Spectrum

16 Capítulo 15 – A história de um advogado de covinha


Notas iniciais
Desculpem a demora ç_ç
Problemas com a betagem... Notebook foi reformatar... Recebi o cap na terça passada só que... É melhor postar no final de semana hehe *se esconde*
Demorou, mas chegou e está aqui.
Leiam escutando Fukai no Ame do girugamesh, é o que eu aconselho.
Boa leitura!
(PS: O título não foi inteiro, tem um "s." no final, nyah tr00 :~)



(Ruki’s POV)


– Posso não saber o suficiente, nem conhecer o suficiente da história, mas sinceramente, Ruki não deve ter merecido aguentar alguém como você.


Fechei os olhos e “respirei” fundo. Aquilo ia ser demais para que Reita conseguisse aguentar.


– Apenas... – A voz de Akira soou baixa e um pouco embargada. – Corrija seu trabalho, Takashima.


Ele se virou e reparou que todos os funcionários daquele andar assistindo a “cena”, alguns com um olhar de pena, outros de raiva – provavelmente achando que havia sido bem feito o que ele tinha acabado de ouvir. Aoi estava mais próximo e, mesmo sabendo que ele e Reita estavam brigados, o olhou com pesar e compreensão.


Por mais que ele estivesse sendo muito mais que um idiota naqueles dias, não merecia ter ouvido aquilo. Eu estava entre a raiva e a gratidão por Uruha. O garoto não foi burro em imaginar que eu fui alguém muito importante pra Reita no passado, ele pode se passar de ingênuo, mas ele entendeu muito bem o que Aoi havia lhe contado.


– O que estão olhando?! Voltem ao trabalho! – Akira esbravejou.


Acabei levando um susto com a voz elevada ao meu lado, ele estava fumegando de ódio, mas seus olhos estavam cheios de lágrimas. Aoi ainda tentou pará-lo quando passou ao seu lado, mas foi em vão, pois ele simplesmente ignorou o chamado, continuou andando com passos rápidos de volta ao corredor, comigo em seu encalço. Não havia desgrudado do enfaixado nem um instante desde que ele conversou com Aoi antes de ontem.


Apesar de abatido, ele foi forte o suficiente pra aguentar o que o moreno havia lhe dito. Mas não tenho certeza quanto a sua reação às palavras de Uruha.


Ao chegar a sua sala, bateu a porta com uma força desnecessária e a trancou.


– Reita... – Chamá-lo ia ser em vão, mas acabou se tornando um hábito.


Akira se jogou na poltrona próxima, apoiando os cotovelos no joelho e o queixo em suas mãos cruzadas. A tristeza dele era quase palpável, até mesmo para mim que já estava morto. Sua cabeça devia estar explodindo e também travando uma batalha contra aquelas lágrimas que se acumulavam em seus olhos, era orgulhoso demais, teimoso demais.


Eu estava com medo, praticamente desesperado. Não apenas porque Reita estava dessa forma, mas as coisas não estavam caminhando do jeito que eu achei, estavam de uma forma muito pior do que qualquer coisa que eu pudesse ter previsto, sabia que não seria um mar de rosas, mas... Isso tudo já estava fugindo de controle, talvez no final das contas Uruha não fosse a pessoa com quem Akira devesse ficar...


Só que eu já havia lutado tanto por isso...


Duas batidas na porta foram ouvidas, era Aoi pedindo para entrar, Reita provavelmente nem ouviu, estava perdido demais em pensamentos. Aproveitei sua distração e destranquei a porta para que o moreno entrasse, ele assustou-se de primeira, mas depois entendeu que provavelmente havia sido eu que tinha interferido ali.


– Reita... – Chamou sentando-se ao lado daquele que parecia ter entrado em um estado de choque. – Desculpe pelo o que eu te disse naquele dia...


– Você veio aqui pra se desculpar? — A voz falhava e estava muito baixa, sua garganta devia estar lhe incomodando. – Não tinha uma hora pior?


Aoi riu sem graça.


– Eu tinha que vir não é? – Deu de ombros. – Até porque... Não quero que pense que não estou ao seu lado.


– Não parece estar. – Cortou frio.


– Não Reita, eu sou a única pessoa que está, não percebe isso? Sei que o que eu falei foi... Insensível, pra dizer o mínimo. – O moreno franziu o cenho. – Só falei aquilo porque já estava desesperado, pensei que precisava de um empurrãozinho.


E dessa vez foi Reita quem riu.


