Capitulo I.

Victor percebeu que o garoto recusava toda intimidação que as poucas roupas ofereciam com o jeito educado de bom cidadão “não-americano”. O sotaque só atiçava cada vez mais as mulheres e homens interessados num charmoso alemão e os prazeres que ele poderia proporcionar na cama. Digamos que, para um demônio com uma cauda bem articulada, os caminhos se abrem sem demonstrar resistência. Mas...

Bêbado e depressivo, Kurt Wagner só queria ficar sozinho.

Era patético.

Esperou que o movimento do bar diminuísse para se aproximar, com toda a paciência do mundo. Já fazia mais de três horas que o garoto estava sentado naquela maldita cadeira. Ele provavelmente não iria a lugar algum.

Além do cheiro marcante de enxofre e forte da colônia alemã, havia a melancolia.

A princípio, Kurt nunca imaginou que voltar e aceitar as mudanças seriam um processo difícil. Como líder da extinta equipe Excalibur, ele pensou que se encaixaria novamente nos X-men. O afastamento devido ao confronto com o grupo de Vertigo — ao evitar que mais inocentes se machucassem, promoveu à necessidade de tratamento na Ilha Muir — resultou em sua substituição. A Fada era melhor teleportadora, conseguia percorrer um numero superior em área, alem de transportar maior numero de pessoas. Ciclope fez o necessário para o bem da equipe.

O desprezou.

Kurt saiu ferido da batalha sem honra alguma para sustentar.

Ao se recuperar do incidente, acreditou que todos os integrantes da equipe do professor Xavier, que lutavam por um mundo melhor e pelo convívio pacifico entre homens e mutantes, estivessem mortos.

Ao voltar para Nova York, depois de saber que os X-men precisavam de sua ajuda e que as informações sobre a queda da equipe eram falsas, Kurt lutou novamente ao lado de antigos amigos. Novamente, ingressado no grupo, ele se surpreendeu ao saber que Jean e Scott se aposentaram para começar a criar a própria família vivendo sem ligações com ameaças mutantes e a velha história de salvar o mundo.

E uma surpresa ainda maior, foi saber que, em uma manhã, Xavier acordou de mau humor e decidiu por um fim na antiga equipe X-men.

Sendo assim, a contragosto, cada integrante tomou um rumo diferente. Ororo permaneceu com o professor para ajudar na criação dos “Novos X-men”, Kitty e Rogue viajaram para Manhattan para umas merecidas férias, e igualmente como elas, Peter e Sarah viajam para Boston. Wolverine simplesmente sumiu sem dar qualquer tipo de satisfação para onde iria, juntou algumas coisas e partiu com a moto.

E o alemão não estava surpreso com tal comportamento infantil, pois Logan fugiu dele... Como todo mundo sempre faz.

Para ironia disso tudo, ele permaneceu na Mansão X, vivendo no antigo Instituto Xavier para Estudos Avançados, no Condado de Westchester, Nova York. Pois Charles Francis Xavier nem se importava com sua presença.

Ele não tinha outro lugar para ir e não seria bem-vindo a igreja.

Fazia algum tempo que a religião entrava em conflito com os princípios que Kurt adquiriu através de batalhas para salvar o mundo que o odiava. A fé tornava-se fácil de quebrar, dissolvendo entre seus dedos e corroendo a cruz que carregava no peito.

Lentamente.

Kurt foi desperto dos pensamentos obscuros e melancólicos quando uma garrafa cheia de cerveja foi depositada a frente dos olhos vazios.

-Ora, ora... E eu pensando que minha vinda até aqui seria um tédio só.- a voz grossa e áspera saiu do fundo da garganta como um rosnado malicioso.

Um leve tremor passou pelo corpo. Ele reconhecia aquela voz, mesmo depois de tanto tempo sem escutá-la. Os olhos amarelos se ergueram lentamente, atravessando a garrafa e percorrendo o longo caminho das vestes negras até chegar aos olhos selvagens e divertidos de Victor Creed.

Havia uma beleza extremamente perigosa vinda dele e Kurt podia sentir isso. Maldade e atração misturados em um só mutante.

O alemão se endireitou na cadeira, alarmante. Intimidado pela presença de um dos maiores inimigos cruéis que já enfrentou. E sabia que as chances de sair vitorioso caso houvesse uma luta, seria mínima. Apesar de ser bom em luta corporal e ter a capacidade de se teleportar, ele tinha nenhuma chance com Dentes-de-Sabre.

Como se adivinhasse tais pensamentos, Victor disse calmamente, notando as inquietações refletidas no corpo do X-man, como as batidas rápidas do coração e a respiração alterada.

-Eu não quero brigar com você, Wagner.- puxou uma cadeira e se sentou a sua frente com um sorriso amigável nos lábios. -Então não fuja de mim.

Apesarem de serem inimigos, havia um respeito mútuo entre eles. Ambos reconheciam as capacidades de luta e de estratégia devido às inúmeras batalhas que travaram entre si. Entretanto, Noturno nunca lutou contra Dentes-de-Sabre sem o apoio da equipe, e agora, encontrava-se sozinho diante daquela ameaça.

E os dois ficaram ali, sentados de frente para o outro tendo uma mesa os separando.

Victor tomou alguns goles de cerveja mantendo o olhar sob Kurt, sequer perdendo os movimentos involuntários que o corpo azul fazia, notando claramente o incomodo que seu olhar causava — igualmente como a presença. Riu em satisfação.

-Faz um tempão que não te vejo. Andou sumido...- disse com a voz distante e pouco preocupada, tomando mais um gole de cerveja.

