Eu tive um sonho.

Um garoto loiro apontava uma arma para mim e eu apontava uma para ele.

– Vamos abaixar juntos, ta legal? – Ele falou.

– Como vou saber se está falando a verdade?

– Por favor, abaixem logo essas armas, eu estou com fome! – Uma menina que estava com ele falou.

Abaixamos as armas e a menina estendeu a mão.

– Sei que você tem comida, por favor.

A menina era magra, mas resistente, tinha os olhos incrivelmente azuis e os cabelos castanho escuros.

Eu peguei a mochila para estender a ela. A visão mudou. Novamente aquela sala, com as pessoas vestidas de preto.

– Bem vindas a 15ª Província mocinhas. – Um garoto, os cabelos eram escuros e espetados, tinha um sorriso malandro nos lábios. – Hei galera, carne nova! – Ele gritou, e um grupo de pessoas olhou diretamente pra nós.

A visão mudou de novo.

Eu não conseguia respirar. Água pra todo lado, a superfície estava muito longe. Emma não estava perto de mim, eu comecei a me desesperar.

– Calma criança. — Ouvi uma voz na minha cabeça.

Sentei na cama, ofegante. Eu não conseguia respirar direito.

– Tudo bem? – Emma falou, se sentando na cama dela.

Olhei o relógio, cinco e meia da manhã.

Assenti com a cabeça.

– Você tem que desvendar logo essas visões, não pode ficar acontecendo isso toda hora, vai fazer mal pra você.

– Eu sei... E sei pra onde temos que ir.

Levantei da cama e comecei a jogar roupas pra dentro de mochilas.

– Ta falando do que? – Emma perguntou ainda sentada na cama.

– Do lugar, com pessoas como nós! Onde não podem nos achar.

– Onde?

– 15ª Província.

– Sabe ir pra lá?

– Não.

– Como quer ir então?

– A gente tenta chegar lá...

– E as crianças?

– Vão com a gente.

– Você é maluca Rachel, como a gente vai arrastar duas crianças pela Nação até chegar a 15ª Província com agentes no nosso encalço, tentando nos capturar?

– Nós vamos.

Eu e Emma paramos de discutir e olhamos para a porta, Alma e Caleb estavam parados, as mãos dadas.

– Nós vamos com vocês. – Caleb falou.

– Meu amor, vocês não podem, vocês são muito novos e é muito... – Emma foi interrompida.

– Perigoso? Nós sabemos. – Alma falou.

Os dois não estavam brincando, muito pelo contrário, eles falavam muito sério, eu nunca vi duas crianças daquele jeito.

– Vocês... Têm certeza? – Perguntei.

– Absoluta Rachel. – Alma falou.

Olhei para Emma e fiz um sinal de positivo com a cabeça.

Começamos a arrumar nossas coisas e logo fomos até o quarto dos gêmeos arrumar as poucas coisas que eles tinham.

{...}

– Prontos pra ir? – Perguntei.

Os dois sorriram, era como se eles quisessem ir.

– Tudo bem então, comam um pouco antes e nós vamos.

Eles se sentaram no chão da sala e começaram a comer.

Minha cabeça começou a doer e eu me sentei no sofá.

– O que houve? – Emma perguntou.

– Não sei... Não é uma visão.

A temperatura subiu de repente. Senti espasmos acima do olho esquerdo e uma forte pontada na testa. Quando passou, uma luz forte invadiu a sala.

– O que é isso? – Emma falou.

– Leva as crianças pro quarto agora. – Falei.

Corri até a janela e lá estava. Um asteroide gigantesco acabava de se chocar com o chão e uma onda de energia ia atingir o prédio a qualquer minuto.

– Emma, pro telhado, agora! – Gritei.

Peguei Caleb no colo e Emma pegou Alma. Corremos escada acima.

Olhei para a onda de energia que varria vários prédios no bairro.

– Pegue Caleb, voe. – Falei.

– Voar? Do que você ta falando?

– Eu sabia que você tinha esse poder, mas nunca precisou usá-lo antes.

Emma me olhou, assustada. Ela pendurou a mochila nos dois ombros e pegou Caleb no colo.

– E você? – Ela falou.

– Eu me viro, vai.

Emma colocou impulso nos pés como se fosse pular. Foi perfeito, ela alçou voo, ficando longe do alcance da nuvem de energia.

Eu comecei a correr e pular sobre os prédios, até o mais longe que eu conseguia para evitar a nuvem de energia. Conseguia ver Emma sobrevoando acima de mim.

O último prédio. Olhei para trás assim que pisei nele. A nuvem nem chegara a diminuir a potência.

– Vai embora! – Gritei para Emma, mesmo sabendo que ela não me ouviria.

A nuvem foi chegando, cada vez mais perto, eu podia sentir a energia fritando a ponta dos meus cabelos.

Olhei para Emma uma última vez. Porque ela ainda não tinha ido embora?

A onda atingiu o prédio.

Uma sensação de choque percorreu todo o meu corpo e eu senti um grito que saiu engasgado pela minha garganta. A escuridão tomou conta da minha visão.