Soul Angel

2 O jogo de cartas e o segredo da galinha


Notas iniciais
Obrigado a todos e estão acompanhando e principalmente a todos que reservaram um minutinho do seu tempo para comentar, isso me incentiva muito! Enfim, boa leitura, espero que estejam gostando!

Capítulo 2 – O jogo de cartas e o segredo da galinha.

Estava muito escuro lá fora. a única fonte de luz eram as tochas mágicas que ascendiam de noite e se apagavam de dia lá fora. O Chalé de Hades estava numa penumbra tão densa que Nico sentia a superfície de todos os objetos do quarto. Sabia a posição de tudo sem enxergar praticamente nada. O garoto se encontrava sentado em cima de sua cama, as costas na parede fira. Seu coração batia rapidamente, o quê ele achava bobo.

Will Solace havia prometido que viria jogar cartas com ele, mesmo com a restrição de horário. Nico nunca fora uma pessoa sociável. Confessava que não era qualquer um que ele não mandaria longe se sugerisse vir em seu Chalé jogar cartas. Mas Solace não era qualquer um. Ele era irritantemente simpático. Nico tinha de admitir que gostava de sua companhia. Tinha que admitir que gostava de como o garoto o encarava. Como se fosse alguém comum. Uma companhia desejável.

E ele tinha que dizer que Solace o fazia sentir nervoso. Quando ele o tocava, Nico sentia um choque elétrico percorrer seu braço. Quando ele sorria, Nico sentia seu coração acelerar. E quando ele o tratava bem, Nico sentia algo morno em seu peito. E se sentia acanhado ao mesmo tempo.

Agora, ele estava morrendo de medo de abrir a porta para Will Solace. Ele não sabia como agir em sua presença. E ele também tinha medo que afinal de contas, ele acabasse não vindo. E ele estivesse tão ansioso para vê-lo. Mas talvez, seu maior medo fosse descobrir que na verdade, o garoto o tratava como tratava todo mundo. Que ele estivesse interpretando errado. E ele tinha certeza que estava. Tinha medo de acabar se apaixonando por Solace por pura carência.

Seu coração saltitou quando uma batida soou em sua porta. Nico passou a mão nos cabelos para assentá-los, e então abriu a porta. Will entrou como um raio, arfando. Fechou a porta e encostou as costas nela. Nico se afastou um pouco de perto dele.

– O quê foi? – ele sussurrou.

– Harpias da limpeza – sussurrou Will de volta, os olhos fechados tentando recuperar o fôlego – Uma particularmente gorda veio atrás de mim. Mas não se preocupe, ela pensou que foi um gato, provavelmente, porque começou a chutar uma lixeira. Ou vai ver ela só não era muito inteligente.

Will abriu os olhos.

– Porquê estamos no escuro?

– Hã... É porque está de noite... Eu vou ascender uma vela.

E se encaminhou para o armário enquanto Will jogava uma mochila em cima de sua cama. Pegou um candelabro e uma vela, então catou uma caixa de fósforos em meio as suas coisas.

– Você está enxergando alguma coisa? Eu só estou vendo um borrão, que suponho que seja você.

– É por essas e outras que eu não gosto dessa camisa laranja. Como você saiu? – perguntou Nico riscando um fósforo.

– Eu pulei a janela do segundo andar.

Nico encarou seu rosto recém iluminado pela luz alaranjada da vela.

– Você pulou a janela do segundo andar?

– Sim, mas não se preocupe, ninguém me viu.

Isso não evitou que Nico ficasse nervoso. Parecia a ele cada vez mais uma péssima ideia. O quê iam falar de Will Solace pulando a janela do segundo andar para ir vê-lo à noite?

Will abriu a mochila e lhe mostrou um baralho sorrindo.

– E não é só isso! Tenho um presente pra você por ter ficado me ajudando lá na tenda médica.

Nico ficou nervoso. Will fez um sinal com a mão para que ele chegasse mais perto.

– Me custou alguma coisa conseguir isso aqui, então se considere especial!

Ele não podia acreditar. Solace tinha trazido uma garrafa de Whisky Drurys.

– Você é o líder do seu chalé! Se alguém souber!

– Só vão saber se você contar. O quê é a vida sem riscos Nico?

– Onde você pretende colocar isso?

–Se não acabarmos com isso, podemos deixar o resto aqui, já que só mora você nesse chalé – ele falou naturalmente, desconsiderando a preocupação de Nico com um aceno.

– Eu ainda não estou acreditando.

– Se não quiser pode dar pra um amigo seu – ele falou em tom ofendido – Mas eu não vou pegar de volta, é um presente. O Percy ia adorar e...

– Ei, ei. Onde exatamente o Jackson entra nessa história? Não estou reclamando, só estou pasmo. Achei que líderes de chalé não faziam esse tipo de coisa.

– Ora! – ele cruzou os braços, o rosto franzido – Eu não saio distribuindo bebida para campistas. Não posso fazer isso uma vez na vida por um bom amigo?

Nico esfregou os olhos cansado com a discussão.

