Sonhos
3 Cena II - Ato I – O baile desmascarado
Notas iniciais
Quando os abri novamente, o lugar onde eu me encontrava era totalmente renovado e belo. Detalhes dourados e brilhantes, curiosamente similar a ouro, enfeitavam quase tudo ao meu redor. O corredor que era triste e decante tornou-se belo e com um aspecto sedutor. Meus pelos se arrepiaram a pensar que estava chegando perto e mais perto daquilo que me regozijava, porém era tenebroso.
Dei a volta e fui em direção à escada. Minha camisola foi substituída por um esvoaçante vestido vinho com espartilho que levantava meu busto e delineava minha cintura. Sentia meus cabelos cacheados presos em um penteado estranho, porém, pensava eu, que era muito belo. Não sabia o porquê de pensá-lo, mas sentia, como uma brisa suave e fria aos meus ouvidos, um elogio simples e singelo: Estás bela, hoje.
Andei até chegar à escada branca, branquíssima, com o lustre no meio do salão, com suas velas e banhado a ouro, os quadros mais vivos que as pessoas que lá dançavam. Vestidos esvoaçantes de cores variadas e ternos pretos ou cinzas misturavam-se, rodopiando e separando-se, juntando as mãos e encarando-se. Todos mascarados. Garçons, com seu típico uniforme, passavam com bandejas com taças com um líquido escuro e viscoso. O ar pesado, sedutor e sombrio. Entre aquela multidão, só por um meu coração iria disparar.
Em cada mão minha, uma luva preta de renda e na esquerda, no anelar, um anel grande com uma pedra vermelha bem chamativa. Meu pescoço estava nu, sem nada para evitar a consumação. Comecei a descer as escadas, lentamente, evitando olhar para os demônios dançarinos.
Dei a curva e desci mais degraus. De perto, eles pareciam muito piores. Em cada máscara, no lugar onde haveria de ter olhos, uma escuridão interminável e sorrisos fixos assustadores. Um ciclo vicioso era a dança deles. Rodopios, risadas, tudo parecia estar direcionado a mim.
Queria correr dali, jogar-me em um rio, afogar-me e ver se eu acordo deste pesadelo. Um garçom parou em frente de mim, dobrando os joelhos um pouco, – eram altos – com aquele sorriso assustador e olhos negros, e inclinou a cabeça para a bandeja. Neguei com a mão. Seu sorriso se desfez um pouco, muito pouco, e inclinou a cabeça novamente. Neguei novamente. Sua cabeça concordou e saiu com o sorriso ainda fixo em seu rosto.
Comecei a andar pelo salão, evitando encarar as pessoas, e tomei atenção de duas coisas: a orquestra sem ninguém onde seus instrumentos tocavam sozinhos a melodio sombrio e as rosas bem vermelhas toxicando o ar com seu perfume enjoativo. Aproximei-me de uma rosa e acariciei-a. Sua textura sedosa leva-me a devaneios e posso ficar horas e horas somente tocando-lhe.
— Ah, seu olhar incandescente, seu lábios errantes, a lua distante, seu jeito de olhar, intocável mesmo viva, distante mesmo perto. – A voz que aterroriza meus sonhos e faz-me suspirar vinha detrás de mim.
Duas mãos percorreram minha cintura e puxaram-me para perto. Minha cabeça chocou com o peito da criatura despertada. Meu quadril batia em sua virilha. Seus dedos gélidos enroscaram-se em meus cabelos e foi puxando para o lado, deixando meu pescoço à mostro. Sentia seu hálito no meu pescoço, meu peito subia e descia rapidamente à medida que aqueles lábios frios e apaixonantes encostavam-se à minha pele nua. Um beijo simples, mas que queria dizer muito mais que as palavras que ele diria agora:
— O que seria da vida sem a luz da tua alma a me iluminar. Como seriam meus dias sem o ardor do teu olhar.
Seu nariz passou pelo meu pescoço expirando o aroma agridoce.
— Eu sou aquele que vaga no tempo, procurando alento no meio da dor. Eu sou aquele banhado de lágrimas, perdido e, na alma, buscando amor.
Virou-me e eu fechei os olhos. Não me entregaria hoje, não hoje. Seus dedos longos acariciaram meu rosto e seus lábios encostaram minha bochecha. Lágrimas ameaçavam derramar e, como sempre, a traidora caia, banhando meu rosto e transformando-se em jóia. Ele puxou meu queixo para cima, delicadamente como uma brisa, e eu não resisti e encarei a imensidão azul do céu.
Sua pele pálida, seus olhos azuis como o céu, mas que escondiam a tristeza e escuridão de uma vida sem libertação, seus lábios vermelhos, seus cabelos negros e longos. Meu imortal, meu assassino.
Uma mão na minha cintura, outra na minha mão, nos encarando fomos dançar juntos com demônios dançantes. Rodeou seus braços na minha cintura e apertou-me ao seu corpo. Juntos, unidos e jamais separados. Rodeie meus braços ao redor de seu pescoço e continuei encarando-o. Seus olhos, canto silencioso do caçador.
Rodopios, olhos fixados, separando-se, mãos juntas, rodopios...
Sua voz sussurrava no meu ouvido. Seus lábios encostavam-se no meu pescoço.
— Eu sou o silêncio, o vento que passa sem ser notado.
Seus lábios moviam-se perfeitamente. Feitos para dizer somente as palavras certas.
— A vida que vai sem ser vivida. Os lábios que não falam. Os olhos que não choram. O coração que não ama. E os braços que se afastam de abraçar.
Meu coração acelerava. Minhas mãos doíam de tanto apertar as dele. Jamais separados. Estava perto do fim.
— Agora procuro algo que não posso encontrar. Tento ver algo que não enxergo. E ter fé no que não acredito. Ah, se você soubesse quanto meu coração sofre enquanto, aqui, me perco de ti para sempre.
A música pausou. Os fantasmas assustadores sumiram. Eu e ele no salão. O fim chegava. Meu coração doía. Tentava fugir do sofrimento, mas o que fazer quando ele anda junto de um sentimento tão genuíno?
— Supliquei ao gládio veloz que a liberdade me alcançasse e ao vento, pérfido algoz, que a covardia me amparasse.
Seus lábios se encontraram com os meus. Um doce sabor, uma amarga dor. Sua boca esmagava-se na minha para juntarmos na ultima e primeira vez. Sua língua enroscava-se na minha, aproveitando o doce sabor. Eu saboreava-o e ele saboreava-me. Dois amantes, se amando por uma única vez.
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