Soul Angel
21 Não brinque com fogo
Notas iniciais
"Você tem um namorado
Mas ele não é sua namorado
Ele é apenas seu amigo para a noite
Você vai ter um novo na amanhã da manhã
Ele vai ter olhos muito bonitos
Ele vai ficar invisível como você quer que ele fique
Ele vai tentar fazer tudo certo para você
Ele vai ficar invisível como você quer que ele fique
Ele não vai para sair
Mas ele vai dormir na sua cama
E no dia seguinte, quando você persegue outro garoto
Ele vai lembrar de todas as coisas que você disse a ele"
– School friends — NowNow

Capítulo 21 — Não brinque com fogo.
Era a hora. Hora de falar ao seu pai sua resposta. Nico foi até o quarto do irmão, onde o próprio lhe esperava sentado na cama. Suas asas estavam escondidas pela sua habilidade de transformação, e Prisma vestia suas melhores roupas. Uma camisa social branca com as mangas desabotoadas e uma jeans preta. Sua mochila estava já pendurada em um ombro. O irmão sorriu serenamente ao vê-lo chegar.
– Estamos prontos?
Nico suspirou.
– Sim. É melhor partirmos agora. O relógio diz que são dez horas, já não deve ter sinal nenhum de luz lá fora.
– Eu já... Já me despedi da minha mãe — o irmão falou desconfortável prendendo os cabelos liso escorridos em um rabo de cavalo.
Prisma sabia que o relacionamento de Nico com sua mãe não era dos melhores. Afinal, fora ela quem o levara até o Cassino Lótus e lhe deixara ali. Mas Nico não gostava de deixar o irmão mal, então lhe seu um tapinha no ombro.
– Está tudo bem, cara. Vamos falar com o pai. Temos uma longa viagem pela frente.
– Você já sabe para onde vamos? — perguntou Prisma saindo com o irmão pela porta.
– Sim. Tem um lugar onde eu preciso ir, antes de qualquer coisa. Espero que sua viagem nas sombras esteja em dia.
Nico e Prisma andaram juntos até a sala dos tronos. O irmão nada perguntou sobre onde Nico queria ir. Talvez nada importasse a ele, já que tudo lá em cima seria um lugar novo. Mas o mais provável é que no fundo Prisma tivesse uma pista, e não quisesse fazer perguntas ao irmão que só o fariam se sentir pior. Era uma das coisas que Nico apreciava nele.
Ao chegarem na porta, Nico reparou que Prisma continuava a sorrir incontidamente.
– Você quer parar? — ralhou Nico baixinho para o irmão — Está começando a me assustar.
Prisma sorriu um pouco mais.
– Desculpe.
Nico abriu a porta e caminhou até onde o pai estava, o irmão logo atrás. Hades lia uma longa lista em rolo que lhe caía aos pés e dava uma volta em seu trono. Parecia absolutamente cansado. Nem pareceu ver a entrada dos filhos. Prisma pigarreou.
– Ha-ham.
Hades ergueu os olhos parecendo surpreso.
– Hã? — então levantou os olhos para os filhos em sua frente — Ah. Nico? Veio dar a resposta?
Então Hades enrolou a lista outra vez, pendurando os óculos na bata cinzenta. Quando terminou, fixou os olhos no filho mais novo. Nico não sabia como falar aquilo para o pai. Afinal, passara mais de dez anos convivendo com ele. Querendo ou não, se tornaram mais próximos do que Nico jamais imaginaria, muito embora ele pouco o visse durante o dia.
– Pai... Nós estamos indo embora.
Hades assentiu como se já esperasse.
– Sim... Eu sabia que você um dia voltaria — então pareceu entender alguma coisa, erguendo os olhos para os filhos alarmado — Ei, espere, como assim nós?
Prisma colocou uma mão suavemente sobre o braço do pai.
– Eu vou com Nico pai.
