Sociedade Vampírica
2 Lembranças de Sangue
Notas iniciais
Sim, eu sei.
Mas o importante é o que importa e eu tô de volta ♥
Quero agradecer a todas que favoritaram, comentaram, leram, e que me cobraram. Júlia, se não fosse por você esse capítulo não teria saído.
Nesse capítulo, vocês poderão tirar algumas conclusões, inclusive que a Yuuki tinha oito anos no prólogo.
Espero que gostem.
Boa leitura. ;)
As lembranças são uma parte da nossa vida que guardamos em nossa mente e nosso coração, mas quando até isso é tirado de você, o que fazer?
- As coisas por aqui são bem diferentes, não acha Yuuki? – Kaien indagou tirando a jovem dos seus devaneios.
- Muito. – se limitou a responder enquanto olhava pela janela do carro que agora a levava para sua nova casa.
- Está com medo, filha? – o pai adotivo quis saber. Não havia sido fácil contar à criança a qual estimava tanto que não era seu pai biológico. Que estava apenas se assegurando de que nenhum mal chegasse perto da menina.
- De que exatamente? Durante 10 anos você vem me treinando até mesmo para saber o que fazer caso o mundo acabe. – Yuuki não retirava os olhos da paisagem que passava rapidamente pelo vidro escurecido. Ela gostava de observar as pessoas normais, de pensar o quão ingênuas elas eram, e de certa forma, até achava cômico alguns dos humanos se acharem poderosos por portarem armas ou terem dinheiro. Tão tolos.
- Isso porque eu gosto de te ver respirando. – sorriu.
- É, eu também gosto.
- Está ansiosa para conhecer seus pais? – Kaien queria puxar assunto a qualquer custo. Desde que Kaname havia ido embora, Yuuki se fechou de uma forma, que se dissesse uma frase com mais de dez palavras era muito.
- Eu não diria ansiosa. Diria curiosa. Quero ver como eles são. Se são bonitos, se são tão poderosos quanto dizem ser, se tratam bem os outros, se têm sede de sangue ou são controlados.
- Tenho certeza de que você não irá se decepcionar. – confortou.
- E o rei supremo? Quer conhecê-lo também?
- Seria interessante, mas do jeito que dizem que ele é ocupado e normalmente não recebe visitas, duvido que nos conheçamos mais que brevemente. Talvez nos falemos apenas em esbarrões. – Por algum motivo, Kaien não conseguiu revelar a verdade mais importante para aquele ser tão frágil.
A conversa se encerrou e os dois continuaram a imergir em seus pensamentos. Ao longo de tantos anos, o tutor de Yuuki lhe preparara de forma inigualável. Educou-a, ensinou-a a lutar, a se comportar como uma verdadeira princesa, e eventualmente a jovem aprendera a cozinhar. Mesmo não tendo necessidade de se alimentar ela tinha curiosidade em aprender. Também era excelente aluna em relação às matérias colegiais, mesmo para uma vampira.
O carro parou. O motorista saiu e abriu a porta para que os dois nobres passageiros saíssem.
- Obrigada. – a princesa agradeceu.
Kaien e Yuuki seguiram em direção à mansão. Ao observar o local, a garota não pôde deixar de dizer:
- Que clichê!
- Por quê? Esperava que a família de vampiros mais poderosa do mundo morasse num barraco embaixo de uma ponte?
- E por acaso há necessidade de um lugar tão grande?
- Sua antiga casa não era pequena.
- É, mas essa é o dobro daquela.
- Yuuki, não reclame, apenas sorria. – Kaien pediu.
Ela estava ficando estressada e como conseqüência os sinos de vidro que ficavam ao redor da porta, foram se quebrando um por um.
- Controle-se.
Aquela ordem deixou-a mais furiosa ainda, mas Yuuki sabia que se não se controlasse, uma hora acabaria colocando a casa a baixo. Respirou fundo e foi se acalmando aos poucos. Até que a porta foi aberta, revelando o interior da grande mansão.
- Seja bem vinda, senhorita Yuuki. – a empregada curvou-se diante da garota, que ainda não estava acostumada com tamanha reverência. – Senhor Cross. – fez menção para que os dois entrassem.
- O senhor e a senhora Kuran estão lhes esperando no escritório.
A empregada levou-os até uma porta de cedro entalhada com um brasão com um escudo, uma espada, uma balança, uma coroa e uma flor de lótus, onde deu três toques e esperou permissão para entrar.
- A senhorita Kuran e o senhor Cross. – anunciou.
- Obrigada Nana, pode se retirar. – uma mulher alta, esbelta, de cabelos compridos e que esbanjava um sorriso, falou. Ela era realmente bela, o tipo de mulher que fazia com que todas as outras sentissem inveja. – Yuuki, minha querida! Que saudade da minha princesinha! – a moça abraçou-a de forma amável e delicada. – Eu sou sua mãe. Juuri Kuran.
