Sonic Tales
5 Remontagem - Ato I
Notas iniciais
— Quê? — Sonic agarrou uma das pontas e puxou, revelando um novo cartaz com um novo padrão. — Não acredito! Então era isso! — Sonic exclamou decorando rapidamente o padrão e nadando da melhor forma que podia até a última porta.
Diamante, diamante e gema retangular na primeira fileira; diamante gema retangular, diamante e gema retangular na segunda fileira e por fim, gema retangular, diamante e diamante na terceira fileira.
A porta foi desbloqueada.
Aparentemente não havia nada dentro daquela sala.
Prendeu o fôlego por um instante e olhou debaixo da água para ver se havia algo submerso ali. Notou então que havia uma pequena escultura de corvo presa ao chão bem no meio da sala. Era tão miúda, que Sonic não conseguia ver alguma maneira de usar aquilo para decifrar outro enigma.
A única coisa que conseguia associar àquela escultura era aquela frase: “Qual é a semelhança entre um corvo e uma escrivaninha?”.
Quando se deu conta, estava sentindo seu fôlego esgotar-se e teve que subir.
Se não fizesse nada morreria, afogado.
Olhou para todos os objetos a sua disposição. O relógio de bolso, a caixinha, o frasco e a mensagem.
Sonic leu mais uma vez a ordem daquela etiqueta: “Beba-me”. Naquela altura não parecia tão arriscado experimentar beber aquilo, afinal foi encontrado durante a resolução de um quebra-cabeça, poderia ser útil de alguma forma. De qualquer maneira, mesmo se aquilo fosse veneno, ele estaria destinado a morrer de qualquer forma, então por que não tentar? Quem sabe aconteceria algum milagre...
Era ao menos o que Sonic esperava. Então destampou o frasco e bebeu tudo num gole só.
Uma mistura de sabores interessante...
De súbito, sentiu o esôfago arder. Ardia tanto que começou a tossir. Junto desse efeito, sentiu seus ossos e músculos se contraírem e tudo pareceu ficar enorme.
Quando se deu conta de que havia encolhido, estava medindo 22 centímetros.
Viu os objetos boiando sobre a água. Por alguma razão, sua intuição indicava que o bico-de-pena tinha algo a ver com o corvo. Pegou rapidamente a peça e mergulhou até alcançar o corvo antes que o nível da água subisse demais.
Notou que a escultura do animal não estava completa... Estava faltando o bico, o que deixava o corvo com uma aparência um bocado perturbadora. Resolveu experimentar encaixar o bico-de-pena no corvo na esperança de que aquilo servisse para algo e para a sua alegria, ouviu um estalo.
A cabeça do animal inclinou-se para trás, revelando uma pequena chave de dar corda. Sem pensar duas vezes, Sonic a girou,
Aquilo desfez a última parte do escudo, libertando a chave do pedestal.
Com o que lhe restava de fôlego, Sonic nadou enquanto sentia a fraqueza pesar e a visão ficar cada vez mais turva.
Convenientemente, notou uma pequena porta a sua frente, no entanto não tinha forças para alcançar a porta, então olhou para cima.
A superfície estava muito distante e o ouriço não tinha habilidades boas o suficiente para nadar até lá a tempo, para seu completo desespero.
Tocou o peito assim que sentou seu fôlego esgotar-se, o fazendo se engasgar com uma porção de água.
— Oh, não! — Sonic gritou mentalmente. — Desse jeito eu vou morrer!
A pequena caixinha, que para Sonic não parecia mais tão pequena assim, passou flutuando na frente dele. Notou que havia um bolo dentro daquela caixa, cuja cobertura formava “coma-me” em letras graúdas.
Abriu a tranca da caixa sem pensar duas vezes e comeu o bolo, esperando o alimento surtir algum efeito que o salvasse.
O sabor era um tanto peculiar, parecia haver ingredientes diversos, uma mistura de sabores surreal, uma sinfonia do doce, do salgado, amargo, picante, suave, tudo em perfeita harmonia. Um sabor esplêndido.
