Soul Angel
19 Eu sei que não sou o único
Notas iniciais

Você e eu fizemos um voto
Na alegria e na tristeza
Eu não posso acreditar que você me decepcionou
Mas a prova está no jeito como isso dói
Durante meses a fio eu tive minhas dúvidas
Negando toda lágrima
Eu queria que isso tivesse acabado
Mas eu sei que ainda preciso de você aqui
Você tem estado tão indisponível
Agora, infelizmente, eu sei porquê
Seu coração é inalcançável
Mesmo assim, os deuses sabem que você possui o meu
Eu tenho te amado por muitos anos
Talvez eu não seja suficiente
Você me fez perceber o meu maior medo
Mentindo e nos destruindo
Você diz que eu sou louco
Pois não tem ideia de que eu sei o que você fez
Mas quando você me chama de 'amor'
Eu sei que não sou o único
– Im not the only one — Sam Smith
Capítulo 19 — Eu sei que não sou o único.
POV WILL.
Will Solace não sabia onde estava com a cabeça. Juntou as chaves do carro da poça de água na qual as havia deixado cair ao tentar abrir a porta. Talvez estivesse nervoso. Afinal, embora tentasse não demonstrar, lidar com Percy Jackson o deixava cansado. Mas ele sabia que Nico estava feliz em poder continuar vendo o amigo. Então por hora, ele aguentaria calado.
Ele havia acabado de deixá-lo na porta de Percy, como um presente. Ele devia ser muito idiota... Mas Nico nunca o perdoaria se ele tivesse se oposto a isso. Parecia errado a ele tentar prende-lo também. Enquanto sentava no banco do motorista e dava a partida, Will se lembrava de quando era pequeno, e brincava com as crianças de sua rua. Certa vez um menino tinha prendido um passarinho em uma gaiola, e só Zeus sabia o quanto o garoto apanhou quando libertou o bichinho.
Mas ele já havia apanhado muito quando criança, lembrava o garoto dirigindo distraído. Apanhara dos garotos da sua rua quando tentara defender a mãe, uma vez que as crianças gritavam para ele que ela se deitava com estranhos. Apanhara quando dera seu primeiro beijo, e o irmão do garoto que ele beijara descobrira. Mesmo sabendo que não teria como se defender, ele sentia que era o certo lutar pelo que acreditava. Podia não haver mérito em manter a cabeça erguida, tinha falta dele em baixá-la.
Não havia muita necessidade prestar atenção enquanto dirigia. Uma das habilidades inúteis que ele havia herdado de Apolo era um ridículo senso de pilotagem. O que o deixava livre para manter sua mente eu outras coisas. Preocupado, Will pensou em ligar para Nico. Mas devia estar tudo bem. Era só um mau pressentimento estúpido. Não era porque ele era filho de Apolo que poderia saber quando coisas ruins aconteceriam.
Vinte minutos depois ele já tinha estacionado no garagem subsolo do hospital, e chaveado o fiat azul e velho do pai. Ele teria que preencher as fichas e pegar os exames, anotou o garoto mentalmente enquanto chamava o elevador. Então ele levaria o pai em casa e pegaria Nico no apartamento de Percy. Novamente, sua mão coçou em direção ao telefone. Mas então as portas do elevador se abriram, e a ideia lhe fugiu outra vez.
Chegando na recepção, uma moça loira lhe atendeu, parecendo um pouco entediada enquanto separava papéis.
– Boa tarde, no que posso ajudá-lo? — e então ela ergueu os olhos para Will, e parou de separar os papéis.
– Eu vim para pegar meu pai, Harvey Johnson. Ele está no quarto 13, mas eu esqueci de perguntar o andar. E eu acho que tenho que preencher uns papéis também — Will lhe sorriu bondosamente.
A garota pareceu sem palavras. Arrumou os cabelos com as mãos, parecendo completamente interessada.
– Bem, senhor...
– Will Solace — respondeu-lhe Will se divertindo.
– Sim, Sr. Solace. Você disse que ele é seu pai? — ela perguntou em uma voz falsamente doce, enquanto procurava o nome de seu pai no computador.
– Padrasto, na verdade — Will comentou. De vez em quando ele mesmo se esquecia de que Harvey não era seu pai.
– Sim, ele está no terceiro andar. Pegue o corredor a direita, quarto número treze. Aqui estão os papéis alegando a saída do paciente antes do fim do tratamento.