– Tudo bem Solace. Mas só um copo, OK?

Will lhe lançou um olhar debochado.

– Claro, o que quiser.

E começou a embaralhar as cartas.

Nico pegou dois copos no armário e se sentou no lado oposto da cama.

– O que vamos jogar?

– Sabe jogar uno?

– Não.

– Achei que não soubesse. É posterior a 1940 – disse ele com naturalidade – Eu vou lhe explicar. Tem essas quatro cores, está vendo?

E Nico passou a aprender as regras do jogo enquanto abria a garrafa e servia os copos, juntando um livro do chão para apoiar os copos. Quando tomou o primeiro gole, o cheiro e o gosto forte queimaram sua garganta. Will o encarou.

– Oh, me desculpe, esqueci que é menor de idade.

– Você também é – Nico lhe lançou um olhar cortante.

– Eu tenho dezessete, é quase maior de idade.

– ... Eu acho que já fiz quinze... Não tenho muita certeza – ele girou o copo nas mãos.

Will lhe lançou um olhar compreensivo, e esticou o braço para tocar seu ombro. Nico não se sentiu desconfortável com o toque. Pelo contrário, ele se sentiu bem com isso. Ele gostava que Will chegasse mais perto dele. Will retirou a mão de seu ombro e começou a dar as cartas.

– Não fique assim Nico, se quiser podemos marcar hoje como a data oficial do seu aniversário, que acha?

– Tanto faz – Nico murmurou.

– Feliz aniversário então! Muitos anos de vida! – e lhe dirigiu um daqueles seus sorrisos que mostravam todos os seus dentes brancos – Eu o abraçaria se não fosse derrubar o nosso precioso Whisky.

Nico riu. Will parecer sorrir ainda mais com isso.

– Bem – começou Will soltando a primeira carta e tomando um gole de Whisky – Se quiser eu posso colocar um pouco de refri aí para amenizar o gosto, não precisa tentar me impressionar e se matar bebendo isso puro.

Nico revirou os olhos.

– Não é a primeira vez que bebo isso puro Solace.

– Devo pensar que muitos caras pulam a janela para vir beber com você?

Nico enrubesceu de tal forma que achou que devia ter sangue escorrendo de suas orelhas. Ele não sabia o que dizer. Tomou mais um gole de seu copo e sentiu a preocupação ir se indo junto com a bebida.

– Pegue mais quatro cartas – disse Will como se nada tivesse acontecido, largando uma carta na cama.

Nico pegou mais cartas do monte e jogou um seis azul.

Will encarou suas cartas pensativo.

– O que você mais gosta de fazer?

Nico hesitou. Nunca ninguém havia lhe perguntado esse tipo de coisa. Will tinha lhe feito uma pergunta parecida mais cedo e acabou o chamando de “fofo”. Nico ainda não sabia se era um insulto.

– Olha, eu não tenho muito tempo de lazer, mas quando tenho tempo livre eu dou uma passeada entre os mortos no mundo inferior.

Will o olhou com uma careta.

– Vou ter que lhe ensinar o que é diversão.

– Não sei o que isso significa faz oitenta anos – disse Nico descartando um mais dois.

– Vamos fazer assim? – Will falou comprando mais duas cartas – Quem ganhar pergunta alguma coisa?

– Acho melhor não – falou Nico nervoso.

– Fechado, vai ser assim. UNO! — ele sorriu.

– Ah, vai se ferrar.

– Jogue essa carta Di Angelo. Você tem três chances em uma de jogar uma cor que eu não tenha.

Nico jogou um nove vermelho.

– Ganhei – cantarolou Will jogando um nove azul em cima.

– Ah, esqueci que dava pra fazer isso – lamentou-se Nico.

– Bem, agora você vai responder minha pergunta – disse Will servindo os copos de novo.

– Eu não vou lhe dizer nada Solace – disse Nico corando outra vez.

– Vai sim! Quando eu perder pode me perguntar qualquer coisa também! O que você quiser! – ele falou exaltado.

Nico sentia que o rosto podia explodir de quente. Talvez fosse a bebida.

– O que quer saber Solace?

– Em off, pode me dizer porque me chama de Solace? – ele arqueou as sobrancelhas.

– Talvez porquê foi esse o nome que a sua mãe lhe deu?

– Não, mas você não chama o Jason de Grace – ele desviou os olhos – Somos amigos, certo?

– Você já me perguntou isso.

– Você não respondeu a primeira pergunta.

– Não sei – falou Nico exasperado, levando o copo à boca.

– Me chame de Will? – ele falou com os olhos pidões.

– Vou pensar... Solace – e lhe sorriu de canto.

Will sorriu de canto pra ele também, embaralhando as cartas.

– Bem agora o minha pergunta.

– Você já fez a sua pergunta.

– Há, nem vêm, eu disse que era em off.

– O que você quer saber? – perguntou Nico resmungando.

– Quer sair comigo?

Nico ergueu os olhos para ele e o encarou. Ele tinha certeza que não tinha ouvido direito.

