Soul Angel
3 Nunca vá numa festa de filhos de Afrodite
Notas iniciais
Capítulo 3 – Nunca vá numa festa de filhos de Afrodite.
— Corte mais largo – reclamou Will Solace, enquanto enrolava uma atadura no braço de Travis.
— Eu estou cortando – rebateu Nico.
O garoto encontrava-se sentado em um banquinho ao lado do catre de Travis Stoll, onde Will tentava salvar seu braço quase destruído. Travis tivera seu braço quase decepado pelos dentes de um monstro. Mas pelos sedativos que Will havia lhe dado, ele não devia estar sentindo dor, pois trocava as estações do rádio com o braço bom, completamente consciente. Nico cortava ataduras para Will com uma tesoura de prata comprida.
— Se estiver pode parar, porque esse troço pinica a minha ferida. Hey, eu disse que pode para Nico – ele enfiou o braço bom no colo de Nico e tirou o rolo de suas mãos – Will vai deixar essa ferida respirar um pouco antes.
— Temos que fechar essa ferida! – reclamou Will quase quicando no mesmo lugar de frustração – Tem sorte que eu não tapo até o seu rosto com ataduras que nem eu fiz com Connor!
— Também te amo – Connor falou com a voz abafada no fundo da tenda.
— Ainda não sei como ele conseguiu estar no raio da explosão daquela mina – ele falou olhando Connor por cima do ombro.
— Não se preocupe, vou continuar bonitão depois que as sobrancelhas crescerem outra vez – Connir falou lá do fundo.
— Me passe aquele agulha e a linha na bandeja, por favor Nico – Will esticou a mão e Nico alcançou a ele.
— Ah, pontos não – reclamou Travis – Onde mais você está vendo fendas em mim Will? Vai acabar fechando buracos a mais.
— Vou, vou costurar a sua boca, Travis.
Nico passara a tarde ajudando Will com os campistas feridos. Ele não fazia grande coisa além de cortar ataduras e alcançar coisas, afinal era simplesmente terrível em medicina. Mas tinha que admitir que gostava de ver Will trabalhar. Ele era muito hábil costurando o braço mutilado de Travis. Era estranho como alguém tão bonito podia mexer em algo tão grotesco sem nenhum nojo no rosto, era o completo oposto do que se esperava de alguém como Solace.
— Estou de saco cheio de ficar aqui – comentou Connor – Vestido de múmia.
— É onde vai ficar até suas queimaduras em quarenta por cento do corpo sararem! – Will apontou uma mão ensanguentada para ele.
Travis rodava o dial meio entediado.
Nico levantou e se espreguiçou.
— Onde você vai? – perguntou Will levantando os olhos do próprio trabalho para falar com ele.
— Isso, deixe o meu braço semi-aberto para conversar – comentou Travis, aumentando o volume de “Mambo Nº 5”
— Eu vou no refeitório buscar alguma coisa, quer algo? – perguntou Nico baixando a blusa que tinha levantado.
— Sim, traga uma jarra de suco, estou morrendo de sede.
— Eu também – comentou Connor lá do fundo.
— De que vocês querem?
— Tangerina, e traga uma garrafa de álcool também, preciso desinfetar as coisas por aqui.
— É Nico, ele tem que desinfetar as coisas por aqui. Eu por exemplo tenho gonorreia! – comentou Travis.
— É, e eu tenho uns fungos estranhos crescendo no meu...
— E Connor e Travis sabem muito bem que isso é o procedimento padrão – cortou Will.
— Eu volto logo – disse Nico, e então saiu da tenda.
O dia estava maravilhoso lá fora. O sol brilhava forte, os raios passando preguiçosamente por entre as folhas das árvores. Ninfas corriam alegres do sátiros que tentavam abraça-las, e viravam árvore quando algum pobre coitado chegava muito perto. Um pensamento perturbador lhe veio em mente. Será que o treinador Hedge corria assim atrás de sua esposa? Ele tirou a visão grotesca da cabeça e decidiu nunca mais voltar a pensar nisso.
Nico andou distraído por entre a trilha que levava até o refeitório. Estava tão disperso que só reparou em Jason quando o garoto lhe puxou pelo ombro, quase lhe causando um ataque cardíaco.
— Hey Nico! – ele lhe sorriu.
