Soul Angel
27 De mal a pior
Notas iniciais

Capítulo 27 — De mal a pior.
Eles ficaram na casa de Percy e Annabeth até tarde da noite conversando. Nico sentia muita falta dos amigos. Os dez anos que perdera da vida deles pareciam nunca poder ser explicados nos inúmeros detalhes que o garoto ia descobrindo sobre suas histórias durante as animadas conversas. Não havia tanto a falar de si mesmo (Nico preferia evitar contar sobre ter ficado com inúmeras pessoas em todo esse tempo), de forma que ele deixava que Prisma contasse a parte de suas vidas que partilharam. A melhor parte desse tempo, afinal, fora o que passara com o irmão. E ele era bem melhor em contar uma boa história entusiasmada do que ele. Por mais calmo e delicado que fosse, ele com certeza era mais simpático e divertido.
Eram três da manhã quando Will se espreguiçou no sofá, após Jason terminar uma história de como ele mesmo conseguira ficar preso em um banco com um mantícore ao tentar sacar dinheiro.
– Bem, acho que está na minha hora — bocejou ele esfregando os olhos.
– Tão cedo? — perguntou Percy com a boca cheia de comida, sentado no tapete com um prato de batatas fritas e resto de churrasco.
– Sim — Will levantou-se, pegando o casaco na guarda do sofá — Annie está dormindo no sofá, já.
– É verdade — Percy riu, cutucando a esposa deitada no sofá acima dele.
– Hã? O quê é? — a garota resmungou empurrando a cabeça de Percy.
– Will está saindo, querida.
Nico olhou para cima. Com certeza teria que entregar a pequena criança que dormia em seus braços agora. Ele não entendia bem o porquê parecia que lhe partiria o coração ter que deixar Will levá-la embora uma vez que ela dormira em seu colo. Mas mesmo assim levantou e estendeu a garota para ele, contrafeito.
Will retirou-a com cuidado de seus braços, e então lhe olhou nos olhos. Nico sustentou aquele olhar. Eram os olhos mais azuis que ele já tinha visto. A íris negra era mínima diante de todo aquele azul. Devia ser algo herdado de Apolo. Will sempre dizia que herdara os dons mais inúteis de Apolo. Nico não podia concordar com ele.
Jason comentou distraído:
– Quer companhia até em casa Will? Eu e Piper podemos deixar vocês por lá.
– Não precisa, Jason. Eu... Eu tenho que conversar com o Nico.
Por um momento, todos se calaram. Então Leo soltou:
– Bem, Prisma, que tal você ir dormir lá em casa? Quer que eu fique com a Sunny, Will? Ela adora o Juan e...
Will corou visivelmente.
– Não seja idiota. Não é o que você está pensando Leo.
– Então tá né — Leo ergueu as mãos como se rendesse.
– Mas fica o convite — Calipso piscou para Nico com um sorriso divertido. Talvez tivesse absorvido um pouco da personalidade de Leo depois de tanto tempo juntos.
Will pareceu querer atirar uma coisa na garota, mas se contentou em dirigir sua raiva para Percy:
– Você vai abrir a porta?
– Ei, o que eu faço? — perguntou Prisma confuso.
Reyna levantou-se e deu um tapinha em suas costas.
– Eu vou com você mais atrás, assim eles podem conversar.
Prisma deu um sorriso enorme.
– Sério?
Reyna lhe deu um sorriso digno de uma pessoa que vê o bichinho de estimação fazer algo relativamente fofo.
– Sim. Sério. Você é sempre tão perdido, garoto.
Prisma sorriu ainda mais, mostrando todos os dentes brancos.
Percy levantou e abriu a porta.
– Tchau pra todos — Will acenou rapidamente, e então voltou-se para Nico — Você vem?
Nico assentiu e então acenou para os amigos.
– Obrigado por tudo.
– Por nada — Annabeth falou, arrotando de leve — Eita.
Piper começou a rir quando Percy fechou a porta à suas costas, e então Nico começou a andar ao lado de Will, que levava Sunny nos braços. Reyna e Prisma andavam mais atrás, conversando. Nico pigarreou.
– Bem...?
Will suspirou:
– Nada. Só queria companhia pra voltar pra casa.
Nico se surpreendeu. Algo se ascendeu em seu peito. Talvez fosse felicidade. Mas fazia algum tempo que ele a sentira, para que tivesse certeza.
– Jason se ofereceu para voltar com você.
