Soul Angel
16 Apolo dá a sua benção.
Notas iniciais

Eu me lembro das lágrimas escorrendo pelo seu rosto
Quando eu disse "nunca te deixarei ir embora"
Quando todas as sombras quase acabaram com a sua luz
Eu me lembro que você disse "não me deixe aqui sozinho"
Mas tudo está morto, acabado e já passou esta noite.
Somente feche seus olhos
O sol está se pondo
Você ficará bem
Ninguém pode te machucar agora
Ao chegar a luz da manhã
Nós ficaremos sãos e salvos
– Safe and Sound — Taylor Swift
Capítulo 16 — Apolo dá sua benção.
Nico esperava muita coisa de sua vida miserável. Afinal, ele estava sempre acostumado a levar rasteiras frequentes. Ele só não esperava que Apolo, o divino deus do Sol e pai de Will se projetasse na sala enquanto ele e o garoto se beijavam loucamente. Isso já era ganhar o "Prêmio Édipo de má sorte". Nico o encarou do chão, uma vez que tinha se desequilibrado pelo susto e caído de cara no tapete limpo do Sr. Johnson.
Apolo parecia calmo e descontraído, seus olhos tinham as mesmas pálpebras grandes e sonolentas de Will. O mesmo cabelo loiro despenteado. A mesma cor de pele. Fazia um bom tempo que Nico não via Apolo, mas mesmo conhecendo o deus, até agora ele não pensara no quanto ele e Will eram parecidos fisicamente. Mas só aí. Assim que Apolo abriu a boca, até mesmo seu tom era completamente diferente do filho.
– Boa noite.
Will continuava estupefato no sofá, a boca escancarada de surpresa. Apolo não os olhava, estava distraído no sofá da frente, aparentemente afinando uma guitarra Gibsonvermelha. Ele tocava algumas notas enquanto mexia nos pinos, uma melodia triste soando das cordas. Will se sentou melhor:
– P-pai? O que o... o que é que o senhor está fazendo aqui? — o garoto gaguejou meio impressionado.
Apolo lhe encarou fixamente com os olhos claros, e Will pareceu se encolher um pouco no mesmo lugar. Então o deus falou séria e calmamente:
– Vim conversar. Tudo bem meu filho?
Mas aparente Will não conseguiu responder. Estava completamente sem reação. Nico se levantou, sentindo que se não perguntasse a Apolo o que ele queria, Will não conseguiria o fazer.
– Hã. Oi — Nico começou um pouco nervoso — Como vai senhor Apolo? Como... Como o senhor está aqui? Eu quero dizer... Zeus e tudo...
O olhar de Apolo pareceu endurecer um pouco mais.
– Faz tempo desde a última vez que o vi, di Angelo. Está bem diferente, parece que caiu num poço de escuridão. Até sua pele perdeu a cor — ele comentou lhe mirando — Basta que saibam que seu amigo, Jason, intercedeu ao meu favor. Meu pai não me puniu... muito severamente.
Nico nunca havia pensado que Jason era meio irmão de Apolo, e nesse caso, tio de Will. Mas a ideia toda era tão absurda que o garoto decidiu ignorá-la.
– Bem... — Nico começou sem saber o que responder — É muito bom ver o senhor outra vez.
Will acenou com as mãos para que ambos se calassem, parecendo muito perturbado.
– Ei, espera aí! Vocês já se conhecem?
Apolo assentiu para o filho.
– Sim. Eu dei uma carona para Nico, sua irmã, Jackson e as caçadoras faz uns... Uns três ou quatro anos?
– Algo assim — Nico confirmou com a cabeça.
– Como assim? — Will se virou para Nico indignado — Você nunca me falou isso!
– O assunto nunca veio — Nico retrucou exaltado.
Apolo começou a tocar "Blue Jeans" em sua guitarra. Pelo menos havia parado com os Haicais.
– É, pelo visto vocês não são muito de "assunto" de qualquer forma.
Nico e Will coraram feito tomates.
– Pai... — começou Will finalmente parecendo envergonhado — Você devia... ter batido na porta, sei lá. Você só apareceu na sala! Como a gente ia...
– É que normalmente eu não vejo esse tipo de coisa quando apareço na sala, sabe — Apolo comentou deslizando os dedos pelas cordas do instrumento — A não ser quando eu aparecia na casa do Dioniso. Eu sempre fazia questão de bater na porta antes. De qualquer forma, tudo bem. Eu não posso falar nada.
Nico queria enfiar a cabeça em buraco. Apolo o vira se esfregando com Will. O Olimpo inteiro estaria comentando amanhã, com certeza.
– Mas quem diria não é? — ele sorriu de leve para os garotos — Um filho de Hades e um filho de Apolo. Tão improvável. Quase como lutar contra o destino. Ou a favor. Depende de como se olha.
