Sobre Dores, Sexo E Álcool.
6 Capítulo V
Capitulo V
Água quente.
A pele de Kurt queimava a medida que a água escorria pelo corpo, os cortes feitos durante o último sexo com Creed, fazia-o ter a impressão que estão se abrindo em meio as chamas.
Depois de se convencer mentalmente que precisava se alimentar e antes de tudo, de tomar um banho, ele criou um duelo em sua mental. Não sabia se tinha a permissão de utilizar o chuveiro de Creed ou outra instalação que não fosse a cama e os lençóis. Iria perguntar a ele, mas encontrava-se sozinho no apartamento.
Decidiu, por fim, que não haveria mal algum tomar um banho depois do que aconteceu. O único problema é que não encontrou suas roupas pelo cômodo e teve que se vestir com uma das enormes camisas sociais que estava pendurada atrás da porta do banheiro e andar pelo apartamento, confirmando se estava sozinho.
E quase se esqueceu do gosto caro e refinado de Dentes-de-Sabre. Elegância e simplicidade espalhadas por todos os cantos do apartamento – provavelmente um dos muitos – juntamente com uma mistura de culturas na decoração.
Então ele ligou o chuveiro e entrou debaixo da água quente.
Ele estava se acostumando a dor, como se seu corpo estivesse amortecido com a homogênea corrente quente de água acima da cabeça. Kurt devia refletir sobre o que estava acontecendo e o que aconteceu nos últimos dias, mas toda vez que pensava em algo, sua mente o forçava a voltar para dois pontos principais.
Primeiro, para Victor Creed, mais conhecido como Dentes-de-Sabre, assassino profissional e temido no ramo, não hesita em matar e por algum motivo, não o matou ainda.
Segundo, para aquela sensação crescente de submissão e – incrivelmente – da falta de danos emocionais. Algo novo o envolvia dessa vez, totalmente desconhecido e agradável.
Coisa o qual não sabia exatamente como explicar.
A cauda batia, em movimentos lentos e várias vezes na água sob seus pés e espirrava gotículas nos vidros que serviam como paredes ao seu redor. Era espaçoso demais para ele e perfeito para o tamanho de Victor. Através do vidro, enxergava o próprio reflexo no outro lado do banheiro e podia distinguir nitidamente arranhões e mordidas pelo corpo
todo. Manchas arroxeadas no pescoço, marcas de dentes nos ombros e rastros finos vermelhos nas costas e nas coxas, tanto a parte interno quanto externo.
Com o corpo limpo e sem vestígios de qualquer liquido seco sobre sua pele, desligou o chuveiro. Ele se secou com a toalha que estava ao alcance antes de sair do box.
Passavam das quatro da tarde, quando Victor chegou à porta. Ouviu o som da água corrente vindo do banheiro e imaginou que Kurt estava tomando banho. Molhado, desprevenido, totalmente nu e tocando o próprio corpo. Um pensamento percorreu longamente pela cabeça e um sorriso perverso brotou na face. Se fosse rápido o bastante, poderia pegá-lo todo vulnerável e aproveitar o momento. Mas quando entrou em casa e colocou algumas compras na mesa, o som parou.
Ele teria outras oportunidades, pois tudo indica que Kurt não iria a lugar algum por um longo tempo. Afinal, Noturno estava seguro em sua residência e acima de tudo, não sustentava a idéia de voltar ao Instituto Xavier e servir como cobaia para sonhos irrealizáveis.
Não havia ninguém, nem professor, nem Wolverine, nem Vampira ou Mística que ligue a mínima para os dois.
Colocou algumas cervejas na geladeira e ao fechá-la, percebeu que tinha alguém tímido demais para sair do quarto e estava parado à porta. Olhou na direção e o viu segurando a camisa com ambas as mãos numa tentativa de cobrir mais o corpo, com um dos ombros de fora e a cauda balançando logo atrás.
Kurt estava muito sexy usando apenas sua camisa.
Fez sinal com a cabeça para que Noturno se aproximasse. E fixou os olhos na caminhada lenta, reparando na expressão constrangida no rosto virado para o lado e os braços que insistiam em estar na frente do corpo, puxando a camisa para baixo, mesmo que o comprimento natural cobrisse as partes intimas.
Victor se aproximou e o investiu contra a mesa, enterrando o nariz no pescoço de Kurt. Todos os sentidos direcionaram-se para uma única coisa. Apesar de estar limpo com a pele cheirando docemente a sabonete, havia rastros do próprio cheiro por toda extensão com corpo e o feromônio característico do Noturno.
A saciedade temporária da ânsia assassina.
Sentiu o corpo embaixo do dele, tremer quando seus lábios roçaram em uma região sensível do pescoço. As mãos desceram por baixo da camisa e fixaram em sua cintura enquanto passeava com o nariz, capturando cada fragrância incrustada naquela pele macia. Deixou escapar um ronronado perversamente sensual ao sentir que Kurt começava a ficar excitado.
–Você precisa comer alguma coisa. – sussurrou enquanto o empurrava ainda mais para a mesa, quase o deitando nela.
Sorriu antes de se afastar e dar meia volta. Deixando um Kurt confuso para trás, ele caminhou para o quarto a fim de trocar a roupa de cama e evitar futuros encontros desagradável com líquidos viscosos que não secaram por qualquer motivo desconhecido. Além do mais, o cheiro de sêmen seco incomodava as narinas sensíveis fora irritá-lo ao mesclar
com o cheiro do Noturno, deixando-o em segundo plano.
Totalmente desagradável.
