Sol da Manhã

4 A menina cheia de cor


Notas iniciais
Esse capítulo ficou meio grande, ou os outros ficaram pequenos não sei, pq talvez os próximos capítulos fiquem maiores, mas acabou que esse tem quase 3 mil palavras então... Aproveitem :)

—Você está me perguntando se pode fazer um trabalho na casa de uma amiga? Que evolução!

—Pois é né, você me pediu para tentar fazer amizade então... Fora que eu preciso fazer o trabalho, vale um terço da nota do semestre.

—Tudo bem filho, pode ir. Depois quero conhecer essa sua amiga.

—E os outros? Vai querer conhecer também?

—Vou querer conhecer todos!

Era de se esperar que minha mãe ficasse animada com a ideia de eu fazer algo diretamente relacionado com socialização. Ela se incomoda bastante com minha solidão, provavelmente se importa mais do que eu. Às vezes dava para notar a preocupação dela, acredito que pelo menos alguma parte dos fios de cabelo grisalhos em meio aos castanhos da minha mãe era por minha causa. Bom, pelo menos ela ficou feliz, e me deixou ir sem problemas. Fazer um trabalho na casa de Dayanne... Não tenho a menor ideia do que vou fazer lá. Nunca fui à casa de um amigo, tive poucas amizades na vida, e todas duraram pouco por causa das mudanças de colégio que eu fazia. Tem uma primeira vez para tudo não é? Só espero que essa primeira vez não seja um desastre. É melhor perguntar a eles se querem que eu leve alguma coisa, ou pesquise algo, para prevenir.

Ainda era quarta-feira, tínhamos tempo suficiente para nos organizarmos até sábado. Quando passei pelos portões da escola, vi Allan, Anna, Day, Karol e Nathan sentados numa das mesas de pedra do pátio. Karol estava sentada de lado no colo de Nathan, eles estavam se agarrando tanto que parecia que as línguas deles tinham se fundido. Allan tinha me avisado que aquilo acontecia com certa frequência, comecei a entender o que ele quis dizer. Aproximei-me da mesa e percebi que Allan, Day e Anna, estavam calados encarando o casal e olhando entre si. Sentei junto a eles.

—Bom dia.- Disse Anna, enfatizando o desânimo.

—Não está parecendo muito bom para você, o que foi? Que caras são essas?

Anna e Day apontaram as duas ao mesmo tempo para Karol e Nathan, que insistiam na competição para ver quem se engolia primeiro.

—Ah, claro.- Eu disse, rindo da situação. É compreensível, quem gosta de segurar vela não é mesmo?

—É meio óbvio né. Já faz alguns minutos que eles tão nisso aí.- Disse Allan.

—E vocês estão calados observando esse tempo todo?

—Não, é que um tempinho depois de eles começarem nós ficamos sem assunto, aí você chegou.- Comentou Dayanne.

—Eles não estão percebendo que estamos falando deles esse tempo todo?-Perguntei, acho que é impossível não notar que eles são o assunto atual da conversa.

—Quer perguntar para eles? — Disse Allan, com ironia.

Depois disso foi inevitável ouvir o gemidinho que Karol deu, o negócio estava começando a ficar bom ali, pelo menos para eles.

—Tudo bem, já chega, já deu. — Disse Anna se levantando e indo em direção ao casal. Ao chegar perto dos dois, ela fez cócegas em Nathan e ele deu um pulo assustado. — Olha só crianças, aqui não é lugar para isso, tá todo mundo olhando! Nem pra vocês serem mais discretos?

—Hã... Desculpa? — Disse Nathan. Karol sorriu como quem diz desculpa, mas eu não estou nem um pouco arrependida, o que me fez rir, e acho que teve o mesmo efeito em Dayanne, porque ela também estava sorrindo.

Ouvimos o sinal tocar.

—Ah, finalmente!- Exclamou Anna.

Fomos em direção à sala, todos rindo.

...

Eu não costumava demorar muito para ir embora depois do fim das aulas, eu não via muitas vantagens em ficar enrolando para voltar para casa. Então passei pelos portões e segui meu caminho, a pé como sempre.

