Sob o olhar das feras
6 Capítulo 6 - O Cemitério do Inférteis
Aquilo era um reino de desespero, o pandemônio causado pela aparição do Patriarca, do incêndio e pela morte do Padre só piorava, não havia o que acalmasse aquelas pessoas, o Xerife saiu para dentro da floresta e nenhuma alma corajosa iria atrás para buscar ajuda, além de que o Prefeito foi junto deles, deixando apenas Afonso no comando da cidade.
A presença daquele lobisomem enorme em cima do prédio santo dava um ar de dominância sobre a população.
—Emanuele! – Era Gertrudes gritando de dentro da Igreja, mas a menina nem notou a voz da mãe, pois se atendia à conversa com Olga.
—O que faremos? Água benta? Veneno? O tiro de César?
—Não sei, mas o veneno precisa ser ingerido, teríamos que fazer isso enquanto a pessoa dorme ou está desacordada, pode ser quando humana. A água benta é mais certeira agora, deixemos o tiro para depois, a confiança do Xerife em César não é muita para conseguirmos novas munições.
A criatura saltou de onde estava e caiu sobre em frente das duas. O olhar gélido e avermelhado da besta as arrepiou, porém, elas se mantiveram firmes. Muitos viram a cena e correram de medo, não pensaram em ajudá-las, principalmente com Olga ali, a famigerada bruxa que todos desgostavam. Em um ato de coragem, Olga pôs a mão sobre o frasco em sua bolsa e o tirou, seria um sacrifício, mas faria aquele monstro tomar o veneno.
Entretanto, outros uivos vieram de muitos lugares, não sabia de onde vinham, nem o patriarca sabia dizer porque ficou perdido igual. Emanuele tomou a água benta de seu bolso e, ao abrir o vidro, um correr de passos vinha de sua lateral, que empurrou o lobo para longe. Outro lobisomem se prostrou em sua frente. Não pensou nem duas vezes, atirou o líquido transparente sobre o monstro, cujo uivo veio com uma dor imensa, seus pelos começaram a se dissolver, sua pele corroeu.
Olga afastou seu corpo e puxou o da garota junto, ambas saíram da linha de ataque do monstro. O outro via a cena com certa neutralidade no olhar, mas as mulheres imaginavam que a situação o causava certa tristeza. Mais e mais uivos vinham de longe, somente cessaram quando o patriarca soltou um mais alto e desapareceu por uma ruela e seguiu para a floresta.
—Acho que matamos mais um. – A fera ainda se contorcia de dor no chão. – Na verdade, eu acho que não...
—Apenas a enfraquecemos, a morte vem por um tiro ou pela luz solar, isso se não for um guerreiro.
Quando se aproximaram para verificar o monstro, ainda tinha a persona de lobo. O corpo retornou ao normal assim que um estouro veio e uma bala foi cravejada em sua testa. O barulho dos homens que vinham com suas botas de couro pesado, suas armas tilintando em meio ao suor e ao cansaço. Enquanto as duas focaram no monstro, alguns aldeões pegaram baldes e mais baldes de água e foram amenizando o incêndio, que não causou tantos estragos, apenas o vitral que seria irreparável pela sua idade.
—O que aconteceu aqui? – O grito veio de Sampaio, ele guardava sua arma no lugar enquanto alguns outros homens auxiliavam na Igreja. Alguns olhavam intrigados as duas mulheres, Emanuele jogou o vidro com a forma de Espírito Santo para longe, ninguém poderia saber que aquilo continha água benta nem como ela conseguira.
—Emanuele! – O grito rouco de Maria Gertrudes ecoou por todos os cantos, inclusive aqueles que não tinham reparado nos últimos acontecimentos moveram o pescoço para verem a cena. – O que você faz com essa bruxa? – A mãe não conseguia exalar palavras que demonstrassem sua irritação. Emanuele via lágrimas nos olhos da mãe, mas sabiam que aquilo não eram de tristeza, eram de ódio.
—Ajudamos a atrasar aquele demônio e você quer bancar a tirana agora?
—Você sabe que não deve andar com essas companhias.
