Notas iniciais
Espero que gostem! ^^

A noite estava demasiadamente fria e escura naquela estrada desértica que interligava São Paulo e Belo Horizonte. O pequeno ponto de luz vindo do brilho dos faróis de um veículo que desbravava o trecho era a única iluminação presente em uma grande extensão da Via do Riso naquele horário.

Bem aconchegados dentro do carro, Matheus mantinha seu foco na estrada enquanto também participava de um animante jogo de adivinha com Livia, sua namorada. O objetivo era adiar o maçante sono que atacava o rapaz, pelo menos até a cidade vizinha. Lá, se ele não suportasse a vontade de dormir, estacionavam em um posto qualquer e descansavam. Até porque ali, no meio daquela estrada escura e isolada, não era um bom lugar para tal.

— E qual é o vilão daquele filme do poço? — Matheus perguntava risonho confiante de que Livia não acertaria facilmente.

— Ah... Samanta? Não, Soraia! Não, também não é isso...

— Vimos o filme na semana passada, amor. Como pode ter esquecido?

— “vimos” você, porque eu passei o filme inteiro com os olhos fechados! — comentou Livia, ainda pensativa. — Aha, é Samara!

— Boa. — Matheus assentiu antes de dar um longo bocejo que não agradou nada, nada a moça no banco de passageiro.

— Minha vez! — disse ela. — Não podemos deixar que durma! Até porque, como tem sono pesado, você simplesmente faz cosplay de branca de neve e "morre", e me deixa acordada e sozinha nesse lugar horrível!

— Relaxa... Eu fiquei sabendo que tem um posto de gasolina mais à frente, vou parar lá e comprar um expresso. Daí esse sono vai embora de vez!

— Posto de gasolina? Nesse lugar? — Livia perguntou com desdém, olhando para a paisagem que deixavam para trás e se perguntando que tipo de pessoa seria maluca o suficiente para trabalhar ali, no meio do nada. — Nem se me pagassem o triplo eu trabalharia num lugar destes!

— Osh, tem gente que não é tão medrosa assim...

— Eu não sou medrosa, okay? Só um pouco... receosa!

— Lá está ele! — Matheus tirou brevemente uma mão do volante e apontou com o indicador rumo a uma luz que ainda parecia bem distante.

— Só espero que esteja aberto...

— Claro que está! Esse tipo de posto, à beira de estrada, não fecha, fica aberto 24 horas por dia! — explicou, dando continuidade:

— Mas... e quanto a sua pergunta, cadê? Ainda estou ganhando!

— "ainda". — Livia começou a olhar em volta e a pensar. — Tudo bem, lá vai então... O vilão de "It, uma obra prima do medo"?

— Ah, amor, nível Barbie essa, né? Apesar de o filme não ter valido nada e eu nem sendo tãããão chegado a livros assim, esse do Stephen já li umas 5 vezes, no mínimo!

— Mas ainda não respondeu... O que é o assassino?

— Um... — E ao olhar para a estrada, já bem próximo ao posto de gasolina, Matheus vira um palhaço saindo do estabelecimento e invadindo vagarosamente o meio da pista. — Palhaço?

Livia ainda não havia entendido, olhou para a estrada e depois que viu o palhaço ficou confusa. Matheus pisou no freio e foi diminuindo a velocidade conforme se aproximavam da coisa fantasiada, que os observava sarcasticamente com a cabeça tombada para a direita e um sorriso macabro no rosto.

— O que ele está fazendo?

— Não sei, talvez vai nos avisar de algum acidente adiante... Ou pode ser alguma promoção nova no posto...

Livia ignorou completamente as hipóteses de Matheus. Mantinha-se focada naquele palhaço e sentia uma estranha sensação ruim. Aquela coisa, de alguma maneira, parecia intimidá-la de uma forma imensa. Os pelos de seus braços estavam arrepiados e sua espinha, gélida como nunca.

— Não vamos parar aqui! — Berrou ela de uma vez, dando um pequeno susto no namorado.

— Mas amor, eu só vou...

— Não vamos, Matheus! — insistiu. — Deve haver outros postos mais a frente, paramos neles e você compra o que quiser... Mas por favor, acelera esse carro e corta esse retardado!

Como sabia que a namorada tinha fobia a praticamente tudo e que palhaços realmente a faziam muito mal psicologicamente, ele assentiu com um acenar e voltou a acelerar o veículo, entretanto o carro morreu num rompante.

— Ai meu pai! — Livia grunhiu, virando-se ao namorado e percebendo de relance que o palhaço ainda não se movia. — O que houve?

— Não sei, acho que morreu. — Matheus girou a chave, o carro emitiu um barulho irritante até finalmente pegar outra vez. A moça suspirou em alivio.

Ele virou a direção do veículo para a outra parte da estrada para desviar do palhaço e acelerou, no entanto o ser maquiavélico foi novamente para frente ao veículo e continuou os encarando. Uma de suas mãos parecia esconder algo atrás de si. No carro, o casal se olhou preocupado e Matheus buzinou para que o outro se retirasse do caminho. Mas não o fez.

