Someone Like You
2 Uma Nova Realidade
Notas iniciais
Capitulo II: Uma Nova Realidade
’’Não é possível exterminar a todos os nossos medos e lembranças, pois com o tempo eles se tornam uma parte importante de nós.’’ (B.S)
Maldito barulho irritante.
Esse era o único jeito de nomear aquele som que parecia ter invadido seus sonhos. Ainda com os olhos fechados ela tentou alcançar o despertador, mas não tinha nenhum para que a morena pudesse desligar. Ela cerrou os olhos em uma tentativa de abri-los, mas suas pálpebras pareciam feitas de chumbo. O cômodo onde ela se encontrava era levemente iluminado, por esse motivo conseguiu finalmente abrir os olhos sem que fossem queimados pela luz.
Olhou ao seu redor finalmente se situando e por fim levantou a cabeça a tempo de ver uma figura alta de jaleco a tira colo vindo em sua direção com dois copos em mãos.
– Não me diga que emendou em outro plantão? Pessoas como você deviam ser proibidas de trabalhar. – A Ruiva de olhos claros parou a sua frente lhe estendendo um copo enquanto sorria ao constatar que suas palavras estavam mais que corretas. O cheiro doce de café invadiu seu olfato fazendo com que a Latina despertasse por completo.
Santana ajeitou-se na poltrona negra onde havia adormecido sentido suas costas doerem com o movimento. Notou que o artigo de regeneração neurológica ao qual lia antes de pegar no sono se encontrava no chão próximo aos seus sapatos e agradeceu com um meio sorriso ao copo que a outra médica a estendia contendo aquele liquido precioso tão presente em sua vida, principalmente em seus plantões cirúrgicos da madrugada.
– Desculpa se a minha vida amorosa não é tão badalada como a sua, por isso me limito a trabalhar. – respondeu arrumando seu jaleco antes de soltar um bocejo baixo começando degustar o café incrivelmente forte e com o sabor amargo que a manteria acordada até o fim do seu turno.
– Faça me rir Diabla Lopez. As residentes só faltam desmaiar para chamar sua atenção, se você não mantêm relacionamentos não rosne para sua sorte, pois ela pode acabar te mordendo de volta. – Santana rolou os olhos e deu de ombros as palavras de sua colega de trabalho que agora puxava uma das cadeiras acochadas próximas a si, para se sentar à sua frente.
– Você escuta as coisas que fala? Eu não lembro sequer da última vez que tive tempo para dormir na minha cama, imagine para me envolver com alguém. E não me chame de Diabla se não quiser me ver puta com você. – A ruiva franziu as sobrancelhas em sinal de indignação enquanto a Latina lhe dirigia um sorriso de lado quase invisível.
– Já pensou em trabalhar menos e ter mais vida? Por Deus, com o corpo que você tem você já deve ter feito metade das enfermeiras repensarem sobre suas sexualidades! Por isso pare de arrumar desculpas e aproveite mais a vida.
A morena deu de ombros mais uma vez, já estava se acostumando a escutar conselhos como aquele rotineiramente, e mesmo não prestando real atenção ao que as pessoas falavam não procurava rebatê-los. Sabia que muitos só queriam a ajudar, mas aquela não era uma situação que ela precisasse de ajuda, afinal era sua escolha dedicar todo o seu tempo exclusivamente a sua carreira medica, dando tudo de si para ajudar as pessoas, salvando suas vidas, dando-lhes novas oportunidades. Tentando assim preencher o vazio que se encontrava em seu peito. E ignorar o que ainda existia de sua vida pessoal era apenas uma consequência bem-vinda.
O som agudo soou novamente a trazendo de volta de seus pensamentos. Mesmo tendo acabado de acordar seus sentidos já estavam despertos dessa vez e assim conseguiu rapidamente identificar o bip preso ao uniforme padrão azul de cirurgiã que trajava. Seus olhos rapidamente leram as informações à medida que ela dava os últimos goles rápidos no conteúdo do copo em sua mão.
– Adoraria discutir a minha falta de vida pessoal com você Liz, mas tenho pacientes à minha espera. – A Latina saiu da sala de descanso dos médicos antes de poder ver a ruiva suspirar em derrota ao perceber que não tinha conseguido nenhum progresso em fazer a latina que já era sua colega de trabalho há tantos anos, aproveitar a vida que passava sobre seus olhos.
(...)