– Mas você não pode! — Hades abriu a boca surpreso, porém logo recuperou sua pose, endireitando o rosto — Você não pode. O sol.
Prisma lhe sorriu bondosamente.
– Nós viajaremos de dia pai. Nico pode me proteger. Eu estou cansado de ficar trancado em uma sala pai. Eu o amo, mas não posso ficar para sempre ao seu lado. Eu quero viver a minha vida.
Por um minuto, Nico podia dizer que vira o pai mais perto das lágrimas do que nunca, mas o rosto do deus continuou endurecido.
– Vocês dois vão me abandonar assim? Vão me deixar sozinho aqui com a Deméter?
Prisma deu uma risada suave.
– Nós vamos sempre estar com você meu pai — disse ele sorrindo — Assim como eu sei que você estará olhando por nós. Você, melhor do que ninguém sabe que precisamos viver e morrer. E ambos não estamos vivendo aqui em baixo. Esse não é o mundo dos vivos.
Hades assentiu, o rosto fechado em uma máscara impenetrável. Então ele se levantou de seu trono.
– Pois bem. Vocês tem minha benção.
E então abriu os braços. Nico não podia acreditar no que estava vendo.
– Hã... Pai?
– Ora, vocês acham que vão embora sem se despedir? — Hades agitou os braços irritado — Venham aqui, os o dois, mas que inferno!
E então Hades, o grande deus dos mortos, abraçou ambos os filhos. Nico pode sentir algo que há muito não sentia. Pela primeira vez em anos, Nico se sentiu amado outra vez. Quando Hades os largou, não mirou seus olhos. Encarou o chão decidido, e apontou para a saída de seu castelo.
– Vão logo. Antes que eu me arrependa.
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Nico e Will andavam devagar na trilha ao lado do campo de Asfódelos. Logo chegariam até Cérbero e poderiam sair pela entrada principal em Hollywood. Então seria mais fácil para os irmãos viajarem nas sombras. Não seria muito bom para Prisma se ambos aparecessem em Nova York direto. Além do fato de que era um grande salto, Nico temia que o irmão pudesse ter um ataque se fosse exposto ao lado de fora desse jeito.
Muito provavelmente ele tinha razão, porque uns calombos nas costas de Prisma indicavam que ele estava com dificuldades para esconder as asas. Isso acontecia quando ele estava nervoso, o que era raro. Era preciso concentração para manter uma forma que não fosse a sua original. Nico meteu a mão no bolso e tirou a carteira e o isqueiro, ascendendo um cigarro nos lábios e passando-o para o irmão.
Prisma o pegou entre os dedos finos.
– Obrigado. Isso é só cigarro não é? — perguntou ele levando-o a própria boca.
Nico revirou os olhos.
– Sim.
Prisma pareceu relaxar depois de um tempo. Pelo menos suas costas voltaram ao normal outra vez. A fumaça se fundia com o ar pesado do mundo inferior. Passaram por Cérbero depois de alguns minutos de caminhada, e depois voltaram com Caronte até a entrada. Ele os largou na porta que seria a confirmação de suas escolhas. E então voltou ao seu posto.
Nico olhou para o irmão, nervoso. Prisma também parecia a ponto de chorar.
– Meu coração está batendo rápido Nico — falou ele em um sussurro — Eu acho que estou com medo.
– Ainda dá tempo de voltar — Nico sussurrou para ele.
O próprio não se sentia tão corajoso. Fazia muito tempo que ele não sabia o que era o céu, o vento ou grama verde. E ele não tinha certeza se queria saber outra vez. Mas Prisma fez que não, um pouco trêmulo.
– Não. Nós viemos até aqui. Eu não cheguei tão perto pra desistir agora. Eu só estou morrendo de medo, só isso — falou ele encarando a porta — Tudo o que eu sonhei, por anos, está aí, atrás dessa porta.
Nico assentiu e pegou a mão do irmão. Prisma apertou seus dedos, trêmulo. Então Nico abriu a porta com a outra mão, e ambos saíram para o mundo lá fora.