Ao mesmo tempo, o ouriço sentiu seus músculos e ossos se estenderem se forma rápida, lhe causando estranheza.
Quando se deu conta, estava medindo 3 metros e seu corpo reluzia nos mesmos tons que o bolo.
— Caraca! — Sonic exclamou incrédulo.
Aproveitando seu tamanho, conseguiu subir para a superfície, onde recuperou seu fôlego.
— Estou vivo! — festejou aliviado.
No entanto, sua felicidade não duraria muito tempo, pois faltavam poucos metros para o salão ficar completamente submerso.
— NÃO! VOCÊ NÃO VAI FUGIR! — gritou a voz com força. — A CULPA É SUA! A CULPA É SUA!
— Cale essa boca! — Sonic gritou por puro impulso colocando as mãos na cabeça. — Se não posso sair daqui por bem, vou sair por mal! — acrescentou furioso.
Aproveitou seu tamanho para empurrar as paredes. Faria isso até as estruturas cederem. Como seu tamanho era grande, não tinha medo de ser esmagado.
Aquela voz soava mais irritante do que nunca.
— VOCÊ VAI MORRER!
Um compartimento abriu do teto, derramando água em alta quantidade em cima da cabeça do ouriço.
— AAAAAAAAI!!! — protestou Sonic.
Aquela água estava absurdamente quente, o que não impediu seu sangue gelar de horror.
Não sabia o que o mataria primeiro, o afogamento, ou a temperatura que o transformaria em ouriço cozido em questão de minutos.
Ou segundos...
Como se sua situação atual não fosse crítica o suficiente, Sonic sentiu seu corpo diminuir de tamanho novamente numa velocidade absurda. O ímpeto das águas turbulentas fizeram a chave escapar das mãos de Sonic e quando se deu conta da situação, estava submerso.
Ele não sabia nadar, estava minúsculo, as águas estavam agitadas e muito quentes, sua fobia de água estava ainda mais intensa, a possibilidade de nunca mais respirar, da possibilidade de morrer afogado o envolveu em puro terror.
Desesperado, tentou nadar como pôde para cima na tentativa de conseguir fôlego, mas sentia seu corpo pesado demais e estava afundando muito rápido. Com seu fôlego se esgotando, sentiu a fraqueza vindo.
Não conseguiria subir.
E desta vez não tinha mais nenhum truque para escapar.
— O que... Vou fazer? — pensou enquanto tentava entender como as coisas chegaram naquele ponto.
Tinha tanta coisa que queria saber, descobrir, seus amigos, seu planeta, o relógio, a mensagem...
A culpa...
Vislumbrou por um segundo uma luz no fundo daquelas águas.
Nadou desajeitadamente em direção àquela luz.
Sua última esperança.
Não sabia como, mas de alguma forma, ele conseguiu chegar até lá, esticou sua mão e alcançou aquela luz.
Era a chave.
Perto dali, estava a porta, aquela pequena porta, a sua saída.
— Sonic! — chamou novamente aquela voz.
Aquilo conferiu-lhe mais força para alcançar a porta.
Torceu para que aquela fosse a porta para sair dali.
Com o que lhe restava de forças, alcançou a maçaneta e colocou a chave na porta, ao abri-la, foi imediatamente empurrado para fora sendo levado pela correnteza das águas.
Finalmente podia respirar.
— NÃÃÃÃÃÃO!!! — bradou a voz irada.
Sonic correu contra a correnteza e assim que alcançou a porta, viu as sombras se aproximarem, mas antes que elas o alcançassem, ele fechou a porta e a trancou.
— Não acredito... — Sonic caiu ajoelhado na frente da porta completamente encharcado. — Eu sobrevivi, eu realmente sobrevivi!
Olhando para baixo, notou que tanto o relógio quanto o papel estavam ali, molhados, mas inteiros. Ficou impressionado principalmente por conta do papel. Como resistiu às águas?
