Soho Dolls
2 Capítulo 1 - Between Tears and Laughs
Notas iniciais
Sete anos depois
Hoje completava sete anos...
Sete anos se passaram...
Sete longos anos de solidão e tristeza. Era muito tempo, admito, mas ainda doía como se tivesse sido no mês passado. Meus pais morreram e levaram consigo tudo o que nos restava, casa, carro, herança. Eles foram e levaram junto tudo de bom que existia em mim, minha felicidade, a vontade que eu tinha de viver, minha virtude, minha inocência... Tudo, tudo...
Aquela data acabava comigo porque não eram só os sete anos que meus pais morreram mas também os sete anos que eu tinha entrado nessa vida. Tantas coisas haviam mudado desde o dia que eu aceitei a proposta de Meredith e ingressei para o mundo da prostituição.
Eu já não era mais aquela Elena de dezesseis anos que sonhava em entrar em uma faculdade e se formar em design de moda para ser uma grande estilista, já não era mais aquela Elena inocente e virgem ou aquela adolescente que vivia rodeada de amigos e que fazia todo mundo rir. Agora eu era Nina, como era conhecida pelos clientes, uma prostituta que tinha absolutamente nada e que sonhava sair dessa vida, agora era uma mulher que dava sexo em troca de dinheiro, que só tinha duas amigas de verdade e que o único som que conseguia arrancar de alguém eram gemidos de homens enlouquecidos de prazer.
Eu sentia tanta falta do que costumava a ser, das coisas que costumava ter e das pessoas que costumava a conviver. Aquilo não era vida e o pior era que eu me lembrava exatamente de meu maldito inicio.
- Elena, tenho um cliente para você... – Meredith entrou em meu quarto enquanto eu terminava de me arrumar para descer a primeira vez na boate. – Ele é um dos nossos clientes mais antigos e saiba que ele é muito exigente. – Eu a olhei assustada. Será que não tinha como ela ter me escolhido um homem não tão “importante”? – É fácil, é só você fazer tudo o que ele quiser e o tratá-lo bem! –Falou com uma calma que eu não entendia de onde vinha. – Não o decepcione, Nina. – Sorriu ao usar meu nome de trabalho.
Um frio percorreu minha espinha me fazendo estremecer. Eu não queria aquilo... Aquela não era eu, aquela imagem refletida no espelho não era minha. Aquilo era uma mulher e não uma adolescente de dezesseis anos. Era uma mulher de uns vinte anos... Ela usava um espartilho vermelho com detalhes em preto que podia facilmente ser passado por uma regata normal, ele moldurava perfeitamente o corpo da jovem destacando a fina cintura que já possuía e deixava seus seios, que ainda não eram tão fartos, quase pulando para fora do decote. Suas longas pernas estavam à mostra com uma saia preta extremamente curta e colada, para fechar um peep-toe de salto quinze que alongavam ainda mais suas pernas.
Meus olhos se encheram de lágrimas. Eu não queria aquilo...
Tive que fazer um esforço enorme para não me desmanchar em lágrimas mas Meredith tinha caprichado naquela maquiagem e ela não iria me dar o luxo de refazê-la caso eu a borrasse.
- Meredith, eu não consigo... – Sai de meu quarto encontrando minha “chefe” me esperando do lado de fora.
- Vai ter que conseguir, Elena, você aceitou, lembre-se disso. – Falou rude e me conduziu até o andar de baixo me fazendo entrar em um quarto isolado da boate.
Aquilo era um pesadelo... O quarto não era tão grande mas tinha espaço o suficiente para uma enorme cama com lençóis de seda vermelho e mais alguns moveis que não eram importantes. As paredes eram brancas, com exceção da que abrigava a cabeceira de cama que era vermelha e tinha uns detalhes em preto. Um homem me esperava sentado em um divã e assim que cheguei ele veio até mim.
