Capitulo XIII.


Kurt o olhou.

O professor estava diferente, mais sério do que o normal. Com o olhar cheio se suspeitas e silêncio. Xavier não queria mais segredos entre os X-men, não depois do retorno do mundo Skrull.

E Creed era um segredo dos grandes e não mais do que uma traição.

–Não estou surpreso que você- ele começou a dizer, se aproximando- igualmente como os outros, tenha me desapontado. – manteve o frio contato visual, as palavras duras num tom de voz preenchida pela raiva — Afinal, o que você estava pensando em criar uma relação intima com Dentes-de-Sabre?

O nome popular de Victor Creed ecoou e Tempestade reprimiu a surpresa.

–Ele só precisa de uma segunda chance, Herr professor... – disse baixinho, constrangido com a situação. A cauda balançou nervosa.

–Segunda chance?! – e Xavier explodiu.

Todos sentiram a onda psíquica os atingir.

–Dentes-de-Sabre representa tudo o que combatemos! Eu o admiti no instituto quando todos foram contra minhas decisões, como fiz com a Vampira e o Wolverine! Eu tentei até a exaustão curá-lo dessa fome homicida, pois acreditei que poderia acabar com sua loucura!- tomou fôlego, mas não para uma voz mais calma- Utilizei todos os recursos possíveis para soldar sua mente e cheguei ao resultado que não há
forma viável de extinguir sua selvageria assassina.

Era o veredito. Mesmo que todos não acreditem, ele tentou. E no final, admitiu que Creed não tivesse redenção. O estudo fora em vão, Charles não obteve resultados além de Elisabeth Braddock quase morta na tentativa inútil de deter Dentes-de-Sabre.

O mandou para o corredor da morte, para que o governo apagasse essa falha.

–Professor...- começou a dizer, sem ter as palavras certas na boca. A possibilidade de se explicar era mínima, pois ele próprio não sabia como o encontro evoluiu para a relação tão intensa.

Tão apaixonante.

Xavier o interrompeu. Ele não estava interessando em mais desculpas.

–Você não é mais bem-vindo aqui.- o último olhar. A cadeira contornou o eixo e a maior mente do universo lhe deu as costas.

O professor Charles Francis Xavier era um visionário não habituado ao fracasso.

E Kurt Wagner, Noturno, não era mais do que isso.

Desejava rir pelo sentimento de fracasso. Ororo o abraçou pelas costas. A cabeça encostada em seu pescoço. Três dedos entrelaçaram os dela. O vento da calmaria acariciou os rostos.

–Vou falar com o professor.- ela disse na incerteza e quando foi se mexeu, Kurt a segurou.

Ambos sabiam que não haveria volta.

Ele não desejava arrumar a partida sozinho.



Kurt prezava e respeitada os X-men. No momento, não parecia grande coisa. Eles o abandonaram – indicando plenamente que não precisavam de um demônio na equipe. Como sempre faziam.

Então, ele já estava de saída.

–Você traiu a equipe, Noturno.

O alemão não deu o trabalho de largar a bagagem no chão e começar outra discussão. E nem se virou para encará-lo.

–Guarde o profissionalismo para si mesmo, Scott. – breve, impaciente.

–O que você esta pensando? Se envolver com um dos mais cruéis assassinos do mundo? Você sabe das atrocidades que Creed cometeu!

Não, Noturno não sabia o que estava pensando. Aconteceu, simplesmente. A evolução para uma relação como aquela nunca fora prevista. E sim, estava ciente de todos os crimes cometidos pelo mutante. Ou pelo menos, a maioria.

Além disso, não era o momento certo para discutir.

–A Fada é melhor teleportadora. Em seus termos, a equipe só tem a ganhar. –finalmente o encarou, incomodou-se com o reflexo dos óculos vermelho -Sabe que nunca concordei com sua liderança, principalmente ao permitir que inocentes se machucassem.

Ciclope chegou mais perto, a expressão indignada e tão conhecida no rosto.

–E Creed não faz isso?- era mais do que uma pergunta. Machucar inocentes foi tudo que Dentes-de-Sabre fez até então, crianças incluídas.

Noturno sentiu os lábios secos.

Era verdade.