—Acho que eu sei me cuidar um pouco, não é? Ou você acha que a casa está sempre limpa por causa de quem? Quem faz as refeições e vai atrás de lenha? Quem vem pagar o seu dízimo que você finge que separa para pagar? Quem vem ajudar nos trabalhos com os mais pobres? – Tudo o que vinha preso na garota ela foi despejando. – E para a sua informação, eu fui atrás, junto de Olga, do Padre, pois imaginamos que se essas criaturas são demônios, a água benta seria letal a eles. E olha, adivinha quem tacou água benta e a criatura só não se reduziu à morte pela pouca quantidade?
—Você é uma insolente! – A mulher voou com a mão para o cabelo da menina e a puxou pelos fios. Olga, ao ver aquilo, não segurou os sentimentos e correu até a frente da mãe.
—Chamar a filha de insolente e puxar os cabelos da menina não vai resolver nada! Você, Maria, leva o nome da mãe do salvador, deveria começar a fazer jus ao que lhe foi dado. Sua filha ajudou a matar aquele monstro e você a trata dessa maneira?
—Não mexa mais com minha família! – Apontou o dedo torto para Olga e continuou puxando a filha pelos cabelos em direção à sua casa.
—Não preciso fazer nada, você mesma vai destruir a sua família.
—Xerife! – O grito veio da delegacia, Daniel estava segurando a porta com toda a força que seu corpo corpulento conseguia segurar. – Um lobisomem!
Aquilo assustou parte da população, que fugiram para suas casas, assim como Gertrudes, a qual esqueceu de sua filha. Olga correu para ajudar a menina, que chorava no chão, passando as mãos em sua cabeça. Ao conferir melhor, viu que os ferimentos não eram muito, mas eram densos, como se aquela vez não fosse a primeira, e não era, na verdade.
—Manu, depois você vá em casa que eu vou passar uma pasta que eu fiz, vai ajudar a cicatrizar esses machucados e diminuir a dor.
—Tudo... bem... Só não conte ao pessoal...
—Pode deixar, o máximo que vou fazer é colocar pregos na cama da sua mãe. Do jeito que ela é, deve dormir do lado direito da cama. – Emanuele riu. Nisso, a diversão acabou quando outra explosão veio da delegacia. A porta caiu e o lobo surgiu da escuridão, partindo para cima do Xerife. Com a arma guardada, ele não conseguiu reagir. Um estouro veio de longe e o monstro despencou no chão.
Felizmente, César tinha mais uma munição e uma pontaria espetacular.
—Daniel, como ele entrou na delegacia?
—Não sei. – Era mentira. O plano era prender Malaquias na prisão e esperar a transformação. – Jorge veio falar comigo, ele desconfiava do filho, já que o outro também era. Enquanto eu descansava, ele apareceu, gritando, e começou a se transformar. Jorge disse que estaria aqui, mas preferiu ir atrás do filho na floresta. "Era trabalho de um pai encerrar isso", disse antes de ir com vocês.
—E quem é o outro que a garota do Sebastião acertou? – Ele se aproximou da menina. – Vou ter que tirar o chapéu a vocês duas, jamais achei que o Padre fosse se mancomunar com duas mulheres que ele preferia ignorar do que odiar.
—Se isso foi um elogio, falhou bastante. – Olga se aproximou do corpo, era Batista, o vizinho da rua de baixo. – Que horror! Ele era um deles! – Todos se espantaram, Batista era um dos protegidos de Afonso, o que colocou ainda mais pontos de interrogação nas pessoas: como um padre tinha a coragem de proteger uma criatura como aquela? – Certeza que ele não sabia, Afonso é rígido em suas decisões. Ele não deixaria passar pela porta da Igreja aquele que não crê em suas crenças.
Muitos vieram recolher os dois corpos. Como os viam como demônios, não teriam um enterro justo, apenas sepultariam os corpos ao lado dos demais no campo abaixo da cidade, um lugarzinho chamado Cemitério dos Inférteis, aqueles que jamais produziriam frutos para o bem-estar da comunidade religiosa.
