Sociedade Oculta das Lâminas
3 Tempos Bucólicos II
CAPITUO II – TEMPOS BUCÓLICOS (PARTE 2)
Naquela noite escura, sem estrelas ou lua a emprestar ares poéticos à cidade, Hans Braun descobriu-se um amante da arte da perseguição. Enquanto a moça, adornada em jóias fúteis e roupas caras, caminhava calmamente pelas ruas semi-escurecidas, Hans a perseguia silenciosamente pela sombra que algumas árvores decorativas projetavam nos muros musguentos de uma casa. Enquanto caminhava, o garoto pensava, animado, sobre o campeonato prometido. Se conseguisse realizar a simples tarefa de furtar uma pulseira, viajaria para a América. No campeonato, teria a chance de enfrentar os mais fortes aprendizes de todo o mundo, e quem sabe, talvez, dar um passo a mais em direção à Sombra. Perdido em devaneios, Hans tropeçou em um batente e se agarrou em uma árvore para não cair. A moça estancou, ficando estática por três longos segundos. Hans se manteve imóvel e tenso, até que ela se virou em direção a sua bolsa e tirou dela um pequeno celular rosa, o qual logo foi discado e direcionado ao seu ouvido. Hans suspirou, aliviado. Ainda que o barulho houvesse sido mínimo, por um momento ele considerou a possibilidade da moça ter escutado.
A perseguição prosseguiu por mais trinta minutos, silenciosa. Inicialmente desatento e convencido, pouco a pouco Hans percebeu a intensa necessidade de focar sua concentração. Porém, ainda assim, nada do que o rapaz fazia parecia fluir. Durante todo o percurso ele se escondia nas sobras à beira da rua que a moça caminhava relaxada. Porém, a todo o momento que Hans tomava a iniciativa de se aproximar, um sutil desvio da moça fazia com que a distância se mantivesse segura. Tardou para Hans perceber que a mulher sabia o que estava fazendo. Havia uma atenção escondida em seus passos descuidados, um blefe invisível cada vez que ela ameaçava parar. Após 20 minutos de perseguição, o que era para Hans uma tarefa simples se tornou um jogo, onde cada movimento seu era medido e retrucado pelo adversário. Infelizmente, pouco Hans conhecia sobre o sutil jogo da perseguição, e o mesmo quase foi pego após trinta minutos.
Enquanto Hans seguia o enlaço da moça, pelas sombras, um uivo gritante cortou o silêncio da rua em forma de sirene. Duas viaturas de policiais vinham correndo através da rua escura. Hans praguejou, irritado, e correu na direção oposta quando os policiais estacionaram e saíram a sua busca. Provavelmente, pensou o rapaz, a moça já sabia estar sendo perseguida desde o início, quando pegou o telefone e ligou para a polícia. “Ela é da SOL. Deve se tratar de uma mestra”, pensou. E depois, amaldiçoou Joseph por ter proposto um teste tão absurdo. Ele provavelmente sabia de tudo.
Mas ainda era muito cedo para desistir. Hans despistou os policiais com sua velocidade descomunal, correndo como uma sombra farfalhando a imagem doente dos postes, e através de um desvio, conseguiu voltar à perseguição. Porém, se quisesse pegar aquela pulseira, teria de usar uma estratégia diferente. Hans imaginou que, se quisesse passar no teste, deveria estar à frente da moça. Através de um atalho escuro, por entre os becos mais agourentos de toda Henglarn, Hans ultrapassou a moça e se escondeu atrás de um muro gelado. Utilizando sua faca como espelho para não chamar atenção, Hans viu a pequena silhueta caminhando no meio da rua, cada vez mais próxima. Ele aguardou, pacientemente, e guardou a adaga: a perseguição estava chegando ao fim.
No momento em que a moça se alinhou com o beco, no meio da rua, Hans correu e se atirou ao pulso dela. A perseguida não pode conter um grito de surpresa quando viu o vulto se atirar em sua direção com uma velocidade inumana. Com uma precisão fenomenal, Hans retirou o objeto do pulso da moça e sorriu, correndo, quando sentiu nos dedos a matéria fina que era a pulseira. Ele correu para um outro beco e se escondeu. Quando olhou a peça roubada, porém, assombrou-se. Havia ali, na sua mão, não a pulseira, mas um aro de plástico fajuto. Sua adaga havia sumido do bolso.
— Procurando isso?
