Sorte no Azar
15 Thea/Felicity
Notas iniciais
Thea
Eu podia sentir alguém depositar algo sob meus ombros, mas eu estava petrificada demais por tudo que estava acontecendo ao meu redor. O ar frio entrava por meus pulmões queimando todo meu sistema congestionado, apertei o pano contra meu corpo me sentindo imponente. As sirenes azuis misturadas ao vermelho estavam me cegando.
– Senhorita, preciso que me responda novamente de como a vítima veio parar na porta de seu apartamento. — escutei alguém perguntar enquanto segurava meu braço fortemente. Ainda sem reação encarei o rosto alvo a minha frente, eu queria socar essa pessoa.
– Inferno quantas vezes eu vou ter que responder que eu não sei. Me deixa em paz e vá se ferrar.
– Ela está em estado de choque pode fazer essas perguntas depois? — a voz de Roy sobressaiu a minha, estava distante e distorcida diante toda a confusão que se desenrolava a minha frente. Vi um corpo coberto por um fino lençol branco. Foi então que eu senti o impacto em meu estômago, e as lágrimas que eu tinha negado começaram a cair nublando minha visão.
Meu pai tinha morrido.
Senti um forte empurrão em minhas costas enquanto eu caminhava até o corpo. Os braços de alguém me rodearam me impedindo de qualquer movimento. O desespero começando a dominar meu corpo, as lágrimas deixando um rastro salgado por meu rosto. Meu pai tinha morrido.
– Me soltem, por favor me soltem. — esperneei tentando me livrar do aperto. Quem quer que tenha sido sussurrou um não firme em meu ouvido me abraçando fortemente. Me deixei envolver, dando livre passagem para o choro.
– Eu sei que isso pode ser difícil Thea, mas estou aqui por você. — apenas assenti enterrando ainda mais meu rosto no peitoral de Roy. O sentimento de impotência, desespero, negação estavam embaralhados.
Forcei meus olhos a se erguerem quando a imagem distorcida meu pai caído a minha frente voltou em minha cabeça. Estava tão difícil. Minha garganta estava travada com os soluços altos, a dor em meu peito parecia não diminuir. Tentei me mover e a mínima tentativa me fez resmungar de dor. Olhei para baixo vendo uma agulha perfurada em minha pele e meu braço enfaixado, a mão de Roy grudada a minha ele dormia tão serenamente que eu me senti incapaz de acordá-lo. Sorrateiramente depositei seu peso sob a cama e contive o xingamento quando arranquei a agulha.
Não sabia de como tinha ido parar em um hospital, e não queria explicação de ninguém nesse momento. Eu só precisava de alguns minutos sozinha. Tudo que eu queria nesse momento era ficar sozinha com minha dor. Sem nenhum rumo e fugindo dos policiais de guarda entrei na torre do relógio de Starling, a cidade parecia tão calma, tão inocente observada de cima, tão pequena. Minhas pernas fraquejarem quando avistei o letreiro da QC brilhar forte, baixo meu olhar enxergando minhas mãos ensanguentadas. O grito de horror fugiu de meus lábios.
Sempre me explicaram que o ciclo da vida era nascer crescer e morrer, mas eu nunca pude imaginar que odiaria tanto esse fato, eu odiava porque não vivi tudo o que tinha para viver ao lado da pessoa que me foi tirada. Brutalmente. Odiava todas as forças do universo que fez com que isso se realizasse e me odiava ainda mais por ter passado a maior parte da minha vida longe de quem eu deveria amar sob todas as circunstâncias.
– Thea.. — a voz paciente de Felicity me chamou atenção, ela estava hesitante e então no próximo segundo Cait apareceu ofegante. O mundo parou de girar enquanto eu apenas encarava o sangue seco em minhas mãos, era apenas minha mente pregando peças, eu sabia mas eu ainda me sentia tão suja. Quando senti os braços delas ao meu redor me dispôs a chorar sem medo.
– Deixe o lutar entra Thea. — a voz suave de Cait, os movimentos ritmados em minhas costas e cabelos me acalmou por pouco tempo.
– Como posso suportar isso? — questionei baixo me separando delas, voltei a encarar minhas mãos, mas o sangue não estava mais presente. Mas a dor e a memória sim.
– Nós estamos aqui Thea, sempre estaremos. Somos suas amigas. — sorri minimamente para Cait e gargalhei quando elas me ergueram um pote de sorvete. Não ia negar, mas eu queria algo que contivesse álcool, algo que me fizesse esquecer tudo. Parecendo ler minha mente Felicity ergueu um litro de vodka dando de ombros logo em seguida.
Nós apenas nos sentamos em circulo e ficamos caladas por um longo tempo.
