Soul Angel

26 Deuses e monstros


Notas iniciais
Okay. Eu sei. Eu devo desculpas a vocês. Eu vou me explicar: Eu não estou conseguindo dar conta. Você vai parar a fic tia Bruna??? Eu não disse isso. Ultimamente, eu tenho recebido muitas propostas de trabalho de vários lugares diferentes. Os desenhos estão me tomando muito tempo. Então eu tenho que escrever, estudar, trabalhar e ainda por cima tenho reunião do clube de RPG as sextas e sábados. Acabei enlouquecendo :v Porquê? Porque eu estou demorando muito para responder os comentários do Spirit, e não consegui responder os do Nyah. E tenho muita vergonha disso. Não sei o que fazer. Estou com vergonha de responder depois de tanto tempo :c Enfim, se tiverem uma luz, sei lá, estou precisando. Um abração galera, apesar de todos os problemas, eu amo muito vocês. Obs: Muito obrigado a Milly e a Thainá pelos desenhos da capa! Para o pessoal do Nyah, vou propor uma coisa: (eu li todos os seus maravilhosos comentários) embora não tenha ainda conseguido responder todos. Mas assim, eu vou me focar em não dormir se necessário para responder. Então, a partir de agora, vocês me perdoam e eu vou fazer o impossível para dar a atenção que cada um de vocês merece, por toda essa paciência e dedicação S2 Peço desculpas outra vez. Mas eu não podia deixar vocês sem capítulo, por maior que seja a minha vergonha.

Capítulo 26 — Deuses e montros.

Nico não dormiu bem naquela manhã de sábado. Estava completamente esgotado de ter ficado acordado a noite inteira resolvendo os mais variados problemas. Athos. Will. A filha de Will. Prisma. E sim, Prisma se encaixava em "problemas". O irmão continuava muito ofendido por ter sido atrapalhado no meio de sua declaração para Reyna. Ficou fazendo barulhos de abutre enraivecido de lá do seu quarto, deixando a tarefa de Nico sucumbir ao sono ainda mais difícil.

Mas ele teria a tarde toda, só para tirar um cochilo. E mesmo com o irmão gorjeando pela casa, Nico logo adormeceu. Mas é claro que ele não poderia simplesmente sonhar com um lugar bacana nos Elísios, onde estaria tomando sol enquanto bebia um copo de néctar. Não. Ele tinha que ser carregado para mais um daqueles irritantes sonhos-visões. Não foi surpresa nenhuma quando abriu os olhos e se viu em uma sala escura, onde a única luz era a avermelhada que vinha das janelas. E Nico tinha certeza que estava no mundo inferior. Conhecia muito bem as manhãs mal iluminadas do buraco que fora seu lar nos últimos dez anos.

Alguém pigarreou no canto da sala, fazendo com que Nico desviasse a atenção da janela. Em um trono grande, jogado preguiçosamente, estava Athos, uma perna descansada na guarda do móvel. Vestido em um comprido manto negro que parecia feito de fumaça, com uma capa igual, o garoto até parecia alguns anos mais velho. Mas não havia como confundir aqueles olhos verdes e infantis. Eles sempre estariam cravados em seus dezesseis anos.

Nico não queria ver Athos agora. O garoto era impertinente, problemático e possivelmente não possuía pleno controle de suas faculdades mentais, agora ele sabia. Imortalidade sempre vinha com um fardo. Mas lá estava ele, na sua frente, parecendo calmo como sempre.

– Eu não sei se estou com paciência agora. Você esgotou bastante dela ontem — comentou Nico se aproximando.

Athos sorriu, indicando uma bacia de uvas na mesa ao lado do trono.

– Como fome? — então levantou as sobrancelhas divertido — Ah, sim. Desculpe. Você é só uma aparição.

Então estendeu uma mão e atravessou o garoto, como se Nico fosse feito da fumaça de sua capa.

– Você sabe que me chamou até aqui. Eu estaria tendo um ótimo sonho se não fosse você...