Hans sentiu os músculos retesarem quando viu Lila, a sua própria lâmina, pressionada firmemente contra seu pescoço. A moça estava agachada ao lado dele, seus olhos mortíferos e impiedosos cravados na tez assombrada de Hans. Quando ela chegou ali? Ele não conseguiu responder.
Pela sua adaga, diria que é da SOL. Pela sua habilidade, diria que é só um ladrãozinho qualquer. Me diga, criança, quem é você?
Hans engoliu seco. Sua mente estava a mil, atordoada. O olhar da moça se contrastava cruelmente com suas roupas meigas, dando-lhe um aspecto de frieza e terror. O rapaz sabia claramente que aquela era uma técnica ocular de intimidação muito usada por assassinos da SOL, quase um clichê, mas ainda assim, era assustador e paralisante. Qualquer tentativa de raciocínio era completamente destruída pelo olhar, ainda que fosse apenas uma técnica.
— Não vai responder? E se eu arrancasse sua garganta... – A pressão da adaga aumentou e Hans sentiu uma pequena onda de calor escorrer de seu pescoço. Um filete de sangue desceu e manchou seu casaco.
— Eu sou da SOL... – Respondeu Hans, tremendo. – Aprendiz... Da SOL.
A mulher lançou Hans ao chão, de costas, e cortou a parte de trás de seu casaco, deixando à mostra as costas largas do rapaz. Estava limpa. Ele estava dizendo a verdade. Ela agarrou seu colarinho e voltou a pressionar-lhe o pescoço.
— Por que estava me perseguindo, maldito? – Ela bradou.
— Meu mestre me ordenou... Era um treino... Só um treino! – Hans falou, desesperado.
— E quem é seu mestre? – Ela inquiriu.
— Joseph... Joseph Hesse!
No momento em que disse o nome, Hans sentiu a pressão em seu pescoço afrouxar-se e seu colarinho ser largado. Ele caiu no chão com estrondo. Passou cinco segundos em choque, e depois pôs-se a chorar.
— Ah, então foi o velho do Hesse... Desculpe-me, garoto. Vamos, não chore! Tome aqui um lenço. Sim, pode ficar tranqüilo. Está melhor? Ótimo. Pode me dizer seu nome? Hans Braun? Oh, o irmão de Dirk Braun!...
E assim ela começou seu longo monólogo. Hans ainda estava em choque, porém a voz calma e doce da mulher que quase lhe matara funcionava como um calmante tão bem quanto funcionava para ameaçar. Depois de se acalmar por completo, ela perguntou:
— Então você quer se tornar um Assassino? Bem, vejo que Hesse continua péssimo para ensinar espreita, não?
Hans fez que não com a cabeça e relatou o motivo pelo qual ele estava ali. A moça riu.
— Então ele foi bem cruel. Mas é bom que isso sirva de lição para você, Hans. A SOL não é um lugar divertido e alegre, você não pode escolher o que treinar. Se você quiser mesmo seguir em frente, terá que ter muito sangue frio e escutar os outros. Eu, por exemplo, sou apenas uma Regular e já te causei tal medo. Tenha certeza que tem muita gente pior por esse mundo.
— Uma regular?! – Exclamou Hans. A moça fez que sim.
— Bem, tenho que me encontrar com meu parceiro agora. Demorei tempo demais naquela perseguição. A propósito, Hans, antes de ir vou te dar umas dicas de espreita. Veja bem, quando alguém olhar para você e você estiver escondido, fique imóvel! Se você tentar se esconder mais, só vai chamar atenção. Além disso, lembre de tirar os sapatos antes de perseguir alguém. Eles fazem muito barulho. E não tropece...
E assim a moça continuou, dando dicas e mais dicas. Hans parecia assimilá-las todas. Até aquele ponto, a espreita fora a parte de ser assassino que mais lhe agradara, e Hans era o tipo de rapaz que ouvia muito bem os assuntos que lhe agradavam. Depois de concluída a pequena lição, a moça lhe deu um abraço maternal, devolveu-lhe a adaga e foi embora, sorridente. Hans se surpreendeu com sua capacidade de ser ameaçadora e agradável ao mesmo tempo. E lhe sorriu, uma vez longes.
—- X –
No ponto leste mais distante da cidade, onde as casas davam lugar aos longínquos campos noturnos, a moça se encontrou com um rapaz de mesma idade, roupas pretas e cabelos ruivos. Ele olhou para ela, acenou e perguntou, irônico.
— Parece que você deixou cair sua pulseira, meine Schatz...
A moça levou a mão ao pulso, surpresa, e então sorriu.
— Você viu?
— Vi tudo. Ele vai dar um bom assassino...
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