Nico não gostava do tom de Apolo. Nem mesmo de suas palavras. Era como se soubesse de algo que eles não sabiam. Como se estivesse tentando dizer algo. O deus suspirou, parecendo infeliz.
– Perdão. Não sou de me meter. Mas é que eu realmente gosto de você filho — Apolo mirou Will tristonho — De você também Nico. Você sofreu tanto, e foi tão corajoso. É tão injusto que você vá acabar desse jeito.
O coração de Nico gelou.
– O que você quer dizer com isso?
Apolo deu de ombros, voltando a guitarra.
– Nada. Eu não poderia dizer se qualquer forma. Vocês perguntaram o que eu vim fazer aqui. Eu vim alertá-los. Não é pra ser. Vocês não podem ficar juntos. Isso não é natural. Não é certo. Nunca deu certo, não vai ser agora que vai dar. Se eu fosse vocês, manteria a maior distância possível um do outro.
O rosto de Will pareceu endurecer. Uma expressão de ódio e ressentimento que Nico jamais vira em seu rosto pareceu se instalar ali. De início, o garoto só o encarou num silêncio assassino. Então se levantou e apontou um dedo acusador para Apolo, gritando.
– Com que direito você vêm até aqui falar isso? Você me abandonou! Você abandonou minha mãe! — as lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto ensandecido, a voz tremendo — Nós vivemos na pobreza por anos! Ela voltava de noite com marcas de roxo por todo o corpo!
Will chutou a mesa com violência, virando-a. Nico segurou seu braço, temendo que Apolo pudesse lhe fazer algum mal, mas o deus apenas o encarava, a expressão calma e interessada. Will sacudiu seu braço para fora das mãos de Nico.
– Então depois ela morreu! E nunca mais viu você de novo! Nunca! Agora você volta, quando eu... quando eu já tinha perdoado você! E me diz que eu ficar com o Nico é errado? — gritou ele indignado — Por favor! Dê um tempo, o que você sabe sobre o que é certo ou errado, sinceramente? EU AMO O NICO! E NADA, NADA DO QUE VOCÊ FALAR OU ACHAR VAI MUDAR ISSO!
Por um momento Nico achou que Apolo explodiria Will. Mas então, surpreendentemente, ele baixou a cabeça parecendo culpado.
– Eu amava sua mãe. Eu sempre olhei por ela. Mas era pra ser, Nico pode lhe dizer isso. A morte vem mais cedo dependendo das escolhas. E de vez em quando vêm pior.
Nico queria atirar algo na cara de Apolo. Mas sentia que quanto mais ficasse calado, maior era a chance de Will sobreviver à aquele surto de fúria. Limpando as lágrimas do rosto com a mãos, Will respirou fundo e lhe disse com raiva.
– Eu amo o Nico.
– Eu sei — Apolo respondeu calmamente — É por isso que eu gostaria de falar com Nico em particular.
Nico virou a cabeça para encará-lo. Apolo queria falar com ele sozinho porque desaprovava o namoro dos dois. Ótimo. Will fez que não com a cabeça.
– O que tiver que dizer, pode dizer para nós dois.
Apolo lhe sorriu bondosamente.
– Infelizmente não posso. Foi ótimo vê-lo mais uma vez filho. Eu amo muito você.
Então o deus estalou os dedos, e Will imediatamente caiu para trás desacordado. Nico correu até ele e se ajoelhou a seu lado, segurando sua cabeça em seus braços apavorado.
– Will? Fale comigo! — e então olhou para Apolo com raiva, e todas as luzes que haviam no apartamento se apagaram. Até mesmo as luzes da rua pareceram enfraquecer — O quê você fez com ele?
Apolo fez aparecer uma miniatura de sol para iluminar o ambiente.
– Ele só está dormindo. Relaxe.
– O que você quer, porque está fazendo isso? — Nico falou tremendo.
– Nico, eu não posso lhe revelar o futuro. Mas eu posso te avisar. Se vocês ficarem juntos, algo muito horrível vai acontecer a ambos. Porque não é para ser, entende? Mas vocês podem fugir disso! Ambos vão ficar bem se ficarem longe um do outro.
Nico riu sem alegria alguma.
– Sabe, não tem sido um mar de rosas até aqui, duvido que possa piorar! Ele é a única coisa que eu tenho! Você devia estar feliz por ele! Devia nos deixar em paz! Não me importo se algo acontecer comigo.
– E com ele? — Apolo ergueu as sobrancelhas — E com o que pode acontecer a ele?
Nico sentiu o pavor lhe invadir, mas se manteve firme, embora seu corpo todo tremesse.
– Eu sou o Rei Fantasma. Eu sou forte o suficiente para protegê-lo pra sempre. Vamos fugir disso. Eu não vou desistir dele.
Apolo levantou, parecendo infeliz.
– Eu não queria ter que fazer isso. Estou tentando protegê-los, entenda. Hades me disse pra não fazer. Mas ele vai me entender. Ele é pai. Ele se importa.