– Você acha que pode me manter longe com aquela magia barata? — perguntou Athos pegando uma uva e jogando-a para cima, pegando-a com a boca.

– Se não manter vou ficar feliz em chutar a sua bunda pela janela do meu apartamento. Espero que tenha desistido daquela... ideia estúpida que me falou.

Athos deu de ombros.

– Não foi por isso que eu lhe chamei aqui.

– Por quê então? — Nico cerrou os pulsos com raiva.

Se Athos não parasse de bobagens e falasse logo o que queria, Nico perderia o pouco controle que a pena o fazia ter. E ia acabar por esfregar sua cara na parede. Athos fez um beicinho.

– Você é tão mau quando está rabugento, docinho. Eu queria lhe fazer um favor.

Athos levantou de seu trono, circundando-o enquanto sorria.

– Sabe o que eu descobri, meu amor? Eu descobri que vou ser eu que vou mudar a sua vida.

– Você é louco — Nico rebateu, mirando o garoto com pena — Insano. E o pior é saber que você era diferente quando eu o conheci.

Athos ignorou-o.

– Sabe, eu descobri o que vai acontecer.

– Ah, claro — Nico bufou — E como você faria isso...

– Ouvindo seu pai — Athos parou a sua frente, se balançando alegre na ponta dos pés, o rosto sorridente a centímetros do seu.

Nico congelou.

– Meu pai?

Athos assentiu.

– Seu pai falou que seu destino está fadado a acabar em tragédia ao lado do filho de Apolo. Glória e Destruição. Enquanto um estiver sequer perto do outro. Mas nós temos escolhas Nico. Nós sempre temos. Profecias são quebradas toda a hora. Afinal, é para isso que ela existem.

Nico não conseguia falar. Se Athos tinha realmente descoberto mais sobre o seu destino, então ele iria ouvi-lo. Afinal, dez anos de sua vida foram perdidos naquele lugar horrível por causa disso. Athos tentou tocar seu rosto com uma das mãos, mas ela atravessou seu rosto. Então o garoto suspirou e voltou a falar.

– Sempre fora do alcance. Porque quando eu finalmente tenho a sua atenção, não posso ter você? — Athos deu de ombros e voltou a sentar-se — Eu fui até Apolo. Como você sabe, o dom dele voltou há tempos. Ele me disse meu futuro. E eu sou o responsável por salvá-lo de... sua horrível sina.

– Athos, o que Apolo disse a você exatamente? — perguntou Nico tremendo. Era como se toda sua alma estivesse gelada.

O garoto fez uma careta como se tentasse lembrar:

– Algo sobre:

"E do filho da escuridão;

Será a salvação;

Mas de acordo com a própria sorte;

Poderás ser também sua própria..."

Mas então Athos calou a boca de repente, parecendo alarmado. Nico se segurou na mesa a seu lado. O rosto de Athos finalmente parecia estar preocupado.

– Bem, algo assim, eu não lembro direito. O que importa é: Eu sou sua salvação! Eu vou tirar você de seu destino horrível! Você vê? Eu sou sua chance de uma vida sem sofrimento! — balbuciou Athos.

Nico não o ouviu. Não o ouviu porque sabia que não era isso.

– Athos... O fim da profecia... é morte?

O sorriso fraco que o garoto conseguira construir ruíra. Então ele assentiu parecendo culpado e assustado.

– Mas isso é idiotice. Eu não mataria você. Eu não faria isso, faria? — perguntou Athos alarmado, como uma criança — Eu não quero fazer mal a você. Eu não posso viver sem você, porque eu faria uma coisa dessas?

Mas pra Nico, as palavras eram até um alívio. Pelo lado ruim, Athos seria sua salvação ou sua ruína. Ele era a chave. Ele que decidiria. Mas por outro, a ruína seria dele. Todos os motivos para que ele se afastasse de Will sumiram no ar. Porque afinal, o garoto não sofreria a raiva de Athos no final. Era ele. O filho da escuridão.