Ela parou rapidamente em um dos banheiros do segundo andar e lavou o rosto tentando tirar os vestígios de cansaço de sua face. Ao fintar sua imagem no espelho não se surpreendeu ao constatar que já era visível a sua falta de descanso além do fato que seu corpo se encontrava completamente dolorido. Cogitou a possibilidade de sair mais cedo do plantão, porém o bip em sua cintura apitou novamente a relembrando que estava sendo requisitada na C.T.I pediátrica do hospital.
Saiu do banheiro e dobrou no corredor praticamente vazio que levava até o elevador, algumas enfermeiras de final de plantão a cumprimentavam sorridentes enquanto ela apenas por educação acenava com a cabeça com um sorriso fino desenhando em seus lábios carnudos. Pegou uma pasta com alguns prognósticos antes de seguir para o elevador deserto, indo dessa vez em direção ao quarto andar que correspondia ao setor neurológico do hospital.
– Pensei que já tivesse ido para casa, Dra. Lopez! – perguntou surpresa uma garota de cabelos negros que agora vinha em sua direção com algumas pastas lotadas de papeis em mãos.
– Só irei depois de examinar esses pacientes, mas se a Dra. Water aparecer por aqui, por favor, diga que vocês me expulsaram e me obrigaram a ir para casa descansar! – Quem escutasse seu tom de voz juraria que havia algo de muito errado com aquela morena que sempre manteve seu tom sarcástico e superior com todos, entretanto ali diante de uma das residentes em neurologia a médica tinha uma voz doce e brincalhona. Definitivamente ela tinha se tornado alguém mais sociável desde o ensino médio.
Não era fingimento, nem tão pouco a Latina tinha segundas intenções com a medica interna. Era apenas um dos vestígios que afirmavam que o tempo nos faz pensar na vida, e a vida molda nosso caráter. E era isso que tinha feito na jovem médica que dedicava a maior parte do seu tempo empenhada em salvar vidas. Quase soava nobre tal ato de sacrifício se não fosse por conta de seus próprios demônios que ela conseguia se dedicar tão abnegadamente a sua profissão.
Desde criança aprendemos que todos nasceram com uma habilidade, um dom. E mesmo que ter ido para faculdade de medicina tivesse sido apenas uma forma de fugir de Lima e deixar sua família feliz, ela realmente tinha achado sua vocação. E durante toda a caminhada que tinha levado até sua situação atual, já havia presenciado tantas desgraçadas acometendo pessoas boas, sonhos despedaçados ou suas vidas marcadas por deficiências contrastando com tantas recuperações quase milagrosas que ela conseguia entender porque seu pai amava tanto o que fazia no momento em que pode finalmente ser parte daquilo.
Yale foi uma parte muito importante em todo aquele processo. Foi a partir da faculdade que sua vida deu uma completa revirada, num dado momento ela tinha uma namorada e muitas provas finais para estudar e no outro ela já estava dividindo seu dormitório com a única pessoa que conseguia ser mais bagunceira que ela própria, Quinn Fabray. E Santana eventualmente aprendeu a enterrar bem o suficiente as memorias que não queria ter de conviver, logo quando ela tentava lembrar de qualquer coisa de seu último semestre em Lima a única coisa que via era uma lacuna. Sentir falta daquele espaço era apenas consequência como se ela tivesse amputado um órgão podre.
Vez ou outra ela se pegava pensando se não havia sido apenas uma ilusão muito bem feita reproduzida por seu cérebro toda a sua vida até aquele ponto. Talvez ela vivesse em sua própria Matrix, pois a sensação de que a qualquer momento acordaria em seu antigo quarto atrasada para a pratica das torcedoras, enquanto sua mãe gritava da cozinha em espanhol por ela ter chegado tarde demais da festa da noite passada nunca ia embora. Então ela sentia aquela dor tão familiar latejar em seu peito e acabava convencida de que não estava apenas inventando tudo após uma noite louca de bebedeira.
A residente que ainda estava a sua frente apenas pigarreou antes de seguir com todos aqueles papeis para a área intensiva. A latina apenas seguiu o corredor até a C.T.I pediátrica chegando ao local onde uma de suas pacientes mais recentes havia sido instalada. A garotinha não deveria ter mais de quatro anos de idade e encontrava-se em coma induzido dependendo da ajuda de aparelhos para respirar.