Sabia que estava minúsculo, pois o relógio tinha aproximadamente um quinto de sua altura naquele momento. Pegou os objetos que foram salvos e começou a andar pelo jardim se perguntando como voltaria ao normal.
O jardim era belíssimo. Chegou se perguntar se ainda estava na mesma dimensão. O céu azulado, nuvens fofas cruzando o céu, a grama em tom verde vivo, as flores que emanavam um delicioso aroma que o ouriço desconhecia, mas sentia familiaridade, e que pareciam do tamanho de árvores, aparentavam dançar à brisa refrescante. Não havia mais escuridão, odores tóxicos, gritos, criaturas assustadoras. A atmosfera mudou completamente.
Mas estaria livre?
— Onde será que estou? — Sonic se perguntou. — Queria poder voltar ao tamanho normal, assim poderia ver melhor que lugar é esse.
De repente, trombou contra algo.
Quando olhou o que bloqueava o seu caminho, notou um cogumelo gigante... Ao menos era gigante para ele.
— O que é isso? — Notou uma plaquinha cravada no chão à sua direita. — “Cresça”. — leu. Do outro lado havia outros plaquinha. — “Encolha”. — leu o ouriço esperançoso. — Será que são os lados do cogumelo? Só experimentando para saber!
Arrancou um pedaço de cada lado do cogumelo para o caso de algo dar errado.
Abocanhou o lado que dizia “crescer”. De súbito, começou a crescer de forma absurda, até alcançar 6 metros.
— Ah não! Cresci demais! — Sonic abocanhou com cuidado o minúsculo pedaço do lado que dizia “encolher”.
Diminuiu até alcançar 50 centímetros.
— Está quase lá... — Sonic abocanhou o outro pedaço novamente, terminando com ele. Cresceu até alcançar 2 metros. — Caraca, que loucura! — comeu o último pedaço, alcançando seu tamanho habitual. — Hum... Vejamos...
Sonic caminhou pelo jardim, pegou o relógio de bolso e o papel que ainda se encontravam um pouco molhados, olhou em volta e sorriu.
— Este é o meu tamanho! — exclamou sentindo a convicção.
Achou um tanto peculiar o quão conveniente foi ele se deparar com um cogumelo no meio daquele jardim, com aquelas plaquinhas, segundos depois dele ter desejado voltar ao tamanho normal.
Seria alguém orquestrando tudo isso?
Sonic foi até onde encontrou o cogumelo na esperança de conseguir pistas, mas ele não estava mais lá.
— Ué, mas estava bem aqui! — Sonic argumentou extasiado.
As coisas estavam cada vez mais estranhas... Mas ficou feliz que a situação parecia mais favorável que antes.
— E agora? — Sonic se perguntou. Não fazia a mínima ideia de onde estava, tampouco de para onde deveria ir. Olhando de cima, viu um extenso jardim que parecia muito bem cuidado.
Uma melodia começou a ressoar...
Uma voz fina em tom doce estava cantarolando.
— Essa é a mesma melodia... — Sonic abriu o relógio de bolso, por acaso as melodias estavam sincronizadas, destacando ainda mais suas semelhanças.
Uma voz familiar...
Como se seu corpo tivesse adquirido vontade própria, se sentiu indo em direção àquela voz, movido pela curiosidade, nostalgia...
Saudades...
— De quem é essa voz? — Sonic se perguntou em pensamentos, pois não queria chamar a atenção ou espantar quem quer que fosse.
Até seus passos eram cautelosos.
O som estava cada vez mais próximo.
— Eu preciso saber!
Vislumbrou a sua frente, uma silhueta aparentemente humana trajando um vestido que esvoaçava ao vento.
Ela parecia ter notado a presença do ouriço e se voltou em direção a ele.
Quando estava ao ponto de ver de quem se tratava, sentiu um vão embaixo de seus pés e assim, caiu.