A jovem vampira estava em estado de choque. Sua mãe era uma mulher que aparentava ser tão jovem quanto ela. Para quebrar o silêncio, Juuri continuou a falar. Ela sabia que sua filha ainda se sentia desconfortável com toda aquela situação.
- Esse aqui é o seu pai. Haruka Kuran. — o pai se limitou apenas a dar um sorriso.
Assim como Juuri, Haruka era novo e possuía uma aparência angelical. Os dois eram morenos e possuíam os mesmos olhos castanhos penetrantes que Yuuki.
- Infelizmente o rei supremo não pôde estar conosco nesse momento. Ele foi resolver alguns problemas da nossa sociedade. Mas não se preocupe, no baile de boas vindas que daremos esta noite, você poderá revê-lo.
A curiosidade de saber por quê a mãe havia usado o verbo rever ao invés de conhecer, foi abafada por um problema maior:
- Baile de boas vindas? – perguntou.
- Sim. – dessa vez Haruka se pronunciou. – Precisamos apresentá-la como parte da família Kuran. Yuuki, muitos vampiros ainda não a conhecem. Seria um problema sério caso algum deles tentasse atacá-la. Você não tem noção de como os vampiros desejam apenas uma gota do nosso sangue.
- Eu sei me proteger.
- Nós sabemos disso. Não te deixamos aos cuidados de Kaien à toa.
- E porque me deixaram trancada naquela maldita casa durante 18 longos anos? Para me proteger?
- Sim. – responderam juntos, mas logo depois Juuri continuou a falar. – Yuuki querida, por favor, não nos odeie. Fizemos isso para o seu bem. Se as pessoas soubessem sobre você estando tão pequena e indefesa estaria correndo risco de vida.
- Olha... eu não odeio vocês. O que me aborrece é o fato de eu ter ficado isolada na minha casa, sem a companhia dos meus pais, achando que o homem que estava me criando era o meu pai. E a única pessoa que aparecia naquele lugar algumas vezes desapareceu, me deixando completamente isolada do mundo. Tudo o que eu conheço aprendi vendo em filmes ou lendo em livros.
- Sentimos muito, mas foi necessário.
- Yuuki, ouça seus pais, eles sabem o que fazem. – Kaien que até o momento apenas observava a cena, se pronunciou.
- Juuri, não gostaria de levar a Yuuki para conhecer a casa? – Haruka falou.
- Mas é claro! Vamos filha. – segurou o braço da princesa. — Deixemos os homens conversando.
Após a porta se fechar, deixando Kaien e Haruka sozinhos, a conversa tomou um rumo mais sério.
- Yuuki cresceu, não acha Kaname? – Haruka perguntou.
O puro sangue que até o momento observava escondido, surgiu encostado à soleira da janela.
- Vou para o quarto. –disse saindo pela porta.
-Um dia ele ainda me mata. Será que nunca vai me perdoar?
- Não é isso, Kaien. Você sabe que Kaname se culpa até hoje por ter abandonado Yuuki. Foi difícil pra ele... foi difícil para os dois.
- E acha que eu não sei? Desde aquele dia Yuuki não é mais a mesma. Ela está mais... alheia.
- Se Kaname continuasse a visitá-la, a vida dela continuaria a correr risco.
(...)
- E então querida, o que achou do seu novo quarto? – Juuri, com toda a empolgação de uma mãe disposta a agradar, apresentava o quarto à filha.
- É... bom. – Yuuki deu uma rápida olhada ao redor.
O quarto era rosa, totalmente rosa. Desde o chão até o teto tudo era coberto de rosa. Por um momento Yuuki achou que a Barbie tivesse vomitado naquele lugar. Não era ruim, mas aquilo só mostrava o quanto sua mãe não sabia sobre ela. Yuuki detestava rosa.
A parte inferior das paredes era de um tom rosa claro, enquanto a parte superior era coberta com um papel de parede florido que variava entre rosa, verde e bege. A cama tinha um dossel, com estampa rosa xadrez por fora e branco por dentro. A colcha era branca com babados rosa e vários bichinhos de pelúcia cobriam a cama. Um carpete branco cobria o redor da cama e uma escrivaninha da mesma cor abrigava livros, cadernos, lápis e outros enfeites. Ao lado dela havia uma estante coberta de livros e no canto oposto duas portas brancas.
- A porta da esquerda é o closet e a da direita seu banheiro. – Yuuki observou a porta de madeira com vidros em frente a sua cama que dava para uma varanda com vista para a entrada da casa. Seria uma boa maneira de fugir quando se cansasse de ver rosa.
