Sodalício dos Inumanos
1 Capítulo 1
Seres como eu necessitam de uma alimentação no mínimo bizarra. Na verdade eu não sei se existem outros seres como eu, sempre me perguntei isso. O único alimento que eu preciso para ganhar energia são apêndices humanos. É irônico imaginar que um órgão desnecessário para os humanos seria vital para outra espécie.
Não me lembro ao certo quando nasci, muito menos como cresci. As únicas memórias que tenho são de ter vivido da mesma maneira há muito tempo, no mínimo uns oitenta anos. Mudei de forma várias vezes, me baseando em características humanas. Tive alguns amigos, mas comi o apêndice deles. Também trabalhei como enfermeira, foi o melhor trabalho que já tive. Eu podia comer vários apêndices por dia, os humanos às vezes precisam fazer uma cirurgia e retirá-lo. Quando fui descoberta, tive que mudar de identidade o mais rápido possível.
Não é difícil para mim mudar minha forma humana. Hoje sou conhecida como Alisson Bernardes, aparento ter 25 anos e trabalho como caixa em um restaurante barato. O salário é ruim, mas eu não preciso muito dele. O que eu faço com o dinheiro? Compro coisas de fachada. Preciso saber manter as aparências em minha vida dupla.
Apesar de eu ter essa vida de assassinatos, nenhum policial conseguiu me encontrar. Talvez porque os assassinatos são frequentes nessa cidade, principalmente o latrocínio (que no caso eu mesma faço para disfarçar), também porque eu cometo os assassinatos em minha forma verdadeira e isso não deixa rastros para minha forma humana. Aliás, eu não entendo por que os assassinatos são tão julgados assim. Eles não matam bois, galinhas e outros animais para comer? Não consideram a história desses animais, por que considerariam a dos humanos? Eu mato para me alimentar, como fazem os animais. Por que o assassinato de humanos é considerado errado? Eu não sei, e provavelmente nunca saberei e nunca compreenderei a hipocrisia humana.
Humanos... Não me lembro quando comecei a me transformar neles. Me admira a capacidade humana de mentir sem deixar suspeitas, tamanha hipocrisia que eles possuem. São ridículos. Quem me dera conhecer outras criaturas como eu, alguém que pensasse como eu penso, um ser que também se alimenta de humanos. Alguém da mesma espécie que eu. O que eu percebo na mídia são que criaturas vivem apenas nos Estados Unidos, não no Brasil e muito menos aqui em Porto Alegre. Não dá pra confiar na mídia.
Minha vida era tão vazia e insignificante que eu passava os dias pensando na melhor forma de me alimentar, imaginava pratos humanos feitos com apêndices, temperos, entre outras coisas culinárias, mas nunca realmente fiz um prato. Comia apenas os apêndices puros, temperados com lágrimas, medo e sangue. Meu único objetivo na vida é encontrar outro ser da mesma espécie que eu, mesmo que para isso tenha que passar décadas fazendo a mesma coisa todos os dias. Esse desejo é o que me motiva a continuar viva, senão já teria deixado os policiais me prenderem ou teria me suicidado. O problema é que não sei como eu morro, já que não sou humana, e criaturas morrem de maneira diferente. Tem seres que morrem apenas queimados, outros morrem apenas se tiverem sua cabeça cortada. Seria bizarro se uma criatura morresse de maneira totalmente inimaginável, por exemplo, morreria se sentasse em uma cadeira de plástico. Fico imaginando se minha morte seria estúpida desse jeito.
Eu pensava que não existiam outros seres como eu, até que a habitualidade da minha vida deixou de existir. Era um dia ordinário e rotineiro, passava da meia noite quando começaram os acontecimentos. Eduardo estava flertando comigo como sempre (apesar de eu já ter deixado bem claro que não queria nada com ele), eu estava a ponto de xingá-lo. Ele não era uma pessoa assediadora, nós éramos amigos desde que eu havia entrado naquele trabalho, e ele não flertava com todas as garotas que apareciam. Naquele dia ele estava me passando umas cantadas muito ridículas, do tipo “rir para não chorar”. Não havia ninguém no restaurante, apenas nós e alguns funcionários. Saí para tirar o lixo quando senti uma pancada em minha nuca.
Acordei em um local estranho e cheio de símbolos desenhados nas paredes. Era um quarto de uma casa de madeira. Percebi que estava algemada, com as mãos para trás. Eu poderia simplesmente me transformar e sair daquele lugar, mas minha intuição me disse para esperar. Acho que se passaram uma ou duas horas até alguém entrar no quarto. Uma mulher alta, vestindo uma jaqueta de couro, apontou uma arma para mim. Parecia confiante de que aquilo iria me matar. Ela pronunciou em tom baixo, porém claro:
— Eu sei que é você que anda devorando apêndices por aí.
Me surpreendi. Era impossível que minha forma verdadeira deixasse alguma pista sobre minha forma humana. Levantei-me com certa dificuldade por causa das algemas. Fiz uma expressão confusa e tentei mentir:
— C-como assim? Sério que existe alguém que come apêndices?
A mulher veio até mim e me deu uma pancada na cabeça com a arma, me fazendo cair no chão. Gemi de dor para disfarçar. Ela encostou a arma em minha cabeça e disse quase gritando:
— Para de tentar mentir, filha da puta! Eu vou te fazer vomitar todos os órgãos que você comeu!
Sim, ela foi bem rude. As palavras até me deixaram um pouco triste pelo fato de eu não ter tido mãe. Senti que ela iria atirar em mim, e imediatamente me transformei. Não sei como eu morreria, mas também não queria descobrir. Meu corpo em formato de névoa negra me permitia sair daquela casa de madeira por entre as frestas, e parece que aqueles símbolos desenhados eram para tentar me impedir de fazer isso, mas não funcionaram. Ouvi aquela mulher gritar algo do tipo “que porra é essa” e também ouvi os tiros serem disparados, mas eles não me atingiram.
Tentei passar pelas ruas com pouco movimento, para não ser percebida. Em certo ponto, me transformei em humano novamente. Foi quando vi um carro vindo em alta velocidade. Minha intuição me fez sair correndo e fugir daquele carro, que parecia estar me seguindo. Eu parava em frente às lojas e estabelecimentos tentando encontrar alguma porta aberta, puxando e empurrando as portas com a força humana comum, e isso me atrasou. Aquele carro estava mais próximo, e, mesmo eu não tendo uma visão muito boa, consegui ver aquela mulher de jaqueta de couro. Corri ainda mais e me apressei para encontrar algum prédio aberto, até que entrei em algum lugar, fechando a porta atrás de mim e encostando minhas costas nela. Respirei ofegante, de olhos fechados, pois correr como um humano me cansou, já que em minha forma verdadeira eu voo.
Senti uma energia diferente vindo daquele lugar. Não parecia a aura humana. Era algo sobrenatural que estava naquele local. Não apenas uma coisa, mas várias. Senti receio em abrir os olhos, mas essa energia não era ameaçadora. Muito pelo contrário, senti uma sensação de acolhimento, não sei por quê. Esses pensamentos vieram muito rapidamente em minha mente, pois logo depois de fechar a porta, respirei duas vezes e abri os olhos.
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