Sonic Tales
6 Remontagem - Ato II
Notas iniciais
— Eu farei você se arrepender por ter se intrometido nisso! — uma voz afirmou aos gritos em tom ameaçador. A voz estava tão distorcida, que não era possível identificar o dono de nenhuma maneira.
— Fuja daqui! Fuja daqui! — gritou uma voz fina e desesperada logo em seguida. — Salve sua vida! Fuja daqui!
— Alice! Fique calada! — Mais alguém parecia ter intervindo.
Em meio daquelas vozes, não era possível visualizar nada. Não havia uma imagem clara a sua frente.
— Não! Me solte! Deixem ele em paz! Ele não fez nada! — berrou a jovem, histérica. — A culpa é minha!
Ele tentou apalpar o ambiente ao seu redor, na tentativa de alcançar a menina, sentindo o perigo eminente.
Até que sentiu algo puxar seus pulsos e um estridente ruído de grilhões ecoar pelo ambiente.
Algo estava o mantendo imobilizado.
— Me soltem! — protestou, tentando se libertar daquelas correntes.
Todavia, eram tentativas inúteis, quanto mais lutava, mas sentia seus pulsos arderem, sinalizando os ferimentos sendo feitos.
— O que está acontecendo, por que estão fazendo isso? — questionou desesperadamente.
A falta de alguma imagem, alguma luz, algo familiar no seu campo de visão estava o deixando muito ansioso.
— Agora está se fazendo de inocente? Tenha pelo menos o mínimo de dignidade e tente proteger a vida em que você se intrometeu — repreendeu a primeira voz com certo sadismo em seu tom.
— Não façam nada com ele! Por favor! — implorou a voz mais jovem. — Eu faço o que quiserem!
— Quieta, Alice, antes que a situação fique ainda pior para ele — interrompeu a primeira voz. — Na verdade, as coisas podem ficar mais interessantes com o cenário atual, se pensar pelo lado bom.
— O que aconteceu? O que aconteceu? O que aconteceu? — ele se perguntou inúmeras vezes tentando se lembrar como chegara naquela situação.
Um flash repentino refletiu em sua mente com tanta intensidade, que sentiu que poderia ficar mais cego do que aparentava estar naquele momento, um flash forte o suficiente para derrubá-lo ao relento com a cabeça palpitando com força.
Uma imagem.
Ele tinha certeza que havia visto algo, um rosto muito familiar, alguém muito importante.
— A culpa é sua! — urrou a voz distorcida. — A culpa é sua! A culpa é sua! — reiterava a voz, enquanto seu tom se tornava cada vez mais agudo, ao ponto de se tornar insuportável. — A CULPA É SUA!
***
A visão turva se tornava cada vez mais clara enquanto sentia as consequências daquela noite perigosa.
Seu corpo doía, no entanto, diante da dor de cabeça que estava sentindo, o restante não era tão ruim.
Quando sua visão clareou, conseguiu recobrar todos os sentidos, a sua frente estava um teto pouco familiar, atrás, algo macio sobre o qual estava deitado e no ar um agradável perfume.
Por fim, se lembrou o que acontecera na noite passada...
— Onde você está?! — Sonic se levantou num pulo em pânico olhando ao seu redor na tentativa de achar a Menina-Boneca que encontrara ontem, mas ela não estava em nenhum lugar aonde ele podia ver. — Santas Esmeraldas, o que aconteceu?
Ao ler o ambiente com os olhos, percebeu que estava em um quarto de aspecto luxuoso, sobre uma cama estilo king-size, envolvido em cobertas pálidas aconchegantes e ao lado da cama, estava em pé alguém...
Sonic olhou para aquela pessoa, não era quem procurava, se já estava bem acordado, aquela pessoa parecia um homem alto, uniformizado como um mordomo, pele pálida, cabelos como o ébano, olhos da cor de safiras de tom familiar, cujo olhar era um misto de preocupação e alívio...
A beleza era a característica mais chamativas naquela figura em pé de forna ereta ao lado da cama, pronto para executar qualquer ordem.