— Nossa. Que susto! – o garoto massageou o peito, tentando fazer o coração desacelerar.
— Desculpe pelo susto – ele tirou os óculos e os limpou na blusa.
— Ei, você está com a blusa do acampamento! — Nico se surpreendeu.
— Sim! – seu sorriso se alargou – Achei melhor me naturalizar, já que vou começar a viver aqui.
— Piper deve ter adorado, cara!
— Ela gostou mesmo – ele fez um sinal com a mão para que continuassem andando.
— Não vai sentir falta de casa?
— Claro que vou – comentou ele com as mãos nos bolsos – Mas eu não poderia voltar se a minha família está aqui. Pelo menos a maior parte dela. Piper, você, Percy, Annabeth... Sinto falta de Hazel, Reyna e Frank... E principalmente do Leo. Mas a vida tem que seguir.
— Eu sinto muito. Eu realmente sinto muito – Nico falou.
E ele realmente sentia. Leo era muito nobre e um excelente amigo. Ele sentiria sua falta. E sabia que Jason devia estar muito infeliz com isso. Mas Nico sentiu sua alma indo embora. E não tinha volta.
— Eu fico muito feliz que você fique – complementou Nico.
— Eu também fico muito feliz que você tenha ficado Nico. É bom ver você criando laços – Jason olhou para o céu.
Nico não sabia o que responder. Os únicos laços que tinha era com Jason e talvez com Will Solace.
— Eu ouvi dizer que Percy está te procurando.
— É.
— Não vai ir falar com ele?
— Não.
Eles andaram em silêncio por um minuto.
— Não preciso ouvir o que ele tem pra me dizer. Eu já sei o que ele vai dizer.
— Como sabe se ele nem disse?
Nico arremedou a voz boba de Percy:
— Hey Nico, cara, queria mesmo falar com você. Como você é infantil cara, serio que gostava de mim? Você é no máximo um amigo, olha que nem isso...
— Vai jogar fora uma amizade só por isso.
— Não é tão simples assim.
— Percy nunca diria esse tipo de coisa, ele gosta muito de você! – falou Jason escandalizado.
E Nico se odiou por desejar que ele estivesse falando a verdade.
— Eu não preciso da pena de ninguém Jason. Já sei o que ele vai me dizer e não acho que precise ouvir.
— E pode crer que você não tem a minha – ele levantou a mão como se jurasse – Mas você não pode esperar contar algo assim para o Percy e esperar que ele não tenha nada para dizer pra você. Ele tem o direito de te dar uma resposta.
— E eu tenho o direito de não escutar.
— Ah, qual é Nico, não seja assim! Você tem que ir falar com ele! Tem resolver essa história!
Nico chutou uma pedra no seu caminho com um pouco de raiva.
— Podemos falar sobre outra coisa?
— Podemos – falou Jason calmo – Como vai o Will Solace?
Nico estacou no chão. Jason, que o passara, voltou para encará-lo.
— O que você disse?
— Como vai Will Solace? – ele perguntou, o rosto neutro.
Ele sentiu a raiva subir a sua cabeça.
— Quer parar de falar comigo desse jeito?
— Desse jeito como? – ele levantou uma sobrancelha como se não entendesse.
E Nico nunca teve tanta vontade de enfiar a cabeça de Jason na sombra do carvalho a seu lado, fazendo com que seu corpo e sua cabeça ficassem em lugares diferentes.
— Você sabe muito bem!
— De que jeito Nico!?
— Desse jeito que você está me tratando agora! – a voz de Nico subiu uma oitava.
— O quê, como se você fosse gay? Porque você é Nico, e não tem nenhum problema nisso! – Jason falou com a voz elevada também.
Aquelas palavras atingiram Nico como se Jason tivesse socado a sua cara. Uma coisa era eles falarem daquele jeito informal, outra bem diferente era Jason dizer isso. Ninguém nunca soube. Ninguém nunca tinha o chamado assim. Aquilo tornava tudo mais real. Ele era Nico filho de um dos três grandes, e gostava de garotos. Ele odiou Percy por ter feito ele começar a sentir isso. Odiou Jason por tê-lo que fazer aceitar isso. Odiou Will Solace por possivelmente retribuí-lo. E se odiou ainda mais por saber que era verdade. Ele se sentia vazio. Seu coração batia muito rápido.
