Sonho Americano

1 Um cara chamado Jack


Jack era um garoto do interior de Rhode Island que veio para Los Angeles tentar a sorte, sem nada a ganhar nem a perder, somente alguns dólares, no bolso e uma mochila surrada com duas cuecas e uma jaqueta para o frio. O cara sonhava em entrar para uma escola de música, mas alguém o apoiava? É claro que não, sem pai e com um padrasto podre de bêbado, e sua mãe uma mulher que se matava para encher seis barrigas em casa e servir de saco de pancada do marido no fim do dia.

Com essa ‘’vida de circo’’ como ele mesmo a descrevia Jack decidiu largar tudo e se mandar dali, não era somente aquilo que ele carregava em sua bagagem, aquele garoto calado e frio o bastante para dar uma bela garrafada em seu pai antes de sair guardava um segredo, um segredo ao qual não sabemos ainda, mas logo iremos descobrir.

A viagem foi longa, mas Jack conseguiu o que queria chegou são e salvo em Los Angeles, por ele descrita como ‘’Meu sonho Americano’’. Ele entrou no colégio de música, isso mesmo, mais um desejo seu realizado, bem, mas você deve estar se perguntando, com que dinheiro? São alguns resultados de trampos e horas extras juntamente de suas economias o ajudaram a entrar num colégio de música.

Por duas semanas Jack se manteve sozinho e se virou como pode, sentia saudades de sua mãe, sempre sentiu pena dela, mas jamais poderia continuar naquela vida, e então , enquanto tomava uma cerveja e pensava em como iria sobreviver a semana seguinte um tipo de vagabundo sentou ao seu lado.

-Achei que essa hora as crianças dormiam.

-O que disse? – Jack olhou-o com certo desprezo.

-Quantos anos você tem garoto?

-Dezesseis...

-Bill uma dupla pra mim, por favor – disse o vagabundo se referindo ao atendente do bar – Hmm, e o que faz por aqui a essa hora?

-Não tenho para onde ir.

-Novo por aqui? – Ele parecia realmente interessado em saber da vida de Jack.

-Sim, sou de Rhode Island.

-Traga whiskey ao garoto – gritou – me chamo William – disse entregando o copo de whiskey a Jack

-Prazer, Jack...

-Jack era o nome do meu cachorro – William fez essa piada estúpida a qual Jack fingiu não ligar – o que faz por aqui Jack? Onde está sua família?

Jack parou com os lábios prontos para saborear o whiskey e engoliu as palavras em seco.

-Eu não tenho...

-Venha garoto, você pode ficar comigo essa noite, está fazendo uma noite fria.

-E para onde pensa que vai me levar? – disse Jack desconfiado

-Você quer dormir debaixo de um cobertor quente hoje ou não, babaca?

Jack o encarou pensando no porque daquele cara estar sendo legal com ele e pensou na maldade humana, e em como os seres humanos enganam uns aos outros, mas o que restava a ele se não aceitar o convite? Nada poderia ser pior que morar com seu padrasto.

Então o acompanhou.

Aquela noite foi a primeira em que Jack conseguiu dormir sossegado sem se preocupar com seu pai gritando com sua mãe as piores coisas possíveis enquanto as crianças choravam e ele rezava baixinho para que todo esse inferno acabasse.

Ou então em seus primeiros dias em Los Angeles, passando muito frio e sendo agredido por sujeitos de rua, sem contar que ele passou muita fome

No dia seguinte ele acordou tarde, se sentiu mal por ter perdido uma aula na escola de música, mas isso não era o bastante para deixar Jack abalado, ele tomou um bom banho e vestiu umas roupas limpas e tomou o melhor café da manhã da vida dele, sempre calado até que William pronunciou:

-Eu pensei que iriam ficar grandes, mas serviram muito bem em você moleque.

-Obrigada, mais tarde te pago o favor, agora tenho que ir.

-Opa para que essa pressa? Tenho que falar com você.

Jack o encarou, estava muito assustado, mas acalmou os ânimos e escutou:

-Eu moro aqui a um tempo e estou precisando de alguém para dividir as tarefas nessa espelunca, você poderia ficar aqui e me ajudar, podemos nos dar bem se você se comportar e deixar as prostitutas fora do meu quarto!

Jack tentou se conter mas as palavras de William o fizeram rir alto demais para quebrarem o gelo de sua expressão.

-Olha cara, você é dos meus!