Fora uma ótima ideia segurar o irmão ao sair. Assim que ambos colocaram os pés para fora, e saíram no famoso letreiro de Hollywood, uma brisa fria jogou os cabelos de Prisma para trás. O irmão arquejou e caiu de joelhos na grama, olhando para cima.
E Nico entendia completamente sua reação.
O cheiro da brisa o invadiu por dentro. Era como se ele nunca tivesse podido senti-la apropriadamente. E só então ele notou o quanto o ar lá em baixo era pesado e modorrento. Quando ele respirou fundo a brisa gelada.
Prisma começou a rir alto, maravilhado, e então apontou para o céu.
– O quê é aquilo do lado da lua?
Nico olhou para o céu. A noite era estrelada, e a lua era cheia. E com uma pontada de tristeza, Nico lembrou que o irmão não devia fazer ideia do que eram as estrelas. Ele só sabia do sol e da lua por conta do que o pai lhe contara.
– Essas são as estrelas, Prisma — Nico afagou a cabeça do irmão aos seus pés.
– Elas são lindas — ele sussurrou observando-as.
E então lhe encarou, o rosto cheio de emoção.
– Nico, o céu. Ele não tem fim! Não é como lá em baixo! Você me contou que o céu não tem fim, mas eu achei que você estava brincando comigo. Mas é verdade, ele não tem fim mesmo!
Nico riu.
– Eu disse a você que não tinha.
– Aquilo são árvores? — perguntou ele apontando para as árvores atrás do letreiro.
– Sim, mas você já viu árvores. Temos árvores em casa — Nico observou.
– Sim, mas as nossas são bem mais escuras — disse Prisma se levantando — E essas são tão mais coloridas!
– Isso que ainda está de noite — Nico lhe sorriu — De dia fica tudo, bem mais colorido.
Nico se arrependeu de falar aquilo quando lembrou que o irmão não poderia ver as coisas durante o dia. Mas Prisma não pareceu se aborrecer, cutucava um formigueiro com a ponta do tênis parecendo maravilhado.
– Acha que já podemos ir?
Prisma assentiu para ele, ainda brincando com as formigas.
– É bonito, lá pra onde a gente vai?
Nico puxou seu braço para tirá-lo de cima do formigueiro.
– Saia daí, Prisma. Esses bichos picam. Sim, é muito bonito lá. Você tem que se concentrar, okay?
Prisma assentiu para ele.
– Tudo bem. Mas eu não sei chegar lá.
– Não importa — Nico lhe ofereceu a mão outra vez — Nós vamos juntos.
Prisma pegou sua mão, então ambos entraram nas sombras projetadas pelo letreiro.
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Nico estava preparado, afinal seu pai lhe disse que não saberia o que ia encontrar se ele voltasse. Mas ele queria espiar. Queria ter certeza. Mesmo assim, seu coração se partiu ao ver o prédio onde morara dez anos atrás fechado com tábuas. Condenado.
Prisma largou sua mão e afagou suas costas.
– Nico, você está bem?
Sua cara não devia ser das melhores. Mas Nico assentiu.
– Eu vou entrar, está bem? Você pode esperar aqui fora? — perguntou Nico em voz baixa.
Prisma fez que sim, o rosto preocupado.
– Só não saia daqui, não arrume confusão — falou Nico dando um tapinha em seu ombro.
E então Nico foi de encontro a porta fechada com tábuas, se transformando em fumaça quando passou por ela. Era uma das coisas mais difíceis de se fazer, virar sombras e depois se materializar outra vez. Nem mesmo Prisma sabia fazer aquilo. Mas Nico sabia que era importante.
Estava muito escuro lá dentro, o que só ajudou Nico a enxergar melhor. Tudo estava empoeirado e cheio de ratos e aranhas. Um aviso estava afixado na portaria: "prédio fechado pela defesa civil por motivos de problemas na infraestrutura". Pela data estava fechado há pelo menos sete anos. Nico subiu as escadas, indo até o último andar. E ali estava, fechada com tábuas também. A porta de sua casa.