– Não foi uma boa maneira.


– Você tinha me irritado! Sabe que sou impulsivo. – Aoi se defendeu. – O que eu te falei foi da boca pra fora, sabe disso, não sabe? – Indagou cauteloso.


– Mas você tem razão. – Reita falou, finalmente voltando sua atenção para o moreno ao seu lado.


Eu e Aoi ficamos de bocas abertas.


– Você tem razão, eu preciso superar tudo isso. – Reafirmou. – Sei que Ruki está morto e... – Parou por um momento, era difícil para que ele continuasse. – E que não posso tratar as pessoas e principalmente Uruha com essa indiferença.


– É, é isso mesmo. – Yuu parecia animado.


– Mas não vou mudar meu ponto de vista. – Reita suspirou.


– Não precisa ser assim, Reita... – Aoi começou, mas logo foi interrompido. – Não acha que o que ele disse foi mais como uma forma de arrancar alguma reação sua? Não acha que você já foi longe demais?


– O que ele disse é verdade, ninguém precisa ter um fardo como esse ao lado. – De onde saiu essa baixa autoestima? Era nisso que ele estava pensando quando ficou quieto? – Não quero mais me estressar com esse tipo de coisa, Aoi.


Yuu estava com o cenho franzido, não estava entendendo onde ele queria chegar.


– Basicamente vou me policiar e não tratar mais os outros dessa forma ignorante. Ninguém merece aguentar meu gênio. – Reita se levantou e se dirigiu à sua cadeira, com certeza visando se concentrar no trabalho. – Em relação à Uruha, não vou fazer muita coisa... Se começar a dar importância, vou acabar me deixando levar.


– Você realmente gosta dele não é? – Não chegava a ser uma pergunta.


– Isso não é o suficiente, é apenas parte do caminho. – Ditou por fim, decidido. Acabando por dar uma confirmação indireta. – Vou deixar as coisas do jeito que estão.


– Não acho que está tomando a decisão certa. – Aoi se retirou da sala e eu tratei de segui-lo.


– O que está pensando? Era pra você me ajudar a juntar os dois! – Gritava e gesticulava em desespero. Ninguém ia me ouvir mesmo...


Assim que o moreno sentou-se na frente de seu computador, peguei a caneta e o papel que estava ao seu lado e comecei a escrever, pouco me importava se alguém ia reparar uma caneta se movendo sozinha.


ERA PRA VOCÊ ME AJUDAR A JUNTÁ-LOS, COMO PODE CONCORDAR COM ESSA IDEIA, AOI?”

Yuu percebeu o que havia escrito e leu rapidamente, bufou por fim e fechou os olhos.


– Não é da nossa conta, Ruki. – Disse com calma e bem baixo para que ninguém mais escutasse. – Não é certo cobrarmos dele um relacionamento que nem sabemos se daria certo.


Claro que daria certo!”

– Quem garante? – Aoi suspirou. – Olha, talvez não fosse pra dar certo, sua ideia foi nobre, Taka, mas Reita já é grande o suficiente pra tomar as próprias decisões. A forma como ele está lidando com tudo isso é exagerada, mas estou cansado de tentar forçá-lo a alguma coisa. Talvez ainda não seja mesmo o momento, quem sabe depois? Com outra pessoa? Não é como se Uruha estivesse destinado a ficar com ele.


Podia até ser, mas algo me dizia que eu devia continuar insistindo, eu não ia aceitar essa situação tão facilmente só porque Reita tem a cabeça dura feito pedra. Não. Eu vim de muito longe pra simplesmente jogar tudo no ar. Só precisava... Precisava...


É, eu realmente não sei o que fazer.


Isso foi o suficiente pra me deixar ainda mais desesperado, parecia com a noite em que Reita sorriu para Uruha no primeiro dia de trabalho. Chegava a ser nostálgico.


~~


O céu já estava com uma coloração alaranjada e eu já não estava mais no prédio da Yamato. Saí sem rumo, mas acabei na mesma praça que dei um belo soco em Koji, engraçado como tantas coisas mudaram desde esse dia. Eu me enchi tanto de esperança que depois acabou sendo dissipada, mas eu não sinto falta dela, agora eu só quero que eles fiquem juntos, eu quero fazer alguma coisa por eles.


– Será que é pedir demais? – Disse baixinho.


– Depende.


Sobressaltei-me, até pouco tempo estava sozinho.