— Nunca mais me chame assim – murmurou Nico, entrando na sombra do carvalho e desaparecendo.
Ele sentiu Jason batendo na superfície da árvore já sólida, mas Nico não ia voltar. Estava profundamente magoado com Jason. Queria que ele fingisse que Nico era absolutamente normal e saia com garotas do chalé de Afrodite. Mesmo sabendo da verdade. Ele saiu a sombra de outra árvore perto do refeitório.
— Quanta petulância, um filho de Hades usando a minha árvore.
Três dríades estavam sentadas ao pé da árvore penteando os cabelos, olhando para Nico com ódio.
— Me desculpe, não sabia que ela era sua – e deu as costas para a dríade. Não estava com paciência para isso.
A moça verde começou a reclamar alto, enquanto suas amigas a apoiavam. Nico entrou no refeitório e se dirigiu a mesa do café da tarde. Não acreditava ainda que Jason teve a coragem de dizer isso para ele. Tentando afastar o choque e a mágoa que sentia, Nico se ocupou de pegar a jarra de suco e umas torradas. Sem se importar muito com os olhares dos campistas que lanchavam, ele entrou na sombra no canto do refeitório e desapareceu. Não queria encontrar Jason no caminho.
Ele descobriu que não era legal viajar nas sombras pensando em outra coisa quando o cocuruto de sua cabeça bateu em baixo do catre de Connor.
— Ai! – Ele gemeu de dor.
— Nico? – ouviu-se a voz de Connor – O que você está fazendo aí em baixo cara?
Nico viu os pés de Will irem até ele e então seu rosto espiou em baixo da cama.
— Nico!
Will estendeu a mão e o ajudou a sair de baixo da cama sem derrubar as torradas ou o suco.
— O que eu disse sobre viajar nas sombras? – Will falou quase gritando.
— Argh, não grite no meu ouvido – disse ele massageando o galo na cabeça e saindo de perto de Will, quando viu que o garoto ainda segurava sua mão.
Will foi até ele e tirou a jarra de suco de sua mão.
— Nico, onde estava com a cabeça? Eu pedi a você para trazer suco de tangerina, Travis é alérgico a limão.
— É está tentando me envenenar? – perguntou Travis.
— Eu tenho alergia a pasta de amendoim – comentou Connor aleatoriamente.
— Nico, onde está o álcool? – perguntou Will olhando para as mãos de Nico, como se esperasse que o garoto tirasse do bolso.
— Eu esqueci, me desculpe está bem? – ele falou irritado, saindo da tenda.
Ele ia ficar o resto do dia no seu chalé, e se Jason aparecesse por lá, fingiria que não estava em casa. Então sentiu uma mão no seu ombro, mas dessa vez não era Jason.
— Ei, ei, ei! Nico, espera aí.
Nico se virou para Will cansado.
— O que aconteceu?
— Não aconteceu nada, só uma discussão com o Jason.
Will passou um momento olhando para ele com o rosto preocupado. E então o abraçou. Nico pensou que talvez devesse afastá-lo, já que podia aparecer alguém. Mas não conseguiu. Sentiu a mágoa se esvair no abraço de Will, e o abraçou mais forte. Will afagou seus cabelos e deu um beijo no topo de sua cabeça.
— Está tudo bem, está tudo bem. Tenho certeza que o que quer que ele tenha dito não foi por mal Nico. Jason gosta muito de você.
— Eu sei – murmurou Nico, a voz abafada no peito de Will.
Ele se afastou um pouco e segurou Nico pelos braços. Nico não olhou para ele, o que fez Will levantar seu rosto com o indicador mais uma vez.
— Por favor, não fique triste. Senão eu fico também.
E lhe dirigiu um olhar preocupado e confortador.
— Porque você não vai treinar um pouco? Talvez se sinta melhor.
— Tem razão...
Will largou seus braços e lhe deu outro sorriso. E então entrou na tenda.
Ele tinha que trabalhar mais nessa coisa de odiar Will Solace.
...
Nico passou o resto da tarde treinando. Ele ficou realmente grato pro Clarisse ter se oferecido para treinar com ele. Seria bem estranho ele treinar sozinho num lugar onde os semi-deuses treinavam em dupla ou em grupos. Eles não realmente conversaram, mas só o fato de ela tê-lo escolhido já era suficiente. Mesmo que ela lutasse com afinco para arrancar sua cabeça fora.