– Eu estava com Roy antes de tudo acontecer, ele tinha acabado de me pedir em namoro e eu ia aceitar. Eu tive o mundo em minhas mãos para logo depois perder, sentir meu pai caindo em meus braços machucado me abalou de uma forma que nunca pensei, perder ele assim é tão injusto, tudo isso é tão injusto. Por favor tirem essa dor do meu peito, não consigo lidar com isso. — desabafei soluçando. Cada palavra era uma facada em meu coração. Cada maldita palavra era uma lembrança da noite anterior. Em silencio elas me deixaram proferir injurias e lamúrias a qualquer um, procurando alguém para culpar.
– Precisamos voltar Thea, seu irmão e mãe estão preocupados. — o olhar meigo que Cait me lançou e suas mãos estendidas me fizeram voltar para o hospital, que foi onde descobri o que me levou ali. Foi um surto e por isso meu braço estava enfaixado. Fui envolvida por um abraço forte de Roy que fez o possível para não brigar comigo, logo depois de Roy o olhar desesperado de Oliver me achou e seu corpo grande me encaixou ao seu.
– Não acredito que ele morreu Ollie. Não consigo acreditar.. — sussurrei enquanto ele afirmava que tudo iria ficar bem, mas não ficaria nada bem. Ele tinha plena certeza disso.
– Você precisa dormir agora Speddy, amanhã vai ser um longo dia. — disse, neguei rapidamente tentando fugir novamente, o olhar culpado de Cait foi a ultima coisa que eu vi antes de cair na escuridão.
Observei os pássaros voando em minha frente. Ollie estava sentando emburrado por estar com o braço quebrado.
– Papai, você pode me levantar ao topo? Queria ser um passarinho para voar alto, bem alto. — em concordância, seus braços me ergueram o mais alto que podia. O vento em meus cabelos, a sensação de ser livre como um pássaro ficou impregnado em minha mente. Eu queria me sentir assim a todo momento.
– Você pode ser o que quiser minha princesa, basta acreditar. — disse depois que me colocou no chão, afastou os cabelos de meu rosto para logo depois me jogar para o alto de novo.
–Sou um passarinho papai.. Olha mamãe sou um passarinho.
– Robert, cuidado amor. Ela pode cair.
Felicity Smoak
Meu subconsciente implorava para ir atrás de Oliver, ir atrás e pedir desculpas beijá-lo e afirmar que eu também estava apaixonada por ele, mas todo meu corpo recusava a ir atrás dele. Era uma contradição que mexia estava fazendo um nó em minha cabeça.
Aquele dia poderia ser nomeado como o pior dos dias. Estiquei meu pescoço tencionado gemendo em desgosto ao observar o departamento quase vazio.
– Felicity. — Ray se materializou em minha frente. Tentei ser imparcial, não deixando meus problemas pessoais afetarem meu trabalho na QC mas era impossível e na segunda vez que chamou minha atenção com a voz elevada aos oitavos resolveu ir embora resmungando puxando os curtos cabelos.
Soltei um suspiro alto pegando minha bolsa do chão me encaminhando até o elevador. Só precisava de uma noite de sono.
Abri a boca incapaz de falar algo quando vi Oliver apoiado na parede metálica, sua mão sangrando me fez ficar alarmada.
Ele não tinha nem a decência de me encarar. Eu sabia que tinha o magoado, de diversas formas, mas eu não sabia lidar com aquilo, inferno eu não sabia lidar nem mesmo com os meus sentimentos.
– Vou pegar o próximo. — sussurrei.
– Não sou criança Felicity, além que esse é o último os seguranças vão desligar as chaves. — sussurrou de volta. Meus olhos fixados em sua mão sangrenta. Preocupada com ele, hesitante envolvi um cachecol que estava enrolado na bolsa estancando o sangramento. Ele não recuou mais também não teve a mínima decência de me encarar.
– Oliver..
– Tudo que eu menos quero nesse momento Felicity é conversar então por favor não insista em algo que eu sei que vai te magoar e me magoar.
– Eu preciso que entenda que tudo isso é novo para mim, já sofri uma decepção antes e não quero passar por isso de novo, tudo o que eu tenho sentido por você é tão forte que ainda não sei lidar me dê apenas um tempo, por favor. Me desculpe por hoje mais cedo. — ele forçou um sorriso antes de balançar a cabeça em negativo, encarei seus olhos me sentindo magoada. Eu não tinha aquele direito, eu agi e ele reagiu. Me sentindo exposta me apoiei na parede do elevador, precisava agarrar meu orgulho ferido e me enfiar em um pote de sorvete.
– Conversaremos sobre isso depois Felicity, só preciso ir ao hospital agora.. — antes que ele me explicasse o motivo de seu dispersamento o celular se fez presente.