A única resposta que aquela criança ainda tinha de vida era a resposta pupilar — ou seja, suas pupilas ainda reagiam à luz — aquele era o quadro clinico que se encontrava Sara Valentine, mais uma das muitas crianças que saem correndo pela rua e são atropeladas por um carro. Um caminhão havia atropelado aquela garotinha que já completava uma semana em observação no C.T.I ligada a vários aparelhos que a mantinham viva. Porém mesmo instável ela continuava piorando gradualmente e já estava perdendo a resposta a todos os estímulos feitos em seu corpo, traduzindo assim sua aproximação com a morte.
A latina preencheu o prontuário de observação da pequena Sara, checando todos os sinais vitais. Porém ao examinar os olhos da garota eles se encontravam enormemente dilatados indicando assim que aquela menina estava em estado de choque e que morreria com a pressão que agora se exercia em seu cérebro.
– Emergência Máxima! Temos de fazer alguma coisa imediatamente, prepare a sala de operações. – Santana gritou com o tom alto, porém calmo para a enfermeira que arrumava alguns dos leitos atrás de si apertando o grande botão vermelho próximo a porta.
Casos de emergência máxima mobilizam a todos no setor, e assim que a enfermeira saiu corredor abaixo alertando a todos os funcionários de plantão, dois residentes entraram a passos rápidos na sala e transfiram seu leito para a sala de cirurgia, que felizmente estava disponível. A morena correu para a sala de preparatórios cirúrgicos enquanto as enfermeiras anestesiavam sua pequena paciente para que ela iniciasse a cirurgia.
Dentro de poucos minutos, que eram extremamente cruciais, Sara já estava posicionada no colchonete macio que cobria a mesa de operações sobre um lençol verde claro. A Latina agarrou o bisturi e começou as sucessivas incisões que abririam a parte frontal do crânio de sua paciente, o objetivo da cirurgia era aliviar a pressão exercida pelo choque encefálico e reparar os danos feitos pelo mesmo.
O tempo em uma cirurgia é algo crucial para que o paciente sobreviva, a ex-líder de torcida tinha as mãos firmes e precisas e explorava cada pedaço necessário do cérebro exposto da menina. Os batimentos permaneciam instáveis, e a latina suturava os pequenos vasos abertos da parte direita da cabeça da menina. Por fim tudo não durou mais do que duas horas, os enfermeiros levaram Sara de volta ao centro de tratamento intensivo para observação enquanto a latina após descartar suas luvas cirúrgicas se dirigiu para a recepção do hospital, já sentindo o peso do cansaço nos ombros.
Geralmente cirurgias como aquela eram rotineiras quando ela pegava plantões do C.T.I, mas a jovem cirurgiã já se encontrava no quarto turno continuo e com toda certeza precisava de um merecido descanso. E após dar baixa de seus horários com uma das enfermeiras na recepção ela seguiu para o almoxarifado onde eram guardados em armários os pertences dos médicos e internos.
Retirou o uniforme e após colocar suas roupas normais pegou o casaco em seu armário junto com sua bolsa e seguiu para o estacionamento do hospital. Deveriam ser quase seis da manhã, e mesmo tão cedo o movimento já estava intenso nas ruas. Afinal ali era Nova York a cidade que nunca para. Jogou sua bolsa de qualquer maneira no banco do passageiro e fez o retorno saindo do estacionamento do Hospital New York Presbyterian, onde tinha feito sua residência em neurocirurgia pediátrica após sair de Yale e graças ao seu brilhante desempenho acabou ganhando uma vaga definitiva na junta medica.
O tempo estava úmido e ao longe podia-se observar as últimas folhas caindo das arvores, naquele começo de outono, enquanto o sol estava nascendo, refletindo seus raios nos enormes arranha-céus de Manhattan. Ela ligou o rádio sincronizando em uma estação aleatória enquanto parava em um cruzamento fechado, seus dedos batucavam o volante enquanto ela vagava seus pensamentos para muito distante dali.
Era sempre dessa forma, ela tentava se forçar a pensar no seu presente, pois o passado só lhe trazia dor, mas seus pensamentos tinham vontade própria e teimavam em ficar mergulhados em lembranças. Já tinha se tornado tão frequente sua mente vagar dessa forma quando não estava no trabalho que ela nem percebia nitidamente o que acontecia ao seu redor, era como se funcionasse no piloto automático. As pessoas não entediam o motivo de ela ter ficado tão fissurada em seu trabalho, mas foi o único jeito que ela conseguiu para controlar sua própria mente. Parecia que enquanto ela salvasse vidas estaria a salvo de si mesma.