Nico lembrava muito bem da última vez que tinha passado por aquela porta. E fechando os olhos, virou fumaça novamente, perpassando-a. Nada havia mudado. Os móveis estavam no mesmo lugar. Era como uma piada de humor negro. Era de partir o coração. Todo seu passado estava ali, intacto. Cheio de teias de aranha e grossas camadas de poeira.
E mesmo assim, ele pode imaginar com clareza Will Solace saindo do corredor, sorrindo para ele e indo até a cozinha. Só então Nico conseguiu saber o quanto sentia sua falta. Ele nunca conseguira esquece-lo.
Então um pensamento perturbador lhe passou. O Will que Nico imaginara estava imortalizado em seus dezessete anos. Com certeza o garoto estava completamente diferente do que ele se lembrava, depois de tanto tempo. E Nico não aguentou. As lágrimas e o choro lhe vieram sem que ele pudesse contê-los.
Os enfeites em cima da estante da televisão, as fotos nos retratos... Tudo no mesmo lugar. Até mesmo os chinelos do Sr. Johnson estavam em frente à sua poltrona vazia e poeirenta. Por que Will não tirara aquilo dali? O que tinha acontecido? Porque tudo estava exatamente no mesmo lugar? Will não tinha voltado à casa?
Então Nico abriu a porta de seu antigo quarto. Muito provavelmente, a verdade era que Will talvez jamais tivesse voltado ali. O quarto continuava exatamente do mesmo jeito que estava dez anos atrás. Lágrimas ferventes lhe queimaram o rosto. Até mesmo a cama tinha os lençóis desarrumados.
Suas próprias roupas estavam espalhadas pelo chão. O espelho, os desenhos de Will. Era tudo tão cheio de memória que Nico sentiu uma dor verdadeira em seu coração. Tirou sua mochila do chão e a abriu, enfiando os gibis de Will nela. Então voltou a procurar pelo quarto. Os livros de medicina que Will havia comprado para faculdade estavam ali. O garoto não tinha ido para lá. As malas que os dois estavam fazendo estavam ali, abertas, anos de poeira se acumulando em cima dos objetos.
Nico já estava dando a volta para sair, quando pisou em alguma coisa. Então se abaixou e pegou o objeto na mão. Will devia sim ter voltado ali, pelo menos uma vez. Seu colar de contar estava arrebentado e jogado no chão. Nico o juntou cada conta em seus dedos, limpando-as na camisa. Deu um nó provisório e guardou o colar na mochila. Então limpou as lágrimas do rosto e foi ao encontro do irmão.
Ambos passaram a noite vagando pelas ruas, tentando achar onde ficar. Até que Nico encontrou uma casa fechada com uma placa de "aluga-se" na frente. Ele rezava a água não tivesse sido cortada, e suas preces tinham sido atendidas. Podia lidar com o escuro, mas não com a falta de água.
Nico se jogou no sofá para consertar o colar de contas, enquanto Prisma tirou um pacote de bolachas da mochila e começou a comer, encarapitando-se na guarda do sofá. O irmão nada lhe perguntara sobre sua visita ao prédio. Ele já devia saber o que era aquele lugar.
Deviam ser cinco horas da manhã. Logo, logo amanheceria.
– Vá dormir — Nico grunhiu — Precisamos achar um lugar decente amanhã.
– Um lugar com um rio decente — observou o irmão lhe oferecendo o pacote de bolachas — Não um podre como o Estige.
Nico fez que não com a cabeça.
– Não estou com fome, pode ficar.
Prisma deu de ombros.
– Pode tirar as asas pra fora agora — disse Nico concentrado em colocar as contas na ordem certa — Sei que é irritante.