Analisando bem, aquele quarto não parecia ser feito para uma garota de dezoito anos e sim para uma criança, um bebê. Talvez Juuri não tivesse mexido nele desde que Yuuki tivesse ido morar com Kaien. Talvez esse não fosse o plano inicial de seus pais: deixá-la crescer aos cuidados de outra pessoa.
Juuri estava na expectativa de uma resposta melhor.
- Quer mudar alguma coisa? – tudo. A vontade de Yuuki era de perguntar quando aquele quarto tinha sido decorado, mas não seria a coisa mais cortês do mundo a se dizer para a mãe que acabara de reencontrar.
- Não... não é necessário... está ótimo! – abraçou a vampira. – Obrigada Juuri.
- Então venha conhecer o closet. – pegou-a pela mão e puxou-a até o closet. – O quarto pode parecer antigo, mas tenha certeza que as roupas são melhores. – sorriu.
Realmente, Juuri tinha razão. As roupas eram lindas como se houvesse um estilista à disposição apenas da família. O que Yuuki não duvidava ser verdade.
- Sei que você gostaria de escolher seu vestido, mas eu tenho uma sugestão. – tirou uma caixa de presente do canto do closet e entregou a Yuuki. – Espero que goste. — Antes que Yuuki pudesse agradecer Juuri já havia partido, deixando-a só.
Só. Era como Yuuki se sentia desde que... argh! Por que não conseguia lembrar do rosto daquela pessoa? Todas as lembranças eram tão vívidas que pareciam ter acontecido há pouco tempo, mas apesar disso o rosto da pessoa que a vampira tanto amava era apenas um borrão. Por mais que tentasse, por mais que se esforçasse, nunca conseguiu em todos os seus anos lembrar como era aquela pessoa. A dor era tão grande que desde que ele partiu Yuuki resolveu nunca mais proferir seu nome. Mas ela lembrava, talvez mais do que o nome de seus pais, ou o dela mesma.
Desde que ele se foi era como se tivesse levado consigo toda a felicidade que um dia existira na pequena Yuuki. Deixou a caixa de lado, sem nem mesmo abrir o presente. Precisava de ar, precisa sair daquele quarto antes que entrasse novamente em uma depressão profunda. Sair pela porta principal seria um problema. Talvez a janela fosse a melhor opção. Saiu para ver sua varanda particular. A altura era o suficiente para aterrissar como uma lady. Colocou um sobretudo branco sobre o vestido de cetim amarelo que usava. Ajeitou a meia calça e o scarpin para que não houvesse danos no passeio.
Com um pulo delicado a vampira chegou ao chão mais graciosamente que um gato. Fechou o sobretudo, verificou se não havia sujado as roupas e se pôs a caminhar. A propriedade Kuran era grande, tão grande que Yuuki não saberia dizer onde o verde dava lugar ao muro alto que envolvia a casa.
Os ipês enfeitavam o caminho pelo qual a vampira caminhava enquanto pensava no passado. Ele fazia falta. Tanta falta que seu coração chegava a sangrar. Tanta falta que parecia ser uma órfã no mundo. Chorar já não era mais uma opção. Fazia parte do seu treinamento saber agradar, não se deixar levar pelos próprios sentimentos. A menos que quisesse destruir alguns quarteirões.
Sentou-se sob uma árvore e deixou os pensamentos vagarem. Antes que percebesse havia adormecido.
Flash back on
- Vamos querida, beba apenas um pouco. – Kaien estendeu o copo para Yuuki. – Quanto tempo pretende ficar assim? – Yuuki disse palavra alguma. Apenas bateu no copo jogando-o longe e derramando o sangue por todo o quarto. – Yuuki, essa atitude não fará Kaname vê-la!
A pequena apenas olhava distante abraçando as pernas. Ele sempre vinha vê-la em seu aniversário, sempre. Era sua promessa. Era o único motivo para fazê-la gostar daquele dia. Mas ele não aparecera, não mandara um presente, nem mesmo um recado.
- Por que ele não veio? – seus olhos marejados imploravam por uma resposta.
- Não sei...
- Como você não sabe?! É claro que você sabe! Você sempre sabe!
- Yuuki, por favor, não faça drama. Isso não é atitude para uma princesa como você...
- Isso não me importa!
- Yuuki, Kaname não virá mais. Você precisa aceitar...
- Não! Vá embora! Eu te odeio! Odeio todos vocês! E principalmente, odeio o Kaname-sama por me abandonar com gente que eu odeio! – empurrou-o para fora do quarto, trancando a porta.
