Spectrum

11 Capítulo 10 – Memórias em balanços e em lábios.


Notas iniciais
Sábado = Cap novo e aqui está. ^^
Betado pela Yukari-chan que me traz as gordices da vida :3 . Geralmente leio antes, mas to com preguiça -.-, logo se tiver algum erro a culpa é dela q
Boa leitua!



(Reita’s POV)



O resto do dia passou mais rápido do que o esperado, apesar do pouco trabalho que havia para fazer, as horas simplesmente voaram. E a essa altura já nos encontrávamos no restaurante tradicional sugerido por Takeshi, que estava lotado com muitas pessoas aproveitando a noite dessa sexta-feira.



Era um lugar extremamente aconchegante e tipicamente japonês, com as “salas” sendo separadas pelas finas divisórias amareladas e enfeitadas com desenhos orientais. A música ambiente era basicamente feita de notas tocadas por um koto* e um shamisen*, completando toda aquela atmosfera. Na mesa retangular estavam sentados, além de mim, Aoi ao meu lado, Uruha logo a frente, Takeshi ao lado do loiro e Kenzo na cabeceira. A conversa era leve e descontraída, enquanto eram saboreados os mais diversos sushis que eram trazidos para nós.



Apesar de participar da conversa animadamente, eu ainda tinha um plano para colocar em ação, eu precisava tirar todo o juízo do loiro sentado à minha frente se quisesse lhe arrancar alguma coisa. Então estava pedindo garrafas e mais garrafas de sakê, praticamente jogando em cima de Uruha para que ele o tomasse. Até Aoi estava começando a estranhar minha atitude, mas pelo menos foi o único que já havia percebido.



– Reita... – Yuu sussurrou próximo de mim, para que tivesse certeza que apenas eu ouvisse. – Eu sei que está louco pra violar o garoto, mas entupi-lo de álcool não vai adiantar de nada.



– Não seja idiota, Aoi. – Respondi no mesmo tom baixo. – Não é isso que quero.



– Então o qu–



– Até hoje, Uruha ainda não me disse o que aconteceu depois que saímos daquele bar, e eu quero arrancar essa informação dele há tempos. De hoje não passa. – Falei antes que completasse a pergunta.



– Aah, não acredito que ainda está com isso na cabeça. – Seu tom era em reprovação. – Se ele disse que não foi nada esse tempo todo, por que não acredita?



– Porque ele tem agido estranho desde aquele dia. – Expliquei. – E sempre que eu volto a perguntar, ele desvia o assunto.



– Bom, se quem não deve não teme... – Refletiu.



– Exatamente. Se não há nada pra esconder, por que ele age como se algo importante tivesse acontecido?



– E o que você acha que aconteceu?



– Eu não sei... – Estreitei os olhos, pensativo. – Mas coisa boa não foi. Se fosse pra arriscar por baixo, diria que vomitei em cima dele ou fiz algum comentário realmente vergonhoso.



Aoi riu baixinho.



– É, pode ser. Mas você disse que isso são suas teorias arriscando por baixo... E quais são as mais graves?



Suspirei.



– Estou começando a cogitar a ideia de ter falado sobre Ruki. – Sim, eu já havia cogitado essa possibilidade várias vezes, e muitas delas se encaixavam perfeitamente.



Yuu arregalou um pouco os olhos e, antes que pudesse responder, a voz de Kenzo soou alta.



– Hey! O que os dois estão cochichando aí? – Apontou um pedaço de polvo segurado por seus hashis para nós. – Se é pra conversar, que compartilhe com toda a mesa!



– Ficar na cabeceira da mesa te deu muita moral, Kenzo! – Aoi acusou. – Da próxima vez, eu sento aí!



– Quem disse? Eu mereço estar aqui! – Nosso amigo já estava um pouco alcoolizado. – A mesa precisa de uma figura séria e de respeito!



– O que quer dizer com isso, tampinha? – O moreno ao meu lado pousou as duas mãos com força em cima da mesa.