– É dolorido também — comentou o irmão tirando a camisa, e então as asas de morcego se agitaram como se estivessem dormentes — Ah, que alívio.
Nico amarrou o cordão no pulso, e então tirou novamente a carteira do bolso ascendendo um cigarro para si. Prisma observou o cordão em seu pulso.
– Sabe, eu achei que você ia guardar isso aí. Pra quê usar? Quero dizer, isso já não é meio masoquista?
Nico deu de ombros, ignorando-o. Soltou a fumaça devagar.
Prisma olhou em volta.
– Mas que droga, onde eu vou dormir?
– Dorme de bruços no sofá, não tem onde você se pendurar aqui — Nico falou sonolento.
Prisma bufou incomodado.
E Nico sentiu que se tivesse voltado sozinho, estaria completamente infeliz. Ficou feliz que o irmão estivesse ali ao seu lado. Até que Prisma começou a soltar um barulho estridente em meio aos roncos que lembrava um pássaro. Não se passara nem algumas horas quando o irmão acordara Nico parecendo apavorado.
– Nico, Nico, pelo amor de Hades, acorde — ele sussurrava sacudindo-o com violência.
Nico se levantou de prontidão, a mãos puxando a espada da mochila e procurando pelo perigo. Mas não havia ninguém ali. Nico encarou o irmão brabo.
– Você é maluco? O que foi?
– Tem algo ali — falou o irmão apavorado, apontando para a janela.
Então Nico entendeu por que Prisma o acordara. Raios alaranjados de sol perpassavam as frestas da janela. Pequenos e fracos, mas o suficiente para apavorar Prisma. Nico afagou seu braço.
– Tudo bem. Tudo bem, Prisma. Isso é o sol — ele relaxou, sentando-se outra vez.
Prisma boquiabriu-se.
– Ele está aqui? — perguntou nervoso.
Nico riu.
– Não, desculpe. Isso é a luz do sol. Não chegue perto.
Prisma engoliu em seco.
– É... Nossa, é muito bonito.
Nico assentiu rindo. Prisma parecia hipnotizado enquanto olhava pela janela. Então Nico tivera uma ideia.
– Ei Prisma. Você que ver o sol?
Prisma pareceu confuso.
– Como assim?
– Se você ficasse no canto da casa e eu abrisse uma aba da persiana, então você poderia enxergar. Mas ainda estaria no escuro — Nico lhe sorriu.
Prisma sorriu também.
– Você tem certeza?
Nico assentiu.
– Vá para o canto.
Prisma foi até as sombras do canto da casa, o rosto cheio de expectativa. Então Nico foi até a janela e colocou a mão sobre a chave.
– Está pronto?
O irmão assentiu, parecia estar com medo nos olhos caídos.
Então Nico abriu um pequeno pedaço da persiana de madeira, e um raio de luz passou pela sala. As sobrancelhas de Prisma se arquearam, e um sorriso agradavelmente surpreso estampou seu rosto.
– Parecem sombras. Só que ao contrário.
Nico assentiu, observando o raio de sol. A cicatriz coçara em seu braço.
– Você pode abrir um pouco mais? — o irmão pediu.
Nico fez que não.
– Eu não acho uma boa ideia.
– Por favor Nico — pediu ele, o sorriso parecendo murchar — Eu ainda não vi o sol. Eu consigo ver o céu azul. As nuvens. Mas o sol está mais atrás. Eu não estou conseguindo ver.
Nico sentiu medo. Não queria machucar o irmão. Mas estava tudo indo tão bem! Então Nico abriu mais um pouco, e a luz ficou maior.
– Um pouco mais, falta tão pouco! — disse o irmão hipnotizado, saindo de onde estava.
– Pra trás — Nico gritou pra ele, fazendo-o parar — Volte!
Prisma voltou para o canto, infeliz.
– Tudo bem. Me desculpe. É que eu ainda não enxerguei.