A pequena chorou por toda a noite, até não haver mais lágrimas, até não haver mais forças, até não haver mais alegria. Mas antes que pudesse imergir em uma inconsciência total pôde sentir a porta se destrancar e se abrir, revelando uma figura alta e poderosa que se aproximou. Sentiu o toque sobre sua cabeça, e por um momento todo o medo e a tristeza pareceu sumir.
- Sinto muito, minha pequena Yuuki. – foi a última coisa que ouviu antes de acordar no dia seguinte sem lembrar do rosto que mais amava.
Flash back off
- Não é muito perigoso uma menina indefesa andar sozinha pela mansão Kuran? – uma voz despertou Yuuki de seus pesadelos.
Diante de si surgiu um casal de vampiros. Os cabelos bagunçados, olheiras profundas, os dentes afiados, as roupas sujas e o desejo por sangue em seus olhos.
Yuuki não respondeu. Apenas continuou a analisá-los. Com toda certeza eles não eram do mesmo nível social que ela.
- Não fique assustada, criança. – a vampira se aproximou e tocou em uma das mechas do seu cabelo. – Não lhe machucaremos... muito. – o outro vampiro inspirou profundamente.
- Você cheira a realeza. – sorriu como se tivesse encontrado algo precioso.
- Irei considerar isso como um elogio. – disse Yuuki.
- Pois não deveria.
- E por quê?
- Porque teremos que arrancar seu coração. – a vampira de cabelos loiros estava excitada apenas em imaginar.
- Olha como ela é delicada Kensuke. Será tão fácil quanto tirar doce de criança!
- Acha que deveríamos ser justos com ela, Mika? – acariciou o rosto da mulher.
- Será chato matá-la rapidamente. – analisou a garota que continuava imóvel e indiferente. – Veja como está desesperada, mal consegue se mover!
- Então lhe daremos dez segundos de vantagem. Corra o mais rápido que puder antes que acabe morta num chão frio. Dez...
A contagem começou, porém Yuuki não parecia desesperada como o casal imaginava que ficaria. Lentamente, levantou-se e ajeitou seu sobretudo. Foi o tempo suficiente para que sua vantagem acabasse.
- É uma pena que você não tenha aproveitado sua oportunidade. – a mulher avançou primeiro.
Uma inclinada foi o suficiente para desviar o golpe. Ela era lenta, estava fraca, precisava de sangue. Yuuki não queria machucá-la, mas aquela sequencia de ataques estava começando a irritá-la. Desviou de um outro ataque e deu um tapa na cara da vampira, jogando-a longe.
- Já perdi a paciência com você. – o vampiro era mais agressivo, mais rápido. Seus golpes eram precisos e um quase acertou seu braço. – Você é rápida pirralha, mas não o suficiente.
Por um descuido Yuuki tomou um soco que a derrubou no chão. Seu braço estava cortado. Seu sangue escorria pelos dedos do vampiro que os lambeu. A brincadeira tinha acabado.
- Sabe qual é o problema de vocês? – se levantou. – Vocês falam demais. – ajeitou os sapatos. – Mas agem pouco. Agora fica de quatro. – mandou e foi obedecida. Yuuki sentou sobre as costas do vampiro. – Kensuke, não é isso? – ele fez que sim. – Vocês deveriam saber que quando um vampiro não se intimida por ameaças talvez, só talvez seja porque ele sabe que é melhor que você.
A vampira recobrou a consciência.
- Kensuke! O que você fez com ele?
- Estou apenas ensinando-o a ser um cavalheiro.
- Eu vou acabar com você, sua vadia! – enquanto ela corria em direção a Yuuki, ela levantou-se calmamente e friamente ordenou.
- Mate-a. – contra sua vontade Kensuke se viu atacando sua amada. Até que ela se encontrava ajoelhada no chão, apenas esperando a morte chegar.
- Yuuki! O que está acontecendo aqui? – Kaien gritou. – O que você fez? – interrompeu a briga. – Eles são nossos convidados!
- Convidados que atacam a anfitriã? Não sabia que nossos conceitos de festa eram diferentes, Kaien.
- Yuuki, liberte-o. Agora. – a princesa suspirou e acatou a ordem.
- Muito bem, já que vocês são convidados, — retirou o sobretudo. – quero-o exatamente como estava até a hora da festa. Não me importa se isso custará a vida de vocês. Se não aparecerem, podem esperar o final trágico da cena interrompida. Estou voltando. – Yuuki apenas seguiu sem olhar para trás e prestar atenção na conversa dos vampiros com seu Sempai.
- O que ela fez com comigo? – Kensuke perguntou.
- Nada que você não tenha merecido. Você é idiota, por acaso? Lembro me de dizer claramente para não beberem o sangue dela! – Kaien falou.
- Seria bom se também tivesse se lembrado de dizer que ela é a herdeira dos Kuran. – o vampiro retrucou.