— Boa tarde. Está se sentindo melhor? — perguntou educadamente o jovem mordomo, se agachando um pouco.
— Onde ela está? Onde está...
— Não se preocupe, a senhorita que o senhor salvou a vida na última noite, está em segurança agora.
— Onde ela está?
— Na sala de estar do andar de baixo. Ela está preocupada com o senhor.
Sonic sacudiu a cabeça devagar, ainda confuso confuso. Desde a manhã do dia anterior, ele passou por muitos cenários, perdeu a consciência diversas vezes e até aquele momento não fazia ideia em que situação se encontrava realmente.
Ele coçou a cabeça até sentir algo grudado nela e o mesmo local arder.
— Oh, não toque na cabeça, o senhor estava tão ferido, que foi difícil conter o sangramento e colocar um curativo — explicou o homem, balançando as mãos com certa aflição de que a ferida pudesse abrir novamente.
— Ai... Foi tão ruim assim? — Sonic tirou a mão de perto do curativo rapidamente e em seguida olhou para o mordomo. — E você...
— Eu sou Oz, o mordomo responsável pela senhorita que o senhor salvou — o se homem ergueu novamente. — E este lugar é a residência em que trabalho.
Sonic apalpou o colchão macio em baixo dele. A superfície mais macia em que adormeceu nas últimas 24 horas.
— Esta é a cama em que durmo — informou Oz, sanando o questionamento mental de Sonic antes que o mesmo perguntasse para o mordomo. — Confortável, não? — brincou com um sorriso.
— Ah, sim — Sonic não podia discordar, era realmente muito confortável, até mais que sua própria cama em Emerald Town.
Sonic apenas não riu, como Oz gostaria, com seu comentário.
Por mais que a cama fosse aconchegante, Sonic sentiu a necessidade de descer e se localizar.
Não sabia se podia confiar realmente naquele homem, muito menos ter certeza se qualquer coisa que ele afirmou era verídica.
Sonic colocou os pés não chão, percebendo que estava sem seus velhos tênis vermelhos.
— Não andamos de sapato em casa — adiantou Oz —, espero que não se importe. Deixei seus tênis na entrada.
— Tudo bem, não é problema algum — disse Sonic balançando a cabeça colocando seus pés nas pantufas dispostas ali, ao pé da cama.
Não estava acostumado a ficar sem seus sapatos, principalmente fora de casa, mas aquela era a menor de suas preocupações naquele momento.
O ouriço foi até a varanda e abriu as cortinas brancas, que farfalhavam levemente a suave brisa vespertina, revelando a sua frente uma bela paisagem. Havia mais verde do que asfalto, poucas casas e nenhum prédio a vista. Podia se ver o horizonte coberto pelo gramado, que dançava ao vento, algumas colinas...
Parecia um lugar um pouco isolado.
— Não é nem um pouco semelhante ao lugar onde estive ontem com aquela menina — pensou Sonic.
— Esta paisagem é muito mais bela do que a de ontem, não concorda? — comentou Oz, atrás de Sonic.
— O quê? — Sonic voltou-se para Oz com espanto pelo feito daquele mordomo. Parecia que seus pensamentos haviam sido lidos.
— Vamos descer? O chá está pronto — Oz sorriu mais uma vez, dando meia-volta com toda elegância e se dirigindo até a porta. — Presumo que esteja com fome também, não? — O mordomo abriu a porta, dando passagem para Sonic.
Sonic apenas anuiu, um pouco constrangido com toda aquela cortesia a qual não estava nem um pouco habituado, e passou pelo homem, indo direto ao corredor.
Oz fechou a porta e andou um pouco atrás de Sonic até as escadas, descendo todos aqueles degraus, os quais Sonic achou um pouco extensos, até o andar de baixo.
— Senhorita! — Oz abriu a porta dupla animadamente. — Ele está aqui!
Sonic ergueu os olhos até que se encontrassem com o mesmo par de olhos azuis daquela agitada noite anterior. A diferença daquela noite para aquele momento, era que aqueles olhos já não transpareciam pânico, e sim, um certo alívio em vê-lo.