O colégio não era tão longe de casa, era uma caminhada de mais ou menos quinze minutos, que eu percorria todos os dias com os fones de ouvido. Aquele colégio tinha dois portões, saindo por um deles o caminho era a avenida, pelo outro, era a beira-mar. Eu não tinha muita preferência, mas dessa vez segui pelo caminho da beira-mar. Eu gostava dos dois lados, o lado da praia, do mar e o vento forte, e o lado urbanizado, cheio de pessoas, de carros e de vida. O que me chamava atenção quando eu ia pela avenida eram as pessoas, seguindo suas vidas, todas preocupadas com seus empregos, estressadas com as contas para pagar, pensando nos relacionamentos que estão dando errado, nos estudos que precisam ser feitos. E elas nem se dão conta do que estão perdendo, vivendo no piloto automático, era o caos organizado do mundo urbano. Já a beira-mar, só me chamava atenção pela paz, apareciam algumas pessoas, mas a maioria parecia estar aproveitando a paisagem, do lado de cá era tudo mais calmo, o que me fez lembrar dos meus amigos, mais especificamente de Dayanne.

Por que me lembrei dela? Eu também não sei, talvez eu tenha associado a paz que aquele lugar me trazia com a paz que estar com ela me dava, não que eu não sentisse a mesma coisa com os outros, mas ela me veio a cabeça de repente... Day é uma garota interessante, ela vê as coisas de um jeito diferente, parece que as coisas para ela são mais simples, ela se distrai com os detalhes. Ela é uma menina esperta, mas às vezes é tão inocente, é o tipo de personalidade que encanta as pessoas — ou pelo menos me encantou -, não tenho a menor ideia de como cheguei a essa conclusão, mas acho que não faz diferença. Acabou que me aproximar dos pseudo-loucos — acho que esse termo os define muito bem — me fez bem, eu gostava de estar com eles.

...

O sábado chegou mais rápido do que eu estava esperando. Fiquei um pouco mais de tempo que o normal pensando no que vestir, mas acabei usando o mesmo de sempre, calça jeans e uma camiseta de uma das bandas que eu gostava. Me despedi da minha mãe e fui até a casa de Day, que na verdade era perto, então como eu gostava de caminhar fui andando mesmo. Não foi difícil de encontrar a casa dela. Quando cheguei toquei a campainha e Dayanne logo abriu a porta.

—Oi! Pode entrar e seja bem-vindo.- Disse Day, simpática como sempre.

—Valeu.- Eu sorri para tentar ser mais simpático e disfarçar o leve nervosismo que eu estava sentindo, não sabia direito qual era o motivo.

A casa tinha um quintal bem espaçoso, com piscina e uma churrasqueira de pedra, depois de passar pelo quintal e pelo terraço pequeno, entramos. Karol e Allan já tinham chegado e estavam sentados no sofá grande e cinza. Karol estava brincando com uma menininha que também estava na sala, provavelmente era irmã mais nova de Day como ela já tinha comentado.

—Oi Daniel!- Disse Allan.

—Olá.

De onde eu estava dava para ver uma jovem senhora de cabelos loiros iguais aos de Dayanne, só que mais curtos, iam até os ombros. Ela estava sentada na mesa de jantar olhando concentrada para o notebook, mas quando eu entrei ela se virou para mim e começou a se levantar para vir na minha direção, o que me fez parar ali mesmo e me deu um leve frio na barriga.

—Então você é o Daniel.

—É... Sou sim.

—Meu nome é Joana, sou a mãe de Dayanne. — Ela estendeu a mão para mim. Dava para perceber a semelhança entre Joana e a filha.- É um prazer conhecer você.

Eram parecidas até na simpatia, deu para ver a quem Day puxou.

—O prazer é meu.- Eu apertei a mão que ela havia estendido para mim.

—Dayanne me falou de você.

—Ela falou?

—Mãe! É sério?- Day estava de costas fechando a porta, mas isso não impediu que ela ouvisse o que a mãe dela tinha acabado de falar. Deu para perceber que ela ficou envergonhada, e não sei se deu para reparar, mas eu também fiquei.

—Bom, mas você falou mesmo.- Joana se justificou.

—Falei porque você perguntou!

—Esse é o Daniel?- Uma voz infantil falou, quando olhei para baixo a irmã de Day estava me encarando com uma cara séria, séria até demais para alguém da idade dela.

—Oi!- Eu disse, sorrindo.

—Essa é Millena, minha irmã mais nova. — Disse Day.

—Quantos anos você tem?- A pequenina perguntou.

—Dezesseis, e você?-Me agachei para ficar na mesma altura que ela.

—Eu tenho oito!- Ela parecia orgulhosa da idade que tinha.

—Nossa!Isso tudo?

—Sim eu já sou grande!- Ela parecia ter gostado do comentário -Como você é bonito!

Por essa eu não esperava.

—É? Obrigado! Você também é muito bonita sabia?

—Sabia! Obrigada.

Que menina esperta... E fofa.

—Ah você sabia? Pois você está mais do que certa, tem que saber seu potencial!

—Eu também penso assim! — Ela estava bem animada ao dizer isso.

—Você não tinha dito que não tinha irmãos?- Perguntou Dayanne.