– Ei, espere — Will falou surpreso — Antes do fim do tratamento?
– Sim — a garota lhe sorriu — Seu pai tem nos visitado para exames há mais de um mês. Sua internação era necessária para tratamento, mas ao que parece ele só veio ontem, e...
– Esqueça os papéis, eu já volto — Will falou andando a passos rápidos até o elevador.
– Mas senhor... — a garota o chamou do balcão.
Tinha que ser brincadeira. Seu pai era muito cabeça oca, só podia ser. Ele jamais gostara de médicos e de hospital. Se ele começara a fazer exames há mais de um mês, então devia fazer muito tempo desde que ele estava se sentindo mal. E se ele se internara e contara para o filho, então seu pai devia estar preocupado de verdade.
Ele quase não conseguiu aguentar a ter que ficar parado por mais trinta segundos no elevador até que as portas se abrissem para o terceiro andar. Pegou o corredor a direita a passos largos, e contou as portas até o número treze. Ao abrir a porta, lá estava seu pai, dormindo em um catre hospitalar. Um arrepio de alívio amoleceu seus ossos. Ele parecia bem. Então o garoto entrou no quartinho apertado e mal pintado.
O pai abriu os olhos lentamente com o barulho da cadeira arranhando o chão.
– Oh, meu querido. Aí está você — ele sorriu com a voz lenta de sono.
– Tudo bem, pai? — Will lhe sorriu com carinho, acariciando-lhe os cabelos ralos.
Ele sorriu com afeto.
– Sim, eu nunca estive melhor. Aliás, pela primeira vez em anos estou sentindo algo maravilhoso — o pai lhe sussurrou — Eu sonhei com sua mãe hoje a noite.
Um arrepio percorreu sua espinha, e o garoto reprimiu as lágrimas quentes que lhe subiram aos olhos.
– O que o senhor sonhou?
– Nada de muito rebuscado — murmurou ele fechando os olhos com um sorriso — Ela só estava ali, segurando a minha mão. Sorrindo.
Will assentiu. Eles não falavam muito da mãe. Quase sempre o padrasto começava a chorar. Lhe arrepiava os pelos do braço a forma como ele sorria agora.
– Ela só me disse uma coisa — sussurrou ele procurando sua mão entre os lençóis.
Will a pegou.
– O que ela disse, pai?
– Que nos ama — falou ele simplesmente.
As lágrimas que Will estavam tentando conter deslizaram pela sua face.
– Bem, de todas as coisas. Sabe, se não fosse um sonho, no lugar do senhor eu estaria muito aborrecido com ela. Eu gostaria de saber se ela está bem. Se vou vê-la outra vez. Se ela está feliz.
O pai riu baixinho.
– Mas filho, o que realmente importa, ela já disse. Não são as circunstâncias. Amar sempre vai ser a coisa mais importante a ser dita, meu querido. Talvez o tempo lhe ajude a entender. Quando for mais velho... Eu não tenho perguntas pra sua mãe. Eu a amo.
Will assentiu outra vez.
– Certo. Agora, vamos mudar de assunto. Um assunto importante agora. Porquê é que na verdade o senhor começou a se consultar há mais de um mês e eu só fiquei sabendo ontem?
O pai pareceu culpado.
– Eu não queria alertá-lo, meu querido. Eu mesmo não entendo nada desse tipo de coisa.
– Mas eu entendo! — Will falou acariciando a mão do pai com a ponta dos dedos — O senhor devia ter me dito! O que faremos agora? O senhor vai ter que tomar seus remédios muito direitinho agora!
O homem lhe olhou preocupado, como se tivesse muito a lhe contar.
– Filho, eu...
Mas então em um segundo, tudo mudou. Ele já devia saber. Já tinha passado por isso. Os olhos do pai pareceram se fixar em um ponto, e sua respiração começou a ficar descontrolada. Sua mão apertou os dedos do filho convulsivamente.
– Pai? — Will chamou apavorado, sentindo o coração gelar — Pai?
A aparelhagem atrás da cama começou a disparar um alarme ensurdecedor. O pai parecia estar tendo um ataque, enquanto encarava um ponto acima de suas cabeças. Will começou a tremer de medo. Não podia estar acontecendo. Não de novo. E então uma equipe de médicos entrou no quarto.