Nico se ajoelhou a sua frente.

– Eu não sei. Não sei se você seria capaz de me machucar. Talvez você seja. Mas fico feliz que sua raiva estará bem direcionada.

Athos se ajoelhou a sua frente, tentando abraça-lo, mas seus braços agarraram o nada.

– Por favor — o garoto falou sem ar, com uma dor real em sua voz — Por favor. Não me faça sofrer. Não mais. Eu não quero machucar você. Eu não quero virar algo que não sou. Eu te amo.

Nico acariciou seu rosto com a ponta dos dedos insubstanciais. Era estranho. Estava acariciando a face de seu assassino em potencial.

– Eu sinto muito. Um monstro, se lembra?

Athos lhe sorriu em meio a um soluço, as sobrancelhas negras contraídas em infelicidade, as lágrimas correndo pelos olhos verdes.

– Você é um anjo. Espero que um dia se convença disso. Eu vou salvar você Nico. Eu juro que vou.

E então Nico acordou suando em sua cama. Prisma estava passando a vassoura no quarto, os cabelos compridos presos em um rabo de cavalo.

– E aí, o que vamos almoçar? Posso pedir uma pizza.

☀☠♛☀☠♛☀☠♛☀☠♛

Nico não estava com fome, de forma que o irmão acabou por comer os restos na geladeira. Prisma nunca fora muito exigente com comida. Aliás, o garoto nunca fora muito exigente com nada. Mas logo depois de comer três pratos gigantes de sobras da semana, Prisma se pendurou de cabeça para baixo dentro do armário e passou a dormir.

A falta de companhia o deixou com um espaço vazio para repassar a conversa com Athos. Mas a coisa toda lhe dava tanta dor de cabeça que Nico sentiu necessidade de sair, nem que fosse só para dar uma volta. Estava recém saindo da porta do saguão de entrada para a rua quando alguém o chamou de volta.

– Ei, você! Rei da destruição, catástrofe, sangue e morte!

Nico se virou, embora pudesse reconhecer aquela voz e aquele tom em qualquer lugar.

– Leo. Esse título está bem longo.

Leo correu até ele sorrindo, e apertou sua mão.

– Eu sei, tenho alguns outros, mas Jason me disse que não usasse na sua frente. Minha cara linda está bem em cima dos meus ombros, e não rolando no Estige.

– Jason é sempre bem esperto — Nico se permitiu sorrir de canto.

– É. Mas você parecia gostar de "Vampiro do Campanário", então eu senti a necessidade de trocar. Ainda vou arranjar a mistura perfeita que te irrite mas mantenha a minha cabeça no lugar.

– Continue tentando. Como vai a Calipso e o Juan? — Nico lhe perguntou educadamente.

Na semana que se passara, Nico conhecera os filhos de Leo e Percy. Juan era muito parecido com o pai na personalidade. Era meio atrapalhado, expansivo e extrovertido. Mas em aparência era absolutamente igual a Calipso. O garoto herdara tamanha beleza que podia fácil ganhar um emprego de carteira assinada nesses folhetos de modelos de roupa infantil. Já a filhinha de Percy parecia não ter puxado nada da mãe. Tanto sua aparência quanto seu jeito eram Percy em escrito. A garota era completamente simpática, feliz e hiperativa. Perguntara a Nico cinco vezes se ele não tinha balas quando o conhecera.

Leo trocou uma caixa de ferramentas que levava de mão.

– Ah, eles estão bem. Juan sempre está bem no sábado. Não tem escola. Aliás, estivemos procurando por você.

– Estavam? — Nico se surpreendeu.

– Sim, desde ontem de noite, mas não achamos você em lugar nenhum. Seu irmão disse que você tinha saído no telefone, quando ligamos para a sua casa — comentou Leo com um sorriso malicioso.

– Ah — Nico corou um pouco — Eu estava resolvendo uns problemas.

– Claro — Leo se encostou na parede, ainda sorrindo — Bem, já que é a sua primeira semana aqui, estávamos procurando você para informar as regras da casa.

