Sob o olhar das feras
4 Capítulo 4 - Esconderijo atrás das grades
O sino soou ao longe, era o que suspeitavam. O tiro revelou um dos pistoleiros, um lobisomem foi morto pela própria família, mas Cristina já não via mais Pedro como seu filho, nem chorou com a sua morte, apenas se consolou que ele era um demônio que se infiltrara em sua família. César viu aquela atitude e sentiu mais remorso por ter matado o próprio irmão, um garoto que seria um possível padre, revelou à Olga antes de partirem na noite anterior.
—Irmãos, filhos de nosso Senhor Deus, as lágrimas não podem cair para tal castigo sobre um filho querido, ele já não era mais nosso, era dele, do Demônio, que se prostrou nessa terra. – Emanuele ouvia aquilo com nojo, conhecia Pedro, era um amor de pessoa e todos gostavam do homem que se tornou. Entretanto, o passo em falso do pai biológico dele o fez ser criticado da noite para o dia. Como mágica, seu carisma memorável se perdeu para um ódio opressor. – Essas criaturas tomaram poder inimaginável. Perdemos ao menos três companheiros nessa noite. – Aquilo assustou Manu, Matheus também apresentou espanto. – Xerife.
—Meus caros, descobrimos dois amigos nossos mortos, um queimado, outro esfaqueado. Sinto muito, mas temo que os lobisomens se infiltraram em nossos homens de maneira cruel e abrangente, fiquem de olho, fiquem em alerta. – Como no dia anterior, muitos foram à Igreja para fazer a oração. Maria Gertrudes apareceu.
—Filha, o que aconteceu?
—Mamãe, tentei te acordar, mas você não despertou, vim eu seu nome. Agora é hora da oração, vá em frente que eu já irei, preciso resolver alguns problemas em casa para quando papai e meu irmão voltarem. – Ainda sonolenta, fez o que a filha mandou e nem notou que ela seguiu na direção oposta, para a casa do bibliotecário, onde estavam Matias, Olga, César e Soraia, o marido estava na delegacia, prenderam Cristina para proteção.
—Era o que me faltava, um incendiário e um assassino também. Não bastava apenas os lobisomens?
—São dois que querem agir pela própria justiça, matam achando que estão resolvendo o problema.
—Sim, mas perdemos possíveis aliados. Pelo menos, Soraia disse que conseguiu reforços.
—Acho que devem chegar em pouco tempo. – A porta tremeu e três figuras estavam atrás dela. – Podem entrar. – Jorge e mais homens estavam com ele, não eram os filhos, Soraia foi rígida em pedir que os dois garotos fossem deixados de lado. – Que bom que chegaram. Pessoal, já conhecem Jorge. Esses são meus vizinhos, Sérgia e Bento.
—Sô, qual a necessidade dessa reunião? – Ficaram surpresos com tanta gente ali. Matheus pediu a vez e contou tudo o que sabiam, confiava no senso de Soraia, ela escolheu as pessoas certas. Tudo ali foi falado com lentidão e paciência, perguntas e mais perguntas eram feitas e, com paciência, as respostas foram dadas. – Deus amado, que caos. Por isso que você nos questionou tanto ontem. – Soraia confirmou.
—Sabia que todos eles tinham uma boa aura. Jorge é filho do falecido farmacêutico da região, sabe como curar os feridos. Sérgia tem um dom especial, consegue falar com os mortos, e Bento tem uma saúde que, meu Deus, como eu queria ter essa saúde, foi picado por uma cobra venenosíssima e está vivo até hoje. Certeza que sobreviverá a um ataque dos lobisomens. – Um silêncio reinou, Matheus trouxe xícaras e serviu chá de camomila a todos. – Bom, cobras venenosas conseguem ser menos violentas que lobisomens quando querem, mas vamos usar nossas características para nos ajudarmos.
—Acho que precisam disso para digerir tudo o que foi falado.
—Sim. – César levantou da cadeira e foi até sua bolsa. – Bom, meu irmão estava sendo preparado para ser padre, então ganhou esse presente do Afonso. – O vidro tinha a imagem de ave, o Espírito Santo. – Creio que seja água benta.
—Extremamente tóxica aos lobisomens. – Todos olharam para Matias. – Acho que temos mais uma arma contra. Temos ainda o Daniel, César e um pistoleiro desconhecido, isso sem contar os noviços que ganharam água benta.
—Precisamos convencê-los a vir para nosso lado. Conseguem descobrir quem é quem? Aliás, quem foram os assassinados essa noite?
—Silas foi queimado vivo quando retornava das minas de ouro do topo da colina, Amélia foi queimada quando estava acendendo a lareira de sua casa e o marido, Martim, assassinado enquanto dormia.
—Por que os três? Nenhum deles saíram da Igreja e passavam o dia todo lá, jamais poderiam ser lobisomens.
—Ou essas duas pessoas estão nos ajudando, ou estão causando terror para tirar atenção dos lobisomens.
—Creio ser mais pelo terror. Pelos manuscritos antigos, nunca houve um assassinou ou um incendiário. Bom, vamos precisar ter cautela a partir de hoje, não sabemos se, mesmo com a fuga de ontem, ninguém foi atacado. Eles podem estar no meio do povo.
—Precisamos descobrir quem são os amaldiçoados antes de hoje à noite. Quem sabe prendê-los na delegacia. – Matheus terminou de servir chá para si. – Manu, por favor, ande pela cidade e vai ajudando que você conseguir, dê um jeito de tocar nas pessoas, esses noviços, esse pistoleiro e os amaldiçoados vão aparecer uma hora.