Logo em seguida, ela desviou seu olhar para sua xícara de chá.
— Eu vou trazer o bolo, o nosso hóspede deve estar com fome! Tudo bem? — Oz olhou de relance para a menina, que apenas fez que sim com a cabeça. — Oh, por favor, sente-se, embora tenha dormido bastante, não é bom que saia andando por aí ainda — disse Oz para Sonic antes de ir até a cozinha.
Sonic sentou-se no longo sofá rubro escuro daquela sala, o mesmo em que a menina estava sentada.
Se fez alguns instantes de silêncio, Sonic não tinha coragem de quebrar aquele silêncio, que era interferido apenas pelo tic tac do relógio de pêndulo que estava naquela sala, tampouco tinha coragem de olhar diretamente para ela. Tudo ainda parecia confuso e ele não ficaria nem um pouco surpreso se tudo aquilo se tratasse de um sonho.
Sonic estava tão curioso, que deu uma rápida passada de olhos pelo ambiente. Era um lugar de aspecto luxuoso, assim como o quarto do mordomo, parecia rústico, as cores dominantes daquelas extruturas eram branco e castanho, tendo alguns móveis rubros, como o sofá e as cortinas atrás ele, que se encontravam abertas, afim de deixarem a luz daquela tarde entrar no ambiente, sendo apenas cortada pelas grades da grande janela.
Por fim, Sonic olhou pelo canto do olho, bem discretamente para a menina sentada a 1 metro dele. Ela ainda estava com os olhos fixos em sua xícara de chá, tão imóvel, que parecia realmente uma boneca. Suas roupas estilo vintage, com cores predominantes azuis e brancas, eram diferentes das de ontem e seu cabelo estava perfeitamente penteado, assim como a primeira vez que a viu.
Ela moveu a cabeça em direção a Sonic, fazendo ele desviar os olhos para o primeiro móvel que estava a sua frente a tempo dela não notar. O azulado não tinha certeza se ela estava olhando para ele, pois parecia muito mais tímida do que ontem para fazê-lo, no entanto, não tinha coragem de arriscar averiguar.
— Muito bem, aqui está o bolo! — anunciou Oz entrando com o carrinho de chá na sala de estar, quebrando todo aquele silêncio. — E trouxe mais chá!
Sonic olhou para Oz colocando a xícara de chá a sua frente e ao lado, colocou o bolo.
— Espero que goste, foi tudo feito esta manhã — disse Oz.
— É caseiro? — Sonic olhou com espanto para aquela fatia de bolo. Era um bolo tão bonito, que ele tinha certeza que foi comprado em alguma confeitaria.
— Sim! — Oz fez que sim com a cabeça.
Sonic estava tão fascinado pela beleza daquela fatia, que mal notou o papel que estava ao lado do bolo.
— "Coma-me" — Sonic leu mentalmente aquela caligrafia caprichosa.
Tal ordem escrita naquele bilhete, o fez dar um pulo no sofá, chamando a atenção de Oz e até da menina ao seu lado.
— O que foi? — indagou Oz.
— Não... é que... — Sonic procurava as palavras certas para se explicar. Ele sabia que sua reação havia sido muito estranha para eles.
Se perguntava se deveria explicar as peripécias que viveu no dia anterior e que havia encontrado bilhetes do mesmo tipo da Dimensão Especial.
Ambos os pares de olhos azuis ainda estavam voltados para ele, enquanto ainda pensava numa resposta apropriada.
— Ah... achei curioso esse bilhete... — Sonic tentou justificar o mais brevemente possível. — Só isso...
— É apenas um hábito. Gosto de deixar mensagens assim nas refeições que preparo para a senhorita. — Oz sorriu. — O senhor parecia incomodado. Não devo repetir na próxima?
— Não! — Sonic abanou a cabeça. — Não é isso. Apenas... Me lembrei de algumas coisas. Não foi nada de mais.
Sonic estendeu a mão até a xícara de chá e notou que ali havia um bilhete. "Beba-me", era o que estava escrito nele.
