. Você sabe que eu estou fazendo isso porque é o certo.


– Não Reita, você tá fazendo isso porque acha que é o certo. – Levantou-se ficando parado em minha frente. – O quê, vai esperar cinco anos até esquecer o Ruki pra depois correr atrás dos erros que cometeu? Sério, quanto tempo você acha que é o certo?


– Ainda está muito recente, Aoi. Você não entende.


– O que eu não entendo é como você pode encarar isso como se fosse algo simples o suficiente pra você ignorar sem se importar com terceiros.


– Eu me importo com Ruki! – Já estava quase gritando. – Eu o amei por muito tempo e ainda amo, ele foi tirado de mim de forma injusta, e agora você quer que eu o traia ficando com outra pessoa?


– Reita... – Chamou, mas eu não dei ouvidos.


– E depois simplesmente esquecê-lo como se não tivesse sido nada? Na verdade, até me confunde você apoiar que eu fiquei com alguém com quem está saindo.


– Não temos nada Reita, pela milionésima vez. – Aoi massageou as têmporas. – Só fiz isso pra te ajudar, pra que você perceba a besteira que você está fazendo! Você veio aqui morrendo de ciúmes por ter me aproximado dele e ainda diz que está cedo demais pra estar gostando de outra pessoa? Por Kami, isso já está ficando ridículo, apenas assuma o que está sentindo e continue a viver sua vida! Ruki ia querer isso.


– Não, ele não ia querer, ele morreria de ciúmes! – Expliquei. – Uruha precisa entender que eu não posso retribuir o que ele sente.


– Como ele pode entender se você o trata com patadas?! – Indagou incrédulo.


– Pra você isso deve ser muito bom, já que agora pode consolá-lo.


– Não desvie do assunto, Akira!


– Ele ainda não pode saber, não quero que ele saiba. – Abaixei a cabeça minimamente. – Não é como se eu estivesse sentindo algo por ele também.


– Se realmente não sentisse nada não teria vindo aqui com sete pedras na mão me acusando de ter tido algo com o garoto, bufando de raiva como se ele te devesse alguma explicação. – O pior? Ele tinha razão. – Não duvido nada que esteja morrendo de ódio de Uruha porque ele está te tratando assim, eu acho mais que bem feito pra você perceber que ninguém que tenha o mínimo de amor próprio vai ficar passando a mão nas suas atitudes mimadas!


– Não é como se eu pudesse me deixar sentir isso! – Desabafei. – O Ruki...


E parece que aquilo tinha sido a gota d’água pra Aoi.


– PORRA, RUKI ESTÁ MORTO E ENTERRADO! SUPERE ISSO! – Gritou sem qualquer controle. – URUHA ESTÁ AQUI, VIVO E SOFRENDO PELAS BESTEIRAS QUE VOCÊ FAZ E VOCÊ SÓ CONSEGUE SE PREOCUPAR COM O RUKI?!?!?


– Bom saber que ele tem ao menos você no final das contas não é? – Aquilo foi o bastante. – Nem preciso mais me preocupar com isso.


Aoi pareceu perceber a besteira que havia dito, mas eu só o ignorei, abri a porta e me pus pra fora dali, esperava que ele não me seguisse, seria ainda pior. Nem esperei pelo elevador, apenas desci correndo pela escada de incêndio, o nó da minha garganta estava apertando e meus olhos incomodavam cada vez mais. Podia ter jogado meu orgulho fora pra tirar satisfações dele, mas ainda tinha o suficiente pra não querer que alguém me visse nesse estado deplorável.


Entrei no carro e saí acelerando sem rumo pelas ruas já fortemente iluminadas pelos postes nas calçadas, não tinha exatamente pra onde ir, nem sei se queria parar, dirigir nessa velocidade me acalmava. Eu tinha acabado de perder uma das poucas, pra não dizer a única, pessoa que ainda me aturava.


Não foi só o fato de Aoi ter jogado aquilo na minha cara, mas o modo como ele disse, como se fosse algo simples Ruki ter morrido, nem me importava em tentar ficar irritado com ele, nunca pensei que um dia ele entendesse.


Sim, eu sei que Ruki está morto, mas ainda não consigo digerir isso, assim como não consigo digerir o que quer que seja que sinto por Uruha. Não é como se eu não me importasse.


Por mais que parecesse...


Eu estava me dando nojo com esses pensamentos, mais estúpido impossível.


