Soul Angel

20 10 anos depois


Notas iniciais
Esse capítulo é dedicado à Julia Belotto, que fez essa linda art para a cap do capítulo! É dedicado também os lindos do Nyah que recomendaram a fic: JuliaFilhaDeHades e Pedro Gleek! E também a todos os lindos gostosos e seduzentes que comentaram no capítulo anterior! Era pra esse capítulo era para ter mais coisas, só que ficou grande pra Kct, então... :v Bem, taí :3

Capítulo 20 — 10 anos depois.

Há quem diga que o tempo é um velho amigo, que nos é amável e cuidadoso. Afinal, uma das coisas que as pessoas mais prezam é o tempo. O tempo é tudo. Sem ele, não há nada. Sem ele é o fim. A morte. Nico di Angelo não se importava muito com o tempo, ele nunca lhe havia sido um amigo, ou até mesmo um conforto.

O tempo lhe havia roubado sua infância no cassino Lótus. Havia roubado os anos que sua irmã Bianca jamais viveria. Havia roubado seus amigos, sua família e a vida que um dia, por pura tolice, ele almejara. O tempo era tão culpado e traiçoeiro quanto ele próprio. Mas nem mesmo o grande filho de Hades poderia fugir dele.

O tempo o fizera crescer até ficar da mesma altura que seu pai, e mais alto que seu irmão Prisma. O tempo lhe engrossara a voz, lhe dera músculos e cicatrizes de treinamento sofrido. O tempo havia deixado seus cabelos ainda mais compridos e desgrenhados, e lhe dera uma barba rala que o próprio tinha preguiça de tirar. E o tempo não só mudou o Nico de quinze para vinte e cinco anos por fora. Por dentro, o garoto, agora um homem, também mudara.

Estava deitado de costas em sua cama, sonolento. O ventilador de teto era o único barulho no quarto, o que Nico agradecia. Ele não gostava muito de barulho. Seus sonhos envolviam imagens do sol lá fora. Algo que há muito tempo, ele não via. Para ele era sempre uma imagem perturbadora. Mas já havia há muito aprendido a controlar seus pesadelos. Sentiu alguém rolar na cama ao seu lado, e Nico abriu os olhos meio frustrado por ter sido acordado.

Athos lhe encarava sorrindo, deitado de bruços ao seu lado. O cabelo negro e raspado em baixo contrastando com os olhos incrivelmente verdes. Sinceramente, lhe incomodava que Athos passasse a noite ali. Ele gostaria de estar sozinho quando acordasse, mas o filho de Tânatos era incrivelmente insistente. Nico resmungou incomodado:

– Você me acordou. Há quanto tempo está aí, me encarando?

Athos lhe deu um sorriso bobo.

– Só alguns minutos. Eu estava observando você dormir.

Nico não lhe respondeu, apenas levantou e começou a se vestir. Athos suspirou, parecendo aborrecer-se um pouco.

– Sabe, um bom dia seria excelente.

– Bom dia — falou ele automaticamente, talvez um pouco rude demais.

Então reparou que Athos não estava levantando e se vestindo. Não ia permitir que ele ficasse em seu quarto enquanto ele não estivesse, o filho de Tânatos tinha a mania irritante de mexer em suas coisas. Nico lhe fez um movimento com a mão para que se levantasse.

– Vamos, o que está esperando?

Athos levantou e foi até ele sorrindo de leve.

– Estava esperando que você ficasse um pouco mais comigo, meu amor.

Nico segurou suas mãos de leve. Ele não tinha a intenção de ser rude com Athos. Afinal, ele era a única pessoa com quem andava saindo. Mas ele já explicara a ele suas condições. E ele simplesmente não conseguia entendê-las.

– Athos. Eu já lhe pedi para não me chamar assim — falou Nico com a voz firme, encarando os olhos do deus — Eu já lhe disse, não estamos juntos, tudo bem? Se não puder lidar com isso... Então isso não vai poder continuar.