Durante a queda, percebeu que parecia mais leve que o normal ou a gravidade estava menos intensa, pois sua queda era lenta, como se ele tivesse o peso de uma pena.
— O que é isso agora? — Sonic olhou para cima. O céu estava ficando cada vez menos visível a medida que caía. Olhando para baixo, não conseguia ver nada. Teve medo que caísse em algum lugar escuro e perigoso novamente.
Ao redor haviam muitas coisas flutuando, prateleiras, penteadeiras, cadeiras, espelhos, utensílios de cozinha e até um piano de cauda.
Um tanto familiar com o lugar que esteve no começo...
Pegou um pote que estava disposto numa das prateleiras, constava na etiqueta que se tratava de geleia. Após cair mais um pouco se deparou com uma colher e então a pegou, destampou o pote e comeu uma colherada daquela geleia.
— Chilly Dog! — Sonic exclamou. — Não acredito que existe geleia disso!
Sentiu como se fizesse muito tempo desde que comeu a última refeição e sua barriga parecia um buraco negro, apesar do frasco que bebeu e o bolo que comeu, não pôde evitar comer todo o conteúdo daquele pote de tanto que sentia fome.
Para o seu desgosto o pote terminou rápido, não saciando sua fome.
— Seja quem for que fez isso, tem um ótimo gosto! — Sonic colocou o pote e a colher numa prateleira disponível que passou por ele.
E continuava caindo, caindo e caindo...
A medida que caía mais, se deparava com outros objetos muito familiares, molas, corrimões, espinhos, bolas giratórias, cristais coloridos, anéis... Aquilo o lembrava a Dimensão Especial, mas também o lembrava sua casa, eventualmente se separava com algumas destas coisas.
— Por quê? — se perguntou.
E continuava caindo, caindo e caindo...
— Será que eu vou ficar caindo aqui para sempre? — Sonic se perguntou.
Embora aquele parecesse um lugar interessante e muito menos assustador do que tudo que teve que passar até ali, não queria ficar caindo naquele túnel vertical para sempre.
Ele só queria voltar.
De súbito, o túnel parecia estarei acabando, um flash de luz piscou ofuscando sua visão...
***
Tudo estava escuro, de alguma forma, era uma escuridão acolhedora, bem como o silêncio sereno. Fazia algum tempo que não estava em um estado assim.
De repente, um flash seguido de um estrondo alto o fez despertar de seu inconsciente.
— O quê?! — Sonic sentou-se num sobressalto. Ele já havia perdido a conta de quantas vezes perdeu a consciência.
Olhando em volta, notou que estava em um lugar assustadoramente familiar…
Não era nenhum cenário que viu na Dimensão Especial.
O chão de xadrez alternando entre preto e branco, cortinas envelhecidas, janelas sem vidros… Aquilo tudo era muito parecido com a construção onde estivera com Tails.
O vento assoviou, soprando em sua direção, e como não haviam vidros, a chuva foi levada para dentro, o molhando.
Sonic protegeu o rosto com uma das mãos enquanto se inclinava um pouco no parapeito da janela, na tentativa de se localizar.
No meio daquele breu, Sonic conseguiu enxergar um pouco de terreno a sua frente. Assim que outro flash surgiu, seguido por um estrondo, notou que estava no meio de uma tempestade e a luz momentânea o fez enxergar uma floresta ao longe, indicando que ele se encontrava em um lugar muito alto.
Raciocinando um pouco, concluiu que não poderia estar no mesmo lugar que esteve com Tails, por mais que o lugar fosse semelhante, a construção estava no subterrâneo de Mistic Ruins, já esta onde se encontrava naquele momento, parecia estar na beira de um penhasco.
Mas a julgar pelo céu, a tempestade, o ambiente natural do lado de fora e a ausência de odor intoxicante, ele se encontrava fora da Dimensão Especial.
Finalmente.
— Preciso saber onde fui parar. — Disse Sonic, voltando para dentro.
Estava bastante escuro, mas sua visão já estava se adaptando, o que facilitava bastante as coisas para ele.