- Pensei que fossem profissionais, não que se rendessem à simples fragrância de um nobre. Definitivamente, a diferença entre as classes sempre se mostra. O que acabou de acontecer, é que simplesmente vocês experimentaram o verdadeiro poder de um Kuran. Kensuke foi pego na habilidade primária dos Kuran: a manipulação sanguínea. Quando um vampiro recebe uma gota de sangue de um Kuran, seja bebendo, injetando, tento contato com feridas, automaticamente o sangue real começa a agir. O mais forte prevalece sobre o mais fraco. A sua composição vai sendo substituída pela deles, até que só circule o sangue deles pelo seu corpo.
- Como assim? – a vampira perguntou.
- Quando Kensuke lambeu o sangue da Yuuki que estava em suas mãos, a composição sanguínea de Yuuki tomou conta de seu corpo. Quando a mudança se completou Yuuki passou a ter controle sobre o corpo de Kensuke. Ele faz algo que não quer, mas não tem como impedir.
- E como podemos impedir que ela continue a me controlar?
- Existem duas formas: ou ela bebe seu sangue e anula o efeito, ou você a mata. Alguém que está morto não pode controlar outra pessoa.
- Por que está nos contando isso? – Kensuke perguntou.
- Porque eu sei que é impossível que qualquer uma das duas hipóteses aconteça. Estou apenas mostrando a vocês que será uma perda de tempo tentar algo. Não conseguirão chegar perto da princesa nem mesmo em espírito.
- Então por que nos contratou?
- Precisava saber se Yuuki poderia se cuidar sozinha. – sorriu. – Achou que a subestimei.
- E o que faremos agora?
- Bom, eu acho melhor vocês darem um jeito nesse sobretudo antes que a festa comece. – Kaien deu as costas ao casal de vampiros, se dirigindo de volta a casa principal. – Da próxima vez que tiverem que lidar com um Kuran, lembrem-se que as única pessoa imune ao poder de um Kuran é um próprio Kuran. Boa sorte!
(...)
Estar naquele baile era apenas perda de tempo para Yuuki. Com apenas trinta minutos de festa a vampira já sabia que noventa por cento dos que ali estavam não partilhavam da mesma alegria que seus pais. Ficar no mesmo ambiente que pessoas que queriam vê-la morta era agonizante, e acima de tudo ainda precisava controlar seu temperamento antes que provocasse algum incidente. Para isso, costumava imaginar-se dando um tapa na cara de cada pessoa que a olhava de cima a baixo.
Sabia que estava deslumbrante no vestido que sua mãe escolhera. Ele era azul escuro, de seda, tinha alças, mas deixava suas costas parcialmente nuas, chegando até sua cintura, com brilhantes que cobriam o contorno do decote. O vestido era longo e largo, dando a sensação de que Yuuki flutuava, mas em contraste possuía uma abertura na parte inferior que começava na metade da coxa e ia até o final, mostrando sua perna e dando um ar sexy. Mas os olhares não eram de admiração.
Por vezes teve vontade de exterminar algumas pessoas, principalmente as mulheres escandalosas que em sua frente a amavam, mas quando viravam as costas não perdiam a oportunidade de fazer comentários maliciosos. Ahhh, se pudesse apenas sair daquele lugar... Talvez tivesse sido um erro acompanhar Kaien de volta a casa de seus pais. Agora estava mais uma vez sozinha jogada à cova dos leões.
- E então meu bem, se divertindo? – Juuri chegou por trás de surpresa abraçando sua filha.
- Hã, podemos pular essa pergunta?
- Eu sei o quanto deve estar sendo torturante pra você este baile, principalmente o fato de ter que sorrir o tempo todo. Ainda sente suas bochechas? – fez que não, o que provocou um risinho na mãe.
- Sei que é necessário tudo isso e que é pra minha própria segurança, mas não podemos apenas mandá-los mais cedo pra casa? – tinha esperança de uma resposta positiva.
- Não podemos mandá-los embora, afinal, que tipo de anfitriões seríamos? Mas podemos inventar um mal estar, não podemos? – Juuri piscou para a filha.
- Obrigada...mãe. – Yuuki se forçou a falar a última palavra. Achou que Juuri merecia ouvi-la ao menos uma vez. A bela mulher estava fazendo tanto por ela... Mostrar gratidão de alguma forma era o mínimo que poderia fazer.
Juuri tinha os olhos marejados. Era a primeira vez que ouvia sua filha chamá-la de mãe. Finalmente pôde realizar o sonho pelo qual esperava dezoito anos.
- Aguente só mais um pouco. O rei supremo dos vampiros avisou que faria uma aparição na sua festa. Assim que ele chegar você pode relaxar, já que todas as atenções se voltarão para ele.