– É, mas ele e Piper ficam de mãos dadas e se beijando — Will colocou a língua pra fora e fez careta — Eles são muito legais comigo, mas de vez em quando cansa. Mesmo Piper sendo minha melhor amiga e...
– Quê? — Nico riu — Piper é sua melhor amiga?
– Sim — Will sorriu de leve ao ouvir sua risada — Eu acho que você ainda não reparou, mas ela trabalha no hospital também.
– Jura? — perguntou Nico surpreso. Tentou lembrar de Piper em algum corredor, mas nenhuma lembrança lhe veio.
– Sim — Will assentiu — Ela é das recepção lá em baixo, então você não saberia. Ela liga direto pra mim quando quer alguma coisa.
– E quando foi que ela virou sua melhor amiga?
Will não respondeu rapidamente. Pareceu fixar com o olhar nas casas de pedra iluminadas pelos postes nas ruas. Estavam todas cobertas com neva branca, embora no momento, não nevasse. O Acampamento Júpiter era muito bonito à noite. Todas as padarias, lojas e casas tinham suas luzes apagadas, os semideuses e legados todos dentro do conforto de suas casas. Silencioso.
– Eu me aproximei de Jason e Piper quando eles vieram pra cá. Eles vieram para que ficássemos todos juntos, assim poderíamos procurar por você. De início, Jason não me deixava em paz. Ele queria me ajudar, queria falar sobre você e tudo — Will revirou os olhos — Mas eu não queria falar sobre você. Ele era o seu melhor amigo. Não meu. Eu sabia o que ele queria. Queria me convencer a perdoar você.
– Mas você me perdoou, não perdoou? — perguntou Nico esfregando as mãos para aquecê-las, enquanto mirava o rosto de Will, a procura de algum sentimento que não estivesse em suas palavras.
Mas Will lhe mirou calma e pacificamente:
– Sim, eu perdoei, Nico — então voltou a olhar para frente — Mas então uma hora, Jason desistiu de tentar fazer com que eu me abrisse e falasse com ele. Mas éramos amigos, claro. Eu me senti sozinho. E Piper começou a conversar comigo quando íamos juntos atrás de você. Ela é muito compreensiva. É boa para ouvir. Acabamos virando melhores amigos.
Nico levantou as sobrancelhas.
– É, acho que filhos de Apolo e Afrodite tem muito em comum.
– Está me chamando de fútil? — perguntou Will semicerrando os olhos.
– Você está pondo palavras na minha boca — Nico rebateu — Sua autocrítica me surpreende.
Will bufou:
– O que mais tem de parecido entre Apolo e Afrodite, queridinho?
– Simpatia, amizade e talvez uma estranha necessidade de falar sobre sentimentos — comentou Nico sem olhar para Will — Capitão.
E então Nico ouviu sua risada.
– Você não toma jeito.
– Não — Nico sorriu.
Então ambos andaram em silêncio por uns minutos, Will arrumando o capuz de Sunny sobre seus cabelos. Nico resolveu falar algo quando ouviu as risadas de Prisma e Reyna conversando mais atrás.
– Tem tanto da vida de vocês que eu perdi.
– Sim — Will mirou a filha com um olhar um pouco bobo — Devia ter visto quando ela nasceu. Eu estava tão perdido. Leo e Calipso me ensinaram a trocar as fraldas.
– Você deve ter ficado bem orgulhoso quando tirou sem diploma — Nico comentou.
– Sim — respondeu Will virando o rosto para encará-lo — Foi uma conquista. Meio va... Bem, nada. Foi legal. Mas e você? O que você fez da sua vida?
– Nada — mentiu Nico.
Will revirou os olhos.
– Ah, qual é? Nada? Embaixador das trevas, talvez? Nenhum posto? Nenhum reino no inferno foi conquistado? Nenhuma dessas coisas de mundo inferior?
Nico sorriu um pouquinho para ele:
– O que foi que você me mandou fazer no dia em que nos conhecemos? Eu digo, no dia em que realmente tivemos uma conversa que não foi apenas um "oi".
– Na batalha contra Gaia — falou Will prontamente — Na operação para sabotar os onagros.
– Sim — confirmou Nico — O que foi que você me mandou fazer?
Will respondeu confuso:
– Eu mandei que você não fizesse nada daquelas coisas de mundo inferior.
Nico assentiu.
– Eu obedeci. Nada de coisas de mundo inferior, doutor. Eu sigo minhas ordens médicas.
O silêncio reinou. Nico sabia que talvez tivesse tocado algum sentimento de Will. Não sabia se era a raiva, o remorso ou a pena. Mas decididamente não esperava ter visto o que viu quando olhou para Will novamente. Lágrimas cristalinas manchavam seu rosto, caindo por suas bochechas, embora seu rosto permanecesse sério e sem emoção.