Finalmente Athos pareceu perder a paciência. Seu sorriso caiu, e o homem revirou os olhos, virando de costas pra ele e começando a se vestir.

– Tudo bem, esqueça. Eu sei disso. Só queria ser mais romântico. Não ia tirar um pedaço de você se fizesse um esforço.

– Sexo não precisa ser romântico, Athos — Nico piscou para ele sorrindo de canto.

Athos pareceu derreter-se. Então deu de ombros.

– É o suficiente. Por hora.

Então uma batida se ouviu na porta, e a voz calma e indefinida do irmão falou lentamente:

– Achei que íamos treinar hoje.

– Nós vamos — Nico respondeu-lhe, terminando de enfiar as botas, e então olhou para Athos — Nos vemos por aí.

Athos revirou os olhos e lhe deu um beijo no rosto.

– Você foi maravilhoso ontem.

– E sempre sou — Nico abriu a porta com um meio sorriso e a apontou com a mão.

Athos saiu com um sorriso incontido. Então Prisma enfiou sua cabeça andrógena pelo portal.

– De novo?

Nico deu de ombros.

– Foi ele quem veio me procurar, isso você pode ter certeza.

Prisma cruzou os braços e se encostou no marco da porta enquanto Nico procurava a própria espada de ferro estígio.

– Já faz o quê, um mês? Normalmente você dispensa os caras um pouco antes — comentou ele.

– Eu já o dispensei, acredite.

– Com certeza é por isso que ele estava na sua cama — Prisma riu. Sua risada parecia um sopro de vento, de tão leve.

Nico tentou lhe dar um tapa atrás da cabeça, mas o irmão ergueu uma asa escura sobre o rosto.

– Vamos treinar.

Ele de fato havia dispensado Athos. Mas o filho do deus ceifeiro era como um grude. Sempre acabava lhe aparecendo sob desculpas ridículas. Talvez estivesse se apaixonando por Nico, mas essa era uma coisa que o garoto preferia não pensar. Ele não gostava de ser rude ou trata-lo mal. Mas o problema é que o gelo que Nico o dava não parecia surtir efeito em Athos. Ele parecia querer estar cada vez mais perto.

E Nico acabava cedendo e passando mais uma noite com ele. Mas mais cedo ou mais tarde, ele teria que lhe fazer entender. Antes que Athos acabasse se machucando demais. Havia muito tempo desde que Nico amara da última vez.

As tardes de Nico eram passadas basicamente em treinamentos com o irmão. De fato, ambos se tornaram muito próximos após tanto tempo de parceria. Prisma compartilhava de todos seus medos e passado, como Nico do dele. O irmão almejava com todas as suas forças um dia ser capaz de sair dali para ver o sol. E não importa quantas vezes Nico tivesse lhe dito que não havia nada de especial no sol, seu desejo nada se apagou em todos aqueles anos. Ele mesmo não via o sol há tanto tempo que não saberia dizer.

Os treinamentos haviam lhe aumentado o poder em um nível absurdo. Nico agora não era só excepcionalmente poderoso com seus dons herdados do pai. Era também um mestre em esgrima. O irmão era no mínimo tão bom quanto ele, mas mesmo assim, na maioria das vezes Nico o batia. Talvez as asas fossem o grande problema de Prisma. Ele tinha problemas com sentar em bancos com encosto e passar por portas estreitas. O garoto também dormia de um jeito estranho, de cabeça para baixo, como um vampiro. Não foram muitas vezes que Nico dormira perto dele, porque era algo que o filho de Hades gostava de evitar. O irmão fazia uns barulhos muito estranhos de ave enquanto dormia.

Ele e Prisma chegaram nos fundos das masmorras rapidamente, então o irmão abriu a porta para que Nico passasse.

– Bem, mas e aí, quem sabe se você desse a ele uma chance? O cara gosta de você pra caramba.

Nico fez que não com a cabeça enquanto vestia a proteção.

– Eu não gosto dele dessa forma. Se eu desse uma chance isso só ia servir pra ele se agarrar ainda mais em mim.