—E não tenho.- Respondi e levantei ao mesmo tempo.

—Olha... Então ou você leva jeito com criança ou você é bem sortudo.

—Por quê?

—Millena não costuma ser simpática de primeira com estranhos.- Foi a mãe de Day quem me respondeu.

—Bom, ela não está errada.

—Viu? Ele concorda comigo!- Constatou Millena.

Dayanne estava rindo, e eu, Karol e Allan também. Mas logo depois a campainha tocou.

—Pode ficar à vontade Daniel, eu vou ver quem chegou.- Disse Dayanne.

—Tá bom.- Eu me juntei a Allan e Karol no sofá.

—Parece que ela gostou de você.- Me disse Karol, ela estava com um meio sorriso malicioso no rosto.

—Quem? Millena?

—Não, a mãe de Day.

A porta abriu e Anna entrou, era impossível não notá-la mesmo ela sendo baixinha, o cabelo extremamente volumoso e mala pesada que ela estava trazendo chamavam muita atenção. A mala não era muito grande, mas parecia pesada e ela estava fazendo bastante esforço para carregar.

—Olá Anna! Tudo bem? Como vai sua família?- Perguntou Joana, provavelmente elas já se conheciam há um bom tempo.

—Ah, loucos e fazendo bagunça, nada fora do normal.

—Agora só falta o Nathan. -Lembrou Day.

—Enquanto ele não chega mostre a casa a Daniel, filha.- Joana pediu.

—Ah é! Vamos. Vocês vão ficar aí ou vem junto?- Disse Day, se referindo a Allan, Anna e Karol.

—Não sei vocês, mas eu vou colocar essas coisas lá em cima. Vou deixar no seu quarto Day, tudo bem né?- Perguntou Anna, levantando a mala que estava segurando.

—Claro que sim! Você já é de casa, coloca perto das coisas de Karol. E vocês? Vão ficar aí?

—Eu estou com preguiça demais para levantar agora, e estou quase passando de fase no Candy Crush.- Respondeu Allan, sem tirar os olhos do celular, que era para onde ele estava olhando desde que cheguei.

—E eu estou meio ocupada aqui.- Dessa vez foi Karol que respondeu, ela estava fazendo uma trança no cabelo de Millena.

—Então tá... Vem Daniel. -Disse Dayanne.

—É... Ok.

Anna já tinha subido as escadas para guardar as coisas. E eu e Day estávamos andando ao longo do corredor.

—A casa não é tão grande assim, o corredor leva ao banheiro, ao quarto da minha avó e dos meus pais.- Ela explicou enquanto seguíamos.

—Já é a segunda vez que você faz isso.

—Isso o que?

—Me mostra algum lugar, primeiro foi a escola agora sua casa.

—Ah... É, não tinha percebido.

Ela começou a subir as escadas e eu a segui, assim como fiz no segundo dia de aula.

—Aquela porta ali é o quarto da minha irmã, aqui fica o escritório, onde a gente vai fazer o trabalho- Fomos andando e chegando mais perto do fim do corredor. — Meu quarto fica aqui, e abrindo essa porta de vidro é a nossa varanda.

Ela continuou andando em direção a tal varanda, mas um quadro no meio do corredor me chamou atenção e eu parei para observar. Era uma menininha de costas e em pé usando um vestido reto amarelo que ia até os joelhos, ela tinha longos cabelos lisos e coloridos como um arco-íris. Engraçado é que ela era cheia de cor, mas o resto do quadro era cinzento e com detalhes pretos, ela estava em um ambiente completamente obscuro.

—Que bonito. -Elogiei, fazendo Dayanne perceber que eu tinha parado de segui-la e voltar um pouco até ficar próxima de mim.

—Você acha? Eu que pintei. — Disse Day, parecia surpresa.

—Sério? Nossa, você tem talento.

—Ah... Obrigada... — Ela disse, sorrindo. Toda vez que ela sorria eu não conseguia parar de encarar. Estava começando a ficar com vergonha, tenho que parar com isso... Dayanne notou que eu estava encarando ela, e começou a me encarar também... Ok, e agora? O que eu faço?

—Vocês já terminaram? Podemos descer?- Quando olhei para o lado para ver quem tinha dito aquilo, vi Anna nos olhando desconfiada.- Vocês vêm ou vão ficar me encarando aí?

Ah que bom! Se Anna não tivesse interrompido eu não iria saber o que fazer, meu rosto já estava começando a queimar de vergonha. Descemos nós três, e logo Nathan chegou. Depois disso fomos todos para o escritório fazer aquele bendito projeto. Pesquisamos e dividimos os tópicos que cada um ia explicar, e preparamos uma apresentação. Tudo estava indo conforme o planejado.

