Sonhos

4 Cena II- Ato II- O despertar (ato final)


Notas iniciais
Parte final da história. Espero que tenham gostado (:

Quisera eu despertar antes de chegar a este ponto. A minha morte, a mesma morte sempre, aquela morte que leva-me ao desespero. Meu bom amante, não entre em desespero também. O que nos separa é mais forte que qualquer entidade. É aquilo que o ser humano jamais desvendou; aquilo que o ser humano jamais entendeu. O que nos separa, querido, é uma linha forte e fina, como um véu de noiva, a linha entre a vida e a morte. O sonho e o real.

Tudo ao meu redor começou a rodar, como um pêndulo hipnotizando os observadores. Sua boca ainda na minha, seu gosto misturando ao meu. Tornando-nos um só. Uma única carne, um único sangue.

Parara, então, tudo de rodar e eu encontrava-me em um quarto enorme e escuro como a mente do meu querido. A imortalidade traz à alma o desespero e a frieza de viver cada dia solitariamente.

Suas mãos másculas e pálidas exploravam tudo que tinha direito. Deslizavam nas minhas costas, ora alisando minha cintura, ora alisando minhas nádegas.

Seu toque despertou em mim um fogo escondido e guardado somente para meu predestinado. Meu querido amor imoral. Meu estomago revirava-se de nervosismo e ansiedade, meu ventre contrai-se e minhas pernas juntavam-se querendo aliviar o fogo.

A janela do quarto, enorme, quase no tamanho da porta, estava aberta e nem mesmo a brisa fria que entrava esfriava o que entre nós acontecia. Seu corpo estava colado ao meu e, enquanto beijávamos, abraçávamos mais. O sonho estava acabando.

Seus lábios partiram para meu pescoço, chupando-o com vontade e roçando seus dentes nele. Meu pelos arrepiaram. Seus caninos, maiores que a maioria dos dentes, roçaram com mais força e meu coração acelerou. Meu corpo estava quente. Queria eu poder sentir o corpo dele quente, mas sua pele sempre gélida jamais esquentaria.

Meus dedos trêmulos tentaram desabotoar sua camisa, mas, pela proximidade dos nossos corpos e pelos meus devaneios por causa de seus beijos, não consegui. Ele separou-se de mim e fez isto para mim.

Mesmo que eu sempre repita esses sonhos, essas cenas, meu coração continua batendo mais forte por sua beleza. Seu peito, perfeitamente desenhado, parece até as antigas estátuas gregas.

Meu vestido desliza pelo meu corpo; seu tecido macio cria na minha pele arrepios. As roupas de meu amado também não se encontram mais em seu corpo. Os restos das minhas também se vão.

Contemplo a beleza indescritível de meu amado e, eu sei, que ele também pára somente para contemplar-me, mesmo que eu, mera humana, não seja tão bela quanto ele. Abraçamo-nos forte. Seu corpo pressionado ao meu. Seu hálito no meu pescoço. Não. Está perto de acabar. Não vá.

Deitados na cama, ele beija-me com paixão. Sua mão deslizando pelo meu corpo, seus beijos distribuídos pela minha carne. O prazer é incrível. Inclino minhas costas para mais fricção. Quero-o mais perto, mais perto.

Antes de entrar completamente em mim, meu amado encara-me como seus olhos fogosos. Deu-me um beijo simples e entra de uma vez dentro de mim. Dei um grito de surpresa e prazer.

O prazer muitas vezes é assimilado ao fogo, à quentura da luxuria, no meu caso ele é frio, como um arrepio ao sentir o primeiro floco de neve caindo no braço, ou como um suspiro mortal. O suspiro que a morte lhe dá antes de levá-lo ao leito profundo, o suspiro que o padre dá antes de dizer “até que a morte os separe.”

Como um apreciador deleitando do vinho, seu corpo aproveita do curto espaço de tempo que temos e, mesmo assim, leva-me às profundezas de sua fria alma. Abraço-o, beijo-o... A morte; ela nos separa. O sonho; ele nos une.

Tic-Tac. Tic-Tac. O ponteiro do relógio parou em cima do doze. Os dois ponteiros pararam em cima do doze. Detrás das nuvens, a lua sai. Seu corpo ainda dentro do meu, ligados a uma carne só.

Os olhos do meu imortal tornam-se vermelhos sangues. Seus caninos, os quais já eram mais protuberantes, tornaram-se duas presas animalescas.

A luz da lua iluminou todo o nosso quarto. E mesmo assim o que mais se destacava era a vermelhidão de seus olhos. Suas presas chegam perto de meu pescoço. Elas roçam meu pescoço. Meu centro se contraindo ao redor dele cada vez que as presas chegavam cada vez mais perto. E aconteceu.

Suas presas mergulharam no meu pescoço, sugando meu sangue, minha vida. Correntes elétricas, tremores, suor, meu centro o apertando. Milhares de sensações passaram pelo meu corpo.

Ele suga-me com fervor; o predador deleitando-se da presa. Lágrimas e lágrimas caem de meu rosto. E elas não se tornam diamantes.

As sensações vão acabando, sumindo... O cheiro de rosas invade o ar. Pétalas delicadas começam a rodear-nos. O quarto vai se transformando. Logo, vejo meu guarda roupa, meus livros, meus retratos. E meu amado... Ele se vai. Vai tornando-se pétalas e todas se vão, para cima, para o infinito. O teto não é mais de castelo, é um miserável teto branco com uma lâmpada.

Toco no meu rosto molhado. Lágrimas, miseráveis lágrimas.

Encontro-me no meu quarto, com minha cama, minha roupa de dormir e com lágrimas. Lágrimas de desespero. Lágrimas implorativas por libertação. Grande ilusão.

Pense em mim, a voz do meu imortal sussurra.

Sempre, sempre.

Notas finais
Beijos :*
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!