–Além do mais, eu faço o que é necessário, Wagner.- porque agora não era mais “Noturno” ou mesmo “Kurt”. O ex-líder voltou à ignorância.

Voltou a ser um protótipo preferido e original do professor.

–Você sustenta falsas esperanças em relação ao mundo lá fora. Você foi vitima daquelas atrocidades.

Milhares de atrocidades e abusos. Kurt sabia como era sentir em cada centímetro do corpo a dor e sofrimento responsável pela ignorância humana. Pelo simples fato da impossibilidade de entender e admitir a existência de mutantes. Falar, para Scott, era fácil. Digamos que o “querido do professor” era normal diante da sociedade, nada comparado a pele azul, olhos sem íris e uma longa cauda.

E pela primeira vez, depois de tantos anos, Noturno sentiu-se protegido ao lado do mutante mais perigoso do planeta. O introdutor de imagens ficaria em algum canto, pois não precisaria mais se esconder. Uma liberdade tão pouca degustada sempre a disposição. Sentiu que não valia sacrificar essa sensação por tão pouco.

Kurt sempre foi reconhecido como um homem pacífico, calmo e tolerante. Por vezes, raras, ele se demonstrava hostil e assumia o controle, tomado por uma raiva tão amiliar ao pai (Azazel). O sangue fervia por dentro.

–E você diz que o melhor jeito é ferir inocentes. Matar quem não queremos por perto. –o tom de voz mais intensa, provocando-o. Ponto em risco a liderança de Ciclope. Sobrepondo-se a ele. – Principalmente aqueles que abominam a ideia utópica de harmonia.

Intimidando-o.

–Ninguém é santo, Scott, mas todos merecem perdão.

Um momento de silêncio.

Noturno já estava se retirando, determinado a não voltar ou a ceder àquelas palavras. Então, Ciclope se aproximou demais e segurou o braço azul, fazendo-o parar.

–Se você sair dos portões da escola, sabia que nunca mais será bem vindo- o apertou com mais força — Muito ao menos considerado amigo.

A única coisa em resposta foi um:

–Me solte, Scott.- Kurt não estava disposto a entrar na brincadeira. O limite pessoal estava quase ao fim.

–Pense bem, o que Creed realmente quer alem de sexo?- isso, certamente era um mistério- Se ele se meter em encrencas, eu vou caçá-lo até o inferno e você não vai sair ileso.- o rosto se aproximou para um sussurro perigoso- Será um brinde.- e recuou, ainda o segurando.

Kurt sentiu... Malicia na ultima palavra?

Franziu a testa antes de escutar uma voz, quase um rosnado, agradável. Olhou para Victor, quase num alivio.

–É melhor você fazer o que Kurt mandou, Summers. Antes que eu o estripe até a morte.- as garras reluziram pelos feixes luminosos do sol, ansiosas .- Será um prazer.

O ex-líder o soltou. Afastou-se lentamente, andando para trás. Os dedos roçando nos óculos, preparados para qualquer movimento violento de Dentes-de-Sabre. Uma surpresa ao vê-lo daquela forma, menos primitivo ou animal, o termo correto não sabia. O assassino mutante estava com uma fisionomia mais humana e um tanto charmosa.

Nada parecido com o Dentes-de-Sabre de antes.

O desejo de matá-lo contido por um demônio de aparência tão frágil.



Atravessaram os portões.

A cada passo dado, Victor sentia uma mistura de algo parecido com liberdade e tristeza vindo do antigo x-man. Bem, não podia ignorar a sensação de conquista pelo desvinculo de Kurt com os X-Men, mas não espera ser tão melancólico. Claro, não para ele. No momento, pouco se importava com si próprio.

Colocou as poucas malas na parte detrás do carro. Olhou para Kurt. O pequeno estava encarando o instituto, um último adeus para o que sempre fora um lar, até mesmo nas piores situações.

Victor o puxou para perto, no instinto de proteção.

–Você esta bem?- sussurrou preocupado. Desde o conflito com Scott Summers, não ouviu uma palavra alemã.

Os ombros relaxaram.

–Ja. Estou bem.- Kurt o olhou e deu um meio sorriso sem graça. Notável que não estava bem.

E tudo desabou.