Someone Like You
23 Desejo de neve
Notas iniciais
Kiss me under the light of a thousand stars
“Beije-me embaixo da luz de mil estrelas” – Ed Sheeran
Dois pavões multicoloridos pareciam fazer uma espécie de dança esquisita do acasalamento, enquanto, Valerie comia seu terceiro cachorro quente encharcado de ketchup e mostarda. Parecia a hora e o local ideal para um lanche, enquanto esperavam o próximo trem que daria a volta no zoológico do Bronx partir e todos aqueles x-cakes maravilhosos de morango eram vendidos ao redor. No entanto, Santana não podia evitar não ficar preocupada com Valerie e seu apetite voraz que poderia fazê-la vomitar todo o intestino grosso ou lhe render uma intoxicação com tantos condimentos.
Brittany notou o mesmo ao tirar os olhos do mapa da parte leste do Bronx Zoo e imediatamente trocou a sua metade de sanduiche com o de sua filha.
– Ei! – Exclamou a loirinha irritada ao ver sua mãe jogar seu suculento sanduiche na lata de lixo metálica bem atrás dela. Não era justo!
– Melhor comer o meu antes que todo o seu sangue se transforme em molho rosado. Nós já conversamos sobre exagerar no Ketchup, Marshmallow!
– Mas mama, eu sinto como se não comesse nada por... milhões de semanasss! Por favor só hoje e o meu sangue pode ser rosa, eu não me importo! – suplicou Valerie fazendo um longo biquinho e uma expressão de choro que faria Rachel Berry aplaudi-la, mas Brittany já estava acostumada com aquela tática.
– Nada de biquinhos, baby. Não vai funcionar.... Até porque se eu te deixar continuar comendo sua barriga vai doer e nós teremos de ir para casa! Você quer acabar esse dia super divertido?
Valerie parou e refletiu alguns segundos torcendo a boca e fazendo o resto de ketchup quase melar seu casaco, mas Santana também estava atenta e estendeu um par de lenços cobrindo a boca da menina, que torceu o pescoço dando uma risadinha como se alguém a fizesse cócegas. Brittany sentiu como se sua música favorita tocasse naquele momento enquanto vários flamingos vermelhos dançavam no seu estômago: só assim, da forma mais clichê e poética possível, ela conseguir definir como Santana a fazia sentir apenas sendo ela mesma. Chegava a ser meloso.
– Não vai agradecer a San, mocinha?
Valerie concordou engolindo o fim de seu sanduiche e sorrindo de boca cheia abraçou as pernas de Santana. Ela disse algo, mas viu o olhar repressor de sua mãe para que ela não falasse de boca cheia, mas o seu gesto já foi o suficiente para a médica, que sequer podia se lembrar a última vez que tinha ficado tão derretida com uma criança, se sentir regozijada. Talvez seu subconsciente estivesse programado para fazer Brittany feliz e consequentemente agora se ajustasse para Valerie também.
– Uhhhh! Lá vem o tremzinhooo! Vamos mama... vamos San!
A menina limpou suas mãos com pressa no lenço e logo agarrou a mão de ambas com cada um de seus braços. Ela nunca havia andando de trem em toda a sua vida e por isso estava tão empolgada. A nova amiga de sua mãe era a melhor!
Antes do trem elas haviam tentado o passeio de barco, mas todos os veleiros estavam interditados pelo tempo pesado e a água daquele braço do rio Hudson não ficaria liquido por muito tempo, mas Valerie não se importava. Na opinião dela trens eram muito mais maneiros.
– Sabe uma coisa legal sobre dias de neve, pequenininha? – Santana perguntou assim que as três estavam instaladas dentro do vagão. A menina negou com a cabeça e retrucou: – Ei eu não sou pequeninha! Apenas tenho pernas mais curtas.
– Rachel também usa essa mesma desculpa! – Comenta a médica gargalhando ao ver a cara de indignada na loirinha. Valerie pensa por um instante e acaba concordando com ela. Realmente sua tia Rachel repetia isso um monte toda vez que sua mãe ou sua tia Quinn a chamavam de anã.
– Mas qual a coisa legal sobre o dia neve?
– Bem, você pode fazer um pedido todo primeiro dia de neve do ano. Como se fosse seu aniversário. E sempre funciona... eu juro!
Brittany quis rir da história que Santana contava a sua filha. Ela sabia que isso não funcionava realmente já que havia sido uma história boba de natal que haviam inventando para fazer sua irmã mais nova parar de chorar quando saíram certa vez para brincar e acabaram de joelhos ralados por causa da neve escorregadia. Não funcionava para valer, mas não deixava de ser fofa a forma como ela tentava fazer Valerie sorrir.