- Ele também é um Kuran?
- Sim... na verdade ele faz parte da primeira geração da família Kuran. – explicou.
- E ainda não está morto? O rei deve ser a múmia em pessoa! – Juuri riu. – Se o cara é tão velho, porque Haruka não se tornou ainda o rei dos vampiros?
- Você se engana se pensa dessa forma, querida. As pessoas costumam achar que as habilidades das famílias aumentam conforme mudam as gerações, mas na verdade é ao contrário. Quando nos casamos com vampiros de outras famílias, nossas habilidades vão se perdendo aos poucos. As primeiras gerações de todas as famílias são sempre as mais poderosas. E o rei não é tão velho quanto você pensa. Bom, pelo menos não aparentemente. – sorriu. – E ainda está solteiro! – Juuri cutucou a vampira com o cotovelo.
Por que será? – foi o primeiro pensamento de Yuuki.
- Por que eu iria querer alguém como um velho? Se eu quiser ver um ancião todos os dias eu pego os livros que Kaien adora me dar e folheio algumas páginas.
- Yuuki, Kaien não te explicou? – ela parecia confusa.
- O que há para explicar?
- Não... não é nada importante. Depois conversamos sobre isso.
- Yuuki! – uma mulher loira de olhos azuis e corpo esbelto, com seios enormes se aproximou. – Querida, como você cresceu! – deu um beijo em cada bochecha da jovem vampira.
- Ah...obrigada...eu acho. – Yuuki sorria sem graça.
- Veja como você está linda! Não é mesmo, Hanabusa?
- Mãe, por favor, vamos deixá-las em paz.
- Hanabusa, acho bom você parar de graça, hein. Oh, mas que cabeça a minha! – puxou o jovem loiro para o seu lado. – Este aqui é meu filho Hanabusa Aidou. Veja, Hanabusa não se tornou um homem lindo? Ele faz muito sucesso entre as humanas, mas já disse que ele deve se casar com uma vampira. Uma que esteja à altura dele. – o jovem vampiro revirou os olhos enquanto a indireta da mulher batia na cara de Yuuki junto com seus seios.
- Mãe, vamos logo. Há muitas pessoas com quem ainda não falamos.
- Deixe de ser mal educado, Hanabusa! Não vai se apresentar à princesa?
- Se não percebeu, você já fez isso por mim. – murmurou. A mulher empurrou-o para frente de tal forma que se não fosse habilidoso teria caído em cima da princesa. Hanabusa odiava parecer um idiota, mas isso sempre acontecia quando estava com sua mãe. Ela falava pelos dois e se bobeasse até mesmo pela princesa e sua mãe.
- Sinto muito pela minha mãe. Espero que você possa esquecer isso antes da próxima vez que nos encontrarmos. – sorriu gentilmente.
- Não se preocupe.- Yuuki retribuiu com uma piscadinha. Pela primeira vez havia encontrado alguém tão divertido quando aquela pessoa. Alguém que fizesse com que agisse naturalmente e que pudesse fazê-la sorrir sem forçar.
- Obrigado, princesa. – após uma reverência, um sorriso iluminou seu rosto.
- Se quiser chamá-lo para um encontro aviso desde já que ele está solteiro. — No mesmo instante Aidou enrubesceu. Suas bochechas queimavam tanto que até doíam.
- Já chega! Agora vamos. – saiu sem esperar pela mãe, mas por sorte ela o seguiu. Aidou não era de se estressar, pelo contrário, era uma pessoa alegre e adorava sorrir, mas quando seu humor mudava sua mãe sabia que não era bom contestá-lo.
- Ainda tenho que esperar muito tempo? – a vampira perguntou. Precisava de ar, precisava sair dali antes que terminasse a noite com três encontros, dois passeios, vários números de telefone e incontáveis convites de visita.
- Acho que não... – um criado falava ao seu ouvido. – O rei supremo acabou de chegar. Preciso recepcioná-lo com seu pai. Assim que o rei surgir pelas escadas, sorria para ele e saia discretamente, ok? – Yuuki fez que sim. – Ótimo! Não faça besteiras. – Juuri beijou a testa da filha e seguiu o criado.
Alguns minutos depois todo e qualquer tipo de barulho foi cessado e todos os olhos se voltaram para o topo da escadaria central da casa. De lá, surgiu um homem em um smoking tão negro quanto a cor de seus olhos. Seus cabelos castanho-escuros caíam sobre aqueles olhos de forma sedutora. Ele não sorria, não tinha expressões. Parecia indiferente... assim como Yuuki. Ele era alto e seu corpo se sobressaía sob aquele smoking. Ele era perfeito.