– Sou só poucos centímetros que mais baixo que você, velho! – O outro continuou a provocar.



E começaram a discutir sobre várias coisas enquanto Takeshi tentava apartar a briga. Eu simplesmente gargalhava abertamente com as provocações, sendo acompanhado por Uruha que já estava bem alterado depois de algumas garrafas. Ele já nem sabia mais do que estava rindo. Tudo estava indo bem por enquanto.



Foi quando vi um norimaki voando na minha frente e em direção a Kenzo, acertando-o em cheio. Aoi caiu pra trás de tanto rir.



– Ora seu... – E então vi um onigiri indo em direção ao moreno, que ainda rolava no chão rindo.



– Ei! Parem com isso. – Takeshi tentou intervir. – Vocês são crianças ou o quê!? Vamos acabar sendo expulsos daqui!



Era verdade, tínhamos que nos comportar. Mas toda aquela diversão fazia eu me sentir com 18 anos novamente.



– Tá bom, Yuu. Chega disso, comporte-se. – Falei dando tapinhas no topo de sua cabeça.



– Está bem “mamãe”. – Disse em tom de ironia.



E o jantar se estendeu por mais uma hora até que todos estavam lotados de comida e um pouco mais alegres pelo álcool ingerido. Mas eu ainda estava sóbrio para que pudesse arrancar o que queria de Uruha, o mais alegre de todos no momento. Ele levantou com minha ajuda e saiu cambaleando pelo estabelecimento, jogando qualquer nota em cima do balcão do caixa e saindo para o frio noturno.



– Eu vou atrás dele, antes que ele comece a dançar com a primeira senhora que passar. – E coloquei a quantia destinada a minha parte na divisão dos gastos.



– Ou então com um poste. – Takeshi completou. – Eu quero dançar num poste... – E começou a rir da própria piada.



– Tá bom, tá bom. – Disse enquanto ria do estado alcoolizado do meu amigo. – Obrigada pelo jantar, foi muito bom.



– Sim! – Aoi respondeu. – Temos que fazer mais vezes! – E todos concordaram. – E Reita... – Falou baixinho. – Boa sorte com Uruha. – Completou piscando um olho.



– Aaaahh, estão cochichando de novo! – Kenzo apontou. – Talvez escondendo algo de nós? Hum?



Não me dei ao trabalho de responder. Apenas revirei os olhos e saí do restaurante, procurando aquele loiro que iria dar minhas respostas agora.



Nem precisei andar muito, nem tinha como ele ir muito longe de qualquer forma. Uruha estava meio andando meio dançando, chutando algumas pétalas que caíram da cerejeira que estava ao seu lado, mais parecia uma criança, e não pude deixar de rir ao mesmo tempo em que me encantava pela cena. Aproximei-me o suficiente para que me visse.



– Ah! Reita-san! – Gritou quando percebeu minha presença. – Elas não são lindas? – Falou enquanto chutava um pequeno bolo perto de seu pé. – A noite está linda, o clima está lindo... Não é lindo? – E gargalhou da própria repetição de palavras.



– Sim, é lindo. – Respondi olhando para seu rosto. Não tinha certeza se estava confirmando suas palavras ou me referindo a outra coisa.



Voltou a correr, do jeito que conseguia, e entrou no pequeno parque que estava ali. Seus olhos vasculharam o lugar até achar o balanço, para onde se direcionou e sentou de forma desajeitada.



– Venha, Reita! Me empurre!



Gargalhei audivelmente de sua atitude infantil. Então era assim que ele se comportava quando estava bêbado?



– Não acha que está um pouco velho demais pra isso? – Indaguei, mas ainda assim me direcionei para suas costas o empurrando com força. – Vai acabar quebrando o brinquedo.



– AAAH! – Gritou quando foi lançado no ar. Aquilo já estava começando a ficar digno da visita a um psiquiatra. – Fale menos e empurre mais!