Quando o sol começou a se por, todos começaram a deixar o campo de treinamento para ir tomar banho e depois ir jantar. O bom de ser o único no chalé de Hades é que não tinha fila para o banho. Nico se permitiu demorar. A água quente o relaxava, e o fazia pensar que talvez ele tivesse sido um pouco duro com Jason. Afinal, não era a intenção do garoto tê-lo... ofendido. Ele pediria desculpas quando o visse, e os dois podiam fingir que nada disso tinha acontecido.
Ele deixou que a água levasse sua raiva, escorresse por seus cabelos compridos e pelas suas pálpebras, escorrendo pelas olheiras escuras. Quando desligou o chuveiro enrolou uma toalha preta na cintura, achou que talvez já tivesse perdido a hora da janta. O quê para ele estava tudo bem. Ele não tinha fome.
Foi escolher a roupa para ir a festa de Solace. Talvez se ele se vestisse bem os outros campistas não o incomodassem falando que ele era um garoto magricela numa camisa G. Ele não era muito de festas. Quando o convidavam ele costumava ficar encostado na parede esperando a festa acabar. Coisa que ele não achava que Solace iria deixa-lo ficar fazendo. A ideia lhe parecia pior a cada momento. Ele pegou uma camisa preta de gola alta, uma calça e uma jaqueta de couro do armário. Vestiu-se, calçou seus coturnos e procurou algo que estava enrolado em uma meia. Era o presente de Natal de Hades e Perséfone. Eles o haviam mandado um perfume que Nico nunca usara. Ele agradecia por ser Perséfone que cuidava dos presentes de Natal. Seu pai nunca fora muito bom com presentes. E ele era muito grato a madrasta por não ter lhe enviado um gato morto.
Passou dos dois lados do pescoço e então se sentou no sofá. Devia ser recém onze horas. Nico pensou em como um cochilo seria bom. E acabou dormindo alguns minutos depois. Parecia que ele tinha recém fechado o olho quando alguém tentou forçar a sua janela. Nico olhou em volta. Estava muito escuro. A sua janela sacudia fazendo um barulho surdo. E então veio a voz.
— Droga Nico, acorde, abra essa porta!
Nico se apressou a abrir a porta. Will entrou rápido e a fechou.
— Estou há dez minutos de puro pânico aqui na sua porta, sabia? – ele falou arfando – Tive que me esconder de três Harpias atrás daquelas plantas horrorosas que você chama de decoração.
— Me desculpe... Ei, meus abetos não são feios! – ele falou meio indignado.
Will estava bonito. Mais bonito que o normal, por assim dizer. Ele não estava usando uma bermuda com a camiseta do acampamento. Ele estava com uma jeans escura, uma blusa vermelha e um casaco de couro marrom claro. Parecia ainda mais velho e musculoso.
— Você está bem bonito – disse Will com naturalidade.
— Você não está ruim também – comentou Nico olhando meio impressionado.
Solace revirou os olhos.
— Vamos?
— Não seria melhor eu viajar nas sombras? Assim não seriamos pegos e chegaríamos mais rápido.
— As minha ordens médicas foram bem claras...
— Ah, esqueça isso, eu estou bem melhor, e é de noite, posso fazer isso com facilidade agora. Não estou levando uma estátua do tamanho do Empire State.
Will olhou para baixo.
— Eu acho melhor não... – e acrescentou algo inaudível.
— O quê? – Nico arqueou as sobrancelhas.
— Eu tenho medo – ele falou baixinho.
Nico não podia acreditar que um cara daquele tamanho tivesse medo disso.
— Não precisa ter medo. Eu vou estar bem do seu lado. Pode fechar os olhos se quiser.
Will fez uma cara muito amedrontada, mas fechou os olhos. E agarrou a mão de Nico com força. Nico se sentiu estranho protegendo Solace. Não achava que isso um dia ia acontecer. As sombras aos seus pés o engoliram, o que fez os dedos de Will quase esmagarem a mão de Nico. Então as sombras os cuspiram no campo de morangos, e Nico deu tapinhas na mão de Will.
— Tudo bem, acabou Will.
— Ah, que bom. Eu estava quase vomitando – ele abriu os olhos e respirou fundo – Ei você me chamou de Will!