– Não se cansa de me dar sustos, Kai? Ou já virou costume? – O moreno de covinhas estava ao meu lado, eu nem havia percebido que ele estava ali. – Já é a segunda vez que eu te encontro aqui logo depois de ter um conflito interno por culpa de Reita.


Kai riu e levantou as mãos em rendição.


– Acho que já virou costume e a culpa não é minha se você é cheio desses conflitos. – Sentou-se ao meu lado e parecia estar com o rosto tão... Tranquilo, estava diferente. – Então, o que é pedir demais?


– Querer que Reita e Uruha fiquem juntos. Akira parece estar a cada dia mais decidido em “enterrar” tudo o que está sentindo, vai acabar dando certo se continuar assim. – Tentei explicar. – Pra ele é até melhor que ele simplesmente ignore isso, mas...


– Pra ele é mais fácil parar de se cobrar tanto, não é? Não quer que seja como uma obrigação ter que gostar do outro. – Deduziu.


– Basicamente... – Dei de ombros. – Mas isso não é certo, eu sei que não é! Eles... Eles têm que ficar juntos, eu to parecendo um cupido, será que vou virar um cupido quando... For pro outro lado? – Divaguei e nem percebi.


Kai começou a gargalhar abertamente.


– Quem sabe, baixinho? Sempre imaginei os cupidos pequenininhos, talvez você vá dar um bom cupido, se bem que seus métodos não são os melhores pelo visto. – Falou ainda entre risos.


– Aaaah, mas eu quero que eles fiquem juntos. Isso é o certo, eu se que é. – Bati o pé e fiz um bico, talvez a infantilidade de Reita fosse contagiosa...


O moreno ao meu lado parou de rir, ficando apenas com um sorriso no rosto e olhando para alguma coisa no céu, ele realmente estava diferente, eu queria entender o quê. Mas antes que eu pudesse responder, ele começou a falar.


– Ruki eu queria te contar minha história, acho que esse é o melhor momento pra isso. Talvez... Talvez possa te ajudar indiretamente, já que eu não pude fazer muita coisa.


Fiquei em silêncio, apenas esperei que ele continuasse.


– Eu nasci aqui mesmo em Tóquio, há... Há um bom tempo atrás... – Fez uma pausa e riu contido. – Sou bem mais velho do que você imagina, mas isso não vem ao caso. Eu me formei como advogado na universidade daqui mesmo, eu era muito bom sabe? – Estufou o peito orgulhoso. – Conseguia vencer quase todos os casos e, mesmo jovem, era muito procurado. Não demorou muito para que eu fosse chamado por aquela grande firma de advogados, que fica naquele prédio que conversamos algum tempo atrás.


– Não consigo te imaginar de terno e gravata, cuidando de casos e falando em cortes. Você parece mais um comediante. – Ri e ele me acompanhou.


– Eu vou encarar isso como um elogio, baixinho. – Provocou, mas deixei que ele continuasse sua história. – Não demorou muito tempo para que eu conhecesse a Aiko, ela era a melhor advogada daquela firma, era uma mulher maravilhosa e apesar de gentil, sempre conseguia ser persuasiva quando precisava... – Kai fechou os olhos, parecia perdido em lembranças. – Me apaixonei pelo seu jeito extrovertido e por alguma sorte do destino ela retribuía o sentimento, foi preciso dois anos para que eu a pedisse em casamento, sabia que era com ela que poderia construir uma família. Mais um ano de casados e nossa filha nasceu, Sayumi.


– Você tem uma filha?!?!? – Arregalei os olhos.


Kai não parecia ser muito mais velho que eu, tudo bem que existem pessoas que começam a família bem cedo, mas eu não estava preparado para ouvir algo desse tipo de forma tão natural como ele disse. Foi realmente uma surpresa.


– Te disse que não sou tão novo quanto aparento ser. – Ele riu da minha cara de espanto. – Mas voltando à questão, Sayumi nasceu, era linda! Um bebê muito fácil de lidar, pouco chorava, sempre sorria, tinha até as minhas covinhas! – Apontou para sua bochecha, estava com o típico ar de um pai orgulhoso. – Parecia a vida perfeita, mas... Ela não é justa, não é? Sabemos bem disso.


– E como sabemos. – Abaixei os olhos, pensando em tudo que havia perdido, ele com certeza deve ter passado por uma situação pior do que a minha. – Então, você ficou doente, não é?