– Do que você está falando? — perguntou Nico confuso.

– Todo sábado ou domingo, na verdade depende do dia que escolhemos, temos churrasco na casa de alguém. Hoje é na casa do Percy. Uma pena que não é na minha casa, eu estou com uma coleção de armas lá na garagem que você ia adorar. Mas enfim, bora lá — concluiu Leo colocando uma mão em suas costas e o guiando para que atravessasse a rua.

– Ei, ei! — Nico se esquivou — Não dá! Eu não quero atrapalhar, já vai ter bastante gente lá! E o Prisma! Ele não pode ir, o sol!

Leo revirou os olhos.

– Seu irmão vai ficar bem sem a sua presença por algumas horas. Eu vou inventar algo para que ele possa vir da próxima, mas estamos em cima da hora. Agora, Hazel e Frank já nos deram o toco porque ela está se sentindo enjoada e não pode ver comida na frente dela. Você vai. E isso não é uma pergunta.

– Eu realmente não queria deixar Prisma sozinho — Nico resmungou.

– Ei Leo — Calipso atravessou a rua, trajando um vestido azul bebê, seus elegantes cabelos em um coque no alto da cabeça — Você estava demorando um monte! Percy perguntou se você desistiu de concertar o ar-condicionado.

E então a garota se virou para Nico, beijando-lhe uma face.

– Bom dia, Nico.

– Bom dia, Calipso — Nico lhe cumprimentou.

Leo acariciou o braço da esposa inconscientemente.

– Ei, docinho, ainda temos aquela roupa de inverno com luvas a prova de fogo e aquele protetor solar fator 30.000?

– Deve estar na garagem, porquê? — perguntou a mulher surpresa.

Leo colocou a caixa de ferramentas nos braços da esposa e apontou para Nico.

– Vá buscar seu irmão, vou fazer uma experiência que tem muitas chances de dar errado.

☀☠♛☀☠♛☀☠♛☀☠♛

– Você tem certeza disso? — perguntou Prisma nervoso.

– Claro que não. Onde está seu espírito de aventura? — perguntou Leo.

Mas o espírito de aventura de Prisma devia estar bem longe depois de quase ter virado pó dourado no sol. O irmão estava vestido com roupas de couro dos pés a cabeça. Suas mãos estavam cobertas por luvas negras do mesmo material, sendo que a única parte descoberta de sua pele era seu rosto, encoberto pela espessa cabeleira negra e escorrida, onde Leo o cobria de protetor solar à prova de fogo.

Provavelmente ele tinha esse tipo de coisa em casa devido a habilidade de virar uma tocha humana, mas porque ele precisava de protetor solar à prova de fogo sendo que ele não podia se queimar era algo bem suspeito.

– Me diz uma coisa, porque você tem um protetor solar à prova de fogo se você não se queima? É algum tipo de fantasia estranha que você teve?

Calipso corou um pouco, encostada no balcão da cozinha.

– Não — comentou Leo como se Nico estivesse lhe perguntando as horas, enquanto espalhava o creme na cara de Prisma, erguendo-lhe os cabelos. Uma coisa que diferenciava Prisma do irmão era o quanto suportava que as pessoas chegassem perto dele — Juan herdou alguns dons. Mas diferente de mim, ele não é completamente imune ao fogo. Agora, você tem que concordar que é uma coisa útil. Eu, por exemplo, posso pensar em outra pessoa que precise de um "protetor solar à prova de fogo", se é que me entende.

Nico corou até ficar da cor de um rabanete, mas reconheceu que merecera a resposta.

– Vamos logo com isso — resmungou ele irritado.

– Bem, vamos lá gracinha. Fique na frente da janela — disse Leo limpando as mãos no macacão cheio de sujeira de fuligem e graxa.

Prisma engoliu em seco e fechou os olhos.

– Não se preocupe, o Hospital fica bem perto — Leo crispou os lábios — Mas sabe, vamos precisar de um óculos de sol se você quiser abrir os olhos. Nico?