– Mas com certeza você deve ter feito algo — Will limpou as lágrimas, o rosto parecendo meio revoltado — O que tem lá em baixo esperando por você? Uma família? Alguém?
Por um momento Nico refletiu se Will de alguma forma soubera de sua vida pouco ética no mundo inferior. Mas não havia como saber. E ele não iria contar.
– Não. Eu não sou de fazer laços. Meu pai e Perséfone esperam por mim. O resto da minha família está morta — respondeu Nico calmamente — Mas e você? Tem alguém esperando por você em algum lugar?
Will deu de ombros.
– Não, acho que não.
– Quer dizer que você está na seca por dez anos? — instigou Nico.
O garoto sabia como arrancar informações de Will. Era só deixá-lo com raiva o suficiente. E ele estava certo. Will pareceu ficar vermelho e indignado.
– Claro que não! Como tenho certeza que você também não! — retrucou ele.
– Quer falar sobre isso? — perguntou Nico com cuidado.
Will suspirou outra vez.
– Você sabe muito bem que eu nunca dei certo com relacionamentos.
– Eu também não sou nenhum príncipe encantado. Continue.
Will abraçou Sunny um pouco mais forte. Os únicos sons além de suas respirações eram as vozes de Reyna e Prisma logo atrás. Então Will começou a falar:
– Eu namorei com algumas pessoas. Mas só fiquei com uma por um tempo considerável. Nem importa, ela me deixou — respondeu ele em voz baixa.
– Você estava com uma mulher? — perguntou Nico numa voz um pouco impressionada e indignada.
De alguma forma, saber que Will estava com outra pessoas parecia ser um tapa na cara. O ciúme lhe invadiu, tão forte que se o loiro não estivesse com a filha nos braços, Nico sentiu que poderia partir para cima dele outra vez. Mesmo não tendo a mínima moral para isso.
– Sim — sorriu Will se divertindo — Está com ciúmes, di Angelo?
– Nem um pouco — respondeu Nico com raiva — Duvido que ela te c...
– Ei! — Will colocou uma mão sobre os ouvidos de Sunny, censurando-o com os olhos.
Nico dispensou sua preocupação com a mão.
– Ela está dormindo! Enfim. Como eu.
– Isso não é da sua conta — respondeu Will entredentes.
Por mais um minuto, eles andaram em silêncio. Estavam quase no apartamento. Dava para ver no final da rua os limites do Acampamento Júpiter, as árvores assoviando, sinistras, como se alguém os observasse ao longe.
– E porquê vocês se separaram? — pergunto Nico encarando um ponto fixo entre elas.
– Ela disse que eu não prestava atenção o suficiente nela — comentou Will — Nico?
Nico estacou no chão. A sombra entre as árvores se mexera. Havia alguém ali.
– Nico? Aonde você vai? — chamou Will, quando Nico começou a andar até a linha das árvores — Nico, o apartamento é aqui!
Mas Nico tinha ter certeza que seu temor era real. Chegou até a linha da floresta, e começou a encarar os olhos luminosos do estranho entre as árvores.
– Quem está aí?
E então a sombra se moveu, deixando a escuridão. Athos parou a dois passos de Nico, o corpo todo envolto por uma capa negra, os cabelos remanescentes no lado direito de sua cabeça agitados pelo vento frio.
– Athos? — perguntou Nico sentindo um calafrio na espinha.
– Nico, quem é esse? — perguntou Will, o medo aparecendo em sua voz.
– Will, fique aí. Ele não pode passar — disse Nico esticando o braço para pará-lo.
Athos estendeu a mão e tocou o ar, como se houvesse um muro invisível entre eles.
– O que você quer? — perguntou Nico encarando seus olhos verdes.
Mas Athos não o olhava, pela primeira vez. Seus olhos estavam cravados em Will, estudando-o. E então recaíram sobre Sunny.
– Eu queria ver. Eu queria olhar nos olhos do homem pela qual você me trocou como se eu fosse nada.
Will pareceu ficar sem palavras, mas um começo de indignação perpassou seu rosto. Reyna e Prisma se aproximaram.
– Está tudo bem, Nico? — perguntou Prisma nervoso.
– Aqui, Prisma, segure a Sunny — Will entregou Sunny a Prisma, que a segurou sem saber muito bem o que fazer. Então se virou para Athos — Escute aqui, quem você é mesmo? E quem você pensa que é pra ficar de tocaia perto da minha casa, heim?