A Santana de agora era duzentas vezes mais incrível do que poderia sequer se lembrar o que a fazia sentir a pior puta-babaca-de-toda-a-humanidade por tê-la feito sofrer tanto. Aquela mulher poderia ter seguido em frente sem ela, ter tido uma esposa incrível (que não era uma estúpida como ela) e filhos maravilhosos que a fariam feliz. Mas de alguma forma nem ela nem Santana evoluíram em nada por 9 anos. Era quase como se o destino não tivesse as desamarrado e ali estavam tentando tudo de novo.
Brittany só podia orar para dessa vez nada mais estragar tudo. Agora ela era madura o suficiente para entender.
– O pedido é que eu possa comer todo o algodão doce do mundo quando acabarmos de passear! – A menina respondeu já sabendo que sua mãe a olharia com reprovação. Ela sabia que não era possível comer todo o algodão doce do mundo sem explodir a própria barriga então ela resolveu pedir de forma seria dessa vez: – Eu quero uma foto então mom. Eu, você e San aqui no tremzinho!
Brittany deu de ombros e perguntou se Santana podia fazer as honras. A médica concordou e puxou seu celular para pelo menos uma dúzia de selfies. Valerie não economizava nas caretas e poses engraçadas fazendo Santana gargalhar enquanto aperta o botão vermelho de seu Iphone. Momentos como aquele realmente mereciam uma centena de fotografias.
– Olha ali mama, um Urso! – gritou a menina animada fazendo um barulho de rugido e balançando os braços. – Será que os pinguins vão demorar para aparecer, tia San?
– Hm, acho que chegaremos neles na próxima volta, pequenininha!
Valerie concordou e continuou observando atentamente cada animal novo que aparecia apontando para Santana a todo minuto. Brittany puxou seu celular e tirou uma última foto daquele momento. Ela jamais esqueceria aquela cena, pois memorias que guardamos no coração nunca se apagam, mas seu pai sempre dizia que a melhor forma de eternizar um momento é registrá-lo e depois repeti-lo. O primeiro passo dos dois ela já tinha cumprido, agora só lhe restava ter fé que Santana iria voltar ali muitas e muitas mais vezes com elas duas. Esse era o seu desejo para aquele dia de neve.
(xxxx)
Valerie tratou de sentar na janela do taxi assim que saíram do Bronx Zoo e meio minuto depois já dormia abraçada a uma girafa de pelúcia. Brittany puxou sua cabeça para seu colo e acariciava os cabelos louros da filha por baixo de seu gorro rosa observando Santana suspirar mandando mensagem para alguém enquanto passavam pelo último quarteirão antes de chegarem em casa.
Assim que pararam no meio fio Santana já tinha dado seu cartão de credito para o taxista passar na máquina ao seu lado já contabilizando a gorjeta fazendo Brittany quase bater na sua mão.
– Eu convido, eu pago. Minhas regras senhorita Pierce!
– Oh, obvio que não. Não vou aceitar dessa vez, San. Você não pode sair por aí pagando as coisas para nós sem dividir.
– Eu pensei que mulheres gostassem de cavalheirismo! – se defendeu abrindo a porta do taxi e ajudando Brittany a tirar Valerie. Teve de se esquivar dos dólares que a loura de nariz vermelho lhe empurrava quando o taxista partiu.
– Vamos logo ou vamos congelar aqui fora. – disse a morena mordendo as próprias bochechas e o lábio inferior ao sentir uma lufada de ar atingi-las na calçada.
– Isso não vai ficar assim. Te garanto!
Brittany virou de costas com Valerie no colo indo em direção aos elevadores. Era tão divertido contrariá-la que Santana quase se sentiu tentada em continuar provocando, mas não queria quebrar seus próprios limites. Havia sido um dia muito melhor do que poderia esperar ou planejar então não era certo estragar tudo no final. Ela queria acordar amanhã pela manhã e suspirar lembrando de todos os detalhes.
"Deus, controle-se Santana! Quando eu virei essa otária sentimental? Eu não sou mais adolescente pelo amor..."
As duas mulheres cumprimentaram o porteiro sentado na recepção e seguiram até as portas de metal. A última vez que haviam ficado tão próximas uma da outra dentro de um elevador... havia sido... um desastre. Um desastre maravilhoso (Afinal, Brittany era alguém impossível de não se amar beijar) mas Santana preferia outra vez se manter dentro dos seus limites. Voltar para os passos de bebê e se manter com sua sanidade mais um dia.
A menina no colo de Brittany tinha o nariz muito avermelhado (muito mais do Brittany e sua palidez natural) e respirava forte demais para quem estava dormindo o que fez o lado médica de Santana ficar alerta.