— Não se acostume Solace.
— Ah, tudo bem. Venha é por aqui!
...
Nico se arrependeu assim que entraram no lugar. A música estava bem alta. Claro que não se podia ouvir, desde que a bunker era subterrânea. Havia uma mesa com as bebidas mais estranhas que Nico já vira ne vida e uma pista de dança improvisada. Ali estavam cerca de quinze campistas que Nico raramente trocara uma palavra na vida. Um deles era Dante, o amigo de Will. Ele acenou com um sorrisinho quando eles entraram.
— Hey pessoal, o Will chegou, e trouxe um amigo! – uma garota loira falou se aproximando com um copo na mão.
Ela deu um beijo na bochecha de Will e depois abraçou Nico com o braço que não segurava a bebida.
— Nico, essa é a Rose, filha de Afrodite. Rose esse é o Nico, filho de Hades – Will apresentou.
— Hã, muito prazer – ele falou meio apreensivo.
— É muito bom conhecer você, fique a vontade, pegue o que quiser – ela lhe sorriu.
Will acenou para o resto das pessoas sorrindo, e levou Nico até a mesa das bebidas.
— Podemos ir embora, estou morto de vergonha – Nico sussurrou.
— Claro que não, não precisa ter vergonha! Vou ficar o tempo inteiro do seu lado.
E dito isso enfiou um copo de Vodka na mão do garoto. Will se curvou para servir o próprio copo, o quê deu tempo de Nico olhar em volta. Se Quíron visse isso iria perder todos os pelos da cauda. O ambiente era escuro e luzes coloridas pisca-pisca dançavam aleatoriamente. Dois casais de beijavam vorazmente no fundo da sala. Umas cinco pessoas dançavam com muita vontade na pista de dança improvisada. O resto ria e conversava com os copos nas mãos. Will voltou a olhar pra ele sorrindo com entusiasmo, e começou a beber seu copo. Nico tomou um gole ardente de sua vodka pura e achou que seu cérebro ia fritar. Ele evitou com todas as forças começar a tossir.
Dante se aproximou deles.
— Hey Will, Nico.
— Dante! – e Will lhe abraçou.
— Oi – disse Nico com a voz falhada, ainda por causa da vodka.
— Onde está a Pérola? – ele perguntou, quase gritando para se fazer ouvir. O som da música arrebentava nas paredes da bunker.
— Ela foi no banheiro – ele falou no mesmo tom.
Dante era alto, porém não tão musculoso quanto Will. Seu rosto era sério com um toque de ironia no sorriso torto de um lado, o cabelo cortado bem rente a cabeça. Parecia um militar fora de serviço.
— Pérola é a namorada do Dante – gritou Will para Nico.
— É muito bom conhecer você Nico – Dante gritou para ele – Qualquer amigo do Will é meu amigo também.
E lhe ofereceu uma mão que Nico apertou.
— Olhe a Pérola ali! Já volto! – ele berrou.
Will sorriu para Nico. Que bebericava sua vodka devagar, sentindo a língua arder.
— Quer dançar?
— Eu não sei dançar – berrou Nico para ele.
— Não precisa saber!
E o puxou pela mão para a pista de dança.
— Eu estou com o copo na mão!
Will virou o resto de sua vodka jogando a cabeça para trás e a sacudindo. Depois jogou o copo em um canto.
— Eu seguro para você se quiser! – e pegou seu copo.
Nico devia estar cor de rabanete. Ele se mexia desengonçado na pista de dança. Jamais teria conseguido imitar a dança das pessoas ali, ele morreria de vergonha antes.
— Vamos Nico, tem que se soltar! – Will riu, dançando a sua frente.
— Dê mais bebida pra ele – gritou a loira que dançava perto deles – Nem um filho de Hades vai ficar sério se você o encher de bebida. Conselho de uma especialista nesses caso – ela falou se dirigindo a Will.
Will fez uma cara pidona e entregou o copo de volta a Nico.
— Eu posso tomar com você se isso te deixar feliz.
Nico se arrepiou. Para se fazer ouvir, Will se aproximou e falou em seu ouvido. Nico assentiu, então Will o puxou pela mão até um canto da sala, onde os dois sentaram-se no chão com as costas na parede. Nico bebericou seu copo, sentindo que poderia cuspir fogo com um simples fósforo. Will tirou o copo de sua mão e bebeu um gole grande.