– Você é um mero mortal — falou Athos levantando as sobrancelhas surpreso — O que tem de especial em você? O que têm?
– Você não é bem vindo aqui — falou Reyna com a voz firme, pegando Sunny dos braços de Prisma — Nova Roma é um lugar para semideuses.
Athos mirou Prisma, divertido.
– Jura? Quero que lembre de suas palavras, pretora.
– Athos, vá embora — Nico respondeu, ainda com um braço na frente de Will — Seu lugar não é aqui. Você não vai conseguir atingi-los, você não pode entrar.
– Quem disse que eu quero machuca-los? — perguntou Athos desviando o olhar para ele — Me mate no dia em que eu tentar ferir uma criança inocente.
E então fez menção de tocar o rosto de Sunny, porém seus dedos foram retidos pelo muro invisível.
– Agora, eu não sentiria nem um pouco de remorso em medir meus poderes com um semideus imprestável como esse que você escolheu — comentou Athos, olhando debochado para Will — Onde está sua arma, semideus? Você não parece saber lutar. Você nem ao menos é mais bonito do que eu.
Foi o suficiente. Em um momento muito rápido, muita coisa aconteceu. Will partiu para cima de Athos, dando-lhe um tapa na cara e se engalfinhando com o filho do deus ceifeiro no chão. Mas Athos era um deus. E do chão, uma dezena de cachorros infernais brotaram, um pulando em cima de Will, batendo as mandíbulas.
Nico o transformou em poeira rapidamente, mas haviam muitos.
– Saia de cima de mim! — bradou Athos puxando os cabelos de Will para longe de si.
Mas Will era maior que ele, e estava bem sentado em seu tronco, esfregando seu rosto na terra.
– Quem é o poderoso agora, heim?
Nico olhou em volta desesperado, procurando ajuda. Reyna estava com Sunny nos braços, boquiaberta, e Prisma apavorado, sem nenhuma arma na mão. Se ninguém puxasse Will para dentro da barreira outra vez enquanto Nico ainda conseguia manter os cães afastados, então algum acabaria por destroçá-lo.
– Prisma, me ajude! — implorou Nico, mas no mesmo momento, um dos cão pulou em seu peito, mantendo-o cravado no chão.
Athos acertou um soco no rosto de Will, derrubando-o de lado. O deus começara a levantar. Então o próprio ar pareceu ficar mais gelado, e Nico pode lembrar-se que Prisma era filho de Hades. Seu irmão. A forma do garoto explodiu em fumaça negra, e Nico pode ver ele ganhar a forma completa de uma fúria, deixando completamente a humanidade.
Seu rosto virou um esgar monstruoso de maldade, os dentes do tamanho de facas. Um enorme mostro voador e negro, com asas gigantescas. Prisma era pelo menos duas vezes maior que sua mãe, Alecto. O monstro voou pelos ares, dando um rasante sobre Athos, derrubando-o no chão outra vez. Era o momento.
Nico se esticou, pegando a espada no chão ao seu lado. Então decepou a cabeça do cão infernal que lhe prendia no chão. Se ajoelhou ao lado de Will.
– Você está bem? — perguntou Nico ajudando-o a se levantar.
Will fez que sim, parecendo desorientado pelo soco, e deixou que Nico o ajudasse a atravessar a barreira. Então ambos olharam para Prisma, em uma luta mortal com Athos.
– Precisamos fazer alguma coisa! — gritou Reyna apavorada, segurando Sunny, que acordara, e agora se agarrava assustada a garota.
Então Will levou os dedos aos lábios, e um assovio estridente fez com que todos caíssem de joelhos no chão. Athos soltou um gemido de dor, levando as mãos aos ouvidos. Então Prisma se arrastou até a barreira, a asa dobrada de uma maneira estranha.
Athos lançou um último olhar raivoso a Will, o rosto esfolado, icor dourado jorrando pela terra que sujava seu rosto.
– Lembre-se que foi você que começou — então apontou para Nico — Ele nunca será seu.
Então desapareceu, virando fumaça negra no vento.
Reyna, Nico e Will se entreolharam. Então Prisma começou a estrebuchar, e os três se ajoelharam em volta de sua forma monstruosa. Ele pareceu desmaiar, voltando a sua forma meio-humana, deixando as asas negras saindo de suas costas pálidas, uma visivelmente quebrada.
– Meus deuses — Reyna arquejou — Prisma? O que é isso?
Nico colocou uma mão em suas costas.
