Sorria! [Em Hiatus]
2 Capítulo 2
Notas iniciais
O dia estava claro, os raios do sol brilhavam forte sobre aquela Belo Horizonte movimentada. Uma verdadeira aglomeração de pessoas lotava a pequena feira de variedades no centro da cidade. Um veículo branco com um emaranhado monte de malas amarradas sobre o teto acabava de parar num estacionamento próximo dali.
— Ainda não consigo entender porque eu preciso ir nessa viagem estúpida! — reclamou secamente a garota com expressão de raiva, sentada no banco de trás do carro. O homem de aparentes quarenta e poucos anos que estava de motorista se virou para ela, ofegante. Teria de mais uma vez explicar a mesma coisa.
— É a viagem de lua de mel de Elena e eu. — respondeu Vicente.
— Exatamente, de vocês! Pai, eu não tenho nada a ver com isso! — retrucou a filha. — Se bem que você sabe que eu não vou com a cara daquela mulher...
— O nome dela é Elena e ela é, de agora em diante, a sua madrasta, Jacinta!
— Não, pra mim ela continua sendo uma ninguém. Não é porque o senhor está cego e não vê que ela só está interessada no seu dinheiro, que eu vou furar meus olhos também!
— Olha bem como fala comigo, mocinha...
— Porque se não o quê? — A jovem o olhou dando de ombros. — Vai me obrigar a ir na viagem das Bodas de Ouro também?
Em seguida, a garota puxou o celular do bolso e foi descarregar sua revolta no mundo virtual. Revirando os olhos, Vicente saltou do veículo e fechou sua porta. Antes de entrar naquela multidão em busca de sua amada, chegou perante o vidro da porta traseira – que se situava aberto — e olhou para a filha pela aresta.
— Vem comigo ou vai ficar ai?
— Não demora. — pediu, sequer mudando seu campo de visão que permanecia no aparelho digital em suas mãos. — Ah, e se decidirem ir de lá mesmo, sintam-se livres! Eu trouxe dinheiro, pego um ônibus e volto pra casa numa boa!
— Sinto desapontá-la, mas não vai acontecer!
Dito isso, Vicente se afastou da porta e foi a procura da barraca de Elena. Mesmo com a quantidade absurda de pessoas que praticamente se pisavam para comprar os itens tão esperados que finalmente haviam entrado em promoção, não fora tão difícil alcançar a barraca de cremes enumerada por um 13 — até porque ele já tinha se acostumado com aquele trajeto, afinal, passou o ano interior indo ali praticamente todos os dias.
Lá, Elena terminava de atar a última caixa com suas mercadorias. Quando pretendia pegá-la para levar ao galpão ao lado onde deixava-as guardadas até a hora de reabrir sua feira, ela foi surpreendida por Vicente, que agarrou a caixa para si num gesto de cavalheirismo e deu um selinho rápido nela.
— Amor, já disse que não precisa me ajudar nessas coisas... — comentou, vendo o marido levar a mercadoria até o galpão e o acompanhando até lá.
— Faço questão! — ele respondeu com um sorriso amarelo. — Afinal, você agora é minha esposa! De forma alguma irá ficar pegando pesos por aí quando eu estiver por perto!
— Larga de besteira, seu bobo! Sabe muito bem que não tenho nada contra trabalho e que não gosto de depender de ninguém pra fazer as coisas pra mim!
Elena, passando à dianteira, destravou a porta do cômodo e Vicente colocou a caixa com os produtos cuidadosamente sobre outras em uma pilha. A moça então esperou o homem retornar para fora e selou a sala, sendo em seguida pega de surpresa por um confortável abraço dele.
— É exatamente por isso que eu me apaixonei por você logo que a conheci! — declarou.