Enquanto todos caminhavam para suas casas, Olga e Emanuele foram à casa da farmacêutica. Lá, a lareira estava acesa, com uma sopa no fogo para aquecer. Enquanto a menina pegava a pasta verde e passava no couro cabeludo com muito cuidado, a mulher arrumava a mesa.
—Melhorou?
—Nossa, muito. – O olhar de Emanuele ainda continha algumas lágrimas, mas conseguiria sobreviver com aquele ódio da mãe. – E obrigada, Olga, não faz ideia de como você tem me ajudado.
—Que isso, querida, estou aqui para ajudar quem precisa. – Ela colocou sopa às duas e começaram a jantar. – Ainda faltam oito.
—Conseguimos matar quatro, já é um progresso.
—Não sei se foi muito, porque ainda não achamos o filhote nem o possuído. Se um dos dois atacar, estaremos perdidos, porque os mortos serão muitos.
—Acho que não precisamos nos preocupar com isso. Certeza que conseguiremos achá-los com o tempo.
—Agora vamos comer, você deve estar com fome, não comeu nada o dia todo.
—Será que minha mãe está bem? Não deixei nada pronto para ela. – A menina parou e refletiu encarando a colher de prata cheia com aquele caldo grosso de mandioca. – Engraçado, ela me trata mal e eu penso se ela está bem...
—Você é bondosa, carinhosa, tem empatia com todos. Eu vejo que, mesmo sabendo que aqueles lobisomens são cruéis, você sente pena, passa por sua cabeça se haveria meios para salvá-los. Você é uma pessoa especial, Manu, tem um coração muito grande... Você mudará o mundo.
Repentinamente, na escuridão que a janela da casa de Olga apontava, vários pontos vermelhos começavam a surgir, vozes se erguiam sobre a casa. A porta começou a tremer, alguém a espancava com muita força.
—Misericórdia, outro arrastão! Esse povo não tem uns lobisomens para caçar, não?! – A porta cairá se continuassem naquele ritmo.
—Olga, precisamos sair, eles estão aqui por sua causa. Isso tem cheiro da minha mãe.
—Eu sei, mas não tem saída. Eles estão no fundo também.
—Quando precisamos dos lobisomens, nada de aparecerem. O assassino sumiu também. – Nisso, a porta caiu e muitos adentraram, todos em direção de Olga. A mulher não se amedrontou, nem se curvou, manteve-se ereta, com peito inflado e queixo erguido, não se diminuiria diante deles.
—Filha, o que faz aqui? – Maria tomava à frente da multidão, muitos com tochas. – O que faz na casa dessa bruxa?!
—Valha-me, Deus, que mulher insuportável. – Resmungou Olga, ninguém ouviu.
—Mãe, já falei que ela não é bruxa! Deixe de ser teimosa! – Ninguém deu importância à menina, somente avançaram como feras para cima da mulher. Emanuele tentou impedir, foi empurrada, batendo a cabeça na quina da mesa e desmaiando.
Quando acordou, estava em seu quarto. A cabeça latejava, seu cabelo foi lavado, a pasta foi retirada e os ferimentos ficaram amostra, apesar de estarem menos doloridos. Caminhou para a porta, porém estava trancada. "Que inédito", pensou, "minha mãe aproveitou que eu desmaiei e me trancafiou aqui, que inédito, que original!". Correu para a janela, sabia onde tinha uma corda escondida e a usaria para escapar.
Felizmente, sua mãe esquecera dela, ou nem sabia de sua existência. Como fizera aquilo inúmeras vezes, estava calejada. Pousou como uma pena que cai no chão. Apesar da cabeça dolorida, que latejava a cada passo mais firme, correu para a praça, sabia o que a mãe tinha planejado, imaginava a crueldade que seria realizada. Chegou tarde demais.
—Que Deus tenha pena de sua vida amarga. – Disse uma pessoa vestida de padre. E a uma alavanca foi puxada e a corda da forca se esticou.
Um corpo pendurado gesticulava sem parar, as mãos presas às suas costas, não ouvia grito algum, apenas gemidos. A população comemorava a ida dela, muitos gritavam de euforia coma morte da bruxa. Olga os deixava, seu corpo padeceu após alguns minutos, enforcado em meio à ira de Maria Gertrudes.
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