– Vamos ter tempo para discutir, mas precisamos levar Prisma para o hospital, Reyna — Nico falou com a voz séria — Não podemos deixar ele nu e ferido no sol nascente. E daqui a pouco, o sol vai começar a despontar.
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– Então, Prisma não é um semideus — falou Reyna, os dentes cerrados e braços cruzados, os dedos apertando a ponte do nariz, tentando recuperar a calma.
Will, Nico e Reyna rodeavam o leito onde novamente, Prisma jazia desacordado. Mal suas queimaduras deixaram a pele, o garoto já estava de volta ao hospital. Estava de bruços, uma das asas recuada como a de um pássaro dormindo, a outra esticada e imobilizada com uma atadura que Will improvisara habilmente. Sunny havia sido deixada com Piper e Jason no caminho.
Era estranho estar ali no turno da noite. Os poucos semideuses que faziam plantão eram completamente desconhecidos. Mas talvez fosse a existência deles que impedisse Reyna de gritar com Nico.
– Sim — confirmou Nico meio envergonhado por ter pedido sua ajuda sem contar toda a verdade.
Reyna assentiu, mordendo o lábio como se quisesse bater no garoto.
– Então o que raios ele é? Um deus?
Nico negou rapidamente com a cabeça. Will parecia estranhamente calado enquanto terminava de passar uma substância verde na asa de Prisma. Ele tinha certeza que Will estava escutando. A asa de Prisma já estava empapada daquela gosma.
– Não, não! — Nico levantou as mãos para acalmá-la — Prisma é uma fúria.
Reyna abriu a boca para falar, então a fechou de novo, parecendo completamente furiosa. Então a abriu outra vez:
– Você trouxe uma das personificação dos males da humanidade para dentro do acampamento? Um... Um... — gaguejou ela com a voz cortante.
Nico ergueu os olhos, toda a vergonha lhe deixando. Reyna estava insinuando que Prisma não era como eles? Que era apenas um monstro?
– Prisma é a personificação do sofrimento, Reyna. Ele não machuca ninguém que não seja a si mesmo, caso você ainda não tenha notado — Nico falou, a voz subindo uma oitava — E caso você não tenha lugar para monstros aqui, pode deixar! Eu vou hoje a noite com ele para o Acampamento Meio-Sangue, nem que eu tenha que carregar ele nas minhas costas, mas eu vou encontrar alguém disposto à curá-lo!
Reyna pareceu ainda mais furiosa.
– Eu não disse nada disso!
– Prisma não pode sair sem tratamento! — reclamou Will, mas ninguém lhe deu atenção.
Nico apontou para Reyna, a raiva lhe subindo à cabeça.
– Mas é o que você está pensando! Você viu no que ele se transforma! Num monstro! O quê foi? As asas dele não fazem o seu tipo? E tudo o que ele fez esse tempo todo foi ir como um cachorrinho atrás de você!
– Eu não disse que ele é um monstro, Nico! — Reyna lhe deu um empurrão, começando a ficar histérica.
Nico avançou os passos que recuara com o empurrão.
– O irmão de Percy é um ciclope, e ele é bem aceito no Acampamento Meio-Sangue! Ninguém tem medo dele por causa do que ele é! Eu tenho muito orgulho de ter ele como irmão! Ele salvou a minha vida e a de Will também! E teria salvo a sua também, se estivesse em perigo. Então não fale dele como se você fosse melhor que o meu irmão! — Nico cuspiu as palavras, e então sentiu que Will colocava uma mão em seu braço.
– Hã... Gente. Vamos parar, ok? — começou ele encabulado.
Reyna berrou a centímetros da cara de Nico, lágrimas contidas nos olhos:
– Você é um idiota, Nico! Um imbecil! Você vem aqui e espere que eu arrisque tudo por você e Prisma mas não me falam nada! Não passou pela cabeça de vocês que se outra pessoa soubesse antes de mim eu teria que me explicar diante de todo o conselho?
– Olhe nos meus olhos e diga que você não tem medo dele! — gritou Nico dando-lhe as costas para sentar-se ao lado do leito do irmão.
Reyna gritou de volta, a voz chorosa cortada de soluços.
– Você não entende nada! Você não sabe o que isso significa! — berrou ela dando um soco em um vaso, derrubando-o no chão com um barulho alto — Ele gosta de mim Nico! E ele não é um semideus! Foi isso que os deuses fizeram comigo! Eu não encontraria amor em nenhum mortal! Porque a única pessoa capaz de me amar... — ela se engasgou nas próprias palavras.