– Você não pode esperar que ele transe com você e desapareça no outro dia — Ironizou Prisma vestindo sua proteção feita sob medida — Além do mais, ele é um deus.

– Grande coisa, eu sou muito mais poderoso do que ele. Mas eu vou dar um jeito nisso. Vou dizer a ele que... é melhor essa situação não continuar.

Prisma lançou um ataque com sua espada em direção à cabeça do irmão, que o desviou com habilidade.

– Mas e você meu irmão? — perguntou Nico tentando perfurá-lo no peito — Ninguém? Depois de todo esse tempo? A gente só vive uma vez.

– E no entanto você está aqui — falou o irmão, concentrado na dança que ambos faziam em meio aos golpes.

Nico lhe aplicou um soco particularmente forte no estômago com a mão esquerda. Prisma de início soltou o ar em um arquejo, mas então riu lentamente.

– Sensível como sempre.

– Claro — Nico sorriu contra sua vontade — Mas você não me respondeu.

– Eu não sei, Nico — Prisma revirou os olhos caídos — Você sabe que eu sou... diferente.

Nico desviou a espada que vinha de encontro a seu flanco esquerdo.

– E daí? Tenho certeza de que tem muitas pessoas que...

– Gostam de coisas bizarras? — o irmão completou a frase — Ainda se eu fosse como uma hárpia normal...

Realmente a vida do irmão seria bem mais fácil se ele fosse como uma hárpia normal. Mas ele era filho de Alecto, a fúria. De início, Nico passou a encarar o pai de um jeito estranho quando soube. Mas logo se lembrou que o pai nunca o julgara por suas escolhas, e logo tratou de esquecer. Toda fúria era uma hárpia, mas nem toda hárpia era uma fúria. Alecto e seus irmãos eram diferentes das hárpias comuns. Eram a personificação da raiva, mágoa e outros sentimentos bons. Não eram bem criaturas. Eram um pouco piores que monstros. E Prisma, sendo seu filho, era também como elas. Uma personificação. E podia mudar sua aparência original o quanto quisesse (O irmão gostava de se transformar nele e imitá-lo).

– Você não é tão diferente assim — Nico tentou consolá-lo — Você pode mudar sua aparência. Pode ser o que quiser.

– Mas o que eu sou é isso Nico — Prisma falou enquanto se defendia — Eu estaria mentindo para mim mesmo se mudasse minha aparência só para que me aceitassem.

– Não sua aparência... Você sabe — falou Nico um pouco encabulado — Decidir o que você é. Homem ou mulher. E então... Bem, não mudar a sua cara, mas... Você me entendeu.

– Eu não seria como nasci! — Prisma revidou o ataque, o suor caindo pelo rosto — E mesmo assim, onde eu ia enfiar as asas?

– Você pode mudar de aparência! — Nico retrucou suando também.

– Você quer que eu seja humano! — Prisma lhe deu uma rasteira, a voz ofendida.

Nico caiu para trás, batendo a cabeça na cama onde o irmão não dormia.

– Qual o seu problema? — Nico perguntou pulando em suas costas e puxando-lhe os cabelos para trás.

Prisma abanou as asas convulsivamente, derrubando várias estantes e equipamentos de treino. Suas asas abertas era absurdamente grandes. Mas Nico não caiu.

– Sai de cima de mim! — berrou Prisma em tentando alcançá-lo com as mãos, a voz calma falhando.

– Você me deu uma rasteira!

– Você mereceu! — Prisma se jogou para trás, esmagando o irmãos com as asas e o próprio peso.

Então alguém entrou pela porta de madeira.

– Crianças, parem com isso — Hades ralhou aparecendo por trás da porta — Nico, tenho que falar com você. Venha aqui. Agora. Eu não tenho muito tempo.

E então se retirou. Prisma saiu de cima dele e o mirou.

– O que você fez?

Nico pareceu nervoso.

– Nada! Eu Juro!