Olhou para a cama e só de lembrar-se da expressão de prazer no rosto de Kurt e do sexo que ocorreu há pouco tempo, fez o membro latejar por dentro das calças. Sexo não ocupava totalmente a mente de Creed.
Havia uma relação – se for para chamar esse tipo de “vinculo” para Dentes-de-Sabre, não havia palavra melhor — e era definida como confusa e incoerente. A princípio não havia rastros de carinho ou paixão, apenas uma vontade vazia, uma conexão fragilizada pela intimidação que ele causava em Kurt.
Afinal, poderia acabar com aquela relação a qualquer momento. Era fácil matar alguém, principalmente alguém como ele, tão simples, tão divertido... Tão saboroso ao ponto de proporcionar um prazer intenso. Ele nunca fora o típico homem que desejava a companhia por muito tempo. Ele é um assassino frio capaz de matar metade da cidade só por diversão.
Mas havia algo que o ligava ao Kurt, tanto emocionalmente como fisicamente por alguma razão tentadora que o deixava completamente fascinado. Principalmente por preocupar-se com uma criatura de aparência tão... Frágil e com feições que transmitem bondade, tolerância e um “quê” de infantilidade.
Para um animal sanguinário, no qual desfrutava do sofrimento alheiro e causava dores com os rasgos provindos das garras, Creed não sentiu a necessidade de tentar controlar os impulsos animalescos nas ultimas horas. Surpreendera-se com a existência de outro animal completamente diferente escondido nas entranhas obscuras de seu ser.
Era um que gostava de ouvir as batidas do coração de Kurt levemente adormecido. De estar ali, deitado na cama, observando-o.
Talvez Victor Creed não estivesse em perfeito juízo. Talvez a loucura estivesse sendo curada indiretamente sem intenção... O vicio em matar estava sendo destruído lentamente no mais perfeito alivio que só um teleportador poderia oferecer.
A Colibri endireitava a cabeça, causando uma dor insuportável e trazendo lembranças do passado, a dose certa para amenizar a fome assassina. Só que ela morreu por suas garras. Então Dentes-de-Sabre se descontrolou. Matar deixou de ser uma diversão sádica e passou a ser necessidade.
Para acabar com tantas mortes, Wolverine apareceu. A única chance de fazer a matança parar.
Quando Logan cravou as garras em seu cérebro, causaram sérios problemas mentais, Victor foi acolhido pelo Instituto Xavier as ordens do próprio professor, que tinha como principal meta, curar o assassino em série. Charles estava determinado a deter aquela fúria, ajudá-lo a resistir à depravada necessidade de matar, mas ao mesmo tempo estava disposto a vê-lo pagar pelos crimes.
Creed era uma força da natureza com uma fúria indomável. E Charles só ajudou a aumentar o ódio interno por aqueles que tiveram o que Dentes-de-Sabre nunca teve.
Quando voltou ao estado normal, voltou a se tornar agressivo sem apresentar melhoras. Doses do que Creed chama de “brilho” foram injetadas no cérebro pelos telepatas, causando os mesmos efeitos do que a Colibri fazia. Até Creed ficar farto disso. Tornou-se imune as doses e escapou do Instituto, sendo impossível de ser localizado, pois Xavier não conseguia encontrar qualquer rastro mental existente nele.
E voltou para sua matança.
Agora, Victor Creed deixava de ser um escravo de desejos causadores de morte, porque Kurt Wagner proporcionava mais do que saciedade temporária da ânsia homicida, era um êxtase intenso que prometia o mais perfeito prazer cego capaz de adormecer a mente quando a psique selvagem é apaziguada por um efeito incoerente.
É mais potente que o “brilho”.
Era estranho conviver com Creed.
Sem duvidas, não houve conversas ou mais de uma frase trocada, só línguas se enroscando e gemidos abafados. A verdade era que o canadense não falava muito, só de rosnar quando queria alguma coisa em especial vinda dele. Assédios sexuais a parte, Dentes-de-Sabre não era um gatinho com unhas aparadas, mas era um garanhão selvagem que agia por motivos que ninguém deveria agir.
Por um momento, se perguntou caso existisse outra face de Victor Creed. Uma escondida tão bem que quase ninguém a enfrentou ou sobreviveu para contar. A princípio, ele representa um mutante rude e sanguinário que não dá valor a vida dos outros e se diverte matando inocentes.
Kurt não podia se considerar inocente depois do que passou entre os lençóis, mas se tornar alvo da atenção daquele mutante em particular era algo novo.
Totalmente desconhecido devido a aparência.
Depois de estar saciado, com vários alimentos desnecessários que foram comprados só para ele, os olhos percorreram o amplo espaço e se prenderam em um detalhe curioso.
Ele notou que havia pinturas pendurados na parede do canto da sala da estar. Um ao lado do outro, rostos desconhecidos de homens e mulheres de várias idades e épocas distantes, eles tinham nada em comum a não ser a marca das garras, rasgos que desciam até a moldura, até o pescoço de cada um.
Victor Creed é conhecido como Dentes-de-Sabre em círculos que a maioria procura evitar.
Imaginou por um momento o que aquilo significava. Caso foram vítimas da fúria assassina ou se estavam marcadas para morrer. Kurt tocou um dos retratos com a ponta dos dedos e se assustou quando sentiu uma respiração bater na nuca.
–Enquanto houver ganância, inveja, medo e ódio no mundo...- as garras de Victor cravaram em seu punho que afastou lentamente os dedos do retrato — Vai sobrar trabalho pra assassino contratado.
Um arrepio subiu por sua espinha quando o mais velho se afastou e caminhou até o outro lado da sala, deitando no sofá e ligando a televisão no canal CNN.
Ele se lembrou do perigo que Victor representava.
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