– É um monstro — falou Nico, a voz divertidamente cínica — Eu não sabia desse seu lado. Não sabia que você tinha esse preconceito.
– Eu não tenho nenhum preconceito! — urrou a garota, puxando os cabelos — Não tem nada de errado com ele! Mas...
– Mas não com você — completou Nico — Não ao seu lado. Prisma pode ser um monstro muito simpático. Mas ele não pode ser o monstro simpático que gosta de você. Eu não sei como eu não vi antes Reyna. Não sei mesmo. Estava na cara! Você, a melhor, a mais forte, a mais poderosa. A pretora heroína. Você sempre esperou alguém à sua altura. Foi por isso que se apaixonou por Jason. E foi por isso que se apaixonou por Percy. Deve ser difícil descobrir que o cara que se apaixonou por você é um monstro. Mas eu não tenho pena dele. Eu tenho pena é de você. É só você que está perdendo, subestimando ele desse jeito. Talvez você não mereça ele, mesmo.
Reyna o encarou por um momento, parecendo poder cortar sua cabeça naquele momento. Mas depois saiu, limpando as lágrimas e soluçando pela porta. Will ficou quieto por vários minutos, em que Nico observou o rosto do irmão. Prisma era bonito, mesmo com suas feições andrógenas. Seu rosto era calmo, bondoso e um pouco tristonho. Suas feições eram leves como as de um anjo, os cabelos compridos e sedosos. Seu corpo era perfeito para um humano. Ele era forte e pálido. Então dali de suas costas, brotavam asas iguais as de um morcego, como se ele tivesse mais um enorme par de braços, com membranas entre os longos dedos. Asas negras e fortes como couro. Com a passagem da luz sobre elas, a pele escamosa brilhava em tons perolados de vermelho e roxo. Nico havia se acostumado com elas. Não achava que fossem feias ou nojentas. Nem mesmo tocá-las era nojento, por mais frias e escorregadias que fossem.
Porquê Prisma não podia simplesmente ser feliz? Porquê as pessoas, como ele, não viam que o irmão era até mesmo melhor do que ele? Nico queria muito que Prisma tivesse uma chance. Que nem ele tivera anos atrás. Ele tinha certeza que o irmão não estragaria tudo, como ele fez.
Então Will falou, a voz séria:
– Nico, posso falar com você no meu escritório?
Nico levantou os olhos distraído do rosto do irmão. Will lhe encarava mordendo o lábio, como se fosse culpado de algo.
– Está bem. Ele vai ficar ok?
– Vai sim — confirmou ele mirando Prisma — Eu já o mediquei, creio que em dois dias ele já vai estar pronto para outra. Fiz um ótimo curso sobre curar ossos quebrados.
– Isso são ossos? — perguntou Nico surpreso, olhando para a asas do irmão.
– Óbvio — Will revirou os olhos — O que é que você achou que fosse?
Nico o censurou com os olhos, levantando e se dirigindo até a porta:
– É melhor que você faça valer a pena os minutos de sono que eu estou perdendo.
– Não se preocupe, é do seu interesse — comentou Will fechando a porta atrás deles.
Quando chegaram ao escritório de Will, o garoto sentou-se em sua mesa, puxando um cigarro e o isqueiro da carteira. Ascendeu-o com habilidade, então ofereceu a carteira à Nico.
– Não, obrigado.
Will levantou as sobrancelhas surpreso, então jogou a carteira em cima da escrivaninha.
– Você está recusando cigarros? É alguma vitória para um drogado, sabia?
Nico o mirou surpreso:
– C-como você?
– Eu vejo você quando vou até sua mesa, ali fora na secretária — comentou Will, os olhos azuis fixos nele — Você só fuma quando suas mãos começam a tremer. Claro, suas mãos poderiam tremer por falta de cigarro. Só que você já tinha fumado trinta minutos antes.
– Parece que andou prestando atenção em mim. Enfim, veio aqui pra falar da minha vida pregressa ou o quê?
Will deu de ombros.
– Não, realmente não. Mas eu não sou bobo, sabia. Posso parecer. Mas não sou.
– O que você quer dizer? — perguntou Nico, pegando um troféu aleatório de cima da mesa de Will e brincando de girá-lo nas mãos.
– Eu sabia que Prisma não era humano — falou ele tirando o objeto das mãos de Nico e pondo-o no lugar.
Nico ergueu os olhos para encará-lo.
– Se você sabia, porquê não contou para Reyna? Você estava louco para nos expulsar.
Will enfiou o rosto em uma mão, debruçando-se sobre a mesa.