Nico foi até o quarto e resgatou um par de óculos escuros Ray-Ban da mochila, e então os enfiou na mão do irmão, Prisma os colocou, e então assentiu.

– Pode abrir.

Calipso abriu a janela.

E nada. Nada aconteceu. Sem gritos de dor, sem poeira dourada. Prisma pareceu tremer um pouco, dando uma risada de alívio e felicidade.

– Ha! — ele enfiou a cabeça pela janela — Eu estou vendo! O sol! Eu estou sentindo o calor no meu rosto! Eu estou vivo, Nico!

E Nico sabia que ele não se referia a ter sobrevivido à experiência. Deu tapinhas nas costas do irmão.

– Sim, eu sei. Está parecendo um cego com esses óculos, mas tudo bem. Vamos sair, Prisma.

E então puxou o irmão da janela.

☀☠♛☀☠♛☀☠♛☀☠♛

Prisma parecia ser algum tipo de assassino de aluguel, ou algum psicopata vestido daquela forma. Mas o que dava o toque final era o sorriso maníaco que ele dava enquanto olhava em volta. Nico teve que segurar seu braço e guiá-lo pelas ruas, afim de que ele não fosse atropelado por alguma carroça.

Ao chegarem na porta de Percy, já tinham atraído tantos olhares confusos que Nico agradeceu que Prisma fosse evidentemente seu irmão, porque segurar o braço de um marmanjo pirado já era demais para ele. Percy estava no quintal de sua casa, brincando com a filha, quando o distinto grupo atravessou a rua.

– Eu estava pensando que você tinha realmente ficado insultado com o ar-condicionado, Leo. Você não precisa consertar se não quiser.

Leo ergueu a caixa de ferramentas.

– Ninguém te disse isso docinho. Mas eu encontrei o Nico e o irmão dele. Só que o coitadinho não podia andar no sol, então eu e a Calipso demos um jeito de trazer ele.

Prisma, que nunca havia visto Percy, sorriu calmante, os olhos invisíveis atrás dos óculos.

– Oi.

E então, alguma coisa pareceu finalmente trazer o cérebro lerdo de Percy para o presente.

– Ei. Espera aí. Como ele pode ser seu irmão se na profecia dos...

Mas Zoe cortou seu raciocínio lerdo quando se agarrou nas roupas de Nico.

– Tio Nico! — a garota pulou, puxando-lhe a barra da calça — Oi! Oi!

Nico acariciou seus cabelos.

– Ei, como é que você vai?

– Bem! — ela lhe sorriu — Eu tenho novidades! Juan trouxe um saco de balas! Podemos dar algumas para o senhor, assim o senhor vai ter quando eu pedir!

E então correu para dentro de casa chamando pelo primo. Percy sorriu, obviamente esquecendo do que ia dizer.

– Vamos entrando!

Mas é claro que Nico entendia o que Percy pensara. Prisma era mais velho que Nico. Porque os deuses não tentaram usá-lo quando Cronos estava procurando por um filho dos três grandes? A resposta era simples: Prisma não era um semideus. Mas se o irmão ainda não estava pronto para contar sua natureza, então Nico preferia que os outros não descobrissem. Ele mesmo sabia o que era ter segredos da qual se envergonhava expostos para que todos julgassem.

Jason e Piper estavam na cozinha jogando cartas com Annabeth na mesa de jantar. Reyna se encontrava no balcão, cortando tomates, e os filhos de Percy e Leo não estavam em nenhum lugar à vista. Jason sorriu ao vê-los.

– Você achou o Nico!

– E de quebra ainda consegui trazer o irmão dele! — Leo sorriu orgulhoso.

Annabeth abriu a boca para falar algo, mas o ar que reunira saiu em um susto quando Reyna deixou uma tigela cair no chão e se quebrar. Prisma se adiantou para ela.

– Ah, não. Você se cortou?