– Ele deve ter descoberto que você pegou o elmo das trevas e experimentou, eu disse pra não fazer isso! — Prisma sussurrou para ele.

– Eu estava brincando! — Nico ergueu uma mão pra ele e o ajudou a levantar — Fique aí! Eu já volto.

E então saiu correndo atrás do pai. Hades andava imponente ao seu lado, segurando as vestes feitas de almas. Nico tentou não encara-las.

– Pai, eu...

– Aqui não. Vamos falar em outro lugar — falou o deus em tom preocupado.

Então ambos chegaram na sala do trono. Era inverno. Perséfone estava de pernas cruzadas em seu trono, um notebook no colo. Hades chamou sua atenção.

– Ha-ham.

Perséfone ergueu os olhos.

– Bom dia querido. Bom dia enteado — comentou ela voltando ao que estava fazendo.

– Querida, eu preciso conversar a sério com Nico. Você poderia nos dar licença?

Perséfone ergueu os olhos outra vez, arqueando as sobrancelhas:

– Eu não posso pausar um jogo online. Estamos ganhado. As plantas estão ganhando no Garden Warfare.

– Tenho certeza que vai demorar apenas um segundo se você se materializar no nosso quarto, pombinha — Hades lhe deu seu melhor projeto de sorriso.

Perséfone suspirou.

– Está bem. Girasol um está voltando para a base, preciso de suporte — Ela falou no headphone.

Nico fechou os olhos enquanto a madrasta virava luz. Ele sabia que nenhum mortal podia encarar um deus em sua forma real sem morrer. Então a luz se foi, e ele soube que seria seguro olhar outra vez. Hades foi até o seu trono e se sentou.

– Eu estava adiando essa conversa — falou ele em tom de quem confessava — Mas receio que eu não possa mais esperar.

Nico mirou o pai confuso.

– Do que o senhor está falando? Eu fiz algo errado?

Hades fez que não com a cabeça, parecendo absorto em seus pensamentos.

– Não, não. Antes fosse. Antes fosse...

Nico se arrepiou com seu tom.

– Pai, o quê...?

– Nico, o que eu tenho para falar com você é de extrema importância — disse Hades fixando seu olhar — Sei que devia ter lhe falado isso tempos atrás. Mas eu... Eu não sei, acho que empurrei enquanto deu.

O filho assentiu, incentivando o pai a continuar.

– Nenhum mortal sobrevive no mundo inferior por muito tempo. E o que você é, meu filho? — Perguntou Hades parecendo cansado.

– Um mortal... Mas eu estou muito mais poderoso agora pai... — Se o pai ia reclamar de seu treinamento...

– Eu sei disso — Hades o cortou — Eu não poderia estar mais orgulhoso. Mas mesmo assim, seu corpo continua sendo mortal. Quando eu o aceitei aqui, você lembra o que eu disse?

Nico se lembrou do tabefe que o pai lhe dera a tanto tempo atrás, e enrubesceu.

– Que parte?

– A parte eu que eu disse que lhe protegeria com minha magia para que o mundo inferior não sugasse sua vida.

– Devo ter me esquecido desta — confessou Nico. O tapa estava mais fortemente gravado em sua memória.

Hades rodou os anéis nos dedos.

– Acontece que todo esse tempo, eu estive lhe protegendo. Todo esse tempo, eu estava lhe doando um pouco de meu poder. Assim você ia se tornando mais resistente. Mas eu devo lhe falar meu filho. Eu não posso mais fazer isso.

Nico ergueu as sobrancelhas.

– Porque não?

– Porque se eu continuar, você se tornará imortal — Hades lhe falou, o olhar fixo no seu.

Um silêncio se espalhou pelo ambiente. Hades o quebrou momentos depois:

– Você só tem duas escolhas meu filho. Ou aceita ficar aqui para sempre, ou volta.

Nico não podia acreditar. Sua cabeça fazia que não involuntariamente.

– Não... Eu não posso voltar. Não depois de todo esse tempo.