E ficamos naquilo por mais algum tempo, qualquer um que passasse provavelmente chamaria a ambulância da clínica psiquiátrica. Mas meus braços começaram a doer, por mais que agisse como uma criança, seu peso não era de uma e eu já não estava mais acostumado a esse tipo de esforço.



– Já chega Kouyou. – Segurei as correntes para que o balanço parasse. – Não temos mais idade pra isso.



– Ah... – Suspirou. – Você é um chato. – E voltou a rir, mostrando os pequenos dentes que lhe davam um ar ainda mais infantil naquele momento. – Fazia tanto tempo que eu não brincava disso...



– Eu também. – Confessei.



Nee, Reita... – Sua voz voltou ao normal e seu rosto se abaixando em timidez. – Do que mais você sente falta?



E era nesse ponto que eu queria chegar.



– Por que acha que eu sinto falta de alguma coisa? – Respondi com outra pergunta, sentando-me no balanço ao seu lado. – Eu te disse alguma coisa?



Ele mordeu os lábios em um sinal claro de hesitação.



– Sabe, quando eu tinha dez anos, meu avô morreu de alguma doença que não me lembro do nome. – Sua voz, mesmo que alterada, tinha adquirido um tom um pouco sério e distante. – Eu não era muito ligado a ele, e a sua morte não foi muito traumatizante pra mim. Ele era uma pessoa reservada... – Franziu o cenho. – Mas eu era muito próximo da minha avó, e eu vi todo o sofrimento que ela passou. Ela já não brincava mais comigo, sempre ficava triste quando olhava para um canto da casa... Foi como se ela tivesse morrido também. – Me olhou de esguelha, e seus orbes gritavam uma acusação.



A história estava finalmente se encaixando, aquilo me deixava nervoso. Eu havia mesmo... ?



– Mesmo depois de um ano, ela não se recuperou por completo. Os parentes diziam que ela talvez estivesse exagerando e outros chegavam a pensar que ela podia ter entrado em depressão. – Suspirou pesadamente. – Mesmo sendo uma criança, eu a entendia melhor do que os outros porque ela sempre me usou como um escape de toda aquela tristeza, eu era seu neto mais próximo. Na verdade, o parente mais próximo. E desde essa época, eu entendi que quando você perde alguma pessoa realmente querida, você fica com uma marca que poucos podem ver.



– Como assim? – Indaguei curioso.



Então Uruha passou uma perna para o outro lado do balanço, fazendo com que seu corpo ficasse totalmente virado para mim.



– Já se passaram muitos anos desde que meu avô morreu, minha avó voltou a ser a pessoa alegre e carinhosa que foi antes dele partir. – Parou por um momento, fechando os olhos e ficando perdido em memórias, deixando que um leve sorriso aparecesse. – Mesmo tendo voltado a ser o que era, até hoje ela continua com um pedaço do seu olhar vazio... Aquele pedaço morreu junto com meu avô, e ele nunca vai ser preenchido de novo. – Abriu os olhos novamente, voltando a me encarar. – Então Reita, eu aprendi que todas as pessoas que perdem alguém importante ficam com esse vazio nos olhos, e que poucos percebem isso.



– E você acha que eu tenho esse vazio? – Eu tinha quase certeza de que havia lhe dito sobre Ruki, só precisava de uma confirmação.



– Sim, dá pra ver que mesmo quando está se divertindo, existe uma parte sua faltando. – Era um tom acusativo, mas calmo e até carinhoso. Um contraste típico dele. — Você não precisou me dizer para que eu pudesse notar.



– Não precisei... – Refleti. – Mas eu disse?



Então Uruha se levantou e me puxou pelo braço com força para que eu também ficasse de pé. Bagunçou meus cabelos e depois tombou a cabeça para o lado, voltando àquele ar infantil de poucos minutos atrás.



– Hm... Será? – E virou se de costas.