Nico se levantou com Will nos braços, apavorado, tentando tirá-lo de perto de Apolo, que caminhava lentamente até eles. Mas aparentemente, não era a Will que Apolo queria. O deus pegou seu pulso com uma força surpreendente, colocando a outra mão sobre seu a parte superior de seu braço. Ali Nico sentiu a dor lhe queimar ali. Seus joelhos cederam, mas ele não largou Will. Então a dor passou. E onde Apolo havia encostado, ficaram gravadas em brilhantes cicatrizes vermelhas: Ἔρως".
– Eu sinto muito — Apolo lhe virou as costas — E lembre-se: Você deve proteger Will. Fique longe dele. Pois ele não consegue ficar longe de você. Quando precisar fugir, fuja para aonde ele não possa o encontrar. Ou ele o fará.
Nico continuava olhando o deus com pavor. As palavras em seu braço queimavam, mas ele não conseguia entender seu significado. Então a porta se escancarou e por um minuto inteiro, o silêncio reinou.
– Você não é bem vindo Apolo — a voz do Sr. Johnson falou rígida e sem a habitual simpatia.
Apolo assentiu, olhando firme para o homem.
– Tudo bem Harvey. Eu só estava de passagem. Queria ver como Will estava. Eu me importo com ele. Assim como você.
– Se você se importasse estaria longe — disse o Sr. Johnson lhe fuzilando com os olhos — Adeus.
– Adeus — Apolo então desviou o olhar para Nico, caído de joelhos e segurando o corpo adormecido de Will, acuado no canto — Lembre-se do que eu disse Nico.
E então ele e sua guitarra desapareceram numa nuvem de fumaça dourada luminosa, flutuando janela afora.
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– Você não devia tê-lo enfrentado — Nico falou baixinho, acariciando o rosto sonolento de Will.
Depois que Nico explicou ao padrasto de Will o porque Apolo estava ali, ambos arrastaram ele até sua cama, onde Nico esperou pacientemente até que o garoto acordasse. Não fazia nem dois minutos desde que Will abrira os olhos, mas parecia estar quase desmaiando outra vez.
– Acho que ele exagerou na dose do sono — Will bocejou.
– Ele estava completamente diferente — Nico falou exaltado — Quando eu conheci ele, era completamente diferente!
Will deu de ombros.
– Quem liga? Ele tem os problemas dele, eu tenho os meus. É melhor assim. Nenhum se mete na vida um do outro.
– Você acha que o que ele disse é verdade? — Nico perguntou apreensivo.
– Eu sei lá! — Will reclamou — Mas para dizer a verdade, me diz um momento das nossas vidas que não estivemos correndo perigo? Ele é um idiota.
Nico assentiu, mesmo não tendo se convencido completamente. Então tirou a pulseira preta das mãos para prender o cabelo em um rabo de cavalo. Will deu um puxão em seu braço, o rosto apavorado.
– O QUE É ISSO? — ele perguntou parecendo ter um infarto.
– Ah, isso — Nico falou incomodado, olhando a nova tatuagem — Apolo achou que eu precisava de uma repaginada no visual.
Will parecia a beira de lágrimas outra vez. Seu rosto estava contraído numa expreção chorosa de traição.
– Isso não é brincadeira Nico! Você sabe o que é isso? — Will apontou para a marca estranha — Ele amaldiçoou você, que nem a gente fez com os filhos de Ares.
Nico olhou para a marca surpreso.
– Sério? Que droga.
– Como assim que droga? Eu vou MATAR ELE! — e então olhou para o teto com raiva — NUNCA MAIS MACHUQUE O NICO, ESTÁ ME OUVINDO? SEU... SEU...
Nico segurou seu rosto.
– Ei Will. Tudo bem. Eu não ligo. É só uma marca.
Will fechou os olhos cansado, deixando as lágrimas caírem. Nico o beijou de leve, sabendo que o acalmaria. Will o abraçou.
– Seu pai é o deus da morte, e quando apareceu deu os parabéns. Apolo vem e nos deixa uma maldição de presente. Eu estou com medo Nico.
Nico o abraçou mais forte.
– Ele fez isso porque queria te proteger — Nico falou acariciando suas costas — Não que eu entenda o porque ele fez isso, mas ele não machucaria você. Você vai ficar bem.
Will soluçou de leve em seu pescoço.
– Não é comigo que eu estou preocupado. E em pensar que uns trinta minutos atrás estava tudo tão bem.
– Ha, eu já me acostumei com esse tipo de coisa — Nico riu — Nem me surpreendo mais.
E então deitou ao lado de Will, deixando que o garoto se aninhasse em seu peito. Ele chorou a noite inteira, enquanto Nico sentia a marca queimar. Ele podia não demonstrar na frente de Will, mas também estava com medo.
E ele pensando que seu azar estava no deus tê-los visto juntos.
Apolo dera sua benção.
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