Oz pegou uma xícara de chá e sentou-se na poltrona de mesma cor do sofá que estava perto da menina.
Sonic estranhou um pouco aquela atitude. Presumia que um mordomo não deveria ficar tão a vontade daquela forma, apesar do seu limitado conhecimento sobre o assunto.
— Então, posso saber como vim parar aqui? — indagou Sonic no tom mais educado possível, tentando mudar de assunto.
— Então o senhor não se lembra do que aconteceu? — indagou Oz antes de beber um gole de chá.
Sonic fez o mesmo com seu chá, notando o delicado e delicioso sabor de girassol, enquanto tentava se recordar da última coisa que aconteceu antes dele perder a consciência.
— A última coisa que me recordo, é... — Sonic fechou os olhos, se lembrando da última cena que se recordava.
Os rugidos esfomeados vindos do lugar onde Sonic havia acabado de passar, sua única rota de fuga, sinalizaram que as criaturas estavam se aproximando.
Não havia mais para onde fugir.
As criaturas avançaram sem piedade para cima dos dois, como se fossem devorá-los naquele instante.
E num piso em falso, Sonic acabou caindo junto com a menina daquele salão penhasco abaixo, em direção a um rio cheio de pedras.
E a última coisa que viu, foi um vulto subir na direção dos monstros, impedindo estes de saltar atrás deles.
Parecia uma criatura semelhante a um coelho grande e robusto, que usava algum traje e uma capa como acompanhamento. Não era possível ter certeza se era aquilo mesmo já que o vulto escuro de misturava com a noite, mas era o que parecia a primeira vista.
Em seguida, Sonic olhou para baixo, vendo o rio agitado pela tempestade cheio de pedras se aproximando iminentemente deles.
Ele sabia que não podia impedir a queda, muito menos o impacto que sofreriam.
Num movimento instintivo, Sonic envolveu a cabeça da menina e torceu para que não morressem com o impacto nem pelo afogamento.
— A última coisa que me lembro foi de termos caído no rio — Sonic afirmou um pouco espantado. — Como sobrevivemos?
— Bem, eu os encontrei na beira do rio guiado pela voz da senhorita pedindo por ajuda, não tenho como dizer como chegaram lá
— Você não perdeu a consciência? — Sonic olhou para a garota.
— Graças ao senhor, não — enfim, disse a menina. — Sinto muito pelo transtorno — se desculpou, agachando a cabeça.
— A senhorita me contou que conseguiu tirar o senhor do rio antes de acontecer alguma tragédia — comentou Oz, olhando para a menina com um sorriso orgulhoso.
Ela encolheu os ombros, envergonhada.
— Então, você me salvou — Sonic sorriu olhando para a menina. — Obrigado!
— E-eu que agradeço! — Ela balançou a cabeça. — Por ter me protegido! — ela exclamou antes de se dar conta de seu tom mais alto, então abaixou a voz novamente.
— Acho que não nos apresentamos ainda — Sonic finalmente se sentia a vontade para falar com ela. — Sonic the Hedgehog — disse, estendendo a mão.
— Maya Hoshimoto — falou ela, sorrindo enquanto estendia a mão também. — É um prazer conhecê-lo, Sr. Sonic.
Oz sorriu, fazia tempo que não via sua senhorita sorrir.
— Ora, o que é isso? Não precisa de formalidade, apenas Sonic está muito bom! — Sonic pediu, pegando a mão de Maya.
E sentiu algo estranho.
Como se o mundo tivesse parado e aquele momento tivesse durado muito mais do que de fato durou, ele sentiu saudades.
Uma canção ao longe, um perfume familiar...
A campainha tocou, o tirando daquele transe.
— Que estranho. — Oz olhou para trás, em direção a porta. — Acabamos de nos mudar. — O mordomo colocou a xícara sobre o pratinho e se levantou da poltrona afim de atender a porta.
Sonic balançou a cabeça, finalmente soltando a mão de Maya.
— Tudo bem eu não usar de formalidade? — perguntou o garoto meio sem graça.