– Eu soube no momento em que examinei sua pele, e descobri que ele não tinha sangue. Então vi que ele não tinha batimentos cardíacos. E depois que ele não tinha coração.
Nico se surpreendeu. Aquilo era novidade pra ele.
– Prisma não tem coração?
– Não. É o que eu estou tentando entender. E respondendo a sua pergunta anterior — Will suspirou — Eu nunca tive uma intenção real de expulsar os dois, eu só queria que você ficasse com medo e se mantesse longe de mim. Você pode me explicar tudo o que você sabe de Prisma para mim? Assim eu estaria melhor qualificado para curá-lo. Ele é diferente de nós. Por mais que eu concorde com você e pense que Prisma não represente perigo, ele tem a natureza de monstro. Ele não tem sangue. Não de verdade. A pele dele esfarela em dourado quando ferida. Que nem os monstros.
Nico assentiu.
– Sim. Prisma é filho de Alecto. Ele... Ele é assexuado.
– Perdão? — perguntou Will aturdido.
– Isso aí que você ouviu — comentou Nico baixinho. Não gostava de ter que revelar sobre seu irmão — Prisma não é homem nem mulher.
– Sério? — exclamou Will surpreso — Bem, e como ele escondia as asas? Névoa?
– Não — Nico continuou — Prisma herdou os dons de metamorfose da mãe. Pai. Seja lá o que Alecto for. Por isso ele pode ser um homem se quiser. Como pode ser uma mulher. Ou qualquer outra coisa que ele deseje.
– E ele tem seus talentos divinos? — perguntou Will escrevendo anotações em seu caderno.
Nico assentiu, meio sonolento.
– Sim. Ele sabe viajar nas sombras e controlá-las. Mas ele não consegue fazer muito com os mortos, acho que ele não em muito pulso firme com eles.
Will concordou com a cabeça, jogando o caderninho em cima da mesa.
– Sabe, Reyna vai passar por isso. Ela gosta muito do Prisma. Foi um golpe e tanto para ela, mas ela vai se acostumar.
Nico deu de ombros.
– Eu só não quero que o meu irmão sofra. Eu seu o que é ter que viver uma eternidade com o coração partido.
Will suspirou.
– Nico, pare.
– Com o quê? — Nico levantou os olhos para Will.
– Pare de relembrar o que aconteceu. Não vai mudar, está bem? Você pode me fazer sentir mal a cada minuto do dia. Não vai apagar as minhas lembranças — disse Will se levantando — Agora, se você concordar. Vamos esquecer isso. Vamos deixar bem claro. Eu não gosto mais de você desse jeito. Acho que você vai querer seguir em frente também.
O coração de Nico deu uma volta inteira. A primeira coisa que sentiu foi uma grande agulhada em seu coração. Mas depois, veio a raiva. A incredulidade. Ele sabia, de algum modo, que Will estava mentindo para ele. E ele iria provar para ele. Levantou-se, mas não saiu dali. Deu a volta na mesa, até ficar bem perto dele. Will pareceu ficar nervoso, recuando até bater na gaveta aberta e quase cair.
– Você está querendo dizer que não sente mais nada por mim, Will Solace?
A respiração de Will falhou.
– Hã? Eu.. Sim. Sim! Isso mesmo.
Nico riu.
– Você não consegue mentir nem ao menos pra si mesmo. Você nunca conseguiu. Eu vou provar para você que ainda gosta de mim.
Então rapidamente, para que o garoto não tivesse chance de pensar muito naquilo, Nico lhe agarrou os cabelos loiros com uma mão, puxando-o para ele. Em segundos, já estava com a boca de Will na sua. E era exatamente o gosto que ele lembrava.
Só então Nico sentiu que tinha algo quebrado em seu peito. Ele percebeu no momento em que sentiu se concertar. Percebeu também todo o amor que tinha por aquele garoto, refreado. Agora, fazia seu coração saltar a cada segundo.
E Will não o empurrou, não reclamou. Ele retribuiu. E retribuiu com desespero, como se esperasse por aquilo tanto quanto Nico havia esperado. E Nico podia sentir tudo o que ele sentia, só de ouvir o arquejo de sua respiração e a batida de seu coração. Podia sentir o nervosismo, o desespero, a mágoa. E podia sentir a saudade. Uma enorme e imensurável saudade.
