Sobreviver

12 Até o último segundo


Notas iniciais
Estamos chegando ao fim da primeira parte. Obrigada por estarem aqui até agora. Se Sobreviver já fez você chorar, amar ou sentir raiva… me ajuda a levar essa história mais longe recomendando 💔

O dia amanheceu silencioso demais.

Era 08 de junho.

O quarto do hospital tinha a luz suave da manhã entrando pela fresta da cortina, mas Bella parecia cada vez menor naquele leito. O corpo estava fraco, os lábios pálidos, os olhos grandes demais para um rosto tão magro. Ainda assim, havia lucidez. Havia consciência. E isso tornava tudo mais cruel.

Ela sabia.

Eles sabiam.

Mas ninguém conseguia dizer em voz alta.

Bella pediu por Jane e Kate.

Alice saiu para buscá-las, com o coração em pedaços e o rosto firme. Quando voltou, trouxe as duas meninas de mãos dadas, confusas demais para entender a dimensão do momento. Jane foi a primeira a subir na ponta dos pés para alcançar a tia. Kate veio logo atrás, já chorando.

Bella abriu um sorriso que parecia doer.

— Minhas meninas…

A voz saiu baixa, mas clara.

— Vocês são o melhor pedaço do mundo que eu já conheci.

Jane segurou a mão dela com força.

— Você vai pra casa quando, tia?

Bella respirou com dificuldade.

— Eu vou para um lugar bonito… mas sempre vou estar com vocês. Sempre que fizerem algo corajoso, eu vou estar lá. Sempre que rirem muito alto… eu também vou rir.

Kate começou a chorar de verdade.

— Eu te amo.

— Eu amo vocês mais do que qualquer coisa. Prometem cuidar do tio Edward por mim?

As duas assentiram, mesmo sem entender.

Alice levou as meninas para fora antes que o momento se tornasse insuportável demais.

Rosalie e Emmett chegaram pouco depois.

Rosalie já entrou chorando, mas tentando se controlar. Emmett parecia ter envelhecido dez anos em uma semana.

Rosalie se aproximou da cama e segurou o rosto de Bella com delicadeza.

— Eu precisava te contar pessoalmente.

Bella piscou devagar.

— O quê?

Rosalie colocou a mão sobre o próprio ventre.

— Eu estou grávida.

O silêncio que veio depois foi quebrado apenas pelo som do monitor cardíaco.

Os olhos de Bella se encheram de lágrimas — mas era felicidade.

— Rose…

Ela sorriu de verdade, mesmo fraca.

— Isso é… perfeito.

Emmett limpou o rosto com a manga da camisa, falhando miseravelmente em parecer forte.

— E se for menina… o nome vai ser Bella.

O ar saiu dos pulmões dela como um soluço emocionado.

— Você está falando sério?

— Estou.

Bella virou levemente o rosto para Rosalie.

— Grava isso. Agora. Eu quero ouvir de novo depois.

Rosalie, tremendo, pegou o celular.

— Se for menina… vai se chamar Isabella.

Bella fechou os olhos, absorvendo aquilo como um presente.

— Então eu nunca vou embora de verdade.

Edward assistia a tudo de longe.

Encostado na parede.

Braços cruzados.

Olhos vermelhos.

Ele quase não falava. Não sabia como falar. Cada palavra parecia uma traição à esperança.

Quando se aproximava, era sempre a mesma coisa.

— Eu te amo.

Repetido.

Como um mantra.

Como se isso pudesse segurá-la ali.

Mas Bella não conseguia se despedir dele.

Toda vez que tentava, a voz falhava.

No fim da tarde, Charlie e Renée entraram juntos.

Renée estava desfeita.

Charlie estava rígido demais.

Bella olhou para os pais e, pela primeira vez, não tentou ser forte.

— Eu sinto muito.

Renée caiu ao lado da cama.

— Não. Não, não, não fala assim.

Charlie segurou a mão da filha como fazia quando ela era criança atravessando a rua.

— Você nunca precisou pedir desculpa por nada.

Bella respirava com dificuldade.

— Pai… obrigada por nunca ter desistido de mim. Mesmo quando eu era difícil.

Charlie apertou os olhos, tentando conter o choro.

— Você nunca foi difícil. Você sempre foi… minha menina.

Renée beijou a testa da filha repetidas vezes.

— Eu não sei viver num mundo sem você.

Bella sorriu fraco.

— Vocês vão viver. E vão viver bem. E vão lembrar de mim quando fizerem panquecas queimadas… e quando o rádio tocar música antiga.

Ela olhou para Charlie.

— Cuida dele.

Charlie entendeu de quem ela falava.

E assentiu.

Quando ficaram sozinhas, Esme se aproximou da cama.

Havia uma serenidade dolorosa nela.

Bella segurou a mão da sogra.

— Você me ensinou o que é família.

Esme sorriu com lágrimas nos olhos.

— Você é minha filha.

Bella respirou fundo.

— Eu preciso que me ajude com uma coisa.

Esme inclinou o rosto.

— Qualquer coisa.

— Quero escrever uma carta para o Edward. Mas eu não tenho força suficiente para terminar sozinha.

Esme puxou uma cadeira.

Pegou papel.

Caneta.

— Eu escrevo o que você disser.

Bella fechou os olhos por um segundo, organizando o pouco de energia que ainda tinha.

— Começa assim… “Meu amor”.

Esme escreveu.

— Diz pra ele que Paris ainda é nossa.

A mão de Esme tremia.

— Que ele vá. Que ele leve minhas cinzas. Que ele leia isso olhando a Torre iluminada. E que ele não fique preso aqui comigo.

Uma lágrima caiu no papel.

— Diz que eu fui feliz. Que eu fui amada. Que ele me deu tudo que eu nunca soube que merecia.

A voz dela ficou mais fraca.

— Diz que eu quero que ele viva. Que ele ame de novo, se conseguir. Que ele ria. Que ele tenha filhos correndo pela casa. Que ele não transforme a minha ausência em prisão.

Esme já chorava abertamente.

— E termina dizendo…

Bella abriu os olhos.

Procurou força.

— Que eu esperei por ele em todas as vidas. E esperaria de novo.

Esme terminou a carta.

Dobrou.

Guardou.

Na madrugada do dia 09 de junho, o hospital estava silencioso.

Edward estava ao lado dela.

Segurando a mão dela.

— Eu estou aqui — ele sussurrava.

Bella abriu os olhos uma última vez.

Cansados.

Mas tranquilos.

Ela tentou falar.

Não conseguiu.

Apenas apertou a mão dele.

Ele inclinou a testa contra a dela.

— Eu te amo.

Um suspiro leve.

Quase imperceptível.

Os monitores começaram a mudar o ritmo.

Edward levantou o rosto rápido demais.

— Bella?

Ela ainda estava ali.

Mas estava indo.

Devagar.

Sem dor.

Sem luta.

A mão dela afrouxou dentro da dele.

O som contínuo da máquina preencheu o quarto.

E naquela madrugada chuvosa de 09 de junho…

Bella partiu.

Segurando a mão do homem que amou até o último segundo.