Reyna recuou um pouco quando Prisma se aproximou.

– N-Não! Eu estou perfeitamente bem!

Prisma se ajoelhou e começou a juntar os cacos aos seus pés.

– Tudo bem, eu ajudo. Saia daqui, assim eu posso...

– Prisma, é dia! O seu rosto! — ela apontou para o garoto confusa.

– Eu estou bem, Leo me emprestou um protetor solar bem eficiente. De qualquer forma, ainda tenho que usar isso — ele apontou um pouco infeliz para os óculos escuros e para as luvas de couro pretas que cobriam-lhe as mãos.

Nico desviou os olhos da cena.

– E aí Annabeth, de boa?

– Tudo bem — a garota sorriu, prendendo o cabelo loiro em um rabo de cavalo — Que bom que você pode vir, e deuses, seu irmão também. O coitado deve passar um mal bocado por causa dessa condição.

– Onde você estava? — perguntou Jason sorrindo um pouco — Procuramos você por tudo! Três horas da manhã e você não estava em casa!

– É — comentou Percy sentando-se ao lado de Jason — Estávamos começando a ligar até para os McDonalds mais próximos.

– Garotos, não sejam impertinentes! — Piper bufou — Eu aposto vinte.

– Desisto — Jason jogou as cartas na mesa.

– Eu também — Annaberth jogou as suas — Não vou dar FullHouse por nada, minhas cartas nem sou boas.

– Passem as fichas — Piper sorriu deliciada.

– Deixe eu ver o que você tinha — Jason puxou as cartas de sua mãos, e então levantou as sobrancelhas — Nada? Você não tinha nada? Você blefou apostando vinte?

– Eu não jogo mais com a Piper, ela está roubando! — Annabeth jogou uma ficha na garota.

– Como eu poderia roubar? — Piper fingiu estar confusa.

– Você usou o charme para nos fazer desistir — Jason revirou os olhos — Quer jogar pôquer Nico?

– Ah, não — o sorriso de Piper caiu.

– Ha — Jason sorriu.

– Que foi? — perguntou Percy confuso.

– O charme não pega no Nico. Ela ia jogar com um oponente válido.

– Não pega? — Percy se surpreendeu — Porquê?

– Não sei, sei? — Nico deu de ombros.

– Não pode ser porquê... — Percy semicerrou os olhos.

– Porquê não? — perguntou Jason.

– Porque o charme funciona na Annabeth.

Annabeth ergueu os olhos e mandou beijinhos para Piper. Então todos caíram na gargalhada. Leo voltou do que parecia ser o banheiro.

– Qual o motivo do riso se eu não estou aqui?

– Nada, onde está a Calipso? — perguntou Piper ainda rindo.

– Está tentando limpar uma sujeira qualquer na cara do Juan — comentou Leo sentando-se a mesa — Pôquer? Eu quero jogar.

Então a campainha tocou, e Annabeth e Piper de repente pareceram muito interessadas em juntar as cartas da mesa e embaralhá-las. Percy deu uma corridinha até a porta e a abriu com um sorriso.

– E aí cara, estava achando que você tinha furado.

– Você sabe que a Sunny ia me infernizar o resto da vida se ela não pudesse brincar com a Zoe e o Juan no fim de semana — comentou Will entrando com Sunny no colo — E além do mais...

Então seus olhos se fixaram em Nico e ele calou-se. Nico não pôde evitar em sentir uma repentina dor de barriga. Era estúpido, mas todo seu ser gritava e cantava: "Will está aqui, Will está aqui!". Will apontou para Nico boquiaberto.

– O que ele está fazen...

Mas a pergunta não se completou, pois Sunny pulou do colo dele, correndo até Nico.

– Tio Nico! — ela gritou, erguendo os braços para ele. Nico a pegou no colo, e Sunny chapou-lhe um beijo no rosto — Que bom ver você!

– É bom ver você também, baixinha — Nico a ajeito em seu colo, e então lhe deu um beijo na bochecha — Passou a sua febre?