– Você pode escolher ficar. Talvez seja o melhor. Mas se você escolher isso...

– Eu não vou poder morrer — completou Nico.

E ele nunca mais veria Bianca. Quando Prisma morresse, ele também não o veria. Nem sua mãe. Nem ninguém. Ele teria que conviver consigo mesmo para sempre. Sozinho com o pai.

– Sim — Hades assentiu — A eternidade. Nico, isso talvez seja o melhor para você. Se você voltar, esteja avisado. Você não sabe o que vai encontrar lá em cima.

A dúvida o dilacerou por dentro, vinda rápida como um sopro de brisa. Gelada. Ele não podia voltar. Por dez anos, ele tentara esquecer de tudo lá em cima. Por dez anos, ele não precisara encarar nenhuma culpa. Nada. Mas se ficasse, ele nunca morreria. Viveria com a culpa dentro de si para sempre, guardada a sete chaves.

Hades voltou a falar, vendo que o filho continuava sem reação.

– Você é um homem agora Nico. Considere voltar também. Aqui em baixo não é vida para você. Se voltar, talvez possa concertar os erros do passado.

Nico sentiu que as lembranças lhe iam voltando. A dor. Mas ele as reprimiu, erguendo a cabeça para o pai.

– Eu preciso pensar.

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– O que ele queria? — perguntou a voz do irmão de dentro do armário quando Nico entrou no seu quartinho.

O garoto foi até o móvel e abriu as portas. Prisma estava de cabeça para baixo, pendurado. Parecia um perfeito vampiro.

– Desce daí, preciso falar com você.

Prisma se apoiou no chão com os braços pálidos e musculosos, fazendo um movimento para frente e se soltando. Suas asas se esticaram um pouco enquanto se espreguiçava. Nico sentou-se na poltrona do canto, indicando o banquinho para o irmão.

– Você está em apuros? — perguntou ele em sua voz suave.

– É. Mas não do jeito que você está pensando.

Nico esfregou o rosto preocupado enquanto o irmão se sentava à sua frente.

– Bem, explique.

Mas ele não conseguia proferir as palavras que temia. O silêncio se instalou. De alguma forma, ele sabia que a única pessoa que tinha era o irmão. Ele podia ajudá-lo. Podia arrumar uma saída. Então ele tomou coragem e suspirou.

– O pai não pode mais me proteger, você sabe. Com a magia dele. Para que eu possa ficar e tudo. Se ele continuar, eu viro imortal.

Prisma deu de ombros sem entender.

– E daí?

– Como assim e daí? — Nico encarou seus olhos negros e confusos — Eu nunca iria morrer! Isso não é certo! Não é natural! Eu nunca veria Bianca outra vez! E você! E minha mãe! E...

Nico se conteve, o pânico se retraindo em seu peito.

– Não vamos mentir um para o outro — Prisma colocou uma mão em seu ombro — Você está preocupado porque nunca mais veria aquele garoto que você nunca esqueceu outra vez.

Nico cerrou os dentes.

– Não fale sobre isso.

A marca de Eros lhe coçou no braço. Seria impossível esquecer, uma vez que sempre que o garoto acordava, olhava no espelho e via a marca negra no braço. Eros e Apolo fizeram um excelente trabalho para que ele jamais esquecesse o quanto era horrível. Prisma assentiu, retirando a mão.

– Você deve voltar então — falou ele como se fosse a coisa mais simples do mundo.

Nico o encarou pasmo.

– Claro. Depois de dez anos. Dez anos. Você quer que eu suba lá em cima como se nada tivesse acontecido. E me esconder lá até morrer, porque eu não teria para onde ir. Enquanto você fica aqui.

E pela primeira vez em todo aquele tempo, Nico viu o irmão sorrir com uma felicidade real.

– Você poderia fazer isso por mim. Voltar — ele falou com os olhos cheios de esperança.

– Eu não ia ficar sozinho e...

– Você não entendeu — o irmão o cortou — Você pode me levar com você.

O único barulho que houve foi o da respiração de Nico. Era loucura.