E Nico sentiu pena. Abriu mais um pequeno centímetro da janela. E o irmão gritou em agonia, segurando o rosto. Nenhum deles havia visto que luz da janela chegava cada vez mais perto do espelho enquanto Nico a abria. E aquele pequeno centímetro de luz, direcionado diretamente para o canto da sala já fora o suficiente. Nico fechou a janela com um baque forte, e correu para o irmão acocado no chão, que segurava o rosto com as mãos.
– Eu estou bem! — falou o irmão entredentes.
– Deixa eu ver — Nico puxou sua mão da frente de seu rosto.
Todo o lado esquerdo de seu corpo estava chamuscado, como se o garoto fosse um fósforo mau aceso.
– Isso foi muito estúpido, me desculpe! — Nico falou com sinceridade, ajudando o irmão a levantar.
– Tudo bem — arquejou ele. E então sorriu — Eu vi a porcaria do sol!
Nico não pode evitar sorrir um pouco.
– Sim, mas agora você está todo chamuscado. Está doendo?
– Não — falou o irmão baixinho.
E Nico sentiu que era mentira.
– Precisamos encontrar ajuda para você.
Prisma mancou até o sofá. O olho parecia estar inchando.
– Ah, claro. Me leve no hospital mundano. Vai ser legal.
Nico olhou para pele enegrecida em seu rosto e tronco. Parecia bem feio.
– Talvez tenha um lugar — falou ele contrariado.
– Onde? — perguntou Prisma apertando a queimadura com a mão.
Nico apontou para ele.
– Vá botar uma jaqueta e umas luvas, quero sua pele totalmente escondida. Vou lá fora conseguir um capacete de moto pra você.
– Aonde nós vamos? — insistiu Prisma levantando-se com dificuldade.
– São Francisco — falou Nico com o coração a mil — Acampamento Júpiter. Precisamos que curem você.
Fora bem difícil viajar nas sombras com o irmão pendurado em seu pescoço. Quando tiveram certeza que cada centímetro de sua pele estava coberto, ambos entraram na escuridão, aparecendo no pé da colina. No mesmo momento dois guardas o pararam.
– Ei! Pare! Quem é você? — perguntou um moreno alto a ele.
– Nico, eu acho que vou vomitar — avisou Prisma, a voz abafada pelo capacete.
– E quem é esse? — perguntou o homem encarando Prisma.
– Eu sou um semideus. Esse é meu irmão. Preciso de ajuda — Nico falou rapidamente — Preciso de Reyna.
O moreno franziu o cenho.
– Nem vêm. De onde você é? Nenhum semideus sobrevive sonho por aí, e você parece bem velho.
Nico tentou não tomar aquilo como ofensa. Mas Prisma ameaçara vomitar em cima dele. Então Nico inventou na hora.
– Somos do Acampamento Meio Sangue. Conheço Reyna, preciso falar com ela!
– Eu nunca te vi por lá — falou o moreno semicerrando os olhos.
– Meu irmão está ferido! — ralhou Nico para ele.
Isso pareceu convencê-lo.
– Pois bem. Venha. Vou levá-lo até a Pretora.
Nico arrastou Prisma por um bom pedaço de caminho enquanto iam até a linha Pomeriana. Agradeceu internamente que o irmão não tivesse vomitado nele, ou que ainda estivesse mantendo as asas escondidas. Quando chegaram perto das casas, o moreno de virou.
– Ela está de folga hoje, torça para que ela esteja disposta a recebe-lo.
Então apontou para uma casa de dois andares no meio do pátio.
– É ali — ele cruzou os braços — Vou ficar de vigia se ela precisar. Quer que eu o ajude a levar seu irmão até lá?
Prisma soltou um grunhido nauseado.
– Não, eu mesmo levo — falou Nico puxando-o até a casa — Obrigado.
Ali estava ele. Como tinha chegado a isso? Batendo na porta da casa de Reyna dez anos depois. Mas ele tinha um excelente motivo pra isso. Prisma acabara de tropeçar, enfraquecido.