– Ela é asmática?
Brittany concordou com um aceso enquanto as portas se abriam. Havia alguns anos que Valerie não havia tido qualquer crise, mas sempre que a temperatura descia bruscamente a menina tinha problemas para respirar e dormir.
– Já chegamos então, acho que uma bolsa de água quente vai fazê-la dormir melhor. – respondeu a Latina não sabendo exatamente se era como Santana ou como médica que recomendava isso. De qualquer forma o gesto fez Brittany sorrir.
Ela puxou suas chaves da bolsa e pediu para Santana acompanha-la. A morena sequer pensou duas vezes e a seguiu fechando a porta atrás de si vendo a outra abrir uma das portas brancas do corredor e por a menina em cima de sua cama com concha da Branca de Neve. Era totalmente a cara de Valerie aquele quarto.
– Eu vou esquentar a bolsa e você como está em dívida comigo por ser uma intrometida e pagar minha parte do táxi vai tirar esse casaco e sentar aí no sofá e esperar eu fazer chocolate quente para nos duas. Deuses, meu nariz deve estar um tomate agora... – a loira sussurrou a última parte apenas para si mesma coçando o nariz com a manga de sua blusa de algodão, fazendo Santana rir.
– Está mesmo! – provocou puxando seu celular para ver se Quinn havia respondido sua mensagem. Não havia nenhuma dela, mas quase umas 30 de Susan – uma das médicas da neurologia de plantão hoje.
Santana bufou seguindo até a cozinha onde Brittany enchia uma bolsa com água quente e preparava chocolate em uma vasilha grossa. Parecia... parecia delicioso! Era uma tremenda tentação apenas sentar ali e ficar observando e depois jogar conversa fora a noite inteira, mas ela não poderia.
– Problemas? – perguntou Brittany tentando não ser muito evasiva. Ela não queria parecer grudenta ou controladora bem no meio daquela nova fase delas, mas não podia evitar ao perceber que a morena olhava aborrecida para o celular com o casaco no braço enquanto passava a mão nas têmporas respirando fundo. Ela sempre fazia isso quando algo a estressava.
– Sim... Tenho de ir para o hospital. Houve um acidente na ponte do Brooklyn e eles precisam de reforço na cirurgia.
– Oh... Por isso o transito estava um caos quando passamos pela 90th.
– Yep, bem eu já vou. Preciso trocar de roupa e pegar as chaves do meu carro.
Brittany deixou a bolsa quente em cima do balcão dando a volta no mesmo e ficando na frente de Santana.
– Acho que você deveria tomar um pouco de chocolate quente e depois ir. Aposto que você nem vai jantar hoje.
A loira apertou seu dedo indicador na bochecha da médica e tocou seu nariz fazendo Santana sentir seu estômago tão quente quanto se houvesse acabado de derramar uma xícara de chá fumegante na sua barriga.
– Hm... acho melhor eu ir logo para evitar trânsito... mas obrigado pelo convite, B.
A morena iria se afastar, mas a outra a impediu segurando sua cintura. Não foi com força suficiente para impedir que Santana saísse, mas muito mais que o necessário para deixa-la paralisada. Agora sua pele queimava como o inferno por mais pressão e menos distância entre elas.
– Eu só queria agradecer pelo dia maravilhoso que você nos deu, S. Foi basicamente o melhor passeio da vida de Valerie. Ela te acha incrível.
A morena sorriu soprando de leve o ar para fora da boca. Basicamente aquela posição a estava matando de vontade de apenas fazer Brittany calar a boca avançando sobre ela e a prensando sobre o balcão, mas isso seria como esfaquear seus limites então ela se conteve mais uma vez; Era necessário continuar fazendo as coisas certas, da maneira certa, daquela vez entre elas, o que não significava que tornava as coisas mais fácil... ainda mais quando Brittany ficava tão adorável de nariz vermelho e lábios convidativos.
– Não lembro de me divertir tanto em um domingo como hoje. Eu provavelmente só ficaria o dia dormindo ou assistindo Doctor Who.
– Você ainda assiste essa serie chata? – perguntou Santana divertida e um pouco frustrada ao ver a loura voltar ao seu lado do balcão (longe demais do seu corpo) indo tirar o chocolate do fogo. – Não fale mal de Doctor Who ou jogo chocolate quente em você!
Santana riu ao ser ameaçada por Brittany com uma colher de pau na mão enquanto arrumava sua jaqueta no seu braço direito calculando se havia tempo para uma ducha ou algo do tipo antes de ir para o hospital. Ela provavelmente deveria ter uma já que só deveria largar ao amanhecer e depois de passar o dia andando pelo parque, jogando bolas de neve e vendo vários animais diferentes ela se sentia grudenta por dentro de suas roupas grossas. Nada que água quente não resolvesse.