— Sabe, estou feliz que tenha vindo – ele falou em voz alta para Nico, mas é claro que só mesmo Nico podia ouvi-lo.
— Fico feliz que tenha me convidado – Nico lhe concedeu um sorriso de canto, pegando o copo que Will o entregava.
Ele bebericou mais uma vez. Sentia o rosto afogueado. Estava levemente zonzo também. Will tirou o copo de suas mãos.
— Eu gosto muito de sua companhia Nico – ele falou lhe olhando nos olhos.
— Eu também – disse Nico desviando os olhos.
Não falaria com Will desse jeito enquanto tivesse pessoas olhando.
— Você vai só ficar rebatendo o que eu digo? – perguntou Will levando o copo à boca.
E então Nico sentiu uma mão por cima da sua e levou um susto, seu coração acelerou. Will a retirou rapidamente, corando. Ele tinha ido se ajeitar e o havia encostado acidentalmente.
— Desculpe – falou ele vermelho.
Nico fez que estava ok com a cabeça. Will lhe passou o copo, e dessa vez Nico teve cuidado para não encostar em seus dedos. Enquanto bebia sua dose, ele observou a garota filha de Afrodite completamente bêbada, tirar a blusa e ficar de sutiã. Nico se engasgou e olhou para Will, que riu com gosto.
— Não tem nenhum irmão dela aqui? – ele lhe perguntou.
— Não, só irmãs – ele lhe respondeu – A maioria é filho de Dioniso, tem umas garotas de Afrodite, uns de Ares, Éris, Hermes e Héstia.
Outros se empolgaram e começaram a sacudir a camisa no ar. A garota bêbada veio até Will e Nico.
— Vamos lá! Levantem! – ela ria sorrindo, puxando a blusa de Will pra cima. Nico se sentiu bem desconfortável.
Will afastou com delicadeza.
— Tudo bem, nós vamos levantar Rose.
E ofereceu uma mão para Nico se erguer. Rose quicou no mesmo lugar.
— Vamos lá, tirem!
Nico queria morrer.
— Eu não vou tirar a minha blusa.
Will olhou para ele com aquele olhar de cachorro sem dono típico.
— Por favor, eles não vão nos deixar em paz. Eu tiro a minha se isso te deixar mais confortável.
E então tirou a jaqueta e puxou a blusa vermelha pela cabeça. Os adolescentes ali gritaram e assoviaram. Nico não sabia em que dimensão paralela ver Solace sem camisa seria confortável. Ele corou e ficou encarando-o.
Ao ver que Nico parecia meio estacado em estado de choque, Will se aproximou dele devagar e tirou sua jaqueta. O coração de Nico ameaçava ser vomitado para fora junto com a Vodka. Ele tinha impressão que se tentasse falar ia guinchar feito um pinguim imperador. Então seus dedos foram até o final de sua camisa, e ele a puxou para cima. Nico só conseguiu erguer os braços trêmulos.
Assovios e gritos vieram da pista de dança.
Will o puxou pela mão até a pista, e sorrindo pra ele, se aproximou ao ver que Nico parecia estático. Nico quase morreu ao sentir as mãos do garoto em sua cintura nua e seus lábios no seu ouvido.
— Eu estou aqui com você. Não precisa ter medo.
E então sentiu o nariz reto de Will lhe roçar o pescoço.
— Seu cheiro é tão bom.
Então a música parou e eles se separaram. A garota loira veio pulando desde o rádio até a pista de novo.
— Bem gente, como de praxe, que tal homenagearmos os patronos dessa festa com uma brincadeirinha? – ela olhou maliciosa – Primeiro, um brinde ao Sr. D. e a Afrodite! Que mesmo muito provavelmente sabendo o que está rolando aqui, ainda apoia fervorosamente!
Uma agitação de palmas e assovios recebeu as palavras da garota. Ela ergueu o copo.
— Quem quer brincar de verdade ou desafio? – ela berrou.
E novamente Nico foi ensurdecido pelos gritos de entusiasmo. Will olhou para ele e sorriu, e então Nico reparou que estava segurando a sua mão. Ele não a soltou.
— Todos em círculo – falou Dante em sua voz imperativa.