– Hã?

– Quer sair comigo?

Will ficou mais vermelho, mas sustentou o olhar de Nico.

– Como assim? – perguntou Nico, se sentindo lerdo e idiota.

– Bem – ele olhou para baixo e brincou com um fiapinho solto da sua bermuda – Tenho uns amigos que vão dar uma festinha numa outra Bunker que acharam perto do campo de morangos. Não tem muita gente que sabe a localização, entende? Mas andamos procurando as outras Bunkers depois que descobrimos a primeira. Enfim, vai ser chato ir sozinho, e pensei que talvez você quisesse ir comigo.

Nico não sabia o que dizer. Talvez tenha sido idiota de sua parte, mas ele falou:

– Como assim, porque está me chamando? Não era pra você convidar uma loira maravilhosa do chalé de Afrodite?

Will finalmente pareceu sem graça.

– Eu não gosto muito das filhas de Afrodite, elas são muito exibidas. Eu ia gostar da sua companhia. Se não quiser eu vou sozinho... – ele murmurou.

Nico o mirou enquanto ele brincava com o fiapinho solto da bermuda.

– ... Eu ia adorar...

– Sério? – Will levantou a cabeça surpreso – Nossa! Quer dizer, você vai gostar, vai ter música, um pouco mais disso aí – e ele apontou para o Whisky – e nós vamos nos divertir bastante!

Will tentava conter um sorriso satisfeito, distribuindo as cartas.

– Nico, qual sua música preferida?

Nico pensou a respeito. Ainda estava meio impressionado com o convite inesperado.

– Hmm, eu prefiro não comentar, você não ia saber mesmo, não era nascido.

– Ah, claro – ele revirou os olhos – Eu gosto de “Wake me up when september ends”.

Isso era novidade.

– Você gosta de rock?

– Gosto – ele descartou um “pular” e depois um três vermelho.

Nico sentiu alguma admiração crescer por Will. Ele não tinha muita cara de quem escutava rock.

– Qual a sua cor preferida? – perguntou ele.

– Eu gosto de azul – soltou Nico, e se arrependeu logo depois.

Will não passou recibo do que isso significava para Nico.

– Eu gosto de marrom.

– O quê tem demais no marrom? Marrom cor de árvore? – Nico descartou uma carta no monte.

– Não, é mais aquele marrom aconchegante, e bonito. Tipo a cor dos seus olhos – ele sorriu.

Nico derrubou o monte no chão sem querer.

– Eu junto – disse Will se dobrando.

Como Will conseguia falar esse tipo de coisas perturbadoras sem nem ao menos corar? O garoto voltou com as cartas nas mãos.

– Sua vez.

– Uno – disse Nico desconcertado, colocando um três na cama.

Will fez uma cara de angústia e colocou um seis azul na cama. Nico sorriu e descartou sua última carta, um nove azul.

– Parece que é minha vez de perguntar – Nico sorriu satisfeito.

– Ótimo, faça sua pergunta – Will cruzou os braços e o encarou.

Nico pensou um pouco. Tinha muitas coisas que ele gostaria de saber sobre Will. E muito poucas que ele teria coragem de perguntar. Decidiu dos males o menor.

– Está bem, qual é a da galinha?

Mas Will enrubesceu e coçou a cabeça.

– Bem, acho que eu não posso mentir. Dante e eu fizemos uma aposta. Ele achou que eu não ia ter coragem de sentar a sua mesa e convidar você pra ir na festa.

Nico refletiu.

– Então você só me chamou por causa da aposta?

Ele se sentiu vazio. De repente, queria que Will fosse embora.

– Não! – Will pareceu assustado – Claro que não, justamente ao contrário! Eu estava com vergonha de te convidar, então... Bem... Dante é o meu melhor amigo, então ele apostou que eu não tinha coragem, e bem... Isso me ajudou a... bem... Mas não se confunda, eu tinha a intenção de te chamar desde o início!

Nico continuou olhando para baixo.

Will ergueu seu queixo com a mão.

– Ei, ei. Não fique assim, por favor. Está me deixando nervoso. Eu... eu juro pelo Estige que o que eu disse é verdade!

Nico ergueu a cabeça um pouco.

– E porque uma galinha?

Will pareceu recuperar o bom humor.

– Porque a gente ia dar de oferenda para os nossos pais... A gente caçou elas no limite do campo de morangos – e olhou para o relógio na parede – Nossa, já é uma e meia! Melhor eu ir.

E começou a catar as cartas.

Will levantou e pegou sua mochila. Nico o acompanhou até a porta.

– Foi excelente jogar com você Nico. Você vai ver, vai gostar de ir na festa amanhã.

– Obrigada pelo presente – Nico falou sem jeito.

E então Will o abraçou. Nico ficou ainda mais vermelho quando o garoto lhe deu um beijo na bochecha e saiu pela porta olhando para os dois lados antes.

Nico fechou a porta com uma certeza. Ele sentia algo por Will Solace.

Notas finais
Obrigada por ler! :3