Maya balançou a cabeça sorrindo sem graça.
— Está tudo bem com isso — ela disse.
— Quem bom! — Sonic exclamou feliz. — Espero que sejamos bons amigos, Maya!
— Quer... Ser meu amigo? — Maya olhou para Sonic com espanto.
— É claro que sim! — Sonic confirmou, ainda mais espantado do que ela com aquela pergunta.
— Não é... nenhum incômodo? — perguntou ela querendo ter certeza.
— Por que seria? Salvamos a vida um do outro! Você parece uma menina muito legal!
— Amigos... — Maya pronunciou aquela palavra com facsínio, sorrindo.
Então colocou a mão que usou para cumprimentar Sonic junto do peito, sentindo nostalgia de algo que não conseguia descrever.
Enquanto Sonic aguardava Oz voltar da porta de entrada daquela residência, se perguntando do que se trataria o chamado e ouvindo o tique taque do grande relógio de pêndulo da sala de estar, Sonic colocou o prato vazio onde estava o bolo caseiro de volta na bandeja.
Ainda o intrigava muito o dito hábito do mordomo de colocar bilhetes junto das refeições. "Beba-me" e "Coma-me" pareciam verbos hiperativos tão simples, mas para Sonic, nunca mais teriam o mesmo impacto depois do que passara no dia anterior.
Após o ouriço se ajeitar novamente no rústico sofá, ainda pensativo sobre muitas coisas, a menina que se apresentou como Maya, acabou por tomar de sua atenção. Ela parecia não tirar os olhos de uma prateleira de livros que estava recostada a uma das paredes.
— Você gosta de livros?
A menina se voltou para Sonic em expressão de surpresa.
— Desculpe, eu estava incomodando? — ela perguntou. Claramente seu tom expressava preocupação por aquela pergunta.
Sonic ficou até surpreso como uma simples pergunta poderia causar um efeito como aquele numa pessoa.
— Não, foi só uma pergunta curiosa — Sonic respondeu, simplesmente. Chegou a pensar em se desculpar, no entanto, acabou desistindo da ideia achando que poderia piorar uma situação com a qual nem sabia lidar.
Ou talvez apenas estivesse levando as coisas um pouco a sério demais, ainda fascinado com o novo lugar, situação e as pessoas, além de um pressentimento...
— Eu adoro livros! — Maya respondeu, parecendo mais a vontade. — Principalmente os de fantasia! Através dos livros é possível ir para qualquer lugar, viver qualquer aventura! Existem livros de todos os tipos, com as mais variadas e criativas histórias! E o que mais me deixa feliz, é que sempre tem livros novos para ler! É muito emocionante! — exclamou a menina, agora mais empolgada.
Sonic acabou soltando uma risadinha. Seu jeito de agir era algo, no mínimo, interessante.
— A-ah, me desculpe, acabei me empolgando... — Maya encolheu os ombros abaixando a cabeça o suficiente para que sua franja dourada cobrisse seus par de olhos azuis, que até um segundo atrás, brilhavam de entusiasmo.
— Ah, sou eu que deveria me desculpar, não achei algo ridículo — explicou-se o ouriço. — Na verdade, gostei muito de como você descreveu os livros, faz parecer algo muito interessante.
— É-é mesmo? — perguntou, hesitante.
— Sim! Admito que ainda não me aventurei muito no mundo da leitura para ver toda essa magia, eu nem seria a pessoa mais interessante para conversar com você sobre o assunto agora — Sonic coçou a nuca, sem graça.
— Por favor, não se incomode! — Maya balançou a cabeça de um lado para o outro com força.
— Não, eu realmente quero poder ler e gostar algum livro — Sonic insistiu. — Ainda ontem, um amigo meu tinha me sugerido ler um livro, se não tivessem acontecido um monte de confusões depois da última noite, eu provavelmente estaria o lendo agora. — Sonic se lembrou de Tails.
Maya queria fazer muitas perguntas para Sonic, dentre elas, de onde o ouriço veio, como fora parar naquela situação na última noite e de quem se tratava o amigo que Sonic mencionou.