Continuou rindo incontrolavelmente talvez por ter conseguido um teto ou talvez porque William era uma figura e tinha um senso de humor digno de um Headbanger bêbado, não se sabe ao certo, só o que Jack tinha para se orgulhar agora era um barraco nos fundos de uma quitinete bem fuleira e um futuro amigo/irmão.

Quanto mais eles conviviam mais eles ficavam amigos e mais faziam merdas juntos, era até engraçado esses dois bêbados eles nunca brigavam, um sabia mais da vida do outro que eles mesmos sabiam de sua própria em particular.

Como um bom amigo que William era, sempre estava ao lado de Jack quando ele se sentia acanhado com seu passado e ele também era o único que sabia do seu grande segredo, algo que fazia Jack querer voltar e matar seu padrasto.

Uma certa vez Jack quase se matou de tanto beber – deve estar querendo saber que grande segredo é esse, bom, você vai sentir nojo do padrasto de Jack, eu também sinto, a verdade é que ele foi abusado quando pequeno e isso o marcou para sempre como uma parte de seu passado que é melhor ser ignorada e esquecida – seu amigo mais uma vez o salvou de uma enrascada e lhe disse algo que ficaria marcado em sua memória para sempre.

-Jack, eu conheço você mais do que a mim mesmo e sei muito bem como se sente por causa do filho da puta do seu padrasto, mas isso não é desculpa para você encher a cara e se passar pelo mesmo imbecil inútil que ele foi para você, seus irmãos e sua mãe, Jack. Você é um bosta Jack? Você é igual a seu padrasto? Você ama sua família? Não diga que sim porque você não esta fazendo nada para impedir que a sua mãe não sofra com um filho a menos em casa, que ela nem sabe se esta vivo ou morto e um marido podre de cachaça. Você não veio para cá para ajudá-los Jack, você veio para se livrar do inferno, você não pensa em ninguém além de si mesmo e o valor que você dá a família é no sentido errado da palavra; seu idiota. Você os considera como família, mas na verdade você só esta tentando encaixá-los na sua realidade para tentar voltar, ele não é seu padrasto, ele é um desgraçado, um monte de lixo. Aprenda uma coisa Jack: Ter o mesmo sangue não faz ninguém ser da mesma família, você tem que merecer.

Depois disso Jack apagou, mas sua memória continuou ali guardando as informações ate adormecer também.

William viveu mais três anos depois daquele ocorrido. Jack se formou na escola de musica e começou a trabalhar, nada digno a um garoto com o talento que ele tinha, mas dava para comer e comprar alguma garrafa de Daniel’s no fim do mês. Ele nunca conseguira pagar a seu amigo o que ele lhe fez, mas, teria sempre sua gratidão eterna, para William isso não importava, ele também não tinha amigos nem família estava jogado a sua própria sorte e foi ótimo Jack ter aparecido.

No dia da morte de William, Jack o viu pela manhã e estranhamente lhe deu um abraço apertado e disse que jamais conseguiria retribuir o favor que um dia o amigo lhe fez, mas, que tentaria de tudo para que eles tivessem uma vida melhor algum dia.

William sorriu e lhe deu um peteleco na cabeça.

-Vai trabalhar vagabundo!

Os dois gargalharam como piratas bêbados e foi a ultima vez em que Jack viu seu irmão respirar.

Quando Jack voltou para casa havia uma movimentação estranha na frente da quitinete e então ele foi dar uma olhada, não esperava pelo que viria e bastou apenas dois passos e um ‘’com licença’’ para que seu mundinho desmoronasse, e seu melhor e único amigo estava ali deitado e ferido no abdômen, ele não pode se conter e correu desesperadamente se ajoelhando ao lado do amigo, chorando e perguntando o que havia acontecido.

-Jack, achei que você não iria voltar para casa seu pateta... – William sussurrou com dificuldade enquanto o sangue já escorria de sua boca.

-Não fala William os paramédicos estão a caminho...ALGUÉM CHAMOU O MÉDICO??? O que houve com você cara?

-Não chora seu molenga, eu vou ficar bem...

-Quem fez isso William? – Jack não conseguia parar de chorar o pânico já o havia dominado completamente.

-Eu não sei, eu estava trazendo isso – havia uma caixa ao seu lado contendo uma guitarra elétrica já usada, William havia conseguido aquilo em uma troca, sua coleção de discos do Led Zeppelin pela guitarra – para você Jack, já que não levou as prostitutas para meu quarto é merecido.