Sobreviver
11 Apenas um silêncio que parecia infinito
O novo ciclo de quimioterapia começou numa segunda-feira cinzenta demais para ser coincidência. Bella entrou no hospital segurando a mão de Edward com a mesma postura firme da primeira vez, mas o corpo já não tinha a mesma força. O brilho no olhar ainda existia — mas agora vinha misturado com cansaço.
A primeira sessão foi difícil.
A segunda foi pior.
Na terceira, o corpo começou a reagir como se estivesse lutando contra tudo — inclusive contra a própria esperança. Náuseas que não cediam. Dor profunda nos ossos. Falta de ar ao subir poucos degraus. O rosto cada vez mais pálido. O cabelo começando a cair novamente nos fios do travesseiro.
Edward fingia normalidade.
Mas ele contava cada respiração dela à noite.
Naquela sexta-feira, a família estava reunida na sala dos Swan assistindo a um jogo qualquer. Emmett gritava com a televisão como se fosse técnico do time. Jasper tentava explicar estratégia. Alice comentava sobre a roupa horrível do narrador. Charlie distribuía pipoca.
Bella estava sentada no sofá, enrolada numa manta.
Ela se levantou devagar.
— Vou pegar água.
— Eu vou com você — Edward disse imediatamente.
— Não precisa.
Ela sorriu.
Deu três passos até a escada.
A tontura veio como um soco.
O ar sumiu.
O peito travou.
— Edward—
Foi tudo que conseguiu dizer antes do mundo inclinar.
O corpo caiu para trás.
O som foi seco.
O silêncio que veio depois foi pior.
Edward chegou primeiro. O grito dele ecoou pela casa.
— BELLA!
Ela estava desacordada no pé da escada.
Respiração fraca.
Irregular.
O pânico não foi bonito. Não foi cinematográfico. Foi desespero bruto. Edward tremia enquanto segurava o rosto dela.
— Amor, fica comigo. Fica comigo.
A ambulância chegou rápido demais e lento demais ao mesmo tempo.
A UTI tinha luz fria.
Máquinas fazendo barulho.
Tubos.
Fios.
Bella estava imóvel.
Edward ficou ao lado do leito como se qualquer distância fosse inaceitável. Segurava a mão dela mesmo quando não havia resposta. Falava baixo, contando histórias, repetindo que ela precisava acordar.
Horas depois, Carlisle entrou no corredor.
O olhar dele já dizia tudo.
— A queda agravou o quadro — ele começou. — Mas o problema maior é que o corpo dela não está respondendo ao tratamento.
Edward balançou a cabeça devagar.
— Ajusta a dose. Muda o protocolo. Faz qualquer coisa.
Carlisle engoliu em seco.
— Edward… nós fizemos novos exames. O câncer avançou rápido demais. O organismo dela está exausto.
Silêncio.
— Quais são as chances?
A pergunta saiu sem ar.
Carlisle demorou dois segundos que pareceram eternos.
— Estatisticamente… zero.
O mundo não caiu.
Ele apenas ficou vazio.
Edward não chorou ali.
Ele apenas assentiu, como se estivesse ouvindo instruções técnicas.
E voltou para o quarto dela.
Sentou.
Segurou a mão dela.
E dessa vez não falou nada.
Os dias seguintes viraram revezamento. Esme levava comida que ninguém comia. Charlie ficava em silêncio na poltrona. Rosalie chorava escondido no banheiro. Emmett tentava manter força para todos e falhava miseravelmente.
Edward não saía.
Até que Alice chegou.
— Você precisa ir pra casa.
— Não.
— Você está tremendo.
— Eu não vou sair daqui.
Ela cruzou os braços.
— Edward Masen, você está fedendo. Se a Bella acordar e você estiver com essa cara de zumbi, ela pede o divórcio na hora.
Ele soltou uma risada fraca, involuntária.
— Ela não pediria.
— Você quer arriscar?
Ele fechou os olhos.
Estava exausto.
Beijou a testa de Bella antes de sair.
— Eu volto já, senhora Masen.
Na madrugada, o hospital estava silencioso demais. Alice segurava a mão da amiga.
— As meninas perguntaram de você hoje — ela disse baixinho. — Elas disseram que você prometeu ensinar a fazer cupcake de morango quando saísse daqui. Então você não pode quebrar promessa.
Ela engoliu o choro.
— A vida ainda está acontecendo, Bella. E ela quer você nela.
O quarto parecia imóvel.
Até que Alice sentiu.
Um aperto.
Fraco.
Mas real.
— Bella?
A mão apertou de novo.
— CARLISLE!
A voz dela ecoou pelo corredor.
Bella começou a se mexer levemente. Os monitores reagiram. Carlisle entrou correndo.
— Bella? — Alice chorava agora. — Fica comigo.
Os olhos dela se abriram devagar.
Confusos.
Cansados.
Mas vivos.
Na casa dos Swan, Edward saía do banho quando o telefone tocou.
— Ela acordou — Alice disse do outro lado.
Ele não ouviu mais nada.
Vestiu a primeira roupa que encontrou. Uma bota em um pé. Um chinelo no outro. Camisa do avesso. Cabelo molhado.
Saiu dirigindo como um louco.
Entrou no hospital parecendo um palhaço desalinhado.
Mas Bella não estava no quarto.
— Ela foi para exames — Esme explicou.
A espera voltou.
Mais longa.
Mais cruel.
Quando a porta finalmente abriu, não era Bella.
Era Carlisle.
E o rosto dele estava pior do que antes.
Edward levantou devagar.
— O que foi?
Carlisle fechou a porta atrás de si.
— Ela acordou… mas os exames mostram falência progressiva dos órgãos. O corpo dela está entrando em exaustão sistêmica.
O ar ficou pesado.
— O que isso significa?
Carlisle olhou para o enteado como médico.
E como pai.
— Significa que precisamos começar a nos preparar.
Não houve grito.
Não houve negação imediata.
Apenas um silêncio que parecia infinito.
Lá dentro, Bella ainda respirava.
Mas, pela primeira vez…
o tempo parecia estar acabando de verdade.
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