Mas não se atreveria a fazer perguntas tão evasivas, principalmente porque não se sentiria a vontade respondendo elas para alguém, em particular, a maneira de como fora parar naquele lugar isolado onde acabou por ser encontrada...
— Como se chamava o livro que seu amigo sugeriu? — Maya resolveu perguntar. — Se não for perguntar muito, é claro...
— Ah, era "Alice no País das Maravilhas" — Sonic respondeu prontamente.
Aquilo ainda o fazia ter uma sensação estranha, algo que não conseguia explicar e naquele momento, parecia mais intenso.
— "Alice no País das Maravilhas"...? — Maya repetiu o título daquela obra.
Sonic sentiu um certo tom de aflição em sua voz.
— Aconteceu alguma coisa?
— A-ah, não é nada! — Maya balançou as mãos agitadamente de um lado para o outro.
— Já leu esse livro?
Se fez alguns segundos de silêncio.
— Já leram para mim certa vez — Maya, por fim, respondeu.
Sonic sentiu, de alguma forma, que, por algum motivo, não deveria insistir falando naquilo.
Provavelmente, estaria desenterrando alguma memória triste, presumiu o ouriço.
— Então... Você já está um bom tempo olhando aquela estante de livros — disse Sonic, mudando de assunto —, por que não pega algum para ler?
— Bom... — Maya olhou para suas pernas com um sorriso tristonho — É porque... Eu não posso...
— Não pode andar? — Sonic deixou escapar o final da frase antes que se desse conta e tampasse a boca. — Oh, desculpe!
— Não! — Maya balançou a cabeça de um lado para o outro com força mais uma vez. — Não é culpa sua!
— Mas eu caí em cima de você quando nos encontramos... — A memória de Sonic trouxe de volta a cena do encontro deles sem que este desejasse.
— Não é, não! — Maya continuou balançando a cabeça, insistindo. — Eu... não posso andar há muito tempo... — explicou.
Como se tivesse brotado do piso, Sonic finalmente notou que havia uma cadeira de rodas naquela sala de estar, atrás do sofá, perto da menina.
— Eu sinto muito... — Sonic deixou escapar, constrangido por ter acabado por tocar no assunto.
Se fez alguns segundos de silêncio naquele cômodo.
Apenas o relógio de pêndulo quebrava a plenitude daquele silêncio.
— Com licença — Oz enfim retornou a sala de estar, para a surpresa de Sonic, e ainda maior de Maya. — Oh, atrapalhei de alguma forma?
— N-não! Não está incomodando! — Maya sorriu, balançando a cabeça de um lado para o outro, pensando quais seriam suas próximas palavras.
— Então, o que aconteceu? — Sonic perguntou, agindo antes da própria menina.
— Ah, não se preocupem — Oz disse, sorrindo e abanando sua cabeça. — Não era nada importante, apenas o carteiro vindo confirmar o endereço.
Maya olhou para Oz.
— Eu tenho ainda que comprar algumas coisas antes do jantar — disse o mordomo, se agachando perto de Sonic. —, se importaria em ficar com a senhorita Maya um pouco?
— Não me importo, não — respondeu o jovem antes mesmo de pensar.
— Bem, está uma tarde maravilhosa lá fora e acabamos de nos mudar para cá. — Oz empurrou a cadeira de rodas para perto de Maya. — Não gostaria de aproveitar o ar fresco no jardim?
— Essa residência possue um jardim? — indagou Maya, com espanto.
— Ora essa, eu ainda não mencionei? — perguntou Oz, sorrindo tipicamente. — Sim! Desta vez fiz questão que houvesse um lugar ao ar livre para que pudesse passar o tempo que quiser! — respondeu, enfim.
Maya parecia animada com a ideia.
— Posso? — Oz estendeu os braços para a menina.
— Por favor. — Maya anuiu.
Oz a pegou nos braços e colocou sentada na cadeira de rodas.
— Agora eu devo ir antes que fique tarde — Oz fez uma pequena reverência.