— O que ele está querendo? — perguntou o rapaz em dúvida.

— Brincar com a gente! Não vê que é só um retardado tentando nos meter medo? Acelera logo esse carro! Quando ele ver que não estamos pra brincadeiras idiotas, com certeza irá sair da nossa frente!

Atendendo ao pedido de Livia, Matheus avançou com o carro de forma vagarosa na direção do palhaço. Foi então que, de repente, ele amostrou o que tinha escondido todo o tempo na mão esquerda: um par de lanças afiadas.

Separando uma das demais, o palhaço levantou um dos braços e se expressou como se realmente fosse lançar o objeto contra o carro. Livia, aquele momento, já começava a ficar apavorada.

— O que ele pensa que está fazendo?

E o palhaço lançou a arma rumo ao veículo parecendo não dar a mínima se aquilo mataria ou não o casal. Como sempre teve bons reflexos, Matheus jogou seu corpo sobre o da namorada e mandou-a se abaixar. A ponta de metal do objeto passou de raspão pelo braço do rapaz, empalando o banco de trás e atravessando todo o porta-malas a ponto de varar alguns centímetros na parte exterior do carro.

Matheus, ao recuperar-se, notou que fora atingido ao sentir um pouco de dor no antebraço. Entretanto, percebeu que o ferimento nem era tão grave quando o viu. Livia, ao ver o corte, caiu em pânico.

— Ai meu Deus, está ferido! — gritou. — Ele é louco!

— Não se preocupe, pegou só de raspão... — Matheus alegou, encarando o palhaço seguintemente e constatando que ele fazia o mesmo. — Poderia ter nos matado, seu louco!

Ele pretendia sair do carro para ir tirar satisfação com o tal, porém notou quando o palhaço separou uma nova lança com a qual deveria fazer a mesma coisa que a primeira.

— Ele vai tacar outra! — Livia percebeu rapidamente. — Acelera, Matheus! Acelera esse carro e passa por cima!

Matheus não era do tipo de homem violento, muito pelo contrário — se existisse algum aparelho que possibilitava essa medição numa escala de 0 a 10, ele tirava um número negativo. Isso enquanto Livia ultrapassava o limite.

Todavia, naquela situação, não se assimilava nenhuma outra alternativa: era atacar para não ser atacado! E determinado a manter a namorada segura, ele pisou fundo no acelerador e jogou o veículo contra o palhaço — que sequer moveu-se além do que necessitava para lançar a nova lança.

Matheus pediu a Livia para que se abaixasse e permanece assim até que passassem pelo louco, e assim ela se livrou por pouco da arma que acertou a parte de cima do seu acento e adentrou profundamente nele.

A colisão foi forte. O corpo do outro voou alto quando atingido e se impactou várias vezes no capô, painel frontal e no teto do carro até cair de volta na estrada. Matheus prosseguiu até uma distância razoavelmente segura para que não parasse o veículo de forma que ferisse ainda mais quem estivesse por baixo daquela fantasia.

— Você está bem? — ele perguntou à Livia, que só então levantou o corpo e levou um pequeno susto com a lança que viu ao lado de sua cabeça.

— O que aquela coisa queria? Porque tentou matar a gente?

— Eu... eu não sei. — disse, olhando pelo retrovisor de Livia e vendo o corpo estirado no chão. — Fique aqui e tente ligar para a polícia, vou ver se ele ainda está vivo...

— O quê?! Aquela coisa tentou nos matar e você ainda vai socorrê-lo?! — questionou a moça um tanto atônita.

— Livia, não importa o que ele fez, é uma pessoa por baixo daquele disfaçe! Só o atropelei em legitima defesa, mas como qualquer outro ser vivo, também merece ajuda!

Em seguida, Matheus retirou seu cinto e saiu do carro. Livia, revirando os olhos em sinal de desaprovação, pegou seu telefone e logo viu que estava sem rede. Impaciente, ela bateu com o aparelho no painel do carro e urrou um “droga!”, voltando sua atenção para o horrendo horizonte escuro que os contornava.

— Isso não está acontecendo, não está... Ainda vou acordar amanhã e ver que tudo não passou de um pesadelo indecente!

Matheus caminhava vagarosamente até o corpo enquanto olhava nos arredores do posto de gasolina tentando avistar mais alguém para ajudar no socorro, porém o local estava vazio. E realmente a namorada acertou quando comentara que o supermercado estaria fechado, apurou.

Seu corpo estava tão quente devido a toda aquela adrenalina vivida há momentos, que ele nem mesmo chegava a sentir o clima frio que se instaurava ali. Uma fornicação angustiante se instaurava em seu machucado.

A partir dos pneus, um rastro largo de sangue se estendia até onde o corpo jazia. Matheus colocou as mãos na cabeça, vendo a provável merda que tinha cometido, e finalmente chegou próximo ao acidentado. O palhaço se mantinha imóvel ali, não expressava vida e estava com um ferimento externo alarmante em uma das pernas, que parecia ter sido arrancada e apenas uma fina camada de pele e carne a segurava no corpo.