– Detetive Lance. — questionou. Detetive? O olhar estático que ele lançou para a porta fez um calafrio subir por minha coluna. E um calafrio nunca era algo bom.
– Isso só pode ser alguma pegadinha. Como assim Thea fugiu? De um hospital? — esbravejou. O encarei assustada quando com vi o celular atingir a parede metálica se repartindo em algumas partes, seus olhos estavam apavorados e eu me senti apavorada.
– Oliver porque Thea estava em um hospital?
– Ela teve um surto e fugiu do hospital.
– Porque ela teve um maldito surto Oliver? Thea é perfeitamente saudável. — questionei assustada, via o esforço que ele fazia para manter-se são, a força aplicada na parede fazendo com ele ele sangrasse ainda mais.
– Meu pai morreu Felicity! Ele morreu nos braços da Thea por isso ela teve um surto. — pisquei aturdida repassando suas palavras em minha cabeça.
– Oliver..
– Não quero sua pena, se quiser vim para o hospital ver Thea, apenas venha. Sem conversa.
Oliver não deixou nenhuma lágrima escapar o tempo em que ficamos juntos. Eu entendia sua frieza, sua tentativa de indiferença mas era tão doloroso ver que ele não queria se abrir.
– Como você a deixou fugir? — Oliver agarrou o colarinho de Roy assim que chegamos ao hospital, ele parecia tão transtornado e paranoico.
– Oliver, solte-o agora. Tudo que menos precisamos é de brigas aqui, Thea esta perdida por ai vamos nos focar nela por favor. — intervi o puxando bruscamente, Roy cerrou os punhos querendo claramente retrucá-lo.
– Oliver.. Meu bebê está por ai perdida..
A primeira coisa que notei em Moira Queen foi o olhar culpado, a segunda coisa foi cinco dedos marcados em seu rosto a terceira foi que ela tentava esconder os dedos trêmulos.
– Nós vamos encontrar ela, você está bem? Eles machucaram a senhora? — Oliver questionou a olhando de cima a baixo, Sra. Queen apenas negou.
– Detetive sabemos quem está por trás disso? — murmurei baixo, Lance apenas negou encarando os Queen's que pareciam assustados. Oliver mais raivoso do que assustado.
– Aparentemente um grupo de assaltantes, dia e hora errada para Robert Queen estar fora de casa. — foi tudo o que ele me disse, eu sabia distinguir quando tinha algo a mais por trás da história e definitivamente tinha algo ali, algo que Lance não queria me contar ou não podia.
Mas aquele não era o momento certo para confrontar.
Balancei a perna agoniada quando por horas não tínhamos notícias de Thea, Cait estava ao meu lado tão ou mais aterrorizada.
– Acho que sei onde Thea está. — Cait sussurrou, esperançosa me ergui rápido a puxando comigo tendo em mente os olhares sob nós.
– Temos um palpite sobre onde Thea está. — iniciei e quase como abutres Oliver, Roy Moira e toda uma polícia vieram para cima.
– Iremos sozinhas, quanto mais gente mais acuada Thea irá ficar.
– Ela precisa da família e não de vocês. — tentei não me sentir ofendida pelo tom de desprezo da matriarca, mordi a língua evitando bater de frente porque era um momento delicado e ela estava agindo na defensiva.
– Traga ela de volta Felicity. — foi Oliver quem sussurrou, agradeci baixinho e puxei Cait comigo.
– Se ela estiver mesmo onde penso que está vai precisa de algo para afogar a mágoa.
– Vodka?
– Também.
Foi quase como enfiar dezenas de facadas em meu coração ao ver Thea cair em profundo sono por causa do calmante que Cailtin lhe aplicou, virei meu rosto ao ver uma ultima lágrima descer por seu rosto antes dela finalmente dormir. Senti os dedos fantasmas de Oliver em minhas mãos e apertei em sinal de conforto. Precisávamos nos apoiar, mais eu a ele do que ele a mim.
– Preciso sair, resolver o funeral.
– Não precisa decidir isso agora Oliver. — ele ignorou meu pedido e me deu as costas soltei um bufo irritado voltando a olhar para Thea adormecida.
– Não precisam ficar aqui senhoritas, e nem você rapaz. — encarei Caitlin que pareceu desconcertada com a ordem da senhora Queen. Aturdida senti Caitlin me puxar junto com Roy, afirmando que uma briga ali seria desnecessário. Então tudo o que restou foi aguardar na sala de espera, implorando para cada médico que passasse ali me informasse o quadro da minha amiga.
– Ela vai ficar bem não vai? — perguntou baixo. Ver a preocupação que Roy estava sentindo por Thea me fez quase respirar aliviada, ele realmente se importava com ela.
