Ano 2090

– Já pegou o que precisava? – Perguntei.

Emma e eu havíamos entrado em um supermercado abandonado para pegar comida.

– Precisamos de mais água. – Ela falou.

– Rápido, temos que sair daqui, eles já estão chegando.

Era impressionante o número de super-humanos que haviam sido gerados desde o ano das abduções, como ficou conhecido por todo mundo.

Os abduzidos restantes tinham tido famílias, e a Nova Ordem continuava abduzindo mais pobres almas perdidas.

– Estão muito longe? – Emma perguntou, colocando mais garrafas de água em uma mochila.

Fechei os olhos e me concentrei nas paredes do supermercado.

– Duas quadras. – Falei.

– Vamos, já acabei.

Emma se levantou e começamos a correr para o lado de fora em silêncio

Alcançamos uma distância de três quadras fácil. Entramos em um beco e nos sentamos ofegantes.

– Posso te fazer uma pergunta? – Emma falou, entre uma respiração e outra.

Assenti com a cabeça.

– Você nunca me explicou do que estamos fugindo todos esses anos.

Fechei os olhos e encostei minha cabeça na parede atrás de mim.

– Tudo bem, vou explicar. Sabe nossos pais, eles estão mortos. Sabe quem causou isso? As mesmas pessoas que estão atrás da gente agora.

– A Nova Ordem?

– Exatamente.

– E porque exatamente eles estão atrás de nós?

– Somos uma parte dos super-humanos não arquivados... Eles não nos conhecem, mas podem nos rastrear pelo nosso DNA, por isso temos que evitar ao máximo usar nossos poderes.

– Mas as suas visões aumentam a cada dia, não tem como você controlar isso, ou tem?

Fiquei em silêncio. Emma era o tipo de menina prodígio, ela entendia as coisas muito rápido apesar de nunca termos ido a uma escola. Ela sentia as coisas e isso era uma vantagem, não era um poder nem nada, mas ela simplesmente sabia sempre que estávamos correndo perigo.

– Se esconde atrás das escadas, vai. – Falei.

Corremos até uma escadaria que tinha no beco e deixamos os soldados da Nova Ordem passarem pela entrada do beco.

– A gente precisa parar de fugir... – Emma falou.

– Tem ideia melhor? – Falei.

– Precisamos de um lugar pra ficar sem correr perigo.

Comecei a raciocinar. Minha mente tinha o poder de deslizar as memórias, eu guardava todas elas, infelizmente não conseguia esquecer nada.

A minha respiração pesou e meus olhos ficaram pretos. Uma visão, e estava vindo muito rápido.

Eu e Emma estávamos em uma sala, haviam várias pessoas, todos usavam preto, mas eu sabia que não estavam nos fazendo mal, eram nossos aliados.

– Podemos usar nossos poderes sem medo aqui dentro. – Falou uma menina.

Ela era alta, os cabelos desciam ondulados pelos ombros, os olhos eram verdes.

– Eles vão rastrear a gente! – Ouvi Emma gritar com ela.

– Não vão não, as paredes são revestidas em aço, ninguém vai nos achar.

A visão congelou e uma pontada muito forte na parte de trás da cabeça me fez voltar ao normal.

– Ai. – Falei.

– Teve outra? – Emma falou, olhando pra mim, preocupada.

– Dessa vez não foi uma memória. – Falei, começando a abrir um sorriso. – Existe um lugar Emma, um lugar onde estaremos seguras.

– Bom, e onde é? – Ela perguntou.

– Eu não... Eu não sei. – Falei, o sorriso desaparecendo do meu rosto.

Emma fitou os pés.

– Não fica assim, a gente ainda vai achar esse lugar... Por enquanto... Temos que voltar pra casa. – Ela falou.

Eu sabia que ela estava certa. Levantei-me e subimos até o telhado dos prédios que formavam o beco para podermos ir para casa sem nos preocupar com os soldados da Nova Ordem.

{...}

Pular telhados de prédios não era assim tão difícil, quer dizer, quando se tem poderes.

Chegamos a um apartamento pateticamente normal e entramos pela porta de emergência.

– Alma vai ficar feliz quando dermos aquela barra de chocolate pra ela. – Emma falou, descendo as escadas de emergência.

Alma e Caleb eram gêmeos que achamos por aí, eles estavam com fome e em meio a um tiroteio entre super-humanos não arquivados e agentes da Nova Ordem.

A princípio, os dois eram humanos normais, então Emma levou os dois com ela até o prédio abandonado onde morávamos.

– Crianças, chegamos. – Falei, batendo a porta atrás de mim.

Ouvi o ruído da televisão, os gêmeos estavam com o olhar fixo no noticiário que passava na televisão. Emma estava sentada no chão, os olhos lacrimejando.

– O que estão vendo? – Falei.

Parei para olhar. As imagens eram assustadoras.

– Super-humanos. Seriam eles ameaça ou salvação? Sabemos que foram criados pela Nova Ordem, mas ninguém, até hoje, sabe a intenção com que foram criados. No momento, achamos que a intenção era a melhor possível, já que agentes da Nova Ordem estão sendo massacrados por eles, tentando reagrupa-los e organizá-los.

“Eles não passam de um bando de marginais super poderosos, correndo por aí, roubando nossa comida, matando nossos agentes de segurança.”

“Eles são um erro de laboratório que a Nova Ordem deixou escapar... Eles são um perigo para a Nação.”

Desliguei a televisão rápido e olhei para os três.

Havia semanas e estávamos sendo atacados pela mídia. Os humanos eram influenciados muito rápido, se a mídia falava, ela estava certa. Eles nem tentavam conhecer algum super-humano para saber se tudo que eles diziam era verdade.

– Vocês são super-humanas não são? – Alma perguntou.

– Somos sim Alma. – Emma disse, passando a mão pelos cabelos escuros de Alma.

– Eles estão falando mentiras... Vocês não são marginais. – Caleb falou.

Ele se levantou do sofá e abraçou minhas pernas, como eu fazia com meu pai quando era pequena. Senti as lágrimas se formando em meus olhos.

Me ajoelhei na frente de Caleb.

– Você é muito esperto, eles não conseguem enganar nenhum de vocês dois. – Falei.

Caleb limpou a lágrima que havia rolado pelo meu rosto.

– Bem, está na hora dos dois dormirem. – Falei.

– Conta uma história pra gente! – Alma falou, sorrindo, como se tivesse esquecido tudo que havia visto no noticiário.

– Emma é melhor nisso do que eu. – Falei, sorrindo.

– Ai tudo bem... Você já me deve três noites, Rachel.

Emma levou os dois para o quarto e ficou por lá.

Liguei a televisão novamente e abaixei o volume até que só eu pudesse ouvir.

– Hoje agentes percorreram as ruas do gueto procurando super-humanos, não sabemos seus poderes, mas parece que muitos têm o poder de desaparecer, já que são muito difíceis de encontrar.

Eles mostravam as imagens das guerras, mas mostravam somente quando revidávamos, nunca mostravam quando atiravam em nós, ou jogavam pedras, gás. Nós éramos os vilões e não quem nos criou.

Minha cabeça começou a latejar e eu desliguei a televisão.

Fui para o meu quarto e me deitei para dormir. O sono não demorou a vir.