Sonic se agachou e pegou o relógio de bolso que estava caído no chão. Olhou em volta, mas infelizmente não localizou a mensagem.
— Droga, onde será que está? — Sonic procurou ao redor, mas nem com os eventuais raios, Sonic conseguia encontrar aquele pedaço de papel novamente.
Por alguma razão, sentia que aquela mensagem fosse importante, mesmo que não soubesse a verdadeira natureza daquela mensagem.
Toda pista era importante para Sonic.
O que lhe restava era lembrar de tudo que podia daquelas palavras.
— Recebi aquela mensagem porque aquela pessoa falhou, uma tal de Alice nasceu, ele sabe que encontrei um relógio de bolso que toca música, que eu deveria sair da Dimensão Especial antes que acabassem comigo e ir atrás da verdade… — Sonic listou, sussurrando para si mesmo enquanto caminhava pelo ambiente. — Assim que eu sair daqui, vou anotar tudo isso.
Era um tanto intrigante para Sonic como o remetente adivinhara sobre ele, o relógio de bolso e mencionou uma Alice. Seguia se perguntando se era a mesma pessoa que aqueles monstros medonhos mencionaram. E o que ele teria a ver com tudo isso? Seria mesmo que ele fosse o remetente daquela mensagem?
O chão parecia tão podre que até rangia e em um dos passos de Sonic, por mais que tivesse sido cuidadoso, o chão cedeu e o ouriço caiu daquele andar, interrompendo todas as suas reflexões.
— Droga, o que aconteceu? — Sonic sentou-se examinando a si mesmo.
Para a sua sorte, não quebrou nada na queda.
Subitamente, escutou um rugido baixinho atrás dele, o fazendo arregalar seus olhos. Sentiu algo bufar atrás dele, soltando um ar quente.
Num movimento rápido, se pôs em pé e virou-se em direção daquele barulho com o coração disparado.
Um par de pontos brancos surgiu em meio a escuridão, seguido por outros pares de pontos brancos. Por fim, diversos sorrisos largos apareceram antes das criaturas rosnarem para Sonic, avançando logo em seguida.
Sonic, que até então se encontrava paralisado, deu meia volta e saiu correndo aos tropeços, pois haviam muitos destroços no chão, desde pedaços de madeira que caíram do andar de cima, até pedaços de concreto das paredes, pilhas de caixas, portas destruídas, cerâmicas…
Mas Sonic não tinha tempo para ler o ambiente, atravessou a primeira porta que viu e fechou-a atrás de si sentindo as batidas logo em seguida.
— Parece que esse inferno não acaba… Ai! — Sonic sentiu outra violenta batida na porta. — Eu só… Eu só queria poder encontrar um rosto amigo! — Sonic esticou o pé desesperado na tentativa de puxar para perto de si uma viga de madeira e bloquear a entrada. Assim que conseguiu apanhar a viga, bloqueou a entrada e suspirou.
Estava cansado, estressado e desanimado de tanto fugir e encarar rostos monstruosos. Mas antes que pudesse refletir mais sobre aquilo, o relógio caiu de sua mão e no impacto abriu-se, tocando aquela melodia novamente.
Era a única coisa relaxante a si para fazer em meio a todos aqueles acontecimentos.
Enquanto alguns rosnados se afastavam, outros ainda insistiam em entrar. Sonic sabia que não tinha muito tempo, então saiu dali silenciosamente, passando para outro cômodo.
Não tinha certeza se de fato mudou de cômodo, pois estava tudo tão escuro e bagunçado, que era difícil fazer uma distinção entre as coisas, mas levando em consideração de que atravessou o que parecia uma porta, embora a própria não estivesse lá, foi o que pensou.
Assim que chegou no outro cômodo e se certificou de que não ficaria encurralado, empurrou um armário que estava perto da passagem e bloqueou a entrada, colocando vários objetos na frente por precaução.