Uma confusão mental estava acontecendo com Kurt. Ele não fazia idéia do que Dentes-de-Sabre estaria fazendo ali, e nem o motivo da conversa. Estava sendo difícil de montar uma linha de raciocínio sensata, a cabeça doía levemente e na boca restava o gosto amargo da cerveja. O álcool corria pelas veias sem destino, prejudicando seriamente a capacidade de concentração. Entretanto, o que mais o atordoava, era que ainda não sofrera nenhuma violência por parte de Creed.

-O que me chamou atenção é ver você aqui, completamente sozinho... – levantou o rosto até poder enxergá-lo com clareza, o provocando- Sem a companhia do Logan.- encarou os olhos brilhantes amarelos com intensidade e a maneira como eles se direcionaram a focar o chão.

Kurt evitou o olhar penetrante do homem mais velho. Os dedos se entrelaçaram um nos outros demonstrando nervosismo, e a cauda se arrastava no chão, debaixo da mesa, com cuidado. Não ousava chegar muito perto, temendo que pudesse ser pega. A lembrança do amigo veio à tona, e com ela a amargura e a rejeição que sofrera.

Quando esteve fora, Logan nem ao menos ligou para demonstrar alguma consideração por ele. E em pensar que eram amigos íntimos e velhos companheiros... Compartilharam perdas e desilusões, estiveram lado a lado em piores momentos, sempre com aquela preocupação incomodando a cada luta. A falta de importância superou tudo isso. Era um dos principais motivos pela qual estava bebendo nesta noite.

Escutou um assobio animado.

-Uh-Uh, foi você ou ele que deu o fora? Ah é, eu esqueci. – ele se inclinou para mais perto, o intimidando- Quando as coisas ficam feias, Wolverine foge com o rabo entre as pernas.

O sorriso dele deixava a mostra os caninos brilhantes.

Dessa vez, foi o alemão que encarou confuso, mas não surpreso. Nunca ouvira alguém falar desse modo do Logan, entretanto ele estava lidando com Dentes-de-Sabre, principal inimigo do canadense. E agora, ao pensar que Wolverine estava em algum bar caipira com cerveja de fundo de quintal, arrumando brigas e prostitutas, não haveria ninguém que pudesse controlar a fúria animalesca do homem a sua frente.

Um medo começou a se espalhar pelo corpo.

-É...É melhor eu voltar...- Kurt gaguejou passando a mão pelos cabelos e se levantando antes que pudesse concluir a frase.

Ele precisava sair dali o mais rápido possível e voltar para casa.

-Por quê? – perguntou desentendido ainda com um sorriso vitorioso estampado no rosto — Ninguém se importou com você quando esteve fora... Não vai ser agora que isso vai acontecer. — falou sussurrando com sua voz rouca em uma clara ameaça.

-Danke pela cerveja.- ignorou o que lhe foi dito e o agradeceu mesmo sem ter tocado na bebida. Virou-se e caminhou com dificuldade em manter o total equilíbrio sob os pés.

E ao vê-lo se dirigir para a saída, Creed riu discretamente com um som de satisfação, masculino e profundo.

-Ele não se importou nem um pouco com você.- se levantou arrastando a cadeira e caminhou lentamente até ele, movendo-se como um predador silencioso- Ficou lá, de conversinha com Jubileu... Rindo com Kitty, tendo uns pegas com a Ororo...

Ao ouvir aquelas palavras, Kurt parou de andar.

-É duro não ser reconhecido, né Wagner?- aproximou-se silenciosamente dele, deslizando as garras nas mesas pelas quais passava ao lado, como se as preparassem para rasgar aquela carne coberta pelo pêlo azul que clamava por libertação.

Os dedos hesitantes de Kurt roçaram levemente na maçaneta. Ele não queria ficar mais um momento na presença de Dentes-de-Sabre, mas se recusava a deixar o local. Sua mente estava dividida, uma parte gritava para ele sair o mais rápido possível e a outra parte, exigia em saber o que Creed ainda tinha a dizer.

-Não receber o devido valor...- Victor fechou a porta usando a força para impedir que o alemão a abrisse. Deixando-o entre a porta e seu corpo, o encurralando num pequeno espaço enquanto se aproximava ainda mais.

Um tremor passou pelo corpo atingindo a coluna vertebral. Kurt sentiu a onda de medo o dominar, o vazio sufocante, a sensação de perigo alarmante e a vontade crescente de se mexer sem conseguir. Engoliu seco antes de levantar o olhar, encarando o próprio reflexo no vidro, e percebeu que o corpo de Victor era como uma jaula em torno dele.

Não havia para onde fugir.

-Kurt Wagner... E sua patética existência.- disse perigosamente suave, inclinando seu corpo e encostando seus lábios na orelha dele.

A voz rouca sussurrando seu nome causou um arrepio involuntário. Dos lábios encostados na orelha sensível, sentir um sorriso brotar. Uma mão se prendeu em seu pulso, arrastando para longe da maçaneta, enquanto a outra permanecia na porta. Com a aproximação, as costas de Kurt encostaram contra o corpo de Victor que o impulsionava para frente, indo contra a porta e eliminando espaço entre eles.

Victor Creed adorava o cheiro do medo.

Sentia toda aquela fragrância se intensificar cada vez que se aproximava. Não havia necessidade de fingir coragem, o cheiro era transpirado pelos poros de Wagner sem vergonha alguma. Era uma delicia. Algo tão inebriante quando o simples ato estripar uma vida até a morte.

Seu instinto selvagem gritava mais alto naquela noite, ignorando todo resto de humanidade existente em seu ser. Era impossível resistir, suas narinas eram aprisionadas por aquela essência atraente, irresistível. Encheu os pulmões com o cheiro capaz de sugar todo seu autocontrole, precisava absorver aquele medo que emanava o corpo azul de todos os jeitos possíveis, pois Kurt exalava um medo único...

Era um medo solitário mesclado estranhamente a excitação sexual.