- O rei supremo. – alguém anunciou e logo depois todos se curvaram, mas Yuuki estava hipnotizada, não conseguia fazer outra coisa a não ser encará-lo.
Enquanto ele descia as escadas, Yuuki observava encantada. Seu coração sem motivo algum havia acelerado. Como um homem tão lindo e tão jovem poderia ser da primeira geração de vampiros de sua família? Seria aquela um tipo de habilidade perdida? Yuuki despertou de seus pensamentos ao sentir todo o seu corpo queimar. O olhar dele havia encontrado o seu e um leve sorriso se mostrou nos lábios daquele homem. Tudo queimava, principalmente sua garganta. Ela sabia o que era aquilo: precisava de sangue e rápido. Seus olhos começaram a brilhar como os de um gato no escuro. As taças de champanhe na mesa ao seu lado passaram a se quebrar uma por uma. Precisava sair dali.
O que estava acontecendo com ela? O que era aquela sensação tão familiar? Por que aquele homem provocara aquilo? Correu para a porta principal.
- Kuran! – todos olharam para o jovem de cabelos brancos e olhos lilás que se encontrava parado na porta do salão. – Precisamos conversar! – avisou e saiu entrando, como se um salão cheio de vampiros significasse nada.
Para infortúnio da jovem vampira, ao tentar encontrar a saída acabou esbarrando no jovem ousado.
- Saia da minha frente, vampira! – Yuuki olhou nos olhos dele, que se surpreendeu ao ver o puro desejo de sangue.
- Acho melhor você sair da minha frente antes que vire pó, playboy. – afastou-o para o lado sem nem ao menos tocá-lo. – E acho melhor você não tentar apontar essa sua arminha de brinquedo pra mim. – avisou e logo após correu em direção à saída.
O rei que observava tudo discretamente sorriu. Sua Yuuki crescera.
- Kuran!
- O que foi dessa vez Kyryuu? Sentiu minha falta? Mesmo que não tenha sido convidado para o baile eu permito que você fique, só não me responsabilizo por qualquer dano, está bem? – o rei continuou a descer as escadas até parar de frente para o rapaz de cabelos brancos.
- Você nos deve satisfações, Kuran!
- Sim. Devo dizer que você escolheu o momento mais adequado para isso. Ainda não conheci alguém com um timing melhor que o seu. – ironizou.
- Não me venha com gracinhas, Kuran! – apontou sua arma em direção à cabeça do rei, que riu.
- Quer mesmo me matar com uma arma que eu criei? Vá em frente. Me pergunto como o conselho pôde escolhê-lo como representante. – revirou os olhos. – Vamos, atire! Seria ótimo para sua imagem. – ele abaixou a arma. – Muito bem, acho que agora podemos conversar. Me acompanhe.
Os dois homens seguiram para uma sala particular enquanto os olhos dos convidados seguiam-nos.
- Diga, Zero. Sou todo ouvidos. – o rei sentou-se em uma das poltronas.
- Muitos de nossos homens têm sofrido mortes sem explicação. Sabemos que isso é coisa de seus vampiros. Você deve tomar uma atitude quanto a isso, ou o conselho começará a agir.
- Os seus não são os únicos a morrerem sem explicação. Muitos vampiros vêm sendo mortos nos últimos meses. A Sociedade já está se mobilizando quanto a isso, mas ao que parece o problema é maior do que pensávamos. Assim que tivermos mais respostas apresentaremos um relatório ao conselho. Enquanto isso, acho que você deveria treinar mais os seus modos. Não invadimos suas festas e apontamos armas para os anfitriões, vocês deveriam fazer o mesmo antes de tentar exigir algo. – levantou-se.
O rei sentiu que algo não estava certo. Alguma coisa importante estava acontecendo além das paredes da casa. Podia sentir o sangue dos Kuran, e logo os convidados também o sentiriam.
- Acho que já terminamos por aqui.
- Ainda não acabei, Kuran. – segurou-o. – Acho bom você tomar cuidado com seus convidados. A garota que esbarrou em mim não parecia estar com seus extintos controlados.
- Está falando da mesma que reduziu Bloody Rose a uma arminha de brinquedo? – sorriu. – Bem, o que posso dizer? Ela faz parte da família.
- Estou falando sério, Kuran. Senti o desejo dela de sangue.
- Não se preocupe. Eu cuidarei dela quando a hora chegar. No momento ela é nosso menor problema. Agora se me dá licença, tenho outras coisas para resolver. – o rei abriu a janela.
- E o que direi aos seus convidados?
- Diga que conseguiu me matar. Aproveite essa oportunidade.
Sem esperar resposta o rei foi verificar o que estava acontecendo. Com toda a certeza, não era coisa boa.
(...)