Não precisei de outra confirmação. Sim, eu havia falado de Ruki pra ele. O quanto eu não sabia, mas provavelmente não conseguiria arrancar essa informação. Pelo menos não agora.



–Reita! – Me chamou, já na escorado na entrada de metal do parque. – Já está tarde, você pode me dar uma carona?



Balancei a cabeça negativamente enquanto ria baixinho. Ele nunca iria me pedir algo assim se estivesse sóbrio. Ia me aproveitar disso para deixá-lo envergonhado na segunda.



– Nem precisa me jogar na cara esse momento embaraçoso depois. – Falou, deduzindo meus pensamentos. – Não tenho amnésia alcoólica, e já vou ficar totalmente envergonhado quando me lembrar, sozinho, disso tudo.



– Ah, que pena... Faria questão. – Sorri maldoso.



~~



Não demorou muito para que chegássemos em seu apartamento, as ruas vazias ajudaram muito e o restaurante não era tão distante dali. Conversamos mais algumas besteiras durante o caminho, nunca tocando no assunto que havia dado por encerrado no parque. Eu queria perguntar mais coisas, mas não sabia se queria ouvir e muito menos explicar.



Estacionei perto da entrada como tinha havia feito na última vez e esperei que o loiro saísse. Ele soltou o cinto, mas não saiu. Olhei em sua direção e encontrei Uruha de olhos fechados, com os lábios sendo mordidos por seus dentes, as mãos se remexiam e sua cabeça estava baixa.



– Está passando mal, Kouyou? – Deduzi, não seria surpresa depois das garrafas de sakê ingeridas.



– Não é isso... – Sussurrou.



– Então, o que é? – Fiquei curioso e acabei me aproximando dele instintivamente.



– Estou... – Hesitou. – Só... Pensando.



– Pensando em... ?



Seus olhos se voltaram para mim, se assustando um pouco com a proximidade, e ele finalmente parou de morder os lábios, antes de entreabri-los para inspirar uma grande quantidade de ar como se estivesse criando coragem para algo.



– Estou pensando se... – Pausou por um momento. – Se eu te chamar de Rei-chan de novo, você me beijaria mais uma vez.



E eu congelei no lugar.



– O-O qu-



Tentei terminar, mas não consegui.



Não com aqueles lábios quentes e macios sendo pressionados contra os meus com tanta calma.



Eu não sabia como reagir, não sabia se fechava os olhos, se o segurava, se o empurrava... Não, não o empurraria, aquele contato era bom demais para ser rompido. Necessitado demais para ser negado.



Deixei que meus lábios se entreabrissem, minha língua invadindo sua boca com desespero. Uruha surpreendeu-se de primeira, mas depois pude sentir seus lábios se movimentando e sua mão emaranhando-se em meus cabelos, me puxando ainda mais para si, tornando o ósculo ainda mais intenso.



Não sei quanto tempo ficamos ali, nos beijando intensamente, entretanto... Em determinado momento, os lábios do loiro se afastaram de uma vez só, junto com Uruha que estava completamente corado. Ele não me deu chance de dizer qualquer coisa, e de qualquer forma, eu não sabia o que dizer. Apenas me deu um sorriso meio triste e envergonhado, abrindo a porta e saindo do carro, me deixando para trás com mil pensamentos na cabeça.



Mas que merda eu fiz?



~



*Koto e Shamisen = Instrumentos de cordas tipicamente japoneses. (Adoro o som que eles fazem, diga-se de passagem.)






Notas finais
Fiquei muito feliz com a quantidade de reviews que ganhei essa semana *--* /gay
Muito obrigada, sério mesmo ♥
Bom saber que tem gente que desaparece, mas depois volta lol~
Então, pra quem esperava um POV do Ruki... Foi do Reita, achei que ficaria melhor.
E agora? O que vai acontecer? hahahaha. Uruha alcoolizado é amor, apenas. :3
O outro só no próximo sábado, como já sabem. :)
Espero que tenham gostado e até o próximo!
Reviews, por favor? ♥