– Sim, passou! — ela pegou sua mão e a colocou em sua testa. Nico tirou seus cabelos loirinhos do rosto.

– Você tem uma borrachinha de cabelo? — perguntou Nico distraído.

E então reparou que tanto Will quanto Percy lhe miravam boquiabertos. Já Jason parecia ter acabado de ler uma boa cena de um livro interessante em um espaço público, e tentava esconder o sorriso embaralhando vinte vezes as mesmas cinco cartas que tinha na mão.

Percy olhou para Annabeth, que também sorria discretamente.

– Hã... Onde estão as borrachinhas de cabelo, meu amor?

Annabeth se inclinou para trás e apontou para a cozinha.

– Deve ter algumas no balcão, dê uma olhada.

Nico prendeu os cabelos curtos e rebeldes da garota com maestria, uma vez que o próprio tinha que saber como prender seus cabelos compridos. Sunny o agradeceu, e então pulou do seu colo para ir se juntar a Zoe e Juan. Will lhe lançou um olhar meio impressionado.

– Obrigada. Não sou muito bom com isso. Nunca tive cabelos muito compridos.

– Disponha — respondeu Nico meio sem jeito.

O almoço em si correu bem. Todos riam e se divertiam, e após algum tempo, Will pareceu esquecer do incômodo que era sua presença, pois começou a puxar assunto com Jason, e nem parecia se importar quando Nico entrava no assunto. De vez em quando ele até mesmo falava com ele. Com um susto, Nico reparou que Will até mesmo chegara a encostar nele, uma hora.

– E sempre nos piores lugares! — riu Jason, que contava um episódio em que ele e Piper foram atacados por monstros em pleno jantar de aniversário de casamento — Mas era de se esperar. Acho que nunca tivemos um aniversário de casamento normal.

– Eu sei como é — Will riu, e então colocou uma mão no ombro de Nico, fazendo o garoto quase saltar da cadeira com o contato — Uma vez eu e Nico tínhamos ido naquele cinema, lembra? E no meio do filme aparece uma esfinge na sala de cinema. Todo mundo correu, gritando que um cachorro raivoso tinha invadido a sala, mas Nico acabou com ela, não foi? Ele sempre consegue.

E então mirou Nico com um sorriso, provavelmente esperando uma resposta. Mas na verdade, Nico não tinha uma. Na verdade, aquilo o tinha magoado. Como ele podia falar da época em que estavam juntos com tanto desprendimento? Dava a entender que ele julgava uma coisa tola de criança. Que não era tão importante.

Então Nico fez menção de se levantar, mas Prisma se esticou por cima da mesa e puxou a barra de seu casaco. Então ambos irmãos se encararam mortalmente. O silêncio que se instalou era tal que as crianças que brincavam na sala pararam para olhar.

– Me solte. Eu quero ir embora.

– Nico, fique! — Prisma lhe pediu com a voz calma — Olha, eu sei que você fica irritado facilmente, mas...

– Nós nem deveríamos estar aqui — Nico tentou desgrudar os dedos do irmão do casaco sob o olhar dos outros.

– Ah, espera aí — Will levantou a voz com uma careta de raiva se formando — Esses são os seus amigos! Qual é o problema? O que foi que eu disse, heim?

Nico olhou para Will, fuzilando-o com os olhos.

– Pra início de conversa, foi você mesmo quem disse que o meu lugar não era aqui e que eu devia voltar para o inferno!

– Eu... — Will pareceu corar de raiva, desconcertado. Jason observava a cena boquiaberto — Eu mudei de ideia.

– Você é bipolar Will, só pode — Nico deu um tapa na mão do irmão, que ainda segurava seu casaco — E ainda me pergunta o que falou de errado. Eu não suporto isso!

Então Will deu um puxão em seu casaco, fazendo-o cair sentado na cadeira outra vez.

– Ah, por favor! Você é que é o bipolar aqui! Estávamos todos rindo e conversando, na boa! E de repente, por nada, você quer ir embora! O que é que você não suporta?

