Sorsha
2 I - A morte
A morte é linda.
Esse foi o primeiro pensamento de Daena quando os membros do concelho arrastaram Sorsha para o meio do salão.
Os cabelos de um negro tão profundo quando uma gota de tinta, o andar carregando majestosidade e o olhar um brilho de vingança.
A beleza não foi a única coisa que Daena notou nela, no instante em que foi puxada para dentro o poder de Sorsha circulou pela sala. Fagulhas úmidas de eletricidade dançando ao som de correntes sendo arrestadas. Eram como uma neblina grossa e inebriante.
Ela viu a diretora soltar um suspiro profundo quando Orich andou em sua direção, os passos carregando confiança como se ele fosse o ser mais perigoso naquele salão. Mas ele não era e nunca iria ser. Daena achava Orich um completo narcisista, e como tal era irritante. Ele odiava a todos porque suas opiniões eram baseadas na destruição e ninguém concordava com ele. Nem a bruxa mais cruel.
Ele carregava a arrogância de um Devork.
Daena sempre viu Orich como um animal selvagem ferido: com raiva e digno de pena. Ela não entendia como as bruxas das trevas funcionavam, nunca entendeu como linhagens afetavam tanto uma pessoa. Ela nem mesmo era um cópia de sua mãe e, muito menos, se comportava como uma bruxa da luza deveria ser.
Ela tinha a língua de uma criança rebelde.
— Amarantha. – as mãos dele estão erguidas em adoração aos céus, mas de um jeito debochado e cru. – Vejo que fez esse lugar sua casa.
— Pelo menos um de nós tem uma casa.
O rosto de Amarantha não esconde a mágoa. Daena sempre achou a bruxa um verdadeira Hardosh: o rosto de um anjo, as palavras doces e o coração de uma mãe. Ela percebeu que além da magoa, Amarantha também estava arrependida de ter atacado Orich. O assunto pais era delicado para ele.
Nem mesmo as palavras da diretora afetaram o bom humor do bruxo. Ele estava se divertindo com o medo de Amarantha.
Sorsha carregava destruição aonde passava.
— Eu trouxe para você... – ele apontou para trás, onde a bruxa estava parada.
— Sorsha. – Morgana sussurrou atrás de Amarantha.
Os olhos da morte passaram pela multidão reunida no salão, a postura ereta e as mãos algemadas atrás do corpo não tiravam a sensação de perigo. Não a tornavam imponente. Tinha algo em seu olhar que gritava guerra. Algo que fazia com que Daena tivesse vontade de correr e se esconder e, quando ela a encontrasse, a Hardosh implorasse por piedade.
Sorsha tinha o rosto de um anjo e o poder do Diabo.
— Nossa amada, Sorsha! A rainha da Morte e todo aquele blá-blá-blá. – Orich se apoiou nos ombros da bruxa, as mãos agarrando ela e a balançando.
O rosto dela estava duro, as feições congeladas e não mostrando qualquer reação. Até mesmo Daena esbofetearia ele numa situação parecida e Sorsha não estava tão imobilizada pelas correntes.
Existiam três coisas que deixam Orich com medo: o fim do mundo, o Diabo e Sorsha. Ele tinha medo porque todas as três coisas impediriam que ele governasse. Teoricamente ela achava que se Orich governasse seria o fim do mundo. Ideias retrógadas, táticas retrógadas
Aparentemente, Daena notou, ele tinha superado o medo de Sorsha. Ou ele estava querendo muito a morte.
— Vai chegar um dia, Orch, que nem sua arrogância vai ser capaz de te salvar. – ela diz, sua voz ecoando pelo salão.
Imediatamente as mãos dele caem. Sua voz é polida e crua. A voz de um predador. É bonita como o canto de um pássaro e ao mesmo tempo tão fria quanto gelo. Existe um peso naquela voz, algo que grita história.
Uma risada infantil e doce ecoa pelo salão e Daena nota que está vindo logo atrás dela. Uma mãozinha está segurando seu vestido e rapidamente as gargalhadas tentam ser contidas.
Maeve.
— Você achou engraçado? – imediatamente Daena fica na defensiva, ela tenta esconder mais Maeve atrás dela, mas Sorsha sorri. – Eu também acho. O jeito que ele se acha superior, seu nariz empinado, mas sem realeza nenhuma no sangue. É cômico.
A bruxa olha para a garotinha e acena com as mãos algemadas, as correntes pesadas arrastando no chão. O sorriso deixando seu rosto menos duro e mais harmonioso. Por um momento Daena esquece que está na presença da bruxa mais poderosa da história. A bruxa que tentou destruir o mundo.