– Continue. Acordado — Nico falou entredentes, arrastando-o até a porta.
Então bateu nela, sustentando Prisma com o outro braço. Um minutos depois a porta se abriu. Uma mulher de pele clara e olhos negros lhe encarou. Seus cabelos negros estavam presos em um rabo de cavalo, e ela definitivamente parecia estar de folga. Suas roupas se resumiam em uma camiseta larga e uma calça jeans surrada.
– Pois não? — perguntou ela lhe olhando com confusão.
– Reyna, por favor. Me deixe entrar. Sou eu. Nico — Nico arquejando com o peso do irmão.
Reyna se segurou na maçaneta da porta para não cair. Sua boca se abrira em um perfeito "o" com a surpresa.
– Nico? — falou ela sem ar.
– Por favor. Me deixe entrar.
O moreno gritou para Reyna:
– Tudo bem aí, pretora?
Reyna olhou confusa para ele, mas levantou um polegar.
– Tudo bem Mike. São amigos.
E então abriu um espaço para que Nico passasse. Ele largou o irmão em um sofá e se apressou a fechar as janelas. Reyna o encarava como se ele fosse um fantasma.
– Nico, como você escapou?
Nico não entendeu o que ela quis dizer, apenas ligou a luz do interruptor quando tudo já estava na penumbra. Então tirou o capacete de Prisma, que gemeu com os olhos fechados. A parte do lado esquerdo de seu rosto estava ainda mais escura. Nico segurou Reyna pelos braços.
– Reyna, sei que tem muitas perguntas, mas me escute. Esse é o meu irmão. Ele está ferido. Precisamos de ajuda.
Reyna assentiu, ainda parecendo perplexa.
– Tudo bem. Vamos levá-lo até o hospital.
Nico fez que não.
– Ele não pode sair ao sol.
Reyna pareceu pensar, ainda aturdida em olhar para o garoto.
– Eu vou trazer alguém aqui. Vou deixar você com outra pessoa enquanto isso.
– O quê? — Nico perguntou, a voz subindo uma oitava — Não, eu preciso ficar com ele.
– Acredite, se você não sair, então a pessoa que seria a melhor para curá-lo não vem.
O coração de Nico deu um solavanco. Ele estava ali. Então o garoto assentiu.
– Tudo bem. Tudo bem — disse largando os braços de Reyna. Então se curvou para Prisma — Você vai ficar bem, meu irmão.
Prisma gemeu em resposta.
– Venha comigo Nico — Reyna sorriu, passando um braço pelas suas costas.
Quando ambos saíram, tendo cuidado para não abrir muito a porta, Reyna pegou do bolso um Walkie Talkie e falou:
– Ramal do Hospital.
E com um chiado, uma voz lenta de homem lhe cumprimentou:
– Reyna, algum problema?
– Sim, na minha casa, tem um cara caído. Me espere ali na frente, não podemos abrir a porta completamente. Leve seus melhores equipamentos, parece algum tipo de queimadura maldita.
– Por que tem um cara caído na sua casa? — perguntou a voz rindo.
– Vai se catar e vêm rápido! — Reyna desligou e guardou ele mais uma vez.
Então ambos pararam na frente de uma casa no extremo oposto da de Reyna. A garota tocou a campainha e fez uma careta.
– Você vai causar algumas paradas cardíacas, ainda hoje.
Então um homem loiro apareceu ali atrás, os óculos dourados faiscando em frente aos olhos azuis. Nico sentiu um aperto no coração. Não esperava ver Jason ali. Esperava que ele estivesse no Acampamento Meio Sangue. Mas o garoto não pareceu reconhece-lo.
– Reyna. Bom dia! Quem é seu amigo? — Jason sorriu para eles.
– Oi Jason — cumprimentou Nico com a voz rouca.
O sorriso se Jason sumiu ao ouvir sua voz. Por um momento, Nico pensou que Jason fosse desmaiar, mas no segundo seguinte, Jason se jogou em cima dele e o abraçou com uma força absurda.