– Eu não suporto que você me trate como alguém que você conheceu! — Nico cuspiu as palavras — Como se eu não tivesse nenhum valor. Como se o que nós vivemos fosse estupidez.

Will pareceu não ter como responder, por mais indignado que estivesse. Por duas vezes ele fez um barulho estranho, como se fosse falar mas as palavras não saíssem. Então Calipso se levantou.

– Ei, Leo, querido, porque você não me ajuda a pegar aquele jogo legal na garagem do tio Percy? — perguntou Calipso sorrindo precariamente e apontando para a sala, onde as crianças pareciam quietas como nunca.

– Mas eu estou ouvindo a bri...

Calipso lhe aplicou uma boa cotovelada, fazendo com que Leo bufasse e se levantasse.

– Vamos crianças, vamos brincar com o tio Leo.

Logo que ouviram a porta bater, Annabeth suspirou.

– Okay. Eu sabia que uma hora isso ia acontecer. Vamos lá. Vamos lavar a roupa suja.

– Eu nunca disse que você não é importante pra mim! Eu nunca tratei a nossa história como se fosse nada, porque caso você não se lembre, foi você quem fez isso! — Will praticamente gritou.

Percy corou.

– Nós éramos jovens Will. Nico obviamente está arrependido.

– E o que você quer que eu faça? — Will berrou escandalizado — Nossa, meus parabéns! Eu te perdoo! O que mais você quer de mim? Pare de me tratar como se eu estivesse sendo cruel com você!

– Eu quero que você para de me evitar! De me tratar como se eu fosse um estranho, porque eu sei muito bem que você fica na defensiva quando eu estou perto! Percy está certo, eu me arrependi a cada minuto desses dez anos! — Nico socou a mesa com raiva — Sem ofensas Percy.

– Tudo bem — Percy dispensou as desculpas com a mão.

– E bem, eu nunca tive a oportunidade de pedir desculpas para você, Annabeth — Nico olhou para ele de esguelha.

A garota suspirou.

– Quer saber? No início eu poderia arrancar cada fio dessa sua cabeleira preta. Mas depois... Eu pensei bem. Percy já ficou com a Calipso, Leo era afim da Hazel, Jason e Percy, bem... E Reyna já foi afim dos dois... — Reyna pareceu virar um tomate humano — E até eu não fui completamente fiel... Quer saber, é a nossa natureza. Como a dos nossos pais.

Nico assentiu, envergonhado.

– O que importa é que todos amamos uns aos outros — Jason sorriu.

– Porque é que todo mundo era afim do Percy? — perguntou Prisma curioso, mas corou quando todos olharam para ele — Esqueçam.

– Não peça para ele explicar, ou vamos ter mais problemas conjugais aqui — Piper suspirou.

– Isso não está levando a lugar algum — Reyna disse pegando as cartas de cima do balcão e embaralhando-as — Vamos deixar o Will e o Nico conversarem.

– Bem — Nico rodou o anel de caveira no dedo — Eu só queria que... Ah. Esqueça. Acho que eu explodi. Eu ando com muita coisa na cabeça.

– Ótimo — Will desviou o rosto, parecendo chateado — Porque eu não posso fazer mais nada por você. Eu o perdoo. Mas não posso fazer mais nada por você. E... E eu não quero que você ou Prisma vão embora. Vocês podem ficar pra sempre se quiserem. Vou assinar a sua carteira no hospital.

Então Will levantou de sua cadeira e ofereceu a mão direita a Nico, que a encarou confuso.

– Podemos ser amigos outra vez, se você quiser.

Nico se levantou também, mas não apertou sua mão. O puxou para um abraço. Will de início pareceu sem reação. Depois acariciou seus cabelos com uma mão.

– Obrigado — Nico falou, a voz abafada — Obrigado. É mais do que eu mereço.

Will seu um tapinha em suas costas.

– Está tudo bem Nico. Passou. Tudo passou, agora.