“Eu poderia descrever a SOL de várias formas. Ela é uma gangue, um clã, um simbolo. Nós simplesmente nos reunimos e lutamos pelo amor às lâminas, nós simplesmente vagamos pela noite obscura em busca de sangue, porque o simples prazer em vagar nos faz sentir vivos... A luz amarelada e raquítica dos postes nos doura a pele, a adrenalina do subúrbio nos enlouquece... Ser um membro da SOL é ser, acima de tudo, um vadio da noite, um criminoso.”

“A partir do momento em que você está aqui, suponho que saiba disso. Portanto, tratemos de outros processos. Na SOL, temos um sistema que classifica os membros em cinco níveis: aprendiz, regular, mestre, perito e cavaleiro. Para passar para a classe seguinte, você deve cumprir os objetivos estabelecidos. Seu objetivo, como aprendiz, é simples: Vencer o torneio de aprendizes que acontece a cada três meses.”

“Vale lembrar também que, na SOL, você nunca está sozinho. Quando se é aprendiz, você tem um mestre que vai lhe ensinar todos os básicos da luta de lâminas. Como regular, você ganha um parceiro que vai te ajudar a aperfeiçoar suas táticas. Como mestre e Perito, você ganha um discípulo, o que é uma ótima oportunidade para sintetizar o que você aprendeu. Como Cavalheiro, porém, a história é outra... Enfim, vamos focar no presente. Alguma dúvida até agora?”

Hans estava sentado, encostado em uma árvore. O dia reluzia em dourado e verde nos campos próximos à pequena cidade de Henglarn, na poção ocidental da Alemanha. À sua frente, um homem largo de dois metros de altura se postava, rígido e altivo. Ele tinha cabelos longos e uma barba ruiva espessa. Carregava na mão direita um machado gigante, em uma empunhadura firme e preparada. Hans, de camisa sem manga, calças largas e boné para trás, resfolegou, desinteressado.

— Cara, eu já sei disso tudo... Você sabe de quem eu sou irmão?

— Insolente... Claro que sei que você é o irmão de Dirk Braun, um dos cinco maiores ferreiros da Alemanha... – O ruivo falou, ironizando.

— Então pra que essa baboseira toda? É óbvio que eu já sei de tudo isso. Vamos começar o treino logo! – Hans se levantou, impaciente.

— Insolente! Se você é tão importante, deve saber também que estas palavras iniciais são regulamentadas. Agora, fique quieto e ouça minhas indicações!

Hans bufou, chateado e tedioso.

— Eu trouxe uma sacola de armas aqui... Você vai ter que testar cada uma delas para sabermos que tipo de lâmina você vai usar...

— Besteira – Interrompeu Hans. – Eu vou ser um assassino. Já decidi.

O ruivo parecia verdadeiramente irritado, agora.

— INSOLENTE! Acha que é simples assim? Você merece uma boa surra! Você acha que é só você decidir, e está tudo decidido?

— Me responda, eh... Qual é seu nome mesmo?

— Já esqueceu?! Hesse, Joseph Hesse.

— Me responda, Johe... Existe alguma forma de derrotar a Sombra sem ser um assassino que nem ela?

Joseph hesitou, pensativo. Aquele era um assunto delicado...

— Então, está vendo? – Hans concluiu. – Se eu quiser derrotar a Sombra, ser um assassino é o único caminho que me resta. Agora, me treine!

— E por que derrotar a Sombra? Você sabe que ele é um dos melhores cavalheiros de toda SOL... Por que se arriscar assim? Por vingança?

— Também... E porque ele é forte. É como você disse, [i]Klein[/i] Johe, nós da SOL somos movidos pelo sangue.

— Você é um idiota... – Joseh respondeu, e cedeu.

—X –

A faculdade de treinar Hans Braun, para o perito Joseph Hesse, era como ensinar um alfabetizando a ler de cabeça para baixo. Isso se devia, em primeiro lugar, ao tipo de pessoa complicada e impulsiva que era Hans Braun. “Dualística”, pensou Joseph posteriormente. Ao mesmo tempo em que se fazia difícil e teimoso, Hans era dedicado e instruído. Ao mesmo tempo que era desrespeitoso e imprudente, tinha plena consciência de ser privilegiado por ter um perito ao seu lado. Hans sabia que, dentre os aprendizes, os mais promissores sempre eram treinados por peritos, e os menores, por mestres comuns. Também sabia que tudo isso se devia ao fato de ser irmão de Dirk Braun, e parecia admirá-lo com verdadeira intensidade. Incansáveis vezes encontrava tédio e desprezo na postura de Hans quando, nas tardes ensolaradas de junho, procurava introduzi-lo na arte da luta de adagas.

— Primeiro, você tem que aprender a segurar a adaga com perfeição. Um assassino tem que possuir uma mão ao mesmo tempo leve e firme, de forma a ser capaz de desferir trinta golpes rápidos sem derrubar a lâmina. – Disse Joseph, certa vez, em um dos seus primeiros treinos, nos campos de Henglarn.

— Que baboseira, Johe. Vamos começar logo com o treino prático. Eu já sei segurar minha adaga! – Hans respondeu, recostado na árvore, de voz cansada.

— Como você quer ir para o treino prático sem saber segurar a adaga direito? – Bradou Joseph.

— Johe, eu treino com adaga desde os cinco anos. – Hans falou, sério. – Claro que já sei segurar minha adaga bem o bastante.

— Para quem treinos desde os cinco anos você até que é um belo lixo, não, Hans?