***
Jacinta demonstrava-se visivelmente impaciente com um jogo que ela tentava vencer no telefone. Falhando miseravelmente outra vez, bateu com as mãos no banco com rigidez e manifestou uma grande decepção. Como já se descobria bem chateada devido a situação atual de sua vida, com uma mulher “arrogante” – no seu ponto de vista — tentando ser a sua mãe e um pai que lhe tratava como uma incapaz, não era necessário muito para abalá-la.
Olhando ao redor com desinteresse e procurando suavizar o ânimo, ela achou a imagem de sua mãe biológica – onde esta a pegava no colo quando ainda era uma criança e a entretinha com um brinquedo de balançar — na tela de fundo do próprio celular e foi tragada para as lembranças felizes que tivera com ela ao seu lado durante vários momentos de sua vida.
A saudade era inquestionável. Vontade não faltava de desejar que a mãe não tivesse morrido e que a doença que a fez ir a óbito passasse para outro – como para Elena, por exemplo -, mas Jacinta sabia que vontade não significava sucesso. Mas o pior, o que mais fazia seu coração latejar, era não ter podido estar com a mãe em seus últimos dias.
Percebendo que suas recordações levavam a um rumo que ela queria esquecer, Jacinta virou o rosto num gesto brusco para tentar mudar o pensamento e sem querer esbarrou um braço no controle do som que jazia sobre o seu assento, derrubando-o. Na colisão com o fundo do carro, o botão Power do controle foi pressionado e o som ligou diretamente na rádio local.
“E voltamos novamente com o alerta sobre a tempestade que atingirá logo mais a faixa central da Via do Riso, entre São Paulo e Belo Horizonte. Com ventos de mais de 150 km/h sendo esperados e uma chuva fora do comum, além da alta possibilidade de queda de raios e da criação de pequenos tornados nas encostas, a orientação dos meteorologistas é que as pessoas evitem ao máximo passar pelo trecho, alternando de caminho e usando a rodovia principal para ir de uma capital à outra em segurança. Serão poucos quilômetros a mais que poderão salvar vidas e impedir acidentes fatais...”
Sem qualquer interesse em saber do boletim do tempo, Jacinta pegou o controle e desligou o som. No momento seguinte, a porta da frente do passageiro se abriu. Era Elena chegando.
Seu pai, ao lado de fora, ajeitava a bagagem da mulher junto às suas no teto.
— Jacinta? — falou a loira surpresa ao ver a enteada, com um semblante aprazível no rosto. — Que bom que quis vir conosco!
— Na verdade, fui obrigada mesmo... — respondeu com uma cara nada agradável.
— Não queria vir? Ah, mas pense bem, será legal! Vamos à praia, em shoppings, visitaremos pontos turísticos... Vai poder tirar muitas fotos para amostrar para os amigos!
— Isso se eu não morrer de desgosto até voltarmos...
Vicente entrou no carro, suspirante. Tinha dado certo trabalho encaixar as últimas malas naquela bagunça de coisas amarradas por trucentas cordas. Todavia, como dito, aquelas foram as últimas.
Olhando para as moças em sua companhia, as perguntou:
— Prontas?
— Claro! — disse Elena em uníssono com Jacinta, que respondeu um “Não!” bem grave. A madrasta observou de espreita a garota e percebera o quão insatisfeita ela estava tendo que participar daquilo. — Amor, a Jacinta parece não estar muito afim de ir... Porque não a deixa ficar em casa?
— Não há ninguém para tomar conta dela, Elena.
— Pai! — interrompeu a filha, pondo-se ancorada no espaço entre os dois bancos da frente. — Eu já tenho 18 anos, sou maior de idade! Já sei me virar muito bem sozinha!
— Felizmente eu não penso assim... Você vai, e pronto!
Sabendo que quando o pai colocava algo na cabeça nada podia fazê-lo mudar de ideia, Jacinta nada pôde fazer além de debruçar-se no banco e pegar o celular para se distrair. Logo, o Vicente ligou o veículo, abriu um sorriso largo para a esposa e então eles partiram rumo às férias mais inesquecíveis de suas vidas... no mau sentido, é claro!
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