Caminhou vagarosamente pelo ambiente para explorar o lugar melhor, sentiu uma presença que o deixou bastante intrigado, mas não teve tempo para pensar sobre isso, pois acabou pisando em falso em um buraco, quebrando o chão podre ainda mais e caindo mais um andar.
— Ai… O que foi isso? — Sonic ergueu o corpo tentando descobrir em que superfície macia havia caído.
Quando olhou o que havia debaixo de suas pernas, notou um vestido azul-claro e após a barra do vestido, adornada de babados brancos, havia um par de pernas revestidas de uma meia-calça branca e sapatos de fivelas cor de cobalto.
Aquilo era um corpo?
Num salto, Sonic tirou suas pernas de cima do colo daquilo.
— O que é isso? — se perguntou, engolindo em seco. Olhando para a parte superior, finalmente notou que tinha aparência humana.
Seu vestido azul com avental branco a destacava do restante do ambiente escuro e sujo. Sua pele pálida, madeixas loiras que se dividiam ao meio, contornando seu delicado rosto, terminando em um cacho perfeito de cada lado, franja penteada e um par de mechas finas e teimosas que se arrepiavam para cima a destacavam ainda mais. Ela parecia uma peça estranhamente limpa e nova para estar num lugar como aquele.
— Uma boneca... — Sonic suspirou.
Apesar de não ter tido experiências nada positivas com bonecas, aquela em particular, era muito bonita e não lhe transmitia nenhum sentimento aterrorizante, em vez disso, sentiu uma súbita nostalgia. Após olhar um pouco mais para o rosto da boneca, notou que ela possuía uma expressão adormecida que parecia refletir tristeza.
— Ela parece tão real... — Sonic estendeu a mão para tocar seu rosto e ter certeza se a peça era feita de porcelana.
Suas pálpebras se abriram de súbito, revelando seu par de olhos cor de safira. Ela inclinou a cabeça para Sonic o encarando antes de saltar para trás.
Sonic tampou a própria boca contendo o impulso de gritar saltando para trás.
— Where am I? — indagou parecendo muito assustada. — Pourquoi fait-il si sombre? Kde je pan Oz?
Sonic saltou em cima dela, desta vez, tampando a boca dela, pois aquilo poderia atrair a atenção das criaturas que o perseguiram.
— Shiu! Vai chamar a atenção deles! — Sonic tentou calá-la, embora não tivesse certeza de que ela compreendesse o que ele dizia.
Jurava estar na frente de uma boneca poliglota. Estaria estragada? Seria perigosa?
Será que sequer era uma boneca?
— ¿Quien esta ahí? — indagou assim que conseguiu libertar sua boca. — Por favor, me deixe ir embora! — implorou ela finalmente falando de forma que o ouriço pudesse compreender.
Ela parecia completamente apavorada.
— Shhhhhhhhhhh! Eu não vou te machucar — disse —, mas faça silêncio, porque tem uns bichos por aqui e eles sim são perigosos.
Quando recuperou a calma, olhou para ele com os olhos tão arregalados, que Sonic pensou que os globos saltariam para fora do rosto dela a qualquer momento.
— O que está fazendo aqui? Este lugar é perigoso! — Sonic resolveu tomar a palavra.
A menina-boneca parecia tão perdida e assustada, que Sonic nem esperava que ela respondesse aquela pergunta.
De repente, um estrondoso ruído fez os dois darem um pulo de susto. Eram as criaturas tentando invadir o local.
E estavam conseguindo fazer isso, não por um, mas vários lugares ao mesmo tempo, para o completo desgosto de Sonic e o pavor da menina.
— Rápido, temos que vazar daqui! — Sonic puxou a criança pela mão desesperado.
— N-não consigo! — ela gaguejou.
— O quê? Não consegue o quê? — Sonic perguntou ainda mais desesperado.
— Não consigo me levantar! — enfim disse a menina.
— Como assim?
As criaturas romperam as estruturas das paredes e o que sobrou do teto.