Joseph observou. A face de Hans corou e ele se impostou para frente, raivoso. As sobrancelhas retesadas quase se uniam na testa enrugada, e os olhos eram ao mesmo tempo ameaçadores e ofendidos. Joseph não o temia, porém. Hans arremessou o boné no chão e se retirou. O que nos revela, por fim, outro fato importante sobre Hans Braun: o rapaz não se contentava com nada senão o melhor.

Em outra ocasião, porém, confirmando a tese da dualidade, Hans mostrou-se extremamente dedicado ao treino. A prática consistia em tentar, com a adaga, desferir o máximo de cortes possíveis por segundo.

— Você tem que ser rápido. Tem que tirar a força do corpo, não do braço, e manter o pulso firme enquanto desfere golpes aleatórios. O segredo da luta corpo a corpo do assassino é intimidar o inimigo com sua velocidade. Não, você está calculando demais! Os golpes devem ser aleatórios, imprevisíveis! Isso... Melhorou... Mais rápido!

E Hans Braun se mostrava dedicado e completamente imerso no trabalho. Sua testa suava sob o boné, seu pescoço molhado revelava os músculos tenazes que se contraiam e relaxavam num ritmo incessante. Marcas rasas iam surgindo, pouco a pouco, e logo convertendo toda a árvore em uma grande tábua de cortes.

— Mal, Hans, muito mal... – Disse Joseph, ao fim do treino. – Um assassino mediano consegue desferir ao menos três golpes por segundo. Você desferiu um. A Sombra tem um recorde de sete golpes por segundo. Se quiser alcançar o monstro, tem que treinar duro.

No dia segunte, Hans alcançou um rítimo de dois golpes por segundo. Uma semana depois, já se considerava um assassino mediano.

Certa vez, aproximadamente um mês depois do início dos treinos, Joseph chamou Hans para um treino noturno. Marcaram para se encontrar às sete na praça principal de Henglarn. Naquela hora, as ruas já estavam quase vazias, e as luzes amareladas dos postes, o verdadeiro sol dos lutadores das lâminas, brilhavam sem entusiasmo pelas amplas ruas do interior alemão. Enquanto Hans não chegava, Joseph divagava sobre o decorrer dos treinos. Hans era um péssimo aluno, porém um bom assassino. Ainda assim, o garoto não parecia estar satisfeito, e isso incomodava bastante o seu mestre. Quiçá fosse hora de buscar apoio com outros assassinos, afinal, apesar de conhecer um pouco sobre todos os estilos de lâminas, Joseph Hesse continuava sendo um usuário de machados, o que não era nem um pouco parecido com a labuta de um mestre em adagas...

Seu pensamento foi interrompido, então, quando a silhueta de Hans apareceu por entre uma rua escura. Ele vestia um casaco azul-marinho, uma calça folgada e, como sempre, um boné. O garoto se aproximou calado e se postou na frente de seu mestre, com os olhos escondidos em sombras.

— Hoje vamos treinar a sua espreita. – Disse Joseph, prevendo o conflito.

— Espreita! – Bufou Hans. – Eu ainda não estou nem perto da Sombra e você quer perder tempo com espreita!

— Imbecil! Espreita é a principal habilidade de um assassino. Alguém tão inteligente como você deveria saber disso...

— Não me interessa! Não quero nada além de força. Pode pular essas partes inúteis. Tenho que virar um regular o mais rápido possível...

— Hans Braun, por acaso... – Joseph perguntou. – Você está querendo ser um segundo Lesley Ann?

— Um segundo Lesley Ann? – Hans exclamou.

— Exato. Você sabe, a menina que virou mestra em um ano com a metade de sua idade...

— Não diga baboseiras, Joseph. Ninguém consegue nada tão rápido assim.

Joseph suspirou, cansado.

— Você está se contradizendo, maldito...

— Enfim! Quando vamos começar essa droga de treinamento?

”Droga de treinamento”? Joseph bradou, de repente, em sua mente. O perito passara cinco horas planejando como ensinar àquele moleque a arte da espreita, tarefa quase impossível para um Lenhador como Joseph, usuário de Machados. Normalmente, Lenhadores são do tipo cuja força e coragem sobrepõe-se a qualquer outra qualidade. Se rebaixar ao ponto de ensinar a um discípulo a arte de se esconder e fugir das batalhas era tão... Vergonhoso! Em um momento de fúria, Joseph olhou para o horizonte e viu uma mulher andar calmamente pela rua, sozinha. Reconheceu na hora aquele rosto, e um pequeno sorriso envenenou o canto de seus lábios grossos.

— Braun, se você se acha tão bom a ponto de ser capaz de pular todo o treinamento básico, escute minha ordem. – O garoto ouviu com atenção. – Roube o bracelete esquerdo daquela moça que está passando por ali sem que ela o veja. Deve ser fácil para você, não?

— Da hora! – Hans riu, jovial. – O que ganho se eu passar?

— Eu deixo você participar de um campeonato. O “Petiz de Nova York”, conhece? Um dos mais famosos campeonatos de aprendizes. Agora se apresse! Você tem até amanhã de manhã.

Hans acenou, sorrindo, eufórico com a competição, e inocentemente correu em direção às sombras, do lado oposto da rua. Joseph sorriu descaradamente e sentou-se na praça. Aquilo não deveria levar mais de duas horas. “Realmente”, pensou Joseph, “eu sou o pior mestre do mundo!” – e desatou-se a rir.