Não sabia definir ao certo sua idade mas tinha certeza de que não era pouca por causa de alguns fios brancos no meio dos escuros, ele usava uma roupa social e tinha uma expressão cansada, estressada. O encarei enquanto ele me olhava de cima a baixo com um olhar malicioso que me dava ânsia. Continuei o encarando, não desviei o olhar dos dele nem um segundo. Meus olhos passaram pelo seu rosto, seguiram para seus braços e demoraram em sua mão esquerda que possuía uma enorme aliança dourada, maldito, ele era casado, meu estomago revirou de novo, enquanto sua esposa o esperava em casa para passarem o final de semana juntos, ele estava em um bordel fazendo sexo com uma menina de dezesseis anos. Desci o olhar e mais uma vez prendi a atenção ali, ele tinha um enorme volume na parte da frente das calças. Meu estomago revirou em ânsia de novo. Não eu não podia vomitar, eu precisava daquele dinheiro...
Sem falar nada o homem veio até mim, me pegou nos braços rodando meu corpo neles de modo que eu ficasse de costas para si e nos conduziu até uma parede mais próxima. Meu corpo foi prensado com força contra a parede e eu apenas me apoiava com os braços flexionados contra meu busto e o rosto contra a parede fria. O homem afrouxou meu espartilho quase o abrindo e desceu minha calcinha até os tornozelos.
O ouvi abrir seu cinto e se despir rapidamente e um barulho de embalagem sendo aberta se misturou com os suspiros dele, em seguida ele se colocou atrás de mim me penetrando com toda a força. Uma dor terrível tomou conta de meu sexo e parecia chegar ao meu útero, tinha a impressão de que uma estaca de madeira cheia de felpas era enfiada em mim pela minha falta de lubrificação e eu senti o sangue em minha boca por estar mordendo meu lábio extremamente forte para conter um grito. Enquanto eu era possuída por dor, gemidos de prazer saiam dele. Nojo, nojo.
As duas mãos dele subiram de meus quadris pela minha barriga até chegar aos meus seios os apertando com força e brincando com meus mamilos. A velocidade e a força de seus movimentos foram aumentando e eu sentia meu sexo arder com isso, mas finalmente a ultima estocada foi dada, a pior diga-se de passagem, e ele chegou ao seu orgasmo.
- Quanto que eu te devo? – Falou quebrando o silencio do quarto. Ele colocava suas calças e atava seu cinto enquanto eu fazia o mesmo, me agachando e vestindo a calcinha.
- Duzentos... – Sussurrei com a voz tremula devido ao choro que prendia em meu. O homem assentiu, tirou da carteira quatro notas de cinquenta dólares, colocou sobre a mesa das bebidas e se foi, me deixando sozinha no quarto.
Meu peito se enchia de dor quando me lembrava dessa noite. Como se já não bastasse, Meredith havia me agendado mais dois programas para a mesma noite então a dor física que eu senti foi duplicada. Eu fui obrigada a fazer as coisas mais repugnantes que me pediam, tive que deixá-los me tocar, me beijar nas partes mais indevidas de meu corpo, se falar nas posições que era submetida, uma mais dolorida que a outra... Tudo isso por dinheiro.
Já era quatro da madrugada quando subi para meu quarto. Eu já não aguentava mais, estava exausta, meu corpo esgotado e dolorido. Minha pele estava impregnada com um cheiro horrível e nojento, eu estava suja daqueles homens infiéis e depravados.
Entrei no quarto e sem fazer nada antes, fui para o banheiro me livrar daquelas roupas. Liguei o chuveiro e me sentei no chão do box com a água gelada massageando minhas costas e se misturando com minhas lágrimas incessantes.
Mas agora tudo tinha mudado. Eu era a segunda mais velha de todas as garotas, só perdendo para Caroline que havia chego dois meses antes de mim, e por isso era a mais experiente e cobiçada do recinto. Não que me orgulhasse disso, mas pelo menos não era mais aquela garota que os clientes reclamavam por não fazer o trabalho direito e que não valia os duzentos dólares que cobrava.