– Tome. – disse a Loira fechando uma garrafa térmica cheia de desenhos de macacos amarelos. Parecia com algo que Brittany teria em sua cozinha. – Leve assim você pode tomar um pouco dentro do taxi indo para o hospital ou quando tiver uma folga.
Santana ficou de boca aberta ligeiramente sem palavras ao ver que Brittany lhe oferecia uma garrafa com chocolate quente para a viagem. A doçura com que ela tratava as coisas simples ainda era algo raro de se encontrar e muito interessante de se observar. Aquilo fez Santana derreter algumas oitavas.
– Eu.. hm, acho que vou dirigindo, mas nossa obrigada! Eu com toda certeza vou tomar sim.
– O tempo pode piorar de madrugada, você não acha melhor ir de táxi? Caso você esteja muito cansada de manhã para dirigir, pode ser perigoso.
Nova York era conhecida por ser a cidade com mais acidentes de carro por metro quadrado de neve do Estado e mesmo Brittany sabendo que Santana era uma ótima motorista sempre era bom prevenir.
– Obrigada, B. Acho que seguirei seu conselho... mas agora tenho de ir.
– Oh, claro eu te acompanho até a porta.
Brittany correu na frente quase deslizando pelo piso de madeira e parando estrategicamente na sua estante de DVD’s como se fosse uma moleque imitando o homem aranha ou algo assim. Santana queria parar de achá-la adorável, mas deveria ser impossível.
– Tome aqui, Doutora. – disse lhe empurrando duas notas de vinte dólares como tentou mais cedo na hora do táxi. Santana negou com a cabeça.
– Você disse que pagaria com chocolate quente e já fez isso.
– Mas eu insisto. – respondeu a dançarina deslizando até seu lado e antes de abrir a porta puxou a outra pelo cós de sua calça, na fenda de seu cinto, fazendo Santana soltar um gritinho de surpresa e arfar. Elas ficaram com os corpos frente a frente, coladas e Brittany aproveitou para por uma nota de vinte dentro do bolso da médica delicadamente e com uma lentidão que fez Santana arfar outra vez. Não era para ser um movimento com segundas intenções, mas no momento que elas ficavam pele a pele sempre acabavam surgindo triplas e quádruplas intenções maliciosas na cabeça de ambas.
– Obrigada por tudo hoje, S.
– Hm... ok.
Brittany iria soltá-la, mas antes tinha de perguntar uma coisa. Era algo até um pouco bobo, mas Brittany precisava saber ou não conseguiria fechar os olhos à noite.
– Han... S, você ainda faz seu pedido no dia de neve?
– Sim. – Santana foi rápida e direta com a resposta o que deu coragem para Brittany continuar a perguntar. – E qual foi seu desejo para hoje?
Santana quase travou, mas ela sabia que se não fosse honesta Brittany saberia de qualquer forma. E poderia ser insanidade ou graves problemas neurológicos da sua parte pensar isso, mas ela sabia: Brittany queria o mesmo.
– Eu queria te beijar de novo. E bem... estamos aqui. De novo.
O desejo de Santana havia sido o primeiro a se realizar aquela manhã, mas Brittany não achou que seria qualquer sacrifício tornar a realiza-lo. Afinal para se tornar um momento memorável era preciso registrar e repetir.
E Brittany beijou Santana e Santana beijou Brittany, quase deixando a garrafa em sua mão cair. Sempre lhe faltava o equilíbrio, o ar, a capacidade de ser racional perto da dançarina. Tudo era doce e tudo era apimentado como molho mexicano na sua garganta cada vez que Brittany passava a língua pela parte superior de seu lábio e prendia o seu inferior com os dentes. Porra, mais um pouco e Brittany começaria a arranhar sua nuca e... elas não poderiam parar.
Santana suspirou e quebrou o beijo encostando sua testa a de Brittany já com vontade no máximo de jogar aquela garra no sofá para agarrar o pescoço da outra com seus braços. Estar perto dela era uma tempestade muda dentro da sua cabeça, mas não era hora para poesias codificadas em sentimentos... ela precisaria ir antes que tudo ficasse fora de controle e acabassem na cama da dançarina.
– Você precisa ir...
– Mas eu não quero mais. – confessou a latina roubando outro beijo rápido antes de trocar o casaco de mão e dar um passo para fora do apartamento. – Boa noite, Britt.
E Santana foi aquela noite para o hospital com os sentimentos na mão e a cabeça anestesiada.
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