– Você queima no sol.

Prisma sorriu ainda mais:

– É por isso que só viajaríamos de noite. Posso me esconder de dia. Com você, eu teria uma chance.

– Você é maluco, onde você ia enfiar essas asas? — ralhou Nico — Não que eu esteja considerando isso!

Prisma levantou atrapalhado. Suas asas pareceram entrar para dentro do corpo. Seus cabelos negros e liso escorridos começaram a ficar vermelho ondulados. E suas feições se tornaram completamente femininas. Seios brotaram em seu peito liso, enquanto o corpo se afinava. Então falou em uma voz de garotinha.

– Eu posso mudar! Posso ser quem eu quiser! Se eu puder sair daqui!

Nico encarou o irmão abismado.

– Cara, isso é estranho. Volte a sua aparência normal. Por favor.

Então seu corpo começou a mudar outra vez, mantendo as asas escondidas.

– Tudo bem. O que quiser. Desde que você aceite me levar lá em cima.

Nico não podia acreditar no que estava prestes a fazer. Mas era o que ele precisava. De uma desculpa para voltar.

– Sua voz ainda está como uma garota.

– Isso é um sim? — perguntou ele em sua voz andrógena.

Nico assentiu.

Prisma ficou tão feliz que suas asas brotaram outra vez e atiraram estante e armário para longe.

– Eu não acredito! Eu não vou mais ficar preso! Nunca mais!

– Se você continuar quebrando tudo eu vou mudar de ideia.

– Tudo bem — disse o irmão recolhendo as asas e sorrindo.

☼☠Ψ ☼☠Ψ ☼☠Ψ ☼☠Ψ

De noite, chegara a hora. Não havia porque esperar mais um dia. Prisma não cabia em si de empolgação também. Nico o deixara preparando uma mochila com os próprios pertences, enquanto ele mesmo arrumava uma mochila para si.

Revirando a bagunça de seu quarto, achou várias coisas que não via faz muito tempo. Seu prisma. Havia uma eternidade desde que ele ligara para alguém. Roupas velhas, embalagens de comida... Não havia muito o que realmente levar consigo. Guardou sua espada, prisma, roupas e escova de dentes na mochila. Continuou procurando por mais coisas que pudesse ter deixado para trás. E lá, lá no fundo da gaveta estava uma aliança de prata.

Nico passou um tempo a encarando antes de esticar os dedos finos e resgatá-la. Não sabia muito o que fazer com aquilo, mas sabia que aquele pequeno objeto era ainda mais importante que qualquer outra coisa que ele havia guardado para levar consigo. Ele tirou a corrente de prata do pescoço, e passou-a pelo anel, observando o efeito.

– Toc, toc — alguém falou.

Athos estava com as costas na porta, os olhos verdes semicerrados, um sorriso malicioso no rosto.

– Você não apareceu hoje lá fora — continuou ele. Suas desculpas estavam cada vez mais esfarrapadas — Pensei que talvez estivesse com algum problema.

Era a hora, Nico sabia. Precisava faze-lo entender de uma vez por todas.

– Athos, precisamos conversar — ele falou pendurando o colar no pescoço.

Isso chamou a atenção do deus para o objeto.

– De quem é isso? — perguntou ele com uma pontada de ciúme na voz.

– Não importa — Nico falou enquanto tentava acertar o gancho — O que importa é o que eu tenho para lhe falar agora.

Athos pareceu um pouco chateado. Cruzou os braços e arqueou as sobrancelhas.

– Sou todo ouvidos.

Nico o mirou nos olhos. Por um mês, Nico tentara se apaixonar por ele enquanto o mirava. Como olhara nos olhos de todos os outros. E por nenhum, nenhum sentimento veio que não fosse o vazio. Não foi diferente naquele momento.

– Meu pai não pode mais me manter aqui. Se eu ficar, terei que virar imortal.

Athos o cortou, indo até ele e segurando-o pelos braços.