Ele poderia tentar explicar os próximos minutos para sempre, mas jamais poderia colocá-lo nas palavras certas. Nunca houve palavras que traduzissem a dor. Nunca houve palavras que demonstrassem o pânico. E nunca haverá palavras que exemplifiquem o vazio. Poderia ter sido em minutos, ou horas, ele também não saberia dizer. Era apenar um momento, congelado no tempo. Um momento em que a dor e o medo pareciam não ter fim. Que jamais acabariam.
Os médicos ao seu lado trabalharam em seu pai de todas as formas, tentando trazê-lo de volta. Mas não havia nada para voltar. No momento que ele se fora, Will soubera. Foi quando seus olhos vidraram, e ele soube que o seu pai não estava mais lá. Ele tinha ido para junto de sua mãe. Ele não sentia mais dor.
Mas Will sentia. Ele estava ali, gritando, em cima do corpo de seu pai. E a dor jamais sairia dele. A morte, tão silenciosa e sorrateira, havia lhe levado mais alguém. E tão rapidamente como da primeira vez, foi embora sem deixar nada para trás. Ele sentia que alguém lhe puxava de leve e lhe dizia alguma coisa. Alguém lhe dizia que fosse lá fora tomar um ar.
Mas ele não ouvia exatamente o que diziam. Seu choro parecia mais alto. Suas lágrimas lhe toldavam a visão. Em algum momento também perdido no tempo, ele deixou a sala. Os dedos de seu pai há muito havia deixado de fazer pressão em sua mão. Will sentou-se na calçada do estacionamento, onde poderia ficar mais sozinho.
Era tão confuso. Não tinha o mínimo sentido. Suas unhas faziam marcas em seu braço, tentando parar de tremer. O choro ia se engasgando na garganta, e as lágrimas desciam queimando sua face. E as lembranças que ele tanto tentara esquecer vieram a tona, lhe dando um tapa na cara enquanto voltavam.
"Ele era pequeno, devia ter no máximo sete anos de idade. Raspava o prato de uma sopa rala que a mãe preparara com o pouco de ingredientes que tinha na geladeira.
– Você terminou, meu querido? — perguntou ela em sua voz musical.
A mãe era absolutamente linda. Como um raio de sol. Will sempre se perguntara se um dia chegaria a ser bonito como ela. Os cabelos loiros estavam presos em um coque apertado no alto da cabeça, e mesmo mau cuidados, eram tão dourados que pareciam feitos de ouro. O olhos eram do azul mais cristalino que o garoto já vira, e a mulher era excepcionalmente magra. Não por beleza. Mas sim por falta de comida em casa.
– Sim mamãe — Will falou empurrando o prato para longe — Não tem mais?
O rosto da mãe desmoronou um pouco.
– Não meu querido — falou ela parecendo muito infeliz — Você pode ficar com a janta da mamãe essa noite se ainda tiver fome.
Will fez que não com a cabeça. Sua barriguinha ainda roncava.
– Eu estou bem — falou ele descendo da cadeira de plástico e indo até a mãe.
Ela se ajoelhou ao seu lado e acariciou sua face, o rosto lindo contraído em preocupação.
– O que foi meu amor? No que está pensando?
Will olhou para baixo para não ter que encará-la. Então levantou a blusa e lhe mostrou um hematoma na barriga. A mãe deu um arquejo apavorado, então o puxou para um abraço.
– Quem fez isso com você?
O menino acariciou os cabelos da mãe receoso.
– Pedro e Kevin estavam falando... coisas. Sobre você. Então eu dei um soco no Pedro. Só que eles estavam em dois.
A mãe falou em afagando suas costas:
– Meu filho, não importa o que eles dizem. O que importa é o que você pensa.
O filho assentiu, mirando infeliz os roxos no pescoço da mãe."
Talvez agora o que ela tinha dito lhe fizesse sentido. Não importava o resto. Ele lhe amava. E Will se arrependeu por ter vergonha dela. Se arrependeu por ter vergonha do padrasto aceitar aquilo. Só que agora ele estava só. Eles tinham se ido.
Um médico saiu pela porta do hospital e veio ao seu encontro.
– Sr. Solace, vejo que se acalmou. Isso é bom. Se estiver precisando, tenho certeza que podemos atende-lo.
Will fez que não com a cabeça, limpando as lágrimas.
– Bem, eu sinto muito pela sua perda. Mas precisamos cuidar... bem, cuidar dos preparativos corretos. Se você conhecer alguém para lhe ajudar... Ou ir falar com algumas funerárias... Nós vamos manter o corpo até que volte, não se preocupe.