Ar. Finalmente podia respirar ar puro, finalmente podia ter o controle sobre suas ações. Não sabia o que poderia ter acontecido se continuasse no mesmo local que aquele homem. Agora, sentada embaixo de uma árvore, seus pensamentos começavam a se organizar. Como aquele homem podia exercer uma influência tão grande sobre ela? Relembrou o que tinha acabado de acontecer.
Então, algo chamou sua atenção. Não havia visto seus pais ao lado do rei como sua mãe disse que estariam. Ao olhar para a floresta viu um clarão vindo do sul da casa. Seus instintos levaram-na instantaneamente a pensar em seus pais. Correu até o local o mais rápido que pôde.
Ao chegar, Yuuki presenciou uma luta entre vampiros mais poderosa do que qualquer uma que um dia tivesse imaginado. Eles eram tão rápidos que seus olhos mal podiam acompanhar. Era tudo muito diferente dos treinamentos de Kaien. Aquilo estava em um nível muito além do que Yuuki pudesse chegar a pensar um dia. Seus pais lutavam contra uma mulher apenas.
As roupas de Juuri e Haruka estavam rasgadas e sujas de sangue. Eles estavam cansados e ofegantes, não aguentariam muito mais tempo, precisavam de ajuda. Yuuki precisava fazer algo. Rasgou seu vestido na altura dos joelhos para que tivesse maior mobilidade e surgiu dos arbustos.
- Ora, parece que a nossa querida princesinha finalmente resolveu aparecer. – a mulher de cabelos brancos e lisos sorriu. – Junte-se a nós, meu bem. Estávamos esperando você. – estendeu a mão.
- Yuuki, corra! – Juuri gritou.
- Sinto muito, mas não posso deixá-los aqui! – mordeu a ponta do seu dedão e criou um bastão feito de sangue. Bastões feitos com sangue vampiro eram diferentes dos bastões normais, principalmente tendo origem nobre. Eles podiam matar vampiros, não se quebravam com a mesma facilidade que bastões normais e eram mais afiados e mais rápidos do que qualquer espada.
- Yuuki, fuja logo daqui! Nós cuidaremos disso! – Haruka gritou.
- Já disse que não! Não vou deixar que os machuquem! – preparou-se para atacar. A mulher sorriu.
- É uma pena. – antes que Yuuki pudesse piscar, um outro vampiro apareceu atrás dela, tão rápido como o som. A única coisa que pôde fazer era esperar o golpe, que não chegou. Ao se virar, viu que seu pai estava lá. Ele havia recebido o golpe por ela.
- Pai... – seus olhos se encheram d’água. O fato de que seu pai estava morrendo por sua causa era demais para ela. – Por favor, pai, fique comigo. Eu, eu, eu vou curá-lo. Não se preocupe. Me dê apenas cinco minutos, eu posso cuidar deles. – Haruka sorriu.
- Você se tornou uma mulher muito corajosa, Yuuki. Estou orgulhoso de você. Saia daqui enquanto pode. Não deixe que sua mãe morra em vão. – Yuuki olhou para o lado e viu Juuri receber um golpe em seu peito. A mulher de cabelos brancos arrancou seu coração e depois esmagou-o.
- Mãe! – Juuri caiu de joelhos, já sem vida. Seus pais foram mortos em sua frente sem que pudesse fazer nada para impedir.
- Agora é sua vez, querida. Me parece que você não é tão valente quanto diz ser. – a mulher lambeu os dedos. Deixe-a comigo Haruno. Eu mesma cuidarei dessa pequena espoleta.
Yuuki já havia perdido a pessoa que mais amava, e agora os pais que mal teve a chance de conhecer. A morte não parecia uma opção tão ruim. Fechou os olhos. Estava preparada para sair do mundo do qual não deveria pertencer.
Porém, sentiu uma mão em seus olhos, tapando-os e virando-a de encontro a algo forte e macio ao mesmo tempo.
- Acho que você já foi longe demais, Shizuka. – uma voz masculina falou.
- Sinto muito, meu rei, mas estou sob ordens de superiores.
- Claro. Eu entendo. Por isso lhe darei uma morte rápida.
Em seguida a vampira pôde ouvir o som de algo se explodindo. Provavelmente os corpos dos vampiros que a atacaram.
- Pronto. Já acabou, Yuuki. – o homem soltou-a e encarou-a. – Você está bem?
Que tipo de pergunta era aquela? Yuuki estava tão chocada que mal podia responder.
- Vamos sair daqui antes que os convidados cheguem. – mas já era tarde demais.
A multidão já havia cercado a clareira e encaravam Yuuki com semblantes de pavor e susto. Para eles, a causa de tudo aquilo era ela. E a causa de problemas sempre deve ser exterminada.
Notas finais
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