– NICO! MEUS DEUSES, COMO VOCÊ ESCAPOU? — Jason esganiçou-se.
Nico tentou afastar o amigo antes que ele quebrasse seus ossos.
– Ai, Jason, minhas costelas!
Reyna sorriu.
– Tenho certeza que vocês tem muito o que conversar. Eu mesma vou querer ouvir essa história. Mas agora, eu tenho que ir ver o seu irmão. Até mais.
Então Reyna voltou até sua casa. Jason o encarava como se ele fosse um milagre.
– Entre, meus deuses, minhas preces foram ouvidas!
Jason abriu a porta e empurrou Nico pra dentro, e então gritou para a mulher alta com a pele bronzeada que lavava a louça:
– PIPER! O NICO VOLTOU! CONSEGUIU ESCAPAR! — Jason sacudiu Nico com violência.
A mulher deixou o prato cai no chão e quebrar.
– O quê?
Jason arrastou Nico até Piper, e Nico pode ver que era do mesmo tamanho de Jason, mais alto do que ela. Piper se encostou no balcão pra não cair.
– Como você fugiu?
Até ali, ele não estava entendendo nada sobre "fugir". Mas estava mais preocupado em olhar para os amigos. O rosto de Jason estava mais quadrado, mais delineado pela idade. Estava maior e mais musculoso do que Nico se lembrava. Já Piper havia se transformado em uma mulher deslumbrante. Seu cabelo estava solto, caindo livremente pelas costas. Estava magra como sempre, o corpo também delineado pelos anos que passaram.
– Fugir? — perguntou Nico confuso.
– Sim! — Jason falou quase gritando de empolgação — A cada mês que passa nós mandamos uma equipe de busca atrás de você no mundo inferior!
– Nós nunca desistimos de procurá-lo — falou Piper lhe encarando como se fosse chorar.
– Vocês? Estavam me procurando? — Nico boquiabriu-se.
– Claro! — Jason continuou — Hades o estava mantendo prisioneiro!
– Bem, pelo menos foi o que achamos! — disse Piper — Afinal, ele sempre frustrava nossas tentativas de chegar até lá. Esperávamos que com o passar do tempo ele afrouxasse a ronda que ele fazia sobre você, mas não. Mês passado Jason levou um soco do Caronte.
Nico se sentiu culpado. Os amigos estavam todo aquele tempo pensando que ele era prisioneiro. Havia ido todo mês tentar resgatá-lo. Mas como ele poderia saber?
– Quem foi?
– Eu, Piper, Hazel, Frank, Reyna, Percy, Annabeth, Leo, Calipso... E o Will — Jason falou sem jeito.
Nico sentiu o coração gelar. Will tinha ido tentar tirá-lo de lá? Depois de dizer que nunca mais queria vê-lo?
– W-Will... Will foi procurar por mim? — seu nome parecia estranho na boca de Nico.
Piper assentiu.
– Sim... Ele... ele...
– Ele foi quem de fato chegou mais perto de você — falou Jason encabulado — Will entrou no palácio de Hades. Pensamos que ele voltaria com você. Mas ele voltou sozinho.
– Não sabemos o que Hades disse a ele — falou Piper — Mas ele pareceu estranho. Disse a nós que não voltássemos. Que nós não podíamos fazer nada por você. E foi a última vez que ele veio com a gente.
Jason assentiu.
– Na época, isso gerou uma briga do cão. Percy discutiu com ele. Disse que ele era covarde. E então... Bem, eles estão bem melhor agora, não se preocupe.
– Will está aqui? — perguntou Nico.
Então uma voz falou do lado de fora, ao longe.
– E aí Reyna, qual é o problema?
Nico não esperou resposta. Foi até a janela e tirou a cortina da frente, em tempo de ver a cabeleira loira ser consumida pela penumbra na casa de Reyna.
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