— Ele está bem? — ouviu Livia preocupada do carro. Matheus olhou na direção dela com as mãos na boca, não podia dizer a verdade pois a deixaria surtada.

— Sim, está. — mentiu, retomando o caminho de volta ao carro. — Vamos sair daqui! Logo, logo, ele acorda e volta para o lugar de onde veio...

Enquanto andava, ele tropeçou em uma lança próxima à parte traseira do auto. e quase caiu. Foi impossível não ver que algo rubro manchava a parte afiada da arma, e por um instante ele pensou: se a lança que o atingiu ainda estava presa à seu carro, deveria o palhaço ter feito outros ataques antes de surpreendê-los?

— Então vamos! — Livia falou, vendo-o chegar perante a porta do motorista. — Não se esqueça que amanhã cedo é o casamento da chata da minha irmã... Se não chegar a tempo, ela vai me enjoar o resto do ano!

— Beleza. Deixa eu só tirar essas lanças do carro antes.

Vendo o namorado rodear o veículo e fazer certo esforço para arrancar as armas entrelaçadas na lataria, a moça repousou a cabeça brevemente na lateral de sua poltrona e deu uma última espiada ao redor, naquela região tenebrosa. Estranhamente, ao passar de relance o olhar pelo retrovisor, não viu mais o corpo do palhaço esticado aonde deveria estar.

— Vamos? — Matheus chegou a porta, pretendendo entrar.

Repentinamente, uma lança atravessou o peito do rapaz e fez com que sangue seu jorrasse na garota no banco de passageiro. Matheus ficou paralisado, não conseguia fazer nada além de dar pequenos gemidos que eram causados pelo sangue que se espalhava na parte interna do seu corpo, isso enquanto abaixava o campo de visão e via o que o atingira.

Voltando seu olhar à companheira e sentindo algo tocar na lança que o penetrara — e que agora começava a causar uma dor terrível -, Matheus murmurou algo como “saia daqui”, em um tom quase inaudível, para ela e usou a força que o restava para empurrar sua porta e fechar o carro. Nos segundos seguintes, foi tragado fortemente para trás por alguém.

— Matheus! — Livia gritou em desespero, começando a chorar por não ver o companheiro pelo retrovisor. Virou o corpo, tentando vê-lo pelo vidro do fundo do carro, porém aquele era escuro de mais para conseguir enxergar alguma coisa através dele.

Uma gargalhada apavorante foi dada por alguma coisa bem próxima ao veículo, e que a deixou ainda mais tensa. Livia não viu a chave na ignição, mas de qualquer forma ela não tinha a mínima ideia de como ligar um carro. Contudo, notou pelo retrovisor uma das lanças caída na estrada, bem próxima da porta de Matheus, do lado de fora. Talvez pudesse ser a única chance de sair viva dali, matando aquela coisa e indo socorrer o namorado.

Com as mãos trêmulas, ela cambaleou o mais silenciosamente possível até o banco do motorista e engoliu em seco antes de levar os dedos até a trava para abrir a porta. A risada havia cessado, nenhum barulho além dos múrmuros dela mesma eram ouvidos. A oportunidade perfeita para saltar do carro e agarrar aquela lança, pensou ela.

Agindo com calma, Livia abriu a porta do motorista e a empurrou vagarosamente até atingir uma distância favorável para a sua saída. Uma ventania fria penetrou no carro e fez os pelos da jovem se arrepiarem. Após checar a lateral do veículo pelo retrovisor e ver limpa a área, ela desceu do carro cuidadosamente e se manteve agachada por algum tempo para não chamar a atenção do outro.

Quando pretendia dar o primeiro movimento com as mãos, Livia vira o corpo de Matheus sob o veículo, com os olhos abertos e uma expressão de pavor. Estava aparentemente sem vida. Sua boca lembrava uma pequena cachoeira de sangue, o mesmo acontecia com o buraco em seu peito.

Lágrimas saltaram automaticamente dos olhos da moça enquanto seus dedos batiam um contra os outros de aflição e horror. Ela tapou a boca para não deixar que suas lamúrias soassem muito altas e prosseguiu rastejando até a lança.

Eu vou matar aquele desgraçado, pensou, chegando a uma distância relativamente próxima da arma e levando uma das mãos para agarrá-la. Entretanto, antes que pudesse concluir tal, a fina linha de um provável ioiô se enroscou em seu pescoço no instante em que as risadas retornavam. Ela lutou para se desvincular da linha que, a este ponto, dava inicio a seu asfixiamento. No entanto, não conseguiu sair e foi puxada brutalmente para cima do carro.

Segundos após, seu corpo retornou à estrada com um grande corte forçado em seu rosto, alargando o limite de sua boca e imitando uma risada irônica. Seu olhar espantado indicava o medo que preencheu sua alma quando ficou frente a frente com "ele".

Livia também estava morta.

Apesar disso, as gargalhadas continuavam...

SORRIA!

Notas finais
õ/