Will pigarreou para limpar a voz, limpando o rosto machado de lágrimas.
– Está bem. Eu volto logo.
Talvez ele não estivesse sozinho, pensou o garoto ao entrar no carro. Talvez tivesse alguém que restasse. Que lhe ajudaria a passar esse momento difícil. Era o que importava, segundo a mãe. O amor. E Nico lhe amava.
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NICO POV
Talvez tivesse passado minutos, talvez várias horas. Quando ele se dissolvera nas sombras, a princípio, pensava que tinha morrido. Mas ele não teria tanta sorte. Ao que parece, a dor lhe fazia mais forte, o que era uma ironia cruel do destino. Ele conseguira literalmente se dissolver em fumaça e reaparecer em outro lugar. Onde? Ele não estava dando a mínima no momento.
Nico di Angelo encarava um teto excepcionalmente alto, cheio de estalactites. Se alguma caísse, com certeza deceparia sua cabeça. Mas ele não estava contando com milagres. Ele poderia ficar ali para sempre, talvez. Havia bastante tempo desde que ele parara de chorar. O garoto se sentia frio e vazio por dentro, mas não mais infeliz, ou qualquer outra coisa. Talvez alguma coisa tivesse quebrado dentro dele. E dessa vez, talvez não tivesse mais concerto.
Ele merecera cada coisa que acontecera. E quanto a Will... Nico não o merecia. O garoto estaria melhor sem ele. Bem melhor. Tudo o que lhe restava era contemplar o escuro, deitado na relva fria. Ele nem se importou quando alguém se sentou ao seu lado.
De início, a pessoa não lhe disse nada. Ficou olhando para cima junto com ele. E então, depois de vário minutos, ela começou:
– Eu soube do que aconteceu.
Nico não sentia vontade de conversar. Não conseguia encontrar vontade dentro de si para responder-lhe.
– Eu sinto muito. Você sabe o quanto eu desejei sua felicidade.
Silêncio. A pessoa recomeçou a falar:
– Por favor. Fale comigo.
– O que eu posso lhe dizer, Bianca? — perguntou Nico não se importando muito com a resposta.
A imagem tremeluzente de Bianca lhe encarou.
– Que não desistiu. Diga que vai voltar lá pra cima, Nico.
Nico desviou os olhos e voltou a encarar o teto.
– Você deveria estar em paz.
– Eu me senti perturbada pela sua dor. Ainda mais do que da última vez. Saia do mundo inferior meu irmão. Seu lugar é entre os vivos.
– Eu não tenho lugar Bianca. Eu sou um erro. Eu nunca deveria ter existido. Nunca vou me encaixar em lugar algum. Eu só sei machucar as pessoas que amo.
Se Bianca estivesse viva, poderia muito bem estar chorando. Seu rosto translúcido pareceu ficar mais esbranquiçado.
– Você é um anjo. Só que ainda não percebeu isso.
– Eu não sou um anjo Bianca. Anjos não machucam pessoas. Monstros machucam — Nico a cortou com a voz morta.
Bianca tremeluziu.
– Eu não posso ficar. Ele está vindo. Por favor Nico, volte. Não fique aqui.
E então ela desapareceu. Minutos depois Nico ouviu outra pessoa se aproximando, chapinhando pela lama. Hades se sentou exatamente no lugar onde Bianca havia desaparecido. Como a garota, de início ficou calado. Mas depois falou meio hesitante:
– É, ficou feia essa marca.
– Como o senhor me encontrou? — perguntou Nico sem encará-lo.
Só queria que o deixassem em paz. Mas eles insistiam em vir encarar sua desgraça.
– Caso não tenha notado, você se materializou no meu quintal — falou Hades rodando os anéis nos dedos.
– Ah. Desculpe. Eu posso ir mais longe — talvez fosse isso que o pai viera lhe pedir.
Mas Hades sacudiu a cabeça parecendo incomodar-se.
– Eu sei que você acabou de... passar por um momento difícil.
Nico ergueu a marca de Eros na altura dos olhos. As veias de seu braço pálido ficaram negras por perto da marca, parecendo que ele tinha feito a marca injetando tinta na pele com uma seringa.
– O senhor sabia o que ia acontecer. Apolo lhe contou.
– Não, eu não sabia — Hades falou com a voz dura — O que eu sei ainda está para acontecer.
Nico deu de ombros.
