Sodalício dos Inumanos
2 Capítulo 2
Ao abrir os meus olhos vi vários seres semelhantes aos humanos. Eles estavam imóveis, surpresos. Eu sabia que eram criaturas, seres sobrenaturais como eu. Repentinamente, um deles, com um capuz negro, veio na minha direção. Parecia ser o líder do grupo. Quando ele chegou bem próximo de mim, pude ver que seus olhos eram totalmente vermelhos, e a íris era ausente. Aquele ser levantou a mão até encostar no meu ombro. Senti que ele sabia que eu não era humana, assim como todos os outros seres que estavam ali. Com os globos cor de sangue, fitou-me profundamente, e esboçou um sorriso. Falou com a voz suave:
— Bem-vinda ao Sodalício dos Inumanos. Este local é uma sociedade para seres como você.
Aquele ser tirou a mão do meu ombro, virou-se de costas e me pediu para acompanhá-lo. Senti o dever de obedecê-lo. O ambiente era calmo e acolhedor. Havia cerca de doze pessoas no que parecia o bar da sociedade. Andei por entre as mesas e cadeiras, seguindo o ser encapuzado. Ele abriu uma porta no final do corredor e fez um sinal para que eu entrasse. Era um pequeno escritório, com alguns quadros que representavam criaturas mitológicas na parede. Ao fechar a porta, retirou o capuz. Pude ver seus olhos se transformarem em olhos humanos. Ele pediu para que eu me sentasse na poltrona diante da escrivaninha e sentou-se na outra poltrona, do outro lado. No mesmo tom suave de voz, começou a fazer perguntas.
— Muito bem, preciso saber de uma coisa. Você chegou aqui por acaso, correto? Estava fugindo de alguém?
Respondi, um pouco nervosa:
—Si m… Eu estava fugindo de uma caçadora, mas como estava na rua, tive que ficar em minha forma humana. Procurei algum lugar aberto para me esconder e acabei entrando aqui.
— Entendo… – Ele disse enquanto abria uma gaveta, pegando uns papéis. Folheou-os por um momento até encontrar o documento que desejava e colocou-o na escrivaninha, na minha direção. Também pegou uma caneta.
— Aqui nessa folha estão os detalhes sobre o Sodalício. Essa é uma ficha de inscrição para nossa sociedade. Leia o documento. Se não concordar com nossos objetivos, pode decidir não participar. Vou ficar aqui, caso tenha alguma dúvida. Ah, meu nome é Michelangelo, mas pode me chamar de Mick.
Peguei o papel da mesa e segurei-o próximo do meu rosto.
“Bem-vindo(a) ao Sodalício dos Inumanos.
O Sodalício é uma sociedade para seres sobrenaturais, monstros, espíritos e outros gêneros de inumanos. Somos a maior sociedade secreta não-humana existente. Temos sede em trinta e oito países, em todos os estados e regiões. Nosso objetivo principal é reunir seres das mais diversas espécies, servindo como um clube para aqueles que buscam diversão e amigos. Servimos como fonte de alimento para seres com alimentação humana e/ou rara, não cobrando nenhum valor para isso.
Somos também uma sociedade que ajuda os integrantes em seus objetivos, não importando a motivação ou a finalidade. Buscamos proporcionar qualidade de vida aos integrantes do Sodalício, oferecendo um restaurante e bar com ingredientes humanos e outros alimentos exóticos para nossos participantes. Temos uma programação de jogos e atividades específicos para cada espécie de inumano, além de prostíbulos com íncubos e súcubos para os integrantes que buscam outro tipo de diversão.