Sonic sentiu algo no peito. Algo que o fez sentir uma certa preocupação, todavia, não conseguia identificar a razão.
— Tenham uma boa tarde! — exclamou Oz, pegando seu sobretudo negro do mancebo disposto rente a parede perto da porta de saída com certa pressa e o vestiu rapidamente. — Ah, e não deveríamos mais receber visitas por hoje, então se vier alguém, não atendam! — avisou antes pegar sua cartola preta e a colocar na cabeça, fuçando o bolso em seguida a procura do molho de chaves.
— Pode deixar! — Sonic respondeu, esticando o braço para cima.
— Até mais tarde — Maya acenou para o mordomo antes deste desaparecer pelo corredor e sair.
Oz trancou a porta de entrada do casarão e foi até a calçada, que estava muito pouco movimentada. Olhou para os dois lados antes de suspirar e cruzar a rua.
— O que foi? — perguntou Sonic depois de observar o quão a menina havia ficado quieta após a saída do mordomo.
— Ah, o quê? — Maya olhou para Sonic. — Oh, não é nada, não se preocupe! — Ela olhou para a estante de livros. — Posso ler?
— Claro que pode! Quem sou eu para dizer que não? — respondeu Sonic, estranhando um pouco a pergunta de Maya.
Maya girou as rodas, indo em direção a estante.
Quando Sonic viu aquilo, quase como que em um movimento automático, se levantou do sofá e empurrou a cadeira de rodas da garota para perto da estante.
— Por favor! Não se incomode! — Maya pediu, balançando a cabeça.
— Ora, o que é isso? Não é incômodo nenhum! — Sonic insistiu. — Que livro você queria ler?
— Estava pensando em reler um conto de fadas — Maya pegou um livro cuja lombada tinha aspecto metálico, tinha um par de espadas em relevo apontadas em direção ao título.
— "The Twin Silver Swords" — Sonic leu o título em voz alta. — Do que se trata?
— É sobre uma jovem que tinha o cabelo de uma cor incomum — Maya começou a contar. — Os cabelos prateados dela chamaram a atenção do príncipe do reino onde ela cresceu. Como ela se recusou a atender os desejos fúteis do príncipe, se viu obrigada a fugir e assumir uma nova identidade em outro reino. A partir daí, disfarçada de homem, ela acaba fazendo amizade com o príncipe do reino vizinho e é em torno disso em que a história se foca.
— E onde as Espadas Gêmeas de Prata entram nisso tudo?
— É uma mitologia importante do mundo desta história e as relíquias que estavam sob o poder de um antigo cavaleiro conhecido como "O Lendário Cavaleiro de Prata", por causa dos cabelos dele e as espadas que ele empunhou. Dizem que existe um segredo nessa espadas — Maya terminou de dizer com um brilho de emoção refletindo em seus olhos.
— E qual seria? — Sonic se pegou perguntando, cheio de curiosidade.
— Os volumes ainda estão em lançamento, então ainda ninguém sabe, além do autor — respondeu ela —, e mesmo que eu soubesse, não poderia contar, ou eu estragaria sua experiência de leitura. — Maya estendeu o livro com timidez.
— Assim você me enche de curiosidade. — Sonic riu.
— É uma história muito interessante! — exclamou ela. — E eu gosto muito da protagonista — disse em tom mais baixo. — Somos parecidas de certa forma, só não tenho a coragem e determinação dela — disse por fim rindo, enquanto passava a palma sobre a capa do livro, adornada de relevos, detalhes florais e a protagonista como destaque da ilustração.
Sonic olhou para a estante de livros. Haviam muitos livros do mesmo tipo dispostos ali. A estante não estava completamente preenchida, pois acabaram de se mudar, mas já haviam muitos livros ali.
— O Oz também gosta de ler? — perguntou Sonic.
— Ele está ocupado fazendo o trabalho dele na maioria do tempo — respondeu —, mas sempre que ele tem tempo, sempre o vejo lendo.
Oz andava a passos rápidos pelas calçadas.
Ele parecia se dirigir a um lugar cada vez mais deserto.
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