— Reveja seus insultos, Sorsha. Quem está algemado aqui não sou eu. – Orich rebate, o sorriso morto e a raiva transbordado de suas palavras.
A sala caiu em silêncio. A ousadia de Orich estava se tornando perigosa e não apenas para ele, mas para todas as bruxas ali dentro. E ele parecia não perceber isso.
O olhar que Sorsha direciona a ele é frio. Se um olhar pudesse cortar alguém naquele momento, seria aquele olhar. Daena sempre foi boa em ler pessoas, sempre foi boa em adivinhar sentimentos e decifrar tons de voz, e algo em Sorsha gritava diversão. Mas a garota não entendia o porquê. A bruxa da morte estava com as mãos atadas, parte dos poderes removidos e com uma maldição. Mas não deixava de ser perigosa e isso ela mostrava na atitude. Talvez seja isso, ela sabia que era perigosa e estava tramando algo.
— Mesmo que eu estivesse amordaçada iria arranjar um jeito de lhe insultar. – ela sorri de novo – Acabei de descobrir que isso é relaxante.
— Relaxante? – as palavras dele contém repulsa.
— Sim. Um pouco de dor de cabeça para você, terapia para mim.
Maeve solta outra gargalhada.
— Cale-se! Isso não é engraçado! – o urro de Orch ecoa por todo o salão.
A bruxa se aproximou tanto dele que seus narizes se tocavam, as palavras saíram tão frias que todos no salão trancaram a respiração por alguns segundos.
— Não a mande calar a boca. Ela é uma garotinha.
— Todos têm que ter disciplina, é para isso que serve esse lugar.
Daena notou que algo em Sorsha despertou. Algo doloroso. Ela não sabe porque a outra estava sendo tão paciente com Orich, ela não sabia o porquê de aguentar toda aquela superioridade falsa dele se Sorsha é uma rainha. No tempo em que Sorsha caminhava sobre a terra, antes de ser mandada para Oyola, uma prisão no fundo do oceano, ninguém ousava olhar nos olhos da bruxa, ninguém ousava falar com ela se não fosse solicitado. Pelo menos era isso que Daena lia nos livros.
Então porque ela está se mostrando tão passiva nesse momento? Essa era a rainha temida por todos? Daena não parava de se questionar.
Sorsha sempre foi uma lenda que todos os mais novos queriam conhecer, desvendar e adorar. Mas em segredo. Seu nome trazia lembranças dolorosas para os mais velhos, para os que viviam com ela no começo dos tempos. O rosto desenhando nos livros era de uma guerreira fria e cruel que correspondia exatamente com a realidade, mas o sorriso dado para Maeve minutos atrás não.
Essa não era a Rainha da Morte que Daena lia nos livros. Então, se alguns fatos não batiam, o que mais estava errado nos livros?
— Eu não tive disciplina, e olha o que eu me tornei: uma guerreira. – ela sorriu, os lábios grossos e rachados chamando atenção – E uma rainha.
— E agora uma prisioneira.
— E a bruxa mais poderosa do mundo. A morte em carne osso. Todos me temem porque sou poderosa, e você, Orich? Todos temem você porquê?
— Não adianta ser poderosa e ter todo esse poder todo preso dentro de si. – ele rugiu em resposta.
— Eu estou trabalhando nisso.
Orch revirou os olhos, um gesto adolescente e revoltado. Então ele puxou as algemas das mãos dela. O salão todo deu um passo para trás, e o som de surpresa ecoou
— Divirtam-se. A rainha dos espertinhos é de vocês. – ele sorri.
Toda a comitiva do Concelho começa a ir em direção a porta.
— Orich. – Sorsha o chama.
— Ultimas conspirações, Sorsha? – ele debocha, o sorriso se alastrando pelos lábios.
— Sim. – ela sorri de volta – Quando você for dormir hoje, não se esqueça que sua rainha está de volta.
O rosto de bruxo ganha um tom avermelhado e ele sai como um furacão pela porta.
Depois disso Daena se permite rir.
E Sorsha a nota pela primeira vez, o sorriso da bruxa da morte se tornando maior ainda.
— Humor adolescente é rejuvenescedor. – ela comenta para Daena, os olhos diretamente ligados no dela.
E isso a assusta.
Mas então Sorsha se vira para Amarantha.
— Então... Onde você irá me prender, Amarantha? Sou toda sua.
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