– Não importa mais. Eu perdi tudo. Minha mãe, minha irmã e a única família que eu tinha.
Uma brilhante ideia passou pela sua cabeça. Deu-lhe forças para se sentar e encarar o pai, um brilho alucinado nos olhos.
– O senhor pode me matar!
Hades pareceu perplexo.
– O que disse?
– Por favor pai? Me mate — Nico pediu — Assim eu não vou mais sofrer. Por favor. Eu nunca vou poder me redimir em vida por tudo o que fiz, então pra quê ficar aqui?
Hades fez algo que Nico não esperava. Lhe deu um tapa forte no rosto, fazendo-o cair para trás outra vez. O garoto lhe encarou surpreso.
– Basta. Não quero nunca mais ouvi-lo falar sobre isso, me entendeu? Você é meu filho, e é forte. Acabou o tempo para fraqueza. Levante-se agora — Hades lhe ordenou, a voz cheia de autoridade.
Nico se obedeceu por puro ódio, o rosto queimando com o tapa.
– Assim está melhor. Você vai enfrentar o que fez como um homem — Hades lhe falou firmemente — Não vai fugir como um covarde.
Nico abriu a boca para falar, mas Hades o cortou:
– Cale-se! Você vai viver com o que fez. Você pode voltar. Ou pode ficar aqui, eu lhe cedo um lugar em meu palácio. O protegerei com minha magia para que o mundo inferior não o mate. Mas você não vai morrer. Não vai escolher a saída mais fácil. Quando você morrer, vai ser como um herói, não como um traidor.
Nico tremeu de ódio. Mas sentiu que merecia o que o pai estava falando.
– Você me entendeu? — perguntou Hades.
– Sim senhor — respondeu Nico entredentes.
– Ótimo — lhe respondeu o pai — Agora me responda. Você vai voltar, ou vai ficar?
– Eu vou ficar — Nico lhe respondeu prontamente — Se esse for meu castigo.
– Pense como quiser — Hades dispensou seu comentário.
Então agitou as mãos e fez aparecer um manto negro.
– Vista isso — disse o pai entregando o manto em suas mãos — Se não quiser Deméter nos seus ouvidos. Não posso ficar por muito mais tempo com você. Mas vou lhe apresentar alguém que vai lhe ajudar a se adaptar.
Nico entrou no palácio do pai ao lado do mesmo. Deméter e Perséfone jogavam cartas em seus tronos, e viraram as cabeças quando entraram.
– Ah, aí está ele — Deméter comentou voltando ao jogo desinteressada — Você criou um bom problema nas luzes aqui dentro, garotinho. Achei que só o degenerado do seu pai conseguia fazer isso.
– Mãe — Perséfone revirou os olhos — Jogue logo e pare com isso.
Deméter continuou desbocada:
– Se ele vai ficar para jantar, vou dar a ele algum cereal. Esse menino continua muito magro.
Hades a ignorou, abrindo a porta que dava para as escadarias e a mantendo aberta para que o filho passasse. Quando a porta se fechou, deixando Deméter e Perséfone para trás, o pai continuou:
– Você pode ficar com qualquer quarto do terceiro andar.
– Então porque estamos indo para baixo? — perguntou Nico andando junto ao pai em direção a algo as masmorras.
– Você verá — disse o deus em voz calma.
Quando chegaram até o final da longa escada, Hades abriu a porta de madeira. Havia sido ali que Hades trancara Percy uma vez. E mais uma vez o garoto contemplou a lembrança de alguém que também tinha decepcionado.
Mas Hades passou pelas celas e foi até o final do corredor, abrindo uma porta pela qual Nico nunca passara. Então lhe mirou.
A sala parecia ter sido arranjada para ser um quarto e ao mesmo tempo um centro de treinamento. No meio dela, havia alguém sentado em um banco, de costas para ele. Ou alguma coisa. A criatura tinha longas asas negras de morcego, que lembravam a de uma harpia. Mas quando ela ouviu o barulho da porta abrir e se virou, ficou claro que não era uma harpia.
Seu rosto era humano e bonito. Só que Nico não conseguiu dizer se era um homem ou uma mulher.
– Esse é Prisma — falou Hades — É seu irmão.
Nico ficou sem fala.
– Como...?
– Tenho certeza que vão ter o que conversar — disse Hades lhe empurrando até a sala — Mas eu infelizmente não posso ficar.
E então fechou a porta as suas costas.
