Sob o olhar das feras

5 Capítulo 5 - O Vitral Ardente


Enquanto a noite não chegava com um olhar feroz dos demais lobisomens, alguns se reuniam na casa de Matheus. Precisavam tocar cuidado, pois aquela quantidade de pessoas começaria a chamar atenção dos demais aldeões, principalmente daqueles que nem pensariam duas vezes em os denunciar para o Padre Afonso. Jorge estava em um canto com um copo com um líquido alaranjado, preferiu whisky a chá, a notícia da morte de seu filho doeu mais que uma facada.

Soraia e Daniel estavam em casa, o turno do homem terminara e voltaria apenas à noite. Com a surpresa de Benedito morto no chão com um tiro na cabeça e marcas de mordida pelo corpo, muitos vangloriaram o carcereiro pelo seu trabalho de prender um suspeito e executá-lo com louvor. O Padre, entretanto, achou inesperada aquela descoberta sem provas, brigou várias vezes naquele dia, perguntando porque não comunicara aquilo ao Xerife.

Matias, Emanuele e Matheus tomavam chá para aquecer o corpo, ficariam para fora aquela noite em busca de novos lobisomens. Além da água benta, tinham mais um tiro do César. Daniel começou a planejar que prenderia Malaquias aquela noite para ver se haveria transformação. Se sim, entregaria o novo lobisomem ao Padre que, por meio do voto popular, veriam o que fariam com o amaldiçoado. Se não, ele ficaria a salvo sem ser transformado.

—Ele pode executar mais uma vez.

—Infelizmente não será possível. O Xerife não dará mais armas ou munição a ninguém com a crise, ainda mais que perdemos um pistoleiro essa manhã.

—Uma coisa me intriga dessa transformação repentina do Benê. – Emanuele caminhava em frente de uma estante com livros avermelhados, todos encapados com aquele tecido aveludado para dar essa cor. – Ele foi transformado, mas não era noite. Claro, aquela nuvem tampou o céu inteiro, mas ainda o sol queimava acima dela.

—Isso mostra que eles têm escolha de se transformarem ou de ficaram como humanos durante o dia, não sabia disso.

—Agora, durante à noite, é certeza que eles se transformarão? – A garota indagou buscando algum livro que lera quando mais nova sobre o assunto. – Matheus, você guardou algum daqueles livros?

—Consegui fazer umas cópias dos documentos do Padre, muitos falavam do ciclo dos Anos de Gelo, além da maldição dos Lobisomens. – Enquanto Jorge olhava para a janela e para a neve caindo do lado de fora, os três pegaram livros e mais livros e começaram a vasculhar o passado daquele acontecimento.

—E cadê a Olga?

—Está conferindo como estão as receitas dela. Se tudo ocorrer bem, teremos um elixir e um veneno essa noite. – Matias verificava um livro de capa marrom. As folhas amareladas eram folheadas com calma, pois pareciam que cairiam em poeira assim que tocadas. – Acho belo o trabalho de uma bruxa.

—E por que vocês chamam a Olga de bruxa? O que ela faz não é como um trabalho de farmacêutico? – Todos pararam o que faziam e olharam intrigados à garota. Em tese, ela não estava errada. O processo de recolher ervas e as usar como remédios ou venenos poderia ser facilmente feito por Jorge, o médico secreto daquela vila, uma vez que ninguém sabia quem tratava os mais doentes a pedido do Padre. – Eu sei que foi designado pela Igreja: as mulheres que mexiam com isso são bruxas, mas a gente perpetuar esse pensamento não é demais?

—Agora ela vai causar com o fato de eu ser bruxa? – Olga apareceu na porta, por onde entrou uma brisa gélida. – Mas obrigado pela compreensão e o bom senso de me ver como uma mulher que é farmacêutica como o bêbado aqui. – Ela chegou com uma bolsa pesada e a depositou em cima da mesinha de centro. – Aqui estão dois antídotos e dois venenos.

—Rendeu apenas isso?

—Eu acho que ainda foi muito.

—Pela quantidade de ervas, tônicos e tempo que levou, jurei que renderia muito mais.

—Para um vidente, você não entende nada da natureza. Por hora, é isso e torçamos que dê certo de acertarmos ao menos o patriarca, vamos cortar o mal pela raiz. – O sino da Igreja soou ao longe, apontava quase seis da tarde. – Manu, você não precisa ir?

—Nossa, verdade, minha mãe deve estar surtando em casa que eu não estou lá. — Ela se despediu de todos. – Cuidem de Jorge porque ele não está bem. – Ainda sentado na cadeira, a garrafa de whisky foi toda liquidada, nem uma gota sequer sobrara no recipiente.

Correndo para chegar a sua cara, evitou passar pela praça central, uma vez que o Padre deveria estar dando outro discurso daqueles para os beatos, além do Xerife estar com toda a pompa de que seu carcereiro executou um lobisomem naquela manhã. Como era incrível que para lutarem com o sobrenatural, o sobrenatural deveria ser usado, videntes. Os meios medicinais também, antídotos e venenos, além de diários antigos e sensibilidade do ser humano precisavam se unir para acabar com essa sina.

Sua casa estava escura, nem uma pessoa viva estava lá. Acendeu a lareira rapidamente, colocava alguns legumes no caldeirão, além de água para o cozimento. Sua mãe deixou em cima da mesa um pedaço de carne de pato, provavelmente Afonso dera a sua mãe em troca de toda a devoção nesses tempos de inverno. Como estragaria muito cedo, colocou na sopa também. Claro, não deveria fazer isso, não sabia mesmo se era presente de sua mãe. Acendendo algumas velas e lampiões, a casa foi tomada de calor e vida.

