Sol Do Anoitecer
7 Atingindo
Notas iniciais

... seu toque passar a um leve formigamento e então sumir, junto com a visão que eu tinha de seus olhos.
Demorei algum tempo para finalmente voltar à realidade, porque estar com o Logan novamente era como estar no paraíso, por assim dizer. Ele sempre havia feito de mim uma pessoa melhor.
Era inexplicável o que acontecia quando estávamos juntos.
Eu sabia que precisava dele. E... Se agora eu era a criatura mais poderosa, daria um jeito para ter ele de volta sem precisar acabar com a vida de James.
Mas, depois de ter os dois vivos comigo, precisaria escolher. Eu não podia mais esconder o que eu sentia. Teria que ficar apenas com um, por fim, deixar livres os que eu amava.
Sim, agora eu sabia. Eu os amava. Não apenas o Logan e o James. Mas o Kendall também, e o Carlos que sempre se mostrou tão dedicado e atencioso comigo.
Errado. Tudo sempre tão errado. Tudo sempre tão fora do lugar.
Finalmente, resolvi voltar ao castelo. O sol já estava alto no céu, e andei mais devagar que pude, precisava de um tempo para pensar. Devia haver alguma saída.
Deparei-me com dois filhos da lua, impacientes, eles com toda a certeza estavam me aguardando. Isso não era nada bom.
– Alyana disse que precisava conversar com você. No seu quarto. – Um segurou o meu braço e começou a praticamente arrastar-me, enquanto o outro andava a frente.
Deixei que me levasse até que escutei um grito, um pouco longe, fixei meus pés no chão, mesmo com um filho da lua me puxando com força.
Eu conhecia aquela voz.
– Três segundos para você me largar. 1,2 ... – Ele insistiu. – 3.
Agarrei aquela mão com o braço livre, torcendo-a e por fim quebrando os pequenos ossos. Um grito de dor escapou da sua garganta, puxei o pescoço dele e dei uma joelhada no seu tórax fazendo com que fosse ao chão, enquanto o outro se preparava para me atacar. O segundo avançou, seu olhar só continha ódio. Deixei que se aproximasse, para me esquivar rapidamente, subi em suas costas e com um soco, quebrei suas vértebras lombares, paralisando-o da cintura para baixo.
Passou pela minha mente matar-los. Mas, não sabia do que Alyana seria capaz se soubesse que seus “servos” estavam mortos.
Corri para onde havia escutado o grito. Carlos estava em perigo. Desci um lance de escadas, chegando a uma porta trancada. Tentei empurrar, porém, ela não cedeu. Senti a raiva começar a fervilhar dentro de mim.
Porra, estavam machucando-o. Bati com força duas vezes, derrubando a porta.
A cena que encontrei fez minha expressão passar de raiva a surpresa e por fim ódio. Ali, era só o que pude sentir.
Carlos estava pendurado pelos braços, sustentados por correntes. Sangue escorria da sua boca e de vários ferimentos espalhados por seu corpo, minha garganta voltou a arder, por causa da minha incurável necessidade de sangue. E, aquela mulher estava em frente a ele, injetando veneno de vampiro, eu sabia que em grande quantidade iria matar-lo.
– Alyana! – Rangi.
– Oh! – Ela se virou para olhar-me com um sorriso que desapareceu rapidamente, quando percebeu meu rosto contorcido de ódio. – Sweetheart, pensei que você ficaria feliz, esse traidor furtou novamente algo que me pertencia.
– Solte-o agora. – Ordenei, minha voz parecia mais um rosnado.
– Mas, minha querida, além de ter roubado a pedra lua, ele está com o poder, coisa que não o pertence, e sim a você. Preciso arrancar antes que esse amaldiçoado consuma.
– Não está com ele. – Atravessei o lugar com menos de cinco passos, e a empurrei. Quebrei as correntes que o segurava, Carlos com um gemido de dor caiu, mas antes que seu corpo batesse no chão, segurei-o, fazendo com que se apoiasse em mim. – Está comigo. Ele agora corre por todo o meu ser. Se quiser arrancar-lo vai ter que lutar.
– Você... – Ela sussurrou.
– Sim, EU! – Levantei uma sobrancelha – É bom não esconder mais nada de mim, querida tia.
– Claro, minha sweetheart.
Ignorei a palavra “minha”, já estava cansada de todos acharem que eu pertencia a alguém. Carregando Carlos meio inconsciente, subi as escadas e fui até seu quarto. Deitei-o na cama, e com um pano úmido limpei todas as feridas.
– Obrigado. – Ele sussurrou.
– Eu que agradeço.
Carlos preferiu sofrer calado, a contar que estava comigo. Apertei o pequeno pedaço da pedra lua que me pertencia, James havia me dado antes da minha tentativa de matar-lo. Eu carregava comigo, escondido – claro. Se notasse iria saber que existia algum sentimento da minha parte.
Voltei para onde eu havia adormecido com o James, ele já não se encontrava lá. Tirei a roupa e mergulhei na banheira, fechando os olhos eu podia me ver criança, correndo, escondendo, pensando que era uma humana.
Algo que sempre tentei preservar, uma humanidade que nunca existiu.
Do lado de fora o crepúsculo tomava conta de todo o céu, e a penumbra da noite entrava pela varanda. Eu precisava desligar e concentrar. Havia uma explicação para que Alyana chamasse-me de “Sweetheart”, só não sabia qual era, estávamos praticamente em guerra agora, eu a desafiei. Afundei na água deixando que cobrisse todo o meu corpo, até que tive uma idéia.
Saí da banheira e abri um armário que havia no quarto, achei repugnante vestir uma roupa que pertencesse a qualquer um daquele lugar, mas mesmo assim, vesti.
Deixei que meus instintos alertassem-me de qualquer coisa fora do normal.
Precisava encontrar-lo. Kendall.
Subi a primeira escada que deparei, naquele labirinto em forma de castelo, indo parar em um terraço aberto. A lua já começava a brilhar, outra noite de lua cheia. Em breve, os uivos encheriam o ar.
– Por que eu sabia que iria te encontrar o mais longe de todos?
– Talvez seja porque você sabe que ainda me pertencerá. – Ele falou sem dirigir o olhar para mim.
– Você não perde a oportunidade, não é mesmo? – Fiquei ao seu lado, quase sentindo a corrente elétrica que irradiava entre nós. – Pode parar com isso. Já sabe que nunca fui humana, e que não pode ser humano como eu.
– Luanne Aili, você não entenderia. – Ele movimentou-se rapidamente para minha frente, e encostou o nariz no meu.
– Não entendo mesmo. – Quanto mais tempo passava, mais minha garganta ardia. Eu precisava desesperadamente de sangue. – Preciso da sua ajuda.
– Como sempre. – Olhei em seus olhos profundamente verdes – Quer saber alguma coisa da sua “tia gêmea”. Ela é um mistério.
– Exato. Quero saber porque ela me chama de “sweetheart”. O jeito como ela fala- Afastei-me dele- é como se a vida dependesse disso.
– Talvez seja. Vocês são idênticas por fora, mas por dentro... Até o olhar daquela filha da lua é sombrio, ela exala escuridão. Acredito que Alyana é a sua parte maligna, Lua. Como se fosse o seu contrário.
Acompanhei o raciocínio dele.
– Então... Se tudo que há nela é obscuro, até o seu coração é corrompido. O meu não, quer dizer... Eu já matei. Ah, Kendall! Eu não estou conseguindo pensar direito. Isso é tudo muito confuso.
– Vamos ter que descobrir. É óbvio que ela precisa de você para alguma coisa.
O primeiro uivo cortou a noite, senti um aperto forte no coração. A dor voltou novamente e com o ardor na garganta estava piorando tudo.
Eu podia estar mais forte, mas, ainda precisava do sangue de James.
Kendall passou o braço pela minha cintura, puxando-me para perto.
– Lua, seja minha. – Ele falou em meu ouvido. – Só por essa noite.
– Eu não posso. Não agora. Eu... – Minha voz fraquejou.
Empurrei-o devagar e dei as costas. Minha cabeça rodou, coloquei a mão sobre o peito, a dor havia aumentado subitamente. Olhos cinza novamente tomavam a minha mente, tudo o que eu menos precisava.
Dessa vez eu podia sentir-lo dentro de mim, como se ele pudesse sentir o mesmo. Meus joelhos foram de encontro ao chão.
– Lua! – Kendall se ajoelhou ao meu lado.
– Preciso matar-lo.
Meus lábios pronunciaram. Mas, não fui eu quem havia falado.
Ele novamente, mais forte.
Caos.
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