– Thea é forte Roy, nunca duvide disso. Mas ela vai precisar de nós mais do nunca.
[...]
Robert Queen fora enterrado aos fundos da mansão Queen, olhei a sala que continha fotos para todos os lados, Thea e Oliver tinham sumido desde a descida do caixão e eu entendia, só esperava que eles se apoiassem nesse momento tão crucial.
De longe vi uma figura baixa, se contendo para não chorar. Caminhei lentamente pelo mar de pessoas ali presente e me agachei o suficiente para ficar a sua altura retirando os óculos de seu rosto. O sorriso de reconhecimento que ele me ofereceu foi fraquinho e logo depois mordeu os lábios com força extrema tentando evitar o choro.
– Não tem problema em chorar Connor. — sussurrei o puxando para mim, o abraçando forte o suficiente lhe passando conforto. Seu corpo tremeu todo e então eu escutei seus soluços altos. Passei minhas mãos em suas costas ritmadamente sussurrando palavras de conforto.
Olhei para cima, e vi os olhos azulados de Oliver me encarando atentamente. Sua aparência estava tão cansada, seus lábios se desenharam em sorriso fraco e se aproximou de nós.
– Esta tudo bem amigão. Venha, sua mãe está lhe esperando. — Oliver o puxou para longe de mim mas antes pude ver pai e filho me lançando um sorriso sumindo por entre um dos numerosos quartos que tinham ali.
Assim que voltei à sala, Thea estava abraçada a Roy, sob os olhares de todo mundo. Estranhei quando vi Moira discutir com um homem mal encarado, ela estava com medo isso era óbvio, mas ao ver o tal homem jogar um pacote de maneira brusca em suas mãos me chamou atenção, Moira se afastou abalada quando ele afastou suavemente a jaqueta o suficiente para lhe mostrar algo. Eu gelei completamente porque o coldre enlaçado em sua cintura era visível. Me senti hiperventilar no momento em que seu corpo se virou e os olhos dele encontraram os meus, com um sorriso mórbido no rosto ergueu o dedo indicador até a boca em um gesto silencioso. Pisquei por um breve segundo e ele tinha desaparecido, tudo que pude ver foi o olhar aterrorizado da matriarca Queen em cima de mim, pela primeira vez desde que encontrei com Moira Queen o corpo dela parecia exalar todo medo que podia.
Senti um calafrio subir por minha coluna enquanto caminhava de volta para Thea a acolhendo em meus braços, tentando esquecer a sensação ruim que dominava meu corpo. Seu choro era baixinho meu partiu coração e tirou de minha mente os olhos sem vida do homem.
– Thea, amor você quer algo? — Roy sussurrou acariciando o braço dela.
– Quero ir para casa. Podemos ir para casa agora? — pediu passando de meus braços para os de Cait que a conduziu para fora.
[...]
Me encolhi dentro da camisola sentindo o frio aumentar, minha garganta se fechando ao ver Thea dormir encolhida ao lado de Caitlin, uma batucada na janela me fez pular da cama assustada. Mas ao ver Oliver na chuva, de ombros encolhidos me fez jogar todo o tremor e medo que sentia, rapidamente abri a janela, seu corpo esmagou o meu em um abraço apertado e logo depois depositou um beijo em minha cabeça.
– Como ela está? — perguntou baixo, entrelacei nossos dedos o puxando para fora do quarto.
– Bem na medida do possível. — forcei seu corpo a sentar no sofá, com toalhas em mãos me dediquei a enxugar seus cabelos.
– Hey. — sussurrei baixo sentindo minha bochechas queimarem, o sorriso que veio dele após foi fraco. Durante todo o dia Oliver se negou a chorar, me sentei ao seu lado e rapidamente sua cabeça tombou em meu ombro.
– Você precisa se trocar Oliver, vai acabar pegando um resfriado.
– Era para eu estar lá, mas eu estava muito perdido para ir a esse jantar de negócios então meu pai foi, e isso aconteceu Felicity. — me ignorou por completo, meu corpo tremer ligeiramente ao imaginar a situação descrita por ele, meu coração se apertou em angústia. Soltei um suspiro alto ficando em silencio por alguns minutos.
– Eu estou aqui por você.. — sussurrei acariciando sua mão, mas sua respiração ritmada contra meu pescoço me fez soltar um riso baixo. Ele tinha dormido e não ouviu uma palavra que eu disse. Delicadamente joguei uma manta sob seus ombros e me deitei no sofá fazendo com que ele escorregasse por meu corpo, apoiando seu rosto no vão de meus seios. Fecho meus olhos me ocupando em acariciar seus cabelos.
– Porque eu te amo Oliver.
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