Sorsha
1 P R Ó L O G O
Notas iniciais
XOXOXOXO
Lilith estava cansada de toda aquela comoção exagerada. Sua cabeça estava pesada de elogios vazios, seus joelhos dormentes de ficar sentada observando a interação forçada pelos interesses comercias e, mais que tudo, seus lábios estavam cansados de sorrir.
Ela não era boa com palavras, seu mais recente marido sabia disso. E era por esse motivo que mandava que ficasse sentada em uma cadeira forjada a ouro, e o mais longe possível dos convidados. Ela gostava da cadeira, mas não gostava de ficar com a boca fechada. Ele, o comerciante mais famoso e mais rico daquela região, não gostava quando ela falava, pois, suas palavras eram sedutoras, elas cantavam e envolviam qualquer um: homem ou mulher. Não era proposital, ela era como uma cantora, uma bela cantora com o interior de um leão: pronta para atacar, matar e conquistar territórios.
Várias mulheres de parceiros de negócios de João passaram por ela, cada sorriso como de uma víbora, cada perfume emanando como veneno e cada olhar com o peso da inveja. Lilith conhecia a inveja, ela era a mãe dela. Ela tinha inveja do paraíso, inveja da perfeição e inveja do ouro. Era por isso que estava casada com um homem tão velho quando Adão. A diferença é que esse já estava morto.
Ela esperava que sim.
João era velho, mas rico. Tão rico quanto um sultão. Quase tão rico quanto um rei. A diferença é que ele tinha confeccionistas e não soldados. Ele possuía tantos que Lilith não conseguia contar, todos espalhados por lugares aleatórios,
Todos achavam o romance e aventuras de João e Lilith verdadeiras histórias de amor. Mas nenhuma era verdadeira. João não se casou com ela por amor, ou por um ato nobre nos últimos suspiros de um pai que queria o melhor para sua filha.
O verdadeiro motivo era a gravidez de Lilith. Ela viu uma possibilidade de crescer e agarrou-se a ela, nem que para isso teria que carregar o filho de alguém.
Ela faria qualquer coisa por poder.
Antes de casar-se com ele Lilith vivia com uma idosa nas colinas. Ela sempre viveu como um nômade, nunca parando muito tempo em um lugar. Um dia a sobrinha de alguém, a enfermeira de alguém ou a mulher de alguém. Sempre algo de alguém. Nunca ela. Somente Lilith.
Em todo lugar por qual passava era notável sua beleza, seu andar e suas palavras. Se um anjo possuísse forma física seria aquela: cabelos negros e grossos, os olhos grandes e sedutores, os lábios cheios da cor de sangue e a pele leitosa e de aparência macia. Um anjo. Mas ninguém sabia o que ela fazia, ninguém sabia o que acontecia nas sombras do anoitecer. Uma corda no pescoço do fazendeiro. Um confeccionista afogado no rio. Um sultão envenenado.
Lilith odiava homens.
Odiava a submissão.
Odiava a superioridade que eles achavam ter.
Odiava tudo.
Foi por isso que foi expulsa do paraíso. Por não querer obedecer um igual.
Lilith não se curvaria a ninguém.
Ela nasceu para governar, não obedecer. E estava trabalhando nisso aos poucos.
Quando suas pernas não aguentavam mais ficar cruzadas e suas costas eretas, ela se levantou. Todos no salão pararam as comemorações a espera de algo.
Ela gostava desse poder. Gostava da atenção e da submissão refletida no olhar de todos.
— Voltem as comemorações, minha mulher está apenas indo comer algo, o bebê está faminto! – João gritou aos convidados em explicação.
Minha mulher.
Ela tinha repulsa dessas palavras. Ela não era de ninguém.
A mesa de banquete estava convidativa e farta. Era isso que esperava nunca faltar: a fartura. Ela alongou as costas, a barriga já estava enorme e pesada. Um fardo que ela não queria carregar. Um bebê era para sempre. Um vínculo eterno.
Lilith nunca pensou em ser mãe, nem mesmo no começo dos tempos. Ela foi expulsa e com o tempo a ideia pareceu ainda mais distante. Mas havia duas coisas que Lilith adorava nelas: a capacidade de manipulação que elas exerciam sobre os adultos e as travessuras. Crianças eram pequenos diabinhos.
E ela gostava de tudo que emanava crueldade.
Lilith girou a cabeça na procura de algo interessante para observar e foi quando viu um novo convidado entrar. Suas roupas eram de um linho refinado e suave, as cores negras e seu andar confiante. Não era alguém que ela já tinha visto, aquele era o tipo de homem que deixava uma marca aonde passava. O rosto do homem era harmonioso, se Lilith era um anjo em forma de gente ele era seu equivalente.
Lilith se aproximou e quebrou as regras impostas por João. Regras que ela não queria seguir. Só precisava de um motivo.
— Belos trajes. Não foram comprados de meu marido, receio. Quanta petulância aparecer aqui com a obra do rival. – ela parou na frente dele, o sorriso estampado no rosto.
— Perdoe-me, senhora. – ele fez um reverência longa – Acho que os trajes de seu marido não chegaram até mim.
A voz do homem era suave. Seus lábios se moviam com calma, seus olhos carregavam um brilho celestial e suas sobrancelhas se arqueavam com nobreza.
Esse era o homem que eu deveria me casar. Ela pensou.
— Lilith.
— Samael.
— Como o anjo caído. – o nome chocou Lilith.
— Como o anjo. – os olhos dele brilharam.
— O que um senhor com audácia nas roupas veio fazer pelas redondezas? – ela brincou.
Ele riu.
A risada melodiosa ecoou pelo salão de uma maneira divina. Lilith olhou ao redor para ver se mais alguém tinha se afetado com aquela risada.
A essa altura todos já tinham notado o estranho. Até seu marido. E, o estranho era que ele não estava agarrando seu braço e arrastando-a para o quarto, gritando com ela e amaldiçoando aos céus por ter uma esposa tão desobediente.
Ele só estava lá.
O homem com nome de anjo a olhou da cabeça aos pés, os olhos contendo uma malícia que Lilith conhecia muito bem e falou:
— Eu vim em busca de aliados. E, Lilith, minha intuição diz que você será perfeita.
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