Para a sorte de Sonic, ele havia conseguido se esconder a tempo com a criança misteriosa.
As criaturas passaram pelo cômodo a procura de sua presa.
Debaixo do armário caído onde estavam os dois escondidos, puderam ver a fumaça negra que emanavam das criaturas quando passaram em frente deles.
A menina inspirou assustada prestes a soltar um grito, mas antes Sonic tampou sua boca.
E ali ficaram em total silêncio.
Os pensamentos de Sonic estavam a mil, não sabia o que fazer numa situação como aquela. Ainda não havia conseguido se localizar, tampouco sabia o que fazer com as criaturas e como sairia dali salvo com uma menina misteriosa.
Antes que pudesse pensar em algo, viu a sua frente um dos rosto macabros daquelas criaturas.
— AAAAH! — Sonic levantou de susto e acabou batendo a cabeça contra uma das prateleiras daquele armário destruído.
— AAAAAHHH!!! — a criança soltou um grito ainda mais longo enquanto era arrastada para fora por outra criatura.
— Ei! Deixem ela em paz! — Sonic correu atrás das criaturas e sua refém. — É a mim que vocês querem, não é?
Num movimento involuntário, ele atirou-se no formato de uma bola contra a criatura que estava arrastando a menina na tentativa de defendê-la.
No processo, acabou perdendo o relógio de bolso, que caiu a um metro e pouco da menina.
— Toma, cuidado! — Sonic gritou para a criança ao relento, que estava ao ponto de ser acertada por outra criatura.
Ela deitou no chão e rolou para o lado a tempo de não ser pega em um golpe antes de ficar de bruços novamente.
— Caramba, me larga! — Sonic se debateu enquanto tentava se libertar de uma das entidades escuras.
— Fuja daqui! — gritou a menina assustada.
— E te deixar aqui sozinha? Nem pensar! — retrucou Sonic acertando o que parecia o rosto da criatura com um chute.
A criança se arrastou pelo chão empoeirado até alcançar o relógio e o pegou o levando para junto do peito.
Sonic enfim conseguiu se libertar por entre as garras dos monstros. Num movimento rápido, Sonic pegou a perna de uma mesa e acertou um dos monstro em cheio, conferindo-lhe assim tempo para pegar a menina, se esquivar por entre as criaturas restantes e escapar aos tropeços por uma das aberturas por eles criadas.
— Why are you helping a stranger? I'll just get in the way! Save your life! — gritou a garota, trastornada.
Sonic não compreendeu aquela reação e nem tinha tempo para pensar sobre aquilo.
— Que tal fazermos uma troca de favores? Eu serei suas pernas e você meus olhos! — propôs Sonic. — Poderia por favor me dizer quantos deles estão atrás de nós? — Sonic perguntou para a menina, pois não podia olhar para trás.
Ela estranhou tal comportamento. Após recobrar os movimentos, olhou atrás deles.
— T-todos eles! Eu acho… Não consigo distinguir suas formas…
Sonic correu o mais rápido que pôde pelos corredores. Para o azar dele, eram todos muito parecidos e ele não tinha ideia para onde ia.
Apenas que estava subindo, pois não encontrava nenhuma via para descer.
Até que ele chega em um salão… Ou metade dele ao menos.
Havia uma gigantesca abertura numa das metades, o chão completamente destruído, a ventania perturbadora sacudindo as estruturas…
Eles estavam encurralados.
Os rugidos esfomeados vindos do lugar onde Sonic havia acabado de passar, sua única rota de fuga, sinalizaram que as criaturas estavam se aproximando.
Não havia mais para onde fugir.
As criaturas avançaram sem piedade para cima dos dois, como se fossem devorá-los naquele instante.
E num piso em falso, Sonic acabou caindo junto com a menina daquele salão penhasco abaixo, em direção a um rio cheio de pedras.
E a última coisa que viu, foi um vulto subir na direção dos monstros, impedindo estes de saltar atrás deles.
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