Enquanto foi ao quintal pegar uma vassoura para fazer uma limpeza, encarou o fundo da floresta. Teve a impressão de algo se movendo, parecia um lobo, os olhos vermelhos como sangue. Nisso, percebeu que uma forte dor veio intensamente dentro de seu interior.

—Só me faltava isso vir agora. – Seu período de sangramento estava perto, esperava que aquilo não atrasasse tudo. Foi para dentro e enquanto tirava o pó e varria o chão, notou olhares sobre seu corpo, um arrepio subiu até seu último fio de cabelo mais alto. Olhou ao redor, ninguém espreitava as janelas. A porta abriu de supetão e seu irmão e mãe entraram nervosos, com olhar em fúria.

—Onde você estava? – Voaram furiosos para cima da garota.

—Enquanto a mãe estava na Igreja, andei pela cidade para ajudar o pessoal.

—Você deveria está comigo, na Igreja. Seu irmão e seu pai caçavam os demônios e você vagabundeando por aí.

—Para a informação de vocês, enquanto uns caçam os demônios e outros rezam, a vila inteira está amedrontada, plantações são destruídas, animais são mortos e pessoas idosas ainda vivem em nosso meio. Se os beatos estão rezando e os corajosos estão caçando, quem restou para ajudar a pôr em ordem nosso lar?

—Emanuele, não responda a sua mãe! – O grito veio do lado de fora, era seu pai que retornava. Quando encarou o homem, um bofetão atingiu sua cara. – Não foi essa a educação que eu dei a você.

—Eu não respondi, falei a verdade. Não há um que não esteja com medo de tudo, vocês sabem disso, suas orações podem estar afastando essas criaturas ou suas armas os amedrontando, mas alguém precisa ajudar quem fica para trás. Quantos idosos que não consegue sair de suas camas? Quantas mulheres com filhos pequenos e dores após o nascimento não conseguem ir à missa? Vocês não sabem, eu sei, pois saio todos os dias para ajudar essas pessoas!

Dessa vez, sua cara avermelhou ainda mais, a mão de sua mãe estava no ar. O clima na casa se fechou, não havia paz, não havia calma, como nunca houve. Claro, isso antes de Emanuele tomar consciência de que, se ficasse trancafiada naquele cubículo, não seria ninguém, preferia sair para ajudar os outros para melhorar o seu eu interior.

—Isso mesmo, tratem a filha de vocês com essa fúria, vocês sabem mesmo como resolver os problemas!

—O que está acontecendo com você? Está insolente! Parece aquela bruxa da Olga! – Aquilo surpreendeu a garota. – É aquele bibliotecário inútil, fica colocando asneira em sua cabeça, fazendo-a agir contra seus pais!

—Você nem o conhece e fica achando que só porque reza o dia toda está salvo das perdições! Não se esqueça, a ira é um pecado, você está nervosa, atirando para cima de todos que não seguem o que você acha que é certo! Do que adianta rezar para pelo mundo se você não põe a mão no mundo para o ajudar?

Novamente, Maria Gertrudes ergue as mãos, mas dessa vez foi um soco que atingiu a cara da filha. Ela não se movia, não baixava o rosto, não chorava, apesar da dor implorar para as lágrimas escorrerem. Tadeu via tudo com um olhar sério, assentimental, como poderia ver a irmã passar com aquilo e ficar quieto?

Anoitecia, o sino da Igreja gritava sete da noite, os homens saíam em busca da chacina dos lobisomens e as mulheres ficavam para trás. Os beatos e beatas mais velhos caminharam à Igreja, haveria missa naquela noite. Maria Gertrudes obrigou a filha a ir, sua insolência a colocou em estado de alerta para onde e com quem a filha caminhava.

Emanuele gostava das missas, gostava de toda a cerimônia. Pelo menos, conseguia entender a maior parte. A única parte que a causava repulsa era o momento da homilia. Não sabia o motivo, mas a voz raivosa do Padre a causava mal-estar, a tentativa de trazer paz aos aldeões mais parecia uma ameaça do que um tratado de paz.

Dentro de tudo o que ele falou, o mais preocupante foi a caçada aos infiéis que compactuavam com todo aquele castigo, tendo pagãos em seu meio: bruxas, videntes, qualquer um que tinha relação com o sobrenatural. Precisava avisar seus amigos, aquilo colocaria em cheque a missão. Nos ritos finais, logo após tudo, o Padre anunciou que o novo sacerdote fora escolhido e sua posse ocorreria nas próximas semanas.

Na cabeça de Emanuele, torcia para alguém mais progressista que Afonso, pois o olhar ditador do homem fazia mal a muitos que discordavam de sua autoridade. Era amigo próximo do prefeito, então muitas leis, quase todas basicamente, passavam por sua vistoria, o que dificultava muitas da evolução da Igreja. Repentinamente, as velas se apagaram com um vento brutal que adentrou pela porta de entrada. O vitral superior explodiu no ar, um caos de gritos e desespero pegou os beatos de surpresa.

Para piorar a situação, o Padre começou a tossir sem parar, desmaiando no chão e com espuma esbranquiçada saindo de sua boca. Uivos caíram como uma bomba nos ouvidos do povo e muitos começaram a correr desesperados. Ao chegarem do lado de fora, um incêndio começou ao redor da Igreja. O incendiário, era ele que estava por trás daquilo. Desapercebida da mãe, Emanuele correu para fora, precisava encontrar o pessoal. Trombou em Olga, que fora busca-la.

—O que aconteceu?

—O incendiário, deve ser ele. – Em cima da Igreja, um assobio. As duas olharam para cima e se depararam com aquela criatura de olhos vermelho, dentes afiados. O lobisomem uivou para a noite sem estrelas, um raio cortou atrás dele.

—Socorro! – Gritaram de dentro da Igreja! – Chamem o Xerife, o Padre está morto!