Meus dias eram monótonos, sempre a mesma coisa, desde os meus dezesseis. De segunda a quarta eu trabalhava no bar como garçonete ou como dançarina no pole dance, na quinta começava o trabalho sujo e então os programas iam até domingo. Eu não tinha descanso, no momento que colocava os pés naquela boate até a hora de o ultimo cliente ir embora. Era sempre assim, nunca mudava...
Já era sexta feira e eu tinha passado minha tarde no cemitério sobre a lapide de meus pais, meu relógio marcava quatro da tarde e eu teria que estar em casa antes das sete porque se não me atrasaria.
- Tchau papai, tchau mamãe... – Passei a mão pelas pedras como se os acariciassem e sai.
Tinha que me arrumar, aquela seria uma longa e agitada noite.
Damon Salvatore Narrando
Sexta feira, finalmente. Essa era a sexta feira que, por um milagre, ficaria de folga, havia conseguido trocar meu plantão noturno na UTI e iria levar Emily ao cinema quando chegasse em casa para assistirmos a pré-estreia de um filme que ela estava esperando há tempos.
“Pai, não se esqueça, vamos sair essa noite, você me prometeu. Te amo, Emmy.” Emm deixou um lembrete em meu celular um pouco depois do almoço. Eu não iria esquecê-la, havia prometido.
Sorri ao ler sua mensagem de texto, ela era igualzinha a sua mãe, não só fisicamente mas em algumas atitudes também. Ah minha doce Katherine, como eu sentia sua falta... Não só eu mas nossa filha também.
Já se fazia quatro anos desde que a mulher da minha vida se fora. Ela tinha apenas vinte e sete anos quando sofreu uma parada cardio respiratória devido a uma arritmia cardíaca. Nós tínhamos acabado de chegar de uma corrida no central park quando ela reclamou de falta de ar...
- Então, podemos sair nós três o que acha? – Eu falava enquanto eu e Emily arrumávamos as coisas para o almoço. – Onde quer ir, filha?
- Que tal ficarmos em casa assistindo um filme e comendo pipoca? – Sorriu sugerindo. – Quero comer muito doce hoje, vocês me fizeram dar mais de quinhentas voltas no central park, preciso me recuperar.
- Acho ótimo, que filme quer assistir, filha? — Gargalhei.
- Não sei, mãe o que quer assistir? –Emily se virou para Katherine que estava debruçada sobre o balcão da cozinha. – Mãe, está tudo bem?
- Katherine? – Larguei tudo o que fazia e corri até ela. – Amor, fale comigo, o que ouve? – Ela suspirou fundo e se agachou um pouco apoiando a cabeça no braço esticado.
- Está tudo bem... – Falou ofegante levantando a cabeça. – Tudo bem! – Colocou a mão sobre o coração.
- Kath... – A reprimi. – Fale para mim o que houve?
- Não aconteceu nada, meu bem. – Sorriu tentando me passar tranquilidade. – Está tudo bem, foi só uma falta de ar. – Suspirou fundo.
- Katherine, isso não é nada, você sabe que é sério. Me deu seu pulso aqui. – Peguei seu braço medindo sua pulsação. – Querida seu coração está fraco! – Procurei em seu pescoço.
- Não é nada, amor. – Passou a mão pelo meu peitoral. – Vou tomar um banho, ok ? Já venho ajudar vocês dois! – Me deu um beijo calmo em meus lábios e saiu.
- Deixe a porta aberta. – Gritei.
- Papai... – Emily me chamou. – Mamãe vai ficar bem?
- Vai sim, querida. – Tentei fazer com que soasse convicto mas eu não tinha certeza sobre o estado de saúde de minha esposa. Ela já havia se queixado de falta de ar e palpitações mas então fomos ao cardiologista e ele disse que estava tudo certo... – Vamos começar pelo molho do macarrão, que tal? – Forcei um sorriso.
- Eu enrolo as almôndegas!
-Tudo bem! – Dei um beijo em sua testa e então fomos cozinhar.
Katherine entrou no banho e não demorou quinze minutos quando ouvimos um baque vindo do banheiro.