As mãos de Will se agarraram nas barras de seu casaco, a boca arquejando quando liberta dos lábios de Nico, que passaram a seu pescoço. E ele teve certeza que nenhuma tempestade poderia jamais apagar o fogo que queimava em seu desejo por Will. E também teve certeza que era recíproco. Nico o ergueu, sentando-o na escrivaninha. Will abraçou seu pescoço, os dedos enlaçando seu cabelos. Suspirou em seu ouvido, a voz cheia de dor:
– Nico. Nico.
Então a porta se abriu, e ambos se separaram. Piper estava boquiaberta ali, os papéis todos caídos no chão. Então gritou com a voz toda estrangulado:
– DESCULPEM, POR FAVOR, CONTINUEM!
Então fechou a porta com um estrondo.
Nico tirou as mãos da cintura de Will, procurando seu olhar, mas Will olhava para baixo, como se estivesse envergonhado. Afastou Nico com um braço, então pulou de cima da escrivaninha, virando as costas para ele.
– Desculpe — falou Will em voz baixa.
– Eu... eu... Não se desculpe — Nico gaguejou, sem saber bem o que fazer.
– Isso... Isso foi um erro Nico. Você não devia ter feito isso. Eu não devia ter retribuído. Eu estava carente, feliz por ver você de volta... — Will gaguejou também, como se estivesse tentando afirmar para si mesmo.
– Não, Will! — Nico segurou seu braço — Eu sei que você ainda sente algo por mim! Eu sei disso! O que eu preciso fazer pra você me perdoar?
– Eu... — Will começou, ainda sem olhá-lo nos olhos.
– Eu nunca, em nenhum minuto, deixei de te amar Will.
Então Will levantou os olhos até os seus, alguma raiva no fundo.
– Você pensava em mim quando se deitava com aquele garoto que apareceu hoje?
– Sim — respondeu Nico prontamente — Eu procurei você em cada rosto. Tentei ouvir seu riso em cada voz. Tentei reviver nossas lembranças em cada momento. E nunca me senti tão vivo quando o dia em que revi o seu rosto.
Will parecia a beira de lágrimas de novo.
– Por favor, me largue.
E Nico largou seu braço.
– Eu costumava ser Will Solace, o curandeiro. O namorado do Nico. O cara com que o Nico está saindo. O loirinho com o filho de Hades — disse ele pondo a mão na maçaneta — Eu não sou mais. Eu sou o diretor desse hospital. Eu salvei milhares de vidas. Eu sou Will Solace, o pai solteiro dedicado, bem sucedido e conselheiro da Pretora. Eu não vou voltar pra sua sombra. Nunca mais.
Will já estava saindo quando Nico lhe falou:
– Eu e você sabemos que não é esse o motivo. Você está me escondendo alguma coisa.
Will olhou para trás, os olhos cheios de lágrimas.
– Por favor, Nico. Não é pra ser. Eu estou tentando proteger você.
Então saiu, deixando Nico sozinho na sala desarrumada. Por um momento. Nico achou que Will se referia a querer protegê-lo da dor. Mas as palavras de Will pareciam decoradas. Nico já as ouvira de algum lugar. Ele sabia que todo aquele teatro era mentira. Soara falso e inventado na hora. Will podia até mesmo sentir aquilo. Mas não era o motivo.
Então algo estalou em seu cérebro. Ele sabia. As palavras eram as mesma de Apolo:"Eu estava estou apenas tentando proteger vocês". Foi por isso que Will desistira de procurá-lo no mundo inferior. Foi por isso que ele o evitara, e dissera que seu lugar era no mundo inferior. E foi por isso que ele ficara tão apavorado em vê-lo.
Will sabia da profecia. Hades havia falado a ele. Havia deliberadamente deixado Will entrar em seu palácio, e lhe então lhe contara a profecia. E deixara Will escolher entre trazê-lo de volta com ele ou deixá-lo ali. E Will havia o deixado. Havia pedido para que seus amigos não voltassem a procurar por ele. Mas Nico tinha certeza que Will não tinha feito isso por si próprio. Mas sim para salvá-lo. Abrira mão dele para que Nico pudesse viver.
E mesmo aí jazia seu altruísmo. Nico olhou para a gaveta aberta na escrivaninha. Ali, entre vários outros objetos, estava sua adaga. A que ele havia dado a Will para se proteger anos atrás, na captura da bandeira. Outra lembrança velha lhe veio, de Will tantos anos atrás:
"Apolo é o deus dos solteiros. Em geral, seus filhos sabem quando se apaixonam de verdade. É diferente de todos os outros. É o que eu sinto agora."
Nico saiu do escritório com um objetivo em mente. Iria reconquistar Will, nem que aquilo custasse sua própria vida.
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