Enquanto eu estava sentado na cadeira de escritório preta finalizando a parte escrita do trabalho, Anna estava sentada no balcão de madeira clara que circulava o escritório todo, parecia bem firme e ela era pequena então acho que não tinha perigo de quebrar. Dayanne estava encostada no mesmo balcão ao lado dela. Karol e Nathan estavam se beijando perto da janela do outro lado do escritório, e Allan estava em pé encostado em uma estante de ferro cinza cheia de livros e arquivos que ficava ao lado da porta, todos esperando a última etapa do trabalho ficar pronta. Coisa que tinha acabado de conhecer, eu finalmente tinha terminado.

— Pronto. Terminamos?- Perguntei.

—Sim, não falta mais nada. Mas ainda está cedo, vamos comer alguma coisa lá em baixo depois vocês vão embora.- Ofereceu Dayanne, sorrindo como sempre, essa menina é a simpatia em pessoa.

—Por mim beleza, vamos para o terraço? É mais ventilado.- Perguntou Allan.

—Vocês que sabem.

—Eu topo, só vamos sair desse quarto logo.- Disse Anna, descendo do balcão e indo em direção à porta, Day e Allan também foram.

—Hum... Gente, vocês estão se esquecendo deles.- Eu disse, apontando para a ruiva e o moreno no canto do escritório. Depois desse tempo todo Nathan já tinha colocado Karol sentada no balcão ficando entre as pernas dela, e ela estava acariciando os cabelos pretos e curtos dele. Já tinha um bom tempo que eles estavam nessa, estou começando a me habituar com isso, acho até engraçado.

—Ah, eu tinha esquecido mesmo deles dois.- Disse Dayanne. -Karol! A gente vai descer! Dá para parar um pouquinho? Vocês continuam lá em baixo.

—Foi mal.- Desculpou-se Karol, sorrindo.

—Eu estou com fome, vamos comer.- Disse Nathan.

—É para isso que vamos descer amiguinho.- Respondeu Anna, rindo dos dois.

Descemos, a mãe de Dayanne tinha feito bolo de chocolate — que estava uma delícia por sinal -, cada um pegou uma fatia e fomos para o para o lado de fora. O terraço era todo envolvido por uma grade de ferro preta e delicada, para os móveis tinha uma mesinha de centro de vidro, e ao redor dela tinham dois bancos acolchoados, cabiam três pessoas em um deles e duas no outro. Allan sentou-se ao lado de Anna no banco menor, eu me sentei ao lado de Day no banco maior — que era a única escolha que eu tinha fora sentar no chão — e Karol e Nathan sentaram juntos numa rede, abraçados e grudados.

Estávamos todos em silêncio até Karol falar.

—Vamos gente! Falem alguma coisa!

—Eu não estou muito disposta a pensar em algum assunto nesse momento.- Respondeu Anna, que estava praticamente jogada no banco.

—Anna tirou as palavras da minha boca.- Disse Allan.

—Então fala você Daniel.- Pediu Karol.

—Eu?

—É, fala aí do que você gosta, se vai para casa de ônibus, se acha que amarelo e cinza não combinam.

—Hã... Eu gosto de... Dormir e ouvir música, ainda não decidi se vou para casa a pé ou de ônibus, e não tenho a menor ideia se cinza combina ou não com amarelo. Mais alguma pergunta?

—Deixe-me ver... Você é solteiro?

—É... Sou. Por que a pergunta?

—Pois é. Por que a pergunta?- Repetiu Nathan, tornando perceptível seu ciúme sem fundamento.

—Para saber se o casalzinho que eu apoio tem chances.

—Eu entendi a referência!- Disse Anna.

—Vocês às vezes me assustam.- Afirmou Dayanne.

...

Depois disso o pai e a avó de Dayanne chegaram e nos cumprimentaram, aparentemente eles tinham saído para uma consulta no médico. Um tempo depois Allan, Nathan e eu fomos embora, as meninas ficaram já que iam dormir lá.

Antes de nós irmos embora, ficamos conversando por um bom tempo. E mesmo que eu tivesse ido à casa de Dayanne para fazer um trabalho escolar, eu me diverti até demais. Aliás, fazia tempo que eu não me divertia desse jeito. Realmente não queria que se repetisse o que aconteceu das últimas vezes, me afastar das minhas amizades por mudança de colégio. Mas eu não queria mais pensar naquilo, estava cansado e precisava ir para casa.

Notas finais
Quando eu vou fazer trabalho na casa de amigo é sempre pior que isso ai, é uma bagunça, mas de qualquer forma espero que tenham gostado e até o próximo ♥