A criatura muxoxou e pegou uma toalha deixada em cima de uma estante de armas variadas. Nico não soube dizer se ele lhe entenderia.
– Você... Você pode falar?
Então ele riu de leve, fazendo as asas se contraírem.
– É. Sim.
Nico coçou a cabeça sem saber por onde começar.
– Então... Somos irmãos?
– Ao que parece — respondeu-lhe Prisma prendendo os longos cabelos negros em um rabo de cavalo.
Ele parecia mais velho, mais alto e mais forte do que Nico. E tinha uma incrível semelhança a uma mulher. Seu nariz era reto e as íris de seus olhos eram completamente negras. A cor de sua pele era branca como leite.
– Sente-se, tem uma poltrona atrás de você — falou ele com a voz serena.
Nico se sentou, encarando as grandes asas da criatura. Prisma pareceu notar.
– Não, eu não sou um semideus. Sim, eu me pareço com uma mulher. Sim, eu sou metade Harpia. Respondi todas as suas perguntas? — falou ele com sua voz calma.
Nico assentiu.
– É, então começamos bem — falou ele puxando um banquinho e se sentando a sua frente — Porque está aqui? Achei que semideuses ficavam lá em cima.
– Meu lugar não é lá — falou Nico simplesmente. Não estava afim de discutir a desgraça que era sua vida com um irmão que acabara de conhecer.
Prisma riu graciosamente.
– Vejam só. Você podendo estar lá em cima mas está aqui. E em pensar que tudo que eu queria era estar no seu lugar.
– Você não sabe o que está dizendo — Nico retrucou.
Prisma deu de ombros.
– Eu nunca pude ver o sol, por exemplo. É bonito?
Nico sentiu o frio do ódio por si mesmo voltar a se espalhar por seu peito. O garoto se limitou a assentir.
– Se você quer tanto ir ver a porcaria do sol, porque não vai?
– Eu não posso sair daqui — falou ele parecendo um pouco tristonho — A maioria das hárpias não é muito inteligente. Mas eu sou metade deus. Sou inteligente. Minha vida se limitaria a servir a semideuses lá em cima. Mas eu seria só um monstro. Não poderia andar pelos seus. Mas não é só isso. Eu queimo no sol.
– Você queima no sol? — Nico ergueu as sobrancelhas — Mas o monstros não... Hã... Me perdoe.
Prisma assentiu.
– Não tem problema, minha natureza é a mesma do que meus irmãos monstros. Mas eu sou diferente. Como eu já disse, eu sou meio deus.
Nico assentiu.
– Hades o mandou pra mim por que?
– Provavelmente para que você me ajudasse a me achar. Mas não precisa. Eu me viro sozinho. Uma pergunta, você mora aqui?
Prisma assentiu. Nico achou que era bem ruim da parte do pai tê-lo colocado ali, mesmo que o irmão fosse... meio harpia. Mas ao ler seus pensamentos em seu rosto, Prisma riu de leve outra vez.
– Eu fico aqui em baixo porque é mais gelado e úmido. Eu fico melhor aqui.
– Ah, certo — Nico assentiu.
– Você é homem? — perguntou Prisma de uma forma estranha, como se não pudesse saber.
– Sim — Nico lhe respondeu surpreso.
– Desculpe a pergunta — Prisma lhe encarou com seu rosto sério — Eu não sei distinguir. As hárpias não tem sexo.
Tudo bem, aquilo estava muito estranho. Nico apontou para o irmão confuso.
– Mas você...
– Porque você acha que eu me pareço com uma mulher também? — disse ele revirando os olhos.
Nico tentou processar a informação de que não sabia se estava falando com uma irmã ou um irmão.
– Bem, como prefere que eu te chame?
– "Ele" está bom — Prisma sorriu um pouco — Acho que talvez eu lembre mais um homem, o que acha? Eu não ligo se quiser me chamar de "ela", pra mim não tem diferença.
– É, acho que está um pouco mais pra homem — comentou Nico ainda confuso — Mas se vocês não tem sexo, como...?
Prisma riu.
– Você realmente está afim de saber?
Nico pensou um pouco.
– Talvez outro dia.
Prisma assentiu se levantando.
– Então venha irmão, vamos arrumar um lugar para você ficar. Pelo menos não vou mais ficar sozinho todo esse tempo.
Nico assentiu.
– É, vamos ter algum tempo para conversar.
10 ANOS DEPOIS.
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