Você terá que concordar com as seguintes regras para se tornar um integrante do Sodalício dos Inumanos:
1. Permanecer em forma humana dentro das sedes;
2. Não agredir (física ou verbalmente) nenhum membro do Sodalício. Sujeito à expulsão;
3. Comparecer pelo menos uma vez por semana a uma sede do Sodalício;
4. Obedecer fielmente eventuais pedidos do Líder”
Embaixo dessa apresentação estava uma ficha pedindo alguns dados sobre mim. Fui preenchendo com meu nome, telefone, endereço, até que me deparei com o campo “Espécie”. Larguei a caneta bem devagar. Provavelmente eu estava com uma expressão confusa e triste, demonstrando minha frustração. Mick perguntou se havia algum problema. Fiquei com um pouco de vergonha para responder.
— Na verdade, tem um problema… Olha, pode parecer estranho isso, mas eu não sei de qual espécie sou eu. Nunca encontrei alguém como eu, nem mesmo outros seres, apesar de saber que existem. – Expliquei, cabisbaixa. Mick olhou para mim. Ele parecia preocupado com isso. Se levantou e foi até a porta. Ao abri-la, disse para mim:
— Espere um pouco, não saia daqui.
Ele saiu do escritório e fechou a porta. Enquanto esperava, li novamente a folha. “Somos também uma sociedade que ajuda os integrantes em seus objetivos, não importando a motivação ou a finalidade.” Li este trecho algumas vezes, pensando de que maneira eles poderiam me ajudar a descobrir quem sou eu, se é que realmente ajudariam. Poderia existir outro ser da minha espécie? Se sim, onde estaria? Teríamos algum grau de parentesco? Essas perguntas repetiram na minha mente até eu ouvir a porta se abrindo novamente. Era Mick. Ele sentou-se novamente na poltrona e me disse com um sorriso no rosto:
— Pode deixar esse campo em branco, ou inventar um nome para sua espécie. Como é sua forma verdadeira?
— Uhm… É uma névoa negra em formato humanoide, mas posso me espalhar… No lugar dos olhos ficam duas luzes roxas, que só aparecem quando a névoa forma a cabeça.
— Sim, sim… Por acaso você tem algum símbolo no corpo?
— Pelo alcance da minha visão, não.
Mick se levantou e pediu para que eu também ficasse de pé. Me levantei, olhando para ele. Ele pediu para que eu não me movesse, enquanto andava em minha volta, me observando. Segurou meus cabelos e levantou-os um pouco.
— Achei sua marca. Ela está na nuca, você não consegue ver. Por favor, segure o cabelo para que eu tire uma foto.
Segurei. Ele retirou um celular do bolso e ouvi o barulho do clique da foto. Soltei meus cabelos. Ele me mostrou o símbolo que parecia uma tatuagem em minha nuca. Era uma espécie de redemoinho com dois pontos em suas extremidades e, ao centro dele, uma representação tribal de folhagem com cinco pontas. Eu nunca havia percebido esse detalhe em mim. Mick continuou a falar:
— Não sei de onde veio esse símbolo, mas alguém deve saber. Apesar de eu ser o diretor dessa sede, não sou o grande conhecedor supremo dos símbolos. – Mick disse em um tom debochado, gesticulando enquanto falava. Deixei escapar uma pequena risada. Ele voltou a se sentar na poltrona, e eu também me sentei, pegando a caneta e terminando de preencher a ficha de inscrição. Deixei o campo “espécie” em branco. Melhor do que inventar um nome seria ir atrás das minhas origens, buscar o significado desse símbolo e até descobrir outros da minha espécie. Poderia ser uma busca longa e demorada, talvez até arriscada, já que não conhecia muito essa sociedade.
Pela descrição do Sodalício na ficha, parecia um lugar interessante para seres sobrenaturais, nada que nos prejudicasse. Mick colocou minha ficha em um envelope e pediu para tirar uma foto minha, para os documentos. Permiti. Ele colocou o celular no bolso e levantou-se, pedindo para que eu o acompanhasse. Voltamos à entrada do prédio, naquele bar. Mick disse para mim:
— Vamos ver se alguém reconhece esse símbolo tatuado na sua nuca.
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