Devo ter dado umas cinco voltas no centro da cidade, tinha entrado em uma conveniência e pego a primeira garrafa de bebida alcoólica que achei e agora já ia pra casa, lutando contra as lágrimas que queriam, mas não caiam. Continuar daquele jeito só me faria ter o mesmo destino que Ruki, não que fosse uma má ideia no todo, mas alguém me impedia disso.


~~


Por sorte ou por falta dela, no dia seguinte eu acordei com uma ressaca forte o suficiente pra me deixar andar somente até o banheiro e voltar pra cama. Liguei pra Takeshi dizendo que havia pegado um resfriado qualquer e que precisaria faltar, Aoi provavelmente pensaria o quão ridículo aquilo estava sendo por eu praticamente fugir do trabalho, mas eu realmente estava mal e não queria encarar nem ele nem o loiro que ficou nos meus sonhos a noite inteira.


Sonhos nada castos, diga-se de passagem. Incrível que com tudo isso acontecendo eu ainda consigo pensar na tensão sexual que Uruha me traz.


A ressaca foi finalmente embora e cá estou eu no elevador da Yamato, rezando pra que ele subisse mais devagar e que estivessem poucas pessoas no andar, o que eu duvidava muito já que estava um pouco atrasado. Odeio atrasos, mas no momento não dava a mínima. As portas de metal se abriram e eu andei direto para o meu corredor, ignorando todos os pedidos de bom dia que recebia. Entrei em minha sala e fiquei ali o resto do dia, ridículo.


Queria ficar atrás da mesa até o fim do expediente, mas como sempre o que eu peço parece ser demais, encontrei um erro no cálculo das finanças de uma das lojas que vendiam os produtos. Já estava desejando a morte do bendito ser que tinha feito o erro absurdo quando me lembrei de que o ser na verdade era Uruha. Ótimo.


Saí da sala bufando e fazendo questão que meus pés fizessem barulho quando batiam contra os azulejos, na vista de qualquer outra pessoa eu devia estar parecendo um touro enfurecido. Caminhei até chegar à mesa em que o loiro digitava furiosamente enquanto lia algumas anotações ao seu lado.


– Takashima. – Chamei, há muito não usava o apelido, não na sua frente.


– Suzuki-san. – Virou-se para me encarar. – Em que posso te ajudar?


– Pode me ajudar corrigindo o bendito erro que você fez no cálculo dessas finanças. – Estendi o papel que segurava nas mãos para ele.


Uruha franziu o cenho e pegou o papel lendo-o atentamente e arqueando as sobrancelhas ao perceber o erro que havia cometido, cruzei os braços e esperei uma desculpa.


– S-Sinto muito Suzuki-san, vou corrigir agora mesmo. – Tratou de falar rápido e virou sua atenção para o monitor. – Realmente deixei esse erro passar, não o percebi. – E lá estava aquela expressão mais gentil do loiro.


Podia ter agradecido por ela ter voltado, mas o que fiz foi me aproveitar da situação.


– Realmente espero que não se repita, Takashima. – Falei em ironia. – Já que está tão ocupado com seu namorado.


Os dedos de Uruha pararam em cima do teclado e ele me olhou de esguelha, estava visivelmente irritado.


– Como? – Perguntou erguendo uma sobrancelha.


– Você ouviu. – Por Kami, estou parecendo uma criança.


– E desde quando isso diz respeito a você? – Estreitou os olhos, já de frente pra mim.


– Desde que você ficar se esfregando por aí atrapalha todo um trabalho. – Disparei de uma vez só.


O andar inteiro estava em silêncio, eu não havia percebido, mas metade das pessoas que trabalhavam ali estavam assistindo aquela cena com olhos esbugalhados e bocas abertas. Nunca fui uma pessoa ignorante, mas naquele momento estava batendo todos os meus recordes. Uruha corou fortemente, entretanto seus olhos não transmitiam nada a não ser escárnio. Ele se levantou ficando de frente pra mim e em desafio cruzou os braços.


– Sabe Reita, eu queria sentir raiva, mas tudo que você me faz sentir é pena. – Falou baixo e calmo. – Posso não saber o suficiente, nem conhecer o muito da história, mas sinceramente, Ruki não deve ter merecido aguentar alguém como você.


A melhor forma pra descrever o que senti com aquilo é: Foi como ferro em brasa atravessando meu peito.



~



Notas finais
Muito obrigada pelos reviews anteriores ♥
As coisas vão começar a ficar mais complicadas a partir de agora...
Espero que tenham gostado e até o próximo!
Terça-feira é meu aniversário então me deixem reviews como presente, sim? -v-