E Will o puxou para sentar no chão ao seu lado. Nico sabia que ia se arrepender de tudo isso amanhã.
Rose pegou uma garrafa e colocou no centro do círculo. Olhou para todos sorrindo maliciosa e rodou a garrafa.
— Tudo bem, Dênis para Pérola – Rose pegou a garrafa de volta.
— Verdade ou Desafio? – perguntou o garoto chamado Dênis.
— Verdade – ela revirou os olhos – Não vou beijar ou tocar em ninguém que não seja meu namorado, já estou avisando!
— Bem, então me diga, você e Dante já transaram? – ele perguntou sorrindo.
Nico queria morrer. Não queria passar por aquilo, mas sentia que se levantasse ele cairia. Pérola revirou os olhos.
— Sim, Dênis.
— Onde?
— Isso já não é da sua conta, rode essa droga de novo – ela riu.
Nico se virou para Will, ignorando a garrafa e Rose.
— Will, eu quero ir embora – ele sussurrou em seu ouvido.
— Porque? – ele lhe sussurrou de volta. Nico ouvia eles falando, mas não dava muita atenção.
— Eu não sei, acho que estou com vergonha.
— Rode de novo! – alguém riu.
— Tudo bem, vou pegar me casaco – ele sussurrou.
— Ha, eu para o Di Angelo – Rose lhe chamou a atenção com o grito risonho.
Agora Nico queria morrer e passar o resto de sua existência se escondendo atrás do trono do pai. Ele olhou mortificado para a garota.
— Verdade ou desafio?
— Verdade – ele gaguejou.
— Bem – ela pensou um pouco – Você gosta de homem ou mulher?
Tudo bem. Nico nunca tinha ficado tão nervoso na vida. Nem mesmo quando admitira a Percy gostar dele. Se mentisse, correria o risco de perder Will. Se falasse a verdade, ele poderia ser retratado. Ele respirou muito fundo para se acalmar. Ele não ia mentir. Ele era corajoso e poderoso. Não tinha o porque mentir.
— ... Eu não sei.
Todos ficaram em silêncio.
— Como assim não sabe? – a garota o mirou confusa.
Nico a olhou em tom de desafio.
— Eu não sei – ele repetiu sustentando seu olhar.
— Gire de novo – Nico ouviu Will falar nervoso.
Ela pareceu se recuperar e girar a garrafa de novo. Duas pessoas que ele não conhecia foram desafiadas a falarem segredos sobre suas vidas sexuais, uma garota foi das filhas de Afrodite foi desafiada a beijar um filho de Dioniso, que apertou seus seios com vontade quando ela o beijou.
Então Rose girou a garrafa mais uma vez.
— Dante para Will! – ela avisou.
— Verdade ou desafio? – Dante sorriu de canto.
— Você não vai me fazer confessar nada – Will cruzou os braços – Desafio.
— Ótimo – Dante cruzou os braços também — Desafio você a beijar o Nico.
O queixo de Will caiu. A alma de Nico gelou. Todos ficaram muito quietos.
— Dante – Will falou com a voz nervosa – Você não pode...
— Posso sim. Regras do jogo.
Will olhou para Nico, que olhou para ele muito assustado. Seu coração martelava audivelmente no seu peito. Will se aproximou um pouco.
— Tudo bem pra você Nico? – ele lhe perguntou.
Nico não respondeu. Ele nunca poderia. Estava nervoso demais. Will se aproximou devagar e levantou uma mão, que tirou uma mecha de cabelo dos olhos de Nico, colocando-a atrás da orelha. Ele estava perto demais. Nico podia sentir sua respiração. Então seus olhos se fecharam, e Nico fechou os seus. Não importava mais nada, nem seus receios, nem seus medos, nem a plateia em volta. Era seu primeiro beijo, e os lábios quentes de Will Solace se movimentavam suaves nos seus, quase como se tenta-se acalmá-lo. Nico depositou uma mão em seu peito, enquanto a outra estava em seus cabelos dourados. Nada era melhor que os lábios de Will deslizando nos dele, sua língua deslizando pelo contorno de sua boca, as mãos do garoto lhe agarrando firmemente o cabelo comprido da nuca, enquanto a outra lhe apertava a cintura.
O jogo continuou depois disso, mas Nico di Angelo e Will Solace não voltaram a jogar.
Fale com o autor