– Ding, ding, ding! Resposta certa. – Brincou sem gosto. – No começo eu achei que não era nada de mais, afinal, muitas pessoas ficam com câncer e conseguem se curar e... Eu precisava ser forte pela Aiko e pela Sayumi, elas não podiam me ver naquele estado deplorável, as sessões de quimioterapia eu enfrentei todas elas completamente sozinho. – Kai estremeceu de leve ao meu lado. – Era horrível, não desejo aquilo a ninguém...


– Mas mesmo com elas você não conseguiu se recuperar? – Indaguei com o cenho franzido.


– Não, porque eu fui muito teimoso em diagnosticar o que eu tinha, quando finalmente descobriram, meu estado já era avançado e tudo que podiam fazer era... “Amenizar” o momento. – Fez as aspas no ar, parecia que aquilo lhe irritava. – Esse meu comportamento me custou a vida, não sabe o quanto eu me martirizo até hoje por não ter procurado ajuda mais cedo.


– Eu compreendo. – Coloquei uma mão em seu ombro em sinal de apoio, ele já não parecia a pessoa tão inteligente e alegre com quem conversava.


– Eu escondi o máximo que pude de Aiko o meu estado, mas quando cheguei ao ponto que não duraria muito mais, lhe contei tudo. – Kai escondeu o rosto nas mãos. – Ela ficou desolada, desesperada, não sabia o que fazer. E eu “fui embora” antes que pudesse confortá-la um pouco mais, antes que pudesse me despedir da minha família, simplesmente aconteceu. – Vi uma lágrima escorrer por seus dedos, era difícil para ele lembrar o passado assim como era difícil que eu lembrasse o meu.


Passou um tempo até que ele se acalmasse e parasse de esconder o rosto, seus olhos estavam vermelhos e seu semblante era de alguém que havia sofrido por muito tempo, o que provavelmente era verdade.


– Não precisa me contar se não se sentir bem. – Tentei reconfortá-lo.


– Não, Ruki. Eu preciso, você não entende. – Disse quase em desespero. – Talvez entenda depois que eu terminar.


Kai enxugou as lágrimas e voltei a ficar quieto para que ele continuasse.


– O pior foi ter continuado aqui, acredite quando eu digo que fiquei infinitamente pior do que você. – Riu um pouco, talvez se lembrando do dia que me encontrou no mirante. – Aiko entrou em depressão, parou de trabalhar e, por sorte, foi despedida por invalidez pelo presidente, assim continuaria a receber dinheiro. Eu me sentia um inútil por não poder fazer nada a respeito, queria ajudá-la... Fazer alguma coisa, qualquer coisa... Acabei me prendendo ainda mais a ela do que quando estava vivo.


– E a sua filha? – Perguntei com cautela.


– Foi o motivo que agarrei para continuar aqui. – Falou simplesmente. – Depois que compreendi que não poderia fazer nada pelo estado de Aiko, voltei minha atenção a Sayumi que era apenas um projeto de gente no meio de toda aquela loucura. Cuidei dela indiretamente juntamente com as irmãs de Aiko, sempre observando seus passos... Ninguém percebeu, mas fui eu quem segurou a mãozinha dela quando deu os primeiros passos.


E dessa vez fui eu quem não conseguiu segurar uma lágrima.


– Não chore, baixinho. – O moreno mostrou suas covinhas e deu pequenos tapas em minha cabeça. – Isso já tem muito tempo...


– Faz com que eu pense que meus problemas são ridículos... – Sussurrei. – Continue, por favor.


Meio contrariado, Kai continuou.


– Bom, à medida que Sayumi crescia, Aiko piorava, chegaram a interná-la. – Estreitou os olhos. – E é aqui que minha história pode parecer um pouco com a sua... Sabe, eu sempre achei que o correto seria que ela se curasse e que cuidasse da nossa filha por mim, que a ajudasse a se desenvolver... Mas no final das contas era para ser desse jeito, coisas ruins acontecem e algumas vezes elas fazem parte da vida. Não foi justo, foi extremamente cruel na verdade, só que era pra ser assim.


– E você continuou cuidando da sua filha?


– Todos os dias. – Disse com um sorriso. – Eu fiz a mesma coisa que você fez com Reita, eu conversava com Sayumi todas as noites quando ela dormia, perguntando como estava, se estava bem, como iam os estudos e sempre pedia para que ela não esquecesse que eu estava aqui. No final, eu ganhei a oportunidade de criar minha filha de um jeito indireto.


– Não me parece muito justo ter essa oportunidade sendo que o preço foi a depressão da Aiko-san. – Confessei.