Muitos dizem que há males que veem para o seu bem, ela não sabia dizer se tudo que já tinha passado se encaixava nesse ditado. A única coisa na qual ela tinha certeza era que já não era mais a mesma e, que tinha ao menos aprendido algo com tanto sofrimento. Quem comparasse a adolescente de anos atrás com a mulher na qual tinha se tornado, a única semelhança que encontraria seria a física. Ela permanecia linda como sempre foi, cabelos negros, corpo atlético e a mesma postura de líder de torcida pronta para tudo, porém em seu interior tudo havia mudado.
Sem promessas, sem cobranças. Apenas um dia por vez. Fora essa a regra que ela adotara em uma das muitas noites que se encontrou chorando, a mesma já perdida no tempo. Afinal já se fazia nove anos desde aquilo tudo, desde Lima, do ensino médio, desde que viu aqueles olhos verdes pela última vez.
Não se arrependia de ter sofrido depois de perdê-la. Faria tudo de novo. Pelos meses de felicidade que provou ao lado da garota da sua vida. Mas agora tudo eram lembranças, lembranças doloridas. Quando percebeu já havia chego a vários minutos em seu prédio e ainda não tinha saído do carro imersa em tantos pensamentos desgastantes que não levariam a lugar nenhum de qualquer forma.
Um banho quente... – Isso era tudo que ela precisaria naquele momento em uma tentativa de relaxar e assim dormir sem ter seus pensamentos tempestuosos a perturbando. Ela pegou o elevador acenando para alguns conhecidos enquanto checava suas correspondências ais quais tinha acabado de pegar com o porteiro. O efeito da cafeína já deveria estar passando, pois sentia o peso de seus olhos ao percorrê-los pelos envelopes em suas mãos, ouviu o barulho das portas do elevador abrindo e constatou que já estava em seu andar.
Virou o rosto para pegar as chaves de seu apartamento em sua maleta e acabou não percebendo que dois corpos vinham em sua direção, o primeiro desviou de suas pernas, já que, o segundo não teve a mesma sorte, mas a latina o segurou antes que caísse no chão com o impacto.
– Oh! Muito Obrigada – Uma garotinha de cabelos loiros, que não deveria ter mais que oito anos, agora estava suspensa pela médica dizia em um meio sorriso com a respiração acelerada enquanto observava a enorme bola de pelos que a mesma perseguia á alguns segundos retornando para perto de si.
– Senhor Branca de neve, você tem de tomar banho senão não te levarei para passear! – A garotinha fez uma expressão de falsa raiva enquanto deslizava das mãos da Latina para poder segurar o enorme gato branco como se fosse uma criança de colo.
Santana riu com a cena, era engraçada a forma como aquela bola de pelos tentava a todo custo se soltar dos braços da garotinha, mas parecia que a menina, mesmo ainda de pijamas, estava totalmente desperta para a situação.
– Obrigada de novo moça! – A menina tentou acenar para ela, mas tinha os dois braços ocupados, então por fim ela deu um grande sorriso dando de costas a Latina entrando na porta entre aberta do outro lado do corredor,
Santana arqueou uma sobrancelha ao notar que não se lembrava de seus vizinhos terem filhos ou tão pouco animal de estimação, mas deu de ombros e chegou a rolar os olhos ao notar que nem dormia direito em casa por isso não tinha como saber da vida dos restantes dos moradores daquele andar. Finalmente destrancou a porta jogando seus pertences sobre o sofá enquanto deixava as correspondências na mesa do telefone, onde a secretaria eletrônica piscava advertindo que ela tinha mensagens na caixa postal. Ignorou totalmente os recados, pois estava concentrada em tirar seu casaco e seguir em direção ao banheiro.
Sentiu seu corpo vibrar pela perspectiva de um banho quente e relaxante deixando o resto de suas roupas em um cesto próximo a pia enquanto prosseguia para a bela ducha que a esperava. A água desceu por sua silhueta desenhada enquanto sentia seus músculos relaxarem após o contato com o líquido quente. Seus pensamentos vagaram por muitos lugares em uma viagem que ela já não tinha como evitar que acontecesse. Foi preciso que a campânia tocasse sucessivas vezes para que ela retornasse de sua bolha particular.
Pegou o roupão e toalha que repousavam fora do Box e se envolveu rapidamente para poder atender à porta. Não sabia ao certo quem estaria em sua porta à uma hora daquelas da manhã, porém não se surpreendeu ao espiar pelo olho mágico e ver sua antiga colega de quarto da faculdade do outro lado da porta.
(...)
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