*
Seguindo aquele pedido, enquanto a mãe estava na paróquia ajoelhada e se entregando a um eterno rosário, pois aquele dia o Padre aconselhou os beatos a rezarem dois, a garota ajudava quem aparecia na frente. Contudo, nada conseguia descobrir. Mesmo com o crescimento da pequena cidade, não passavam de mais de mil habitantes. Mesmo assim, era impressionante que alguns conhecessem muitos moradores.
Quando se cansou e achou necessário retornar à sua casa para ajudar lá, deu de cara com um amigo de seu irmão, ambos fizeram catecismo quando tinham seus dez, onze anos. Ele estava estranho, tinha um enorme hematoma no braço, como se fosse uma mordida. Como se não entendesse nada, aproximou-se.
—Batista, tudo bem? Precisa de ajuda?
—Manu, estou bem... Eu acho... Não precisa bancar a boa samaritana comigo... Eu sei o que você quer... – Eles estavam distantes do centro da cidade, ninguém conseguiria ouvir se um dos dois gritassem.
—Deixe de ser bobo, olha esse ferimento, deixe eu te ajudar. – Colocou a mão no ombro dele, sentiu uma queimação subir de sua palma para seu corpo todo, estava com o coração disparado. O arrepio foi notado por ele. – Venha comigo, eu te levarei até o médico, ele saberá o que fazer. – Ele arregalou o olho.
—Sem problemas, vou sim. – Foi estranho. Como não quer nada, começou a levar o garoto para a direção do centro, perto da Igreja, onde ficava próximo onde um dos médicos da cidade amparavam os demais. Calafrios enormes passavam pelo corpo de Batista, parecia que sua pressão caiu drasticamente, ficou pálido, com a vista embaçada, vinha cambaleando logo atrás de Emanuele.
Repentinamente, o dia escureceu repentinamente. O céu fora coberto por nuvens escuras e uma forte nevasca começou a cair, muita neve despencando e atrapalhando a visão deles.
—Batista, cadê você? – Perdera o homem de vista. Um rosnado veio não de muito longe. Ele se transformara. Sem rumo, começou a gritar, anunciando a presença da criatura. Alguém a ouviria, tinha certeza daquilo. Quando chegou à praça central, não via nada, somente a neve cobrindo o chão batido de terra e pedra. Novamente, um rosnado, e um forte uivo. Sentiu ele próximo, apenas se deitou. Algo acertara o cabelo, sentiu alguns fios caindo no chão, o suor escorria pelo rosto e caía nos olhos, tudo ardia, não conseguia enxergar. – Socorro!
—Emanuele! – Era a voz da mãe, correu na direção da filha e a protegeu. – Estou aqui, mamãe está aqui! – Novamente um uivo. Entretanto, um tiro veio de longe. Seria César? Todavia, o uivo continuou, erraram o tiro. Nisso, um som de arrastar pela neve e um grito, o qual abafou-se ao longe.
—O lobisomem pegou alguém! – Gritou Emanuele. A mãe, assustada, não conseguiu se levantar e ficou agachada com o terço em mãos. Viu vultos se aproximando, a visão ainda estava impedida pelo tempo. Percebeu ser Olga, ela colocou um dos dedos na boca, queria silencio, Maria não podia saber que ela conhecia a filha. – Mãe, vamos para a paróquia, lá é mais seguro. – Desnorteada, guiou a mãe, ficou um pouco com ela. Algumas das beatas vieram com voracidade para cima, fazendo mil perguntas e, basicamente, empurraram a jovem para longe, a chance para sair dali.
—Manu! – Era a voz de Daniel. Correu até a delegacia, Olga ali estava. – Eu prendi um dos filhos de Jorge, o Benedito. Vamos interroga-lo.
A delegacia era rústica, somente tijolo sobre tijolo com argamassa para segurá-los, lugar extremamente escuro e frio, bem desolado e quase tortuoso. Um corpo dormia na cama de lã velha e mofada no chão.
—O que aconteceu lá fora?
—Enquanto caminhava pela cidade, encontrei Batista, estava mordido e parecia já estar em processo de transformação. Quando coloquei a mão nele, meu corpo todo queimou.
—Será que estava enfeitiçado?
—Acho difícil. Ele tem vinte anos, nasceu nessa época durante o Ano de Gelo.
—Alguém atirou nele, mas o tiro não acertou. O pistoleiro foi levado para a floresta, certeza que está morto.
—Bom, perdemos um possível ajudante. Quem era? Conseguiu ver?
—A neve atrapalhou. – Benedito começou a resmungar, estava acordando. – Bom, será que ele vai falar se já foi transformado?
—Não sei, mas podemos evitar que ele seja. – Resmungou Daniel.
—Melhor guardar a bala para quem ainda não foi.
—Olga, se não matarmos todos os amaldiçoados, não haverá descendentes e o ciclo se encerrará.
—Isso não podemos resolver. Esses jovens já possuem mais de vinte, vai saber desde quando estão por aí botando filho no mundo, vai saber o que já fizeram, esse ciclo é interminável.
—Acham mesmo que conseguirão nos vencer? – A voz rouca de Benedito estava diferente, ele parecia diferente. – Acha que um carcereiro gordo, uma velha bruxa e uma vidente pirralha vão salvar o mundo? Vocês não sabem com o que estão mexendo, somos poderosos, fortes, somos o caos que a terra jamais viu, somos o pior pesadelo de suas vidas. – Pelos começou a crescer nas mãos dele, seus olhos turvaram e uma enorme bola amarela surgiu no lugar da íris, brilhavam como um enorme farol.
—Bom, acho que esse podemos executar. – Falou Olga. Daniel levantou o revólver e disparou.Benedito, portanto, estava no chão, sem vida. A transformação fora interrompida, mas ainda havia traços da criatura no corpo do homem. – Vamos falar com os demais, Jorge precisa saber.
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