– E não foi, mas olhe por esse lado: Se eu não tivesse ficado aqui, quem cuidaria dela? Sayumi sabe que estou aqui, eu sempre fiz questão de deixá-la ciente disso, não completamente, é claro. Mas ela entende que tem alguém cuidando dela ao longe.


– Então... – Estava começando a entender. – Acha que estou aqui porque eu que preciso ajudar Reita?


– Ninguém melhor pra isso do que alguém que realmente o amou não é? – Kai deu de ombros.


Agora as coisas começavam a clarear.


– E como sua filha ficou? Como ela está agora? E a Aiko?


– Aiko continua na clínica, Sayumi a visita constantemente desde que completou 18 anos e agora pode visitá-la sem acompanhantes. Minha filha cresceu muito bem com a minha ajuda e a das tias, alguns momentos complicados, outros felizes, entretanto no final deu tudo certo.


– HÃ? 18 anos?! – Mais uma vez, Kai me surpreendendo.


– Se quer saber ela terminou a faculdade de psicologia, vai ajudar pessoas como a mãe dela. – E lá estava o tom orgulhoso novamente. – Já está com a vida feita e... Acho que finalmente vou poder realmente ir embora, ela já não precisa mais da minha ajuda. Até já tem um namoro firme, veja só! Pressinto um casamento... – Rimos juntos com o último comentário.


– É por isso que você está diferente hoje, não é? Parece estar calmo... Tranquilo.


– Eu me sinto assim. – Riu mostrando as covinhas. – Parece estranho, mas é verdade. Achei que já teria partido assim que ela completasse a faculdade, mas... – Olhou para mim com compreensão. – Parece que eu ainda tinha outra pessoa pra cuidar, de um jeito diferente.


– Então... Quer dizer que-


– Que agora sim eu posso ir, de verdade. – Levantou e me estendeu a mão para que me ajudasse a fazer o mesmo. – Você tem que ajudar Reita a passar por tudo isso, talvez Uruha seja a pessoa certa, talvez não... Isso depende muito, você tem que aprender que assim como a depressão de Aiko fez parte da minha vida, mesmo sendo ruim, a tristeza e o gênio forte de Reita também fazem parte da sua. Deixe que as coisas aconteçam, apenas não o deixe sozinho e o apoie sempre que precisar. Isso é tudo que eu posso te aconselhar dentro do que sei.


– Não acho que já esteja pronto pra encarar tudo isso sozinho. – Falei baixo.


– Você está fazendo tudo o que pode, não se cobre tanto. No final, vai acontecer o que deve acontecer, você só precisa “dar uma mãozinha”. Pode ser o Uruha, pode não ser, tenha isso em mente.


– Sabe que vou continuar insistindo não sabe? – Levantei uma sobrancelha, era teimoso demais.


Kai riu abertamente.


– Se não continuasse até me assustaria. – Parou de rir aos poucos. – Só... Espero que faça a coisa certa.


No final, Kai se tornou o meu “pai em morte”, os conselhos e as coisas que ele me ensinou – por mais que não tenha ouvido mais da metade – me ajudaram muito, saber que ele iria embora de verdade me assustava, como se atravessasse a rua pela primeira vez sem ajuda.


Engoli todo aquele medo e lhe dei um forte abraço que foi retribuído com a mesma força, não ia conseguir lhe agradecer como deveria, esperava que aquele gesto falasse por mim. Depois de um tempo nos separamos e ele me exibiu as famigeradas covinhas pela última vez.


– Se cuida, baixinho. – Começou a se afastar. – Se eu parar lá em cima, pode deixar que falarei bem de você!


– Obrigado, Kai. – Minha voz estava embargada, nunca fui bom em despedidas. – Por tudo, realmente obrigado!


– Não precisa agradecer. – O moreno já estava começando a atravessar a rua movimentada daquele final de tarde. – Apenas faça o melhor que pode.


Kai me deu as costas e, por fim, chegou ao outro lado da rua.


Esperava continuar a vê-lo, mas um carro passou e ele já não estava mais do outro lado da calçada.


Agora teria que voltar para o apartamento de Reita e fazer o que estivesse no meu alcance para que depois pudesse ter o mesmo destino de Kai, não sabia quanto tempo iria tomar, mas eu me esforçaria ao máximo.


Mesmo que agora já não tivesse os conselhos daquele advogado de covinhas.



~



Notas finais
Chorei horrores ecrevendo esse final e ;;
Espero que tenham gostado ~
Reviews, por favor? ♥