– Meu amor, isso é maravilhoso! — ele lhe beijou os lábios antes que Nico pudesse afastá-lo — Podemos ficar juntos para sempre! Dois amantes imortais!

Nico desprendeu as mãos do deus de seus braços com delicadeza.

– Não Athos. Sinto muito. Eu não posso. Estou indo embora com meu irmão.

A cor pareceu sumir do rosto de Athos. Seu sorriso mudou para descrença. Ele não havia acreditado.

– Você está brincando, sim?

Nico suspirou.

– Não, eu não estou. Eu sinto muito Athos. Isso é um adeus.

Os olhos do garoto se marejaram de lágrimas, mas o sorriso de descrença não deixou seu rosto.

– Pare de brincar comigo, Nico! Quem é que ia deixar a imortalidade para ir para o mundo mundano? Você não pode me deixar, eu amo você — Athos pareceu desesperar-se, os dedos puxando a blusa de Nico para perto.

Nico afagou seu braço conciliador.

– Eu sinto muito. Eu sinto muito mesmo. Mas eu não amo você. Eu queria amar.

Athos riu enquanto as lágrimas caíram. Então o beijou com força. Nico permitiu, mas não correspondeu. Quando Athos se afastou, mais lágrimas rolaram por seu rosto.

– Viu? Me diz que sentiu alguma coisa. Eu sei que você não é indiferente a mim! Eu senti seu desejo! Você me amou por muitos dias. Isso não teria acontecido se você não gostasse de mim nem um pouquinho!

Nico fez que não com a cabeça.

– Desculpe. Mas eu não senti nada. Você é lindo Athos. Mas o que nós temos... O que nós tínhamos... era só isso. Mais nada.

– Não! — a voz do deus pareceu tremida enquanto ele puxava suas roupas — Não! Eu amo você, isso é o suficiente! Com o tempo você vai me amar também!

– Athos — Nico segurou seu rosto em uma mão — Eu estou de partida. Vou embora hoje à noite. Adeus.

Athos começou a chorar profusamente. E então virou de costas. Mas Nico nunca teve talento para consolar as pessoas. Só para magoá-las. Pegou sua mochila em cima da cama e afagou suas costas.

– Adeus.

Mas quando virou as costas, a voz de Athos falou odiosa:

– É dele. É daquele garoto que você nunca esqueceu. O filho de Apolo.

Nico sentiu o coração bater forte. Havia muito tempo que ele não ouvia isso. A pena

que sentia de Athos se esvaiu.

– O quê você disse? — perguntou Nico se virando para o garoto.

Athos pareceu temê-lo, mas mesmo assim reuniu coragem para enfrentá-lo.

– O anel. É dele. Eu ouvi seu pai falando sobre seu pretenso "grande amor". Que era por isso que você não durava nem uma semana com outra pessoa. Você é um imbecil! Depois de todo esse tempo ainda gosta dele? Você acha que ele também gosta de você? Com certeza ele já o esqueceu, e agora deve estar se esfregando com outro...

Athos jamais chegou a terminar a frase. Nico o acertou com um soco no rosto. Seus braços tremiam de ódio. Ele não ia deixar que alguém como Athos falasse assim de Will Solace. Jamais.

– Ele era, é, e sempre vai ser melhor que você — Nico cuspiu para o garoto.

Athos segurava o rosto com a mão parecendo surpreso, as lágrimas parando. Nico virou as costas e saiu para encontrar o irmão. O deus não o incomodaria mais agora, pelo menos.

Ou era o que ele pensava.

Notas finais
Ei, você aí que está lendo :3 Tire um tempinho pra comentar! Eu vou adorar saber a sua opinião! Gostaria de deixar uma recomendação de fic pra vocês. Eu li no AnimeSpirit essa fic seduzente de ano novo, onde tem YAOI COM NICO, WILL E PERCY AO MESMO TEMPO. TO TARADA! http://socialspirit.com.br/fanfics/historia/fanfiction-os-herois-do-olimpo-ano-novo-de-novo-2902228