- Katherine! – Larguei tudo o que tinha em mãos e corri para encontrá-la.
- Mamãe! – Emm fez o mesmo correndo atrás de mim.
Depois disso nada foi o mesmo. Ao entrar no banheiro, encontre Katherine jogada no chão do box com um corte na cabeça, devido a queda, e quando a peguei em meus braços não senti sua respiração e nem os batimentos cardíacos. Tentei a animá-la por longos seis minutos mas nada acontecia. Ela já estava morta.
Depois disso eu nunca mais deixei ninguém se aproximar, nunca mais me aproximei de alguém, nunca me apaixonei ou tive uma relação realmente duradora com uma mulher. Katherine se foi, deixando eu e nossa filha sozinhos...
Nossa relação costumava a ser perfeita, nós nos conhecemos quando éramos crianças ainda e começamos a namorar na adolescência. Nossos pais eram amigos e foi uma felicidade para as famílias saber que nos amávamos, então Emily, apesar de ter sido inesperada, foi uma dádiva para todo mundo. Apesar de termos tido uma filha muito cedo, conseguimos criar Emm sem muita dificuldade.
Emily Pierce Salvatore, ela era perfeita. Me lembrava tanto sua mãe a não ser pelos seus olhos azuis como os meus ao invés dos verdes de minha amada... Seus cabelos eram dourados puxando para o castanho claro e seu rosto tinha o formato angelical como de sua mãe. Ela era minha Katherine em miniatura, a parte de mim que ainda tinha ficado viva depois de tantos anos.
- Grande Salvatore! – Uma voz masculina e animada me chamou assim que eu estava saindo do hospital em direção ao estacionamento.
- Alaric! – Sorri para ele. Alaric Saltzman. Ric era o chefe dos médicos da UTI e um grande amigo.
- E ai cara, pronto pra festar?
- Não vou poder, hoje eu vou sair com a minha filha, prometi que iria levá-la ao cinema.
- Damon, o cinema sempre está lá, vamos hoje e amanhã você leva a pimpolha pra sair.
- Não vai dar, deixa pra outra.
- Qual é cara, tenho um lugar certinho pra você, se é que me entende... – Sorriu malicioso.
- Alaric... – O repreendi.
- Não aceito não como resposta. – Revirei os olhos, não podia fazer isso com Emily. – Damon, só hoje, amanha você passa o dia com ela, te dou o sábado e o domingo de folga, o que acha?
- Cara, nunca mais me faça fazer isso... – Me dei por vencido. – Vou ligar para ela, me espere que eu te seguir... – Alaric assentiu e eu peguei meu celular esperando para a fúria da minha filha.
- Emm?
- Papai? Cadê você, pai? Estou já te esperando pronta aqui em casa... – Ela falou impaciente.
- Filha... Tem como adiarmos esse cinema? Vou ter um compromisso inadiável com Alaric.
- Pai, você prometeu! – Falou chorosa. Ah minha mini Katherine.
- Eu sei minha princesa. Mas tenho uma novidade.
- Hm...
- Ele me deu o final de semana de folga então estou todo aberto a você, querida. Eu prometo.
- Não prometa, Salvatore.
- Emily...
- Tudo bem, vou pegar seu ingresso e levar Jenna, ok?
- Claro, faça o que quiser...
- Posso dormir na casa de Bél, então? Eu disse a ela que não poderia porque iria sair com meu pai, mas ele acabou de furar comigo, então...
- Ok filha, pode ir. – Suspirei. Ela tinha razão. – Amanha vou te pegar na casa dela antes do meio dia, ok?
-Uhum...
- Te amo, princesa.
- Claro, claro... – Falou magoada e desligou o telefone.
Ótimo, eu era o péssimo pai. Eu só magoava minha filha. Reconhecia que não tinha tempo para ela e eu estava disposto a não magoá-la mais, eu iria correr atrás do tempo perdido.
Suspirei fundo e fui para meu carro